Amor ou obsessão
9 O Veredito do Rei
O Banquete de Inverno era a celebração mais solene do calendário de Tara. O Grande Salão estava transformado: as colunas de pedra estavam adornadas com ramos de azevinho e pinheiro, e o fogo das lareiras gigantescas lutava contra o frio que rugia do lado de fora das muralhas. A nobreza da Irlanda estava reunida, exibindo suas peles mais finas e joias mais pesadas.
Ester estava sentada ao lado de sua mãe, Maria, tentando manter a cabeça erguida sob o peso dos olhares sussurrados que percorriam a mesa. Ela sentia cada risinho abafado, cada leque que subia para esconder uma maledicência. Mellysa Mackenzie, sentada à direita de seu marido Urtred, ostentava um sorriso de triunfo contido, acreditando ter colocado a "filha do druida" em seu devido lugar de submissão e vergonha.
Dominic entrou no salão por último. Ele vestia seu traje de estado: um manto carmesim sobre túnicas de veludo negro, a coroa de ouro sobre seus cabelos grisalhos brilhando sob a luz dos candelabros. Ele não se sentou de imediato. Ele parou no topo do estrado, sua presença silenciando instantaneamente o burburinho de centenas de convidados.
Seu olhar percorreu o salão, ignorando os nobres, até encontrar Ester. Ela estava pálida, com os olhos ainda levemente inchados da noite anterior, mas sustentou o olhar dele. Dominic então desviou os olhos para sua irmã, Mellysa, cujo sorriso vacilou sob o peso da seriedade do rei.
— Nobres da Irlanda, minha família e amigos — a voz de Dominic ecoou, profunda e carregada de uma autoridade que fazia o chão vibrar. — O inverno é um tempo de verdades. É um tempo em que o que é fraco perece e o que é forte se revela.
Ele desceu o primeiro degrau do estrado, caminhando lentamente em direção à mesa onde a família Benevides estava sentada. O silêncio era tão absoluto que o som de suas botas contra a pedra parecia um julgamento.
— Ouvi rumores nos corredores de Tara — continuou Dominic, seus olhos agora fixos em Mellysa, que endureceu a postura. — Ouvi dizer que alguns esqueceram as leis de hospitalidade desta coroa. Ouvi dizer que a honra de uma convidada real foi questionada com palavras vis e venenosas.
Mellysa engoliu em seco. Ricardo, ao lado dela, inclinou-se para frente, percebendo que o irmão estava prestes a quebrar séculos de protocolo.
Dominic parou diante de Ester. Para o choque de todos os presentes, o Rei da Irlanda não apenas se curvou diante dela, mas pegou a mão da jovem druida e a beijou diante de todo o reino.
— Ester Benevides não está em Tara como uma serva, nem como uma distração — Dominic declarou, voltando-se para a audiência com um fogo nos olhos que ninguém ousaria desafiar. — Ela e sua linhagem são o coração espiritual deste reino. E qualquer insulto dirigido a ela, qualquer palavra que tente manchar sua virtude, será considerado um insulto pessoal à minha coroa e ao meu sangue.
Ele voltou-se para Mellysa, sua voz baixando para um tom perigosamente calmo.
— Minha querida irmã, a Duquesa de Suffolk, parece ter esquecido que a honra em Tara emana do trono. Pois eu digo agora, diante de todos: se eu tiver a sorte de conquistar o respeito desta mulher um dia, será o maior feito de todo o meu reinado. Até lá, quem ousar chamá-la de outra coisa que não seja "Senhora", estará desafiando a minha vontade.
Um suspiro coletivo percorreu o salão. Dominic acabara de elevar Ester de uma simples aldeã a uma posição de quase intocabilidade real. Ele não a chamou de rainha, mas a defendeu como se ela já usasse a coroa.
Ester sentia o coração martelar no peito. A humilhação que Mellysa lhe causara fora lavada pelo poder das palavras dele, mas agora surgia um novo temor: o peso daquele compromisso público. Dominic não estava apenas limpando o nome dela; ele estava declarando guerra à opinião de todos para tê-la ao seu lado.
Ele estendeu a mão para ela, um convite silencioso diante de toda a corte.
— Ester, conceda-me a honra de abrir este banquete ao meu lado? — ele perguntou, alto o suficiente para que todos ouvissem.
Ester olhou para seu pai, João, que assentiu com um orgulho contido e uma ponta de preocupação. Ela olhou para Mellysa, que estava pálida de fúria e derrota. E, finalmente, olhou para Dominic. Ele não era apenas o rei naquele momento; era o homem que acabara de colocar sua reputação em jogo por ela.
Ela colocou sua mão sobre a dele.
— O senhor gosta de causar escândalos, Majestade — ela sussurrou, enquanto ele a conduzia para o centro do salão.
— Eu gosto de proteger o que é meu, Ester — ele respondeu, apertando os dedos dela com firmeza. — E hoje, o mundo inteiro aprendeu que ninguém toca em você sem passar por mim primeiro.
A música começou a tocar, e enquanto o Rei de cinquenta anos dançava com a jovem druida de vinte e três sob o olhar atônito da Irlanda, a história do reino mudava para sempre. A "obsessão" de Dominic acabara de se tornar a lei da terra.
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