Amor ou obsessão
8 A Honra e o Espinho
A noite seguinte caiu sobre Tara com uma frieza cortante, mas o clima nos corredores de pedra era ainda mais gélido. Ester caminhava em direção à ala real, segurando sua bolsa de ervas como se fosse um escudo, quando uma silhueta elegante e imponente bloqueou seu caminho sob o arco de um dos corredores principais.
Era Mellysa Mackenzie, a Duquesa de Suffolk. Ela vestia um manto de seda pesada e seus olhos, tão escuros e astutos quanto os do irmão, analisaram Ester de cima a baixo com um desprezo mal disfarçado.
— Mais uma noite de "cuidados médicos", vejo — Mellysa começou, sua voz destilando uma polidez venenosa. — É impressionante como a saúde do meu irmão tornou-se dependente de uma jovem tão específica.
— O Rei sente dores que apenas meu pai e eu sabemos tratar, Duquesa — Ester respondeu, tentando manter a voz firme, embora o tom de Mellysa a fizesse sentir um nó no estômago.
— Ah, por favor, poupe-me da ingenuidade do povoado — Mellysa deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas. — Dominic é um homem de apetites vorazes e você é... uma distração conveniente. Mas saiba de uma coisa, menina: em Tara, as mulheres como você têm um nome, e não é "curandeira". Você está se tornando a nova concubina do Rei, a diversão noturna para um homem que se recusa a envelhecer sozinho. Não espere que a corte a veja com respeito quando essa porta se fechar atrás de você.
O rosto de Ester ardeu como se tivesse sido esbofeteado.
— Eu não sou diversão de ninguém, Duquesa! Tenho mais honra em um único dedo do que muitos que usam coroas de ouro nestes salões. Se o seu irmão me obriga a estar aqui, a culpa é da arrogância dele, não da minha conduta.
— Honra? — Mellysa soltou uma risada seca. — A honra de uma mulher é como um vidro fino, Ester. Uma vez que entra no quarto de um homem à noite, sozinha, o vidro se estraçalha. Aproveite as migalhas de atenção enquanto elas duram.
Mellysa afastou-se, deixando o eco de suas palavras cruéis vibrando nas paredes. Ester ficou parada por um momento, os olhos ardendo de fúria e uma mágoa profunda. Ela limpou o rosto com as costas da mão, respirou fundo e empurrou as portas dos aposentos reais.
Dominic estava parado junto à janela, observando a lua. Ao ouvir a porta, ele se virou com um sorriso começando a surgir nos lábios, mas o sorriso morreu no instante em que viu a expressão dela. Os olhos de Ester estavam vermelhos e carregados de uma dor que ele nunca vira ali.
— Ester? O que aconteceu? — ele perguntou, dando dois passos rápidos em direção a ela.
Ela não respondeu de imediato. Colocou a bolsa sobre a mesa com um baque surdo e virou-se para ele, a voz saindo embargada, apesar de seu esforço para parecer forte.
— O senhor conseguiu o que queria, não foi? — ela perguntou, a voz trêmula. — O senhor queria me ter por perto, queria o jogo, queria a conquista. Mas esqueceu de perguntar se eu queria ser o motivo de chacota desta corte.
Dominic franziu a testa, a preocupação substituindo sua costumeira confiança.
— De que você está falando? Quem falou com você?
— Sua irmã, a Duquesa Mellysa — Ester cuspiu o nome, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus cílios. — Ela me disse o que todos pensam. Que sou sua nova concubina. Que entro aqui todas as noites para ser sua diversão. O senhor percebe o que fez? Eu sou filha de um homem respeitado, Dominic! Eu tinha minha honra, meu nome... e agora, para a sua família e para a sua corte, eu não passo de um troféu que o senhor decidiu exibir.
Dominic sentiu um aperto no peito que nenhuma dor de cabeça jamais causara. Ele estendeu a mão para tocá-la, mas ela recuou como se tivesse sido queimada.
— Eu não queria ter minha honra perdida assim — ela soluçou, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu preferia estar colhendo ervas na chuva do que estar sendo vista como uma mulher sem valor nos corredores do seu castelo. O senhor me vê como um desafio para sua idade, mas eu sou uma pessoa, Dominic! Uma pessoa que o senhor está destruindo apenas para se sentir jovem.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Dominic olhou para as próprias mãos, sentindo o peso esmagador de suas ações. Ele fora egoísta. No seu desejo de conquistar o inalcançável, ele ignorara as leis cruéis da sociedade que ele mesmo liderava.
— Ester, olhe para mim — ele disse, sua voz agora destituída de qualquer autoridade real, soando apenas como a de um homem arrependido. — Eu juro, pela coroa que carrego e pelo sangue Mackenzie, que nunca foi minha intenção manchar seu nome. Eu achei... eu achei que meu poder poderia protegê-la de qualquer boato.
— Seu poder é o que cria os boatos! — ela rebateu, limpando as lágrimas com raiva. — O senhor é o Rei. Tudo o que o senhor toca vira propriedade ou escândalo.
Dominic deu um passo à frente, desta vez com tanta determinação que ela não recuou. Ele segurou o rosto dela entre as mãos grandes e quentes, forçando-a a olhá-lo nos olhos.
— Então eu farei com que eles calem a boca — ele disse, com uma intensidade feroz. — Mellysa terá que se retratar. Ninguém em Tara, nem mesmo minha própria irmã, ousará manchar sua honra novamente. Eu não a trouxe aqui para ser uma concubina, Ester. Eu a trouxe porque... porque eu não conseguia conceber a ideia de passar o resto dos meus dias sem ouvir sua voz me desafiando.
— Isso não muda o que eles pensam — ela sussurrou, a mágoa ainda presente em sua voz.
— Então eu mudarei o que eles pensam — Dominic prometeu, aproximando a testa da dela. — Se for preciso, eu mostrarei a esta corte que você não é uma conquista minha. Eu é que estou lutando para não ser uma derrota sua.
Ester fechou os olhos, sentindo o calor do hálito dele e a sinceridade em suas palavras. A raiva ainda estava lá, mas a mágoa começava a ser substituída por uma percepção assustadora: o Rei da Irlanda não estava apenas jogando. Ele estava, de forma desastrosa e possessiva, tentando desesperadamente amá-la.
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