Amor ou obsessão

12 O Peso do Passado



​O ar no pequeno boticário do castelo estava carregado com o cheiro de ervas secas e o vapor de uma infusão de camomila. Era o único lugar onde Ester se sentia segura, mas naquela tarde, as paredes de pedra pareciam se fechar sobre ela. João Benevides, seu pai, fechou a porta com força, o rosto marcado por uma preocupação que beirava o desespero.

​— Você está fugindo dele como se ele fosse um carrasco, Ester! — João exclamou, a voz baixa, mas carregada de tensão. — O Rei a defendeu diante de toda a corte, ele a olha como se você fosse a única estrela no céu da Irlanda. Até quando vai manter esse muro?

​— Até que ele perceba que eu sou uma mentira, pai! — Ester retrucou, as lágrimas queimando seus olhos enquanto ela socava as folhas de hortelã com violência. — O senhor sabe por que eu fujo. Toda vez que ele me toca, eu sinto as mãos daquele viajante maldito. Toda vez que ele me olha com ternura, eu me lembro do porão onde me escondi para dar à luz sozinha, morrendo de vergonha e medo!

​João se aproximou, tentando acalmá-la, mas o segredo que sustentavam há quatro anos transbordava.

​— Nós mudamos de povoado por causa disso, Ester. Maya e Michael são registrados como meus filhos e de Maria. Para o mundo, eles são seus irmãos. O segredo está seguro. Ninguém sabe que, aos dezenove anos, você foi vítima daquela brutalidade.

​— Mas eu sei! — ela soluçou, deixando o pilão cair. — Eu olho para os meus filhos e vejo o fruto de uma dor que eu não posso contar ao homem que amo. Dominic é um rei, pai. Ele valoriza a honra acima de tudo. Como ele reagiria se soubesse que a "pura druida" que ele tanto admira carrega a marca de um estupro e dois filhos que ele pensa serem meus irmãos? Eu não sou digna do trono dele!

​O que nenhum dos dois percebeu foi a sombra que se projetava na fresta da porta entreaberta. Dominic viera pessoalmente, sem guardas, querendo apenas entender o motivo do isolamento da mulher que possuía sua alma. Ele ouviu cada palavra. Ouviu sobre o viajante, sobre a gravidez escondida, sobre a dor da violência e sobre a verdadeira identidade de Maya e Michael.

​O coração do Rei da Irlanda, que ele julgava endurecido pelas guerras, partiu-se em mil pedaços — não de desprezo, mas de uma agonia profunda por não ter estado lá para protegê-la.

​O Confronto no Gabinete

​Minutos depois, um guarda bateu à porta do boticário com uma ordem curta e fria: o Rei exigia a presença imediata de Ester em seu gabinete privado.

​Quando ela entrou, encontrou Dominic de costas, observando o pôr do sol. O silêncio era tão pesado que o som da respiração de Ester parecia um estrondo. Ele se virou lentamente, e seus olhos não tinham a fúria que ela esperava, mas uma tristeza devastadora.

​— Sente-se, Ester — ele disse, sua voz soando como um sussurro rouco.

​— Majestade, se é sobre as poções... — ela começou, tentando manter a fachada.

​— Não minta para mim. Nunca mais minta para mim — Dominic a interrompeu, caminhando até ela com passos lentos. — Eu estive no boticário. Eu ouvi a conversa com seu pai.

​Ester sentiu o sangue fugir do rosto. O mundo pareceu girar. Ela tentou se levantar para fugir, mas suas pernas falharam e ela caiu de volta na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos, esperando as palavras de expulsão ou o olhar de nojo que Mellysa certamente teria.

​— Agora o senhor sabe — ela disse, com a voz embargada pelo choro. — Sabe que eu sou uma mulher manchada. Sabe que as crianças que o senhor tanto gosta no lago são meus filhos, não meus irmãos. Pode me mandar embora agora. Eu entendo que a honra de um Mackenzie não permite...

​Dominic ajoelhou-se na frente dela, algo que um rei jamais faria. Ele afastou as mãos do rosto de Ester, forçando-a a olhar para ele.

​— Manchada? — ele perguntou, com uma fúria protetora vibrando em cada palavra. — Ester, a única mancha nessa história é o sangue daquele canalha que ousou tocar em você. Você acha que eu sou tão pequeno, tão insignificante, que minha honra depende da sua dor passada?

​— Eles são filhos de um crime, Dominic... — ela murmurou.

​— Eles são seus filhos! — ele retrucou, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Eles têm a sua luz, o seu espírito. Se eu soubesse... se eu estivesse lá, eu teria queimado o mundo para salvá-la. Mas eu não estava. E o que me dói não é o que aconteceu com você, mas o fato de você ter carregado esse fardo sozinha por quatro anos, achando que eu a julgaria.

​Ester olhou para ele, chocada. Não havia nojo. Havia apenas uma adoração feroz e um amor que parecia transcender qualquer lei ou preconceito.

​— Você me acha um velho de outro tempo, Ester — Dominic disse, uma lágrima solitária descendo por seu rosto marcado. — Mas eu sou um homem que ama você. Com o seu passado, com seus filhos, com cada cicatriz da sua alma. Maya e Michael não precisam mais de um pai de mentira. Eles podem ter um rei como pai, se você me permitir.

​Ester sentiu a muralha que construíra ao redor de si desmoronar completamente. Pela primeira vez em anos, ela não se sentiu a vítima de dezenove anos no porão frio; sentiu-se a mulher de vinte e três que acabara de encontrar o seu porto seguro.