Amor ou obsessão

13 O Veredito do Coração



​O silêncio no boticário era interrompido apenas pelo som rítmico do pilão contra a pedra, mas João e Maria Benevides trabalhavam com o coração pesado. A revelação de que o Rei Dominic ouvira a verdade sobre o passado de Ester pairava sobre eles como uma tempestade iminente. Eles esperavam guardas, esperavam uma ordem de expulsão ou, na pior das hipóteses, o isolamento da filha.

​Porém, o que viram cruzar a porta não foi um pelotão, mas o próprio Monarca da Irlanda, sozinho.

​Dominic não vestia a coroa, mas sua presença preenchia o ambiente com uma solenidade que fazia as ervas parecerem curvar-se. Ester, que estava em um canto retirado, levantou-se rapidamente, os olhos ainda vermelhos, mas com uma nova luz de esperança que começava a brilhar.

​O Rei parou diante de João e Maria. Ele não exigiu reverências; em vez disso, retirou as luvas de couro e olhou para o patriarca da família com um respeito profundo, de homem para homem.

​— João, Maria — Dominic iniciou, sua voz grave e firme, ecoando entre os frascos de poções. — Eu ouvi palavras que não foram destinadas aos meus ouvidos, mas que mudaram a minha percepção sobre a força desta família.

​João deu um passo à frente, protetor.

— Majestade, o que houve no passado foi uma tragédia que tentamos enterrar para poupar a alma de nossa filha. Se o senhor sente que fomos desonestos...

​— Desonestos? — Dominic o interrompeu, com um leve balançar de cabeça. — Vocês foram heróis. Deram um nome e um lar para crianças que nasceram de uma dor profunda, e protegeram a honra de Ester com o próprio silêncio. Eu não vim aqui para julgar o passado de vocês. Vim aqui para pedir uma parte do futuro.

​Dominic virou-se para Ester por um breve segundo, um olhar que dizia tudo o que as palavras não podiam expressar, e depois voltou-se para os pais dela.

​— Eu amo Ester — declarou o Rei, sem hesitação. — Amo a mulher que ela se tornou através das provações, amo a força que ela carrega e a inteligência que me desafia todos os dias. Eu sei a verdade sobre Maya e Michael. E eu os quero tanto quanto quero a mãe deles.

​Maria levou a mão à boca, as lágrimas começando a descer. Dominic então fez algo que nenhum camponês jamais sonhou ver um rei fazer: ele inclinou levemente a cabeça em um gesto de pedido de permissão.

​— Vim aqui pedir a bênção de vocês. Quero noivar com Ester. Quero que ela seja minha Rainha e que os filhos dela sejam, por lei e por amor, os Príncipes de Tara. Prometo que o passado dela nunca mais será uma arma contra ela, pois quem se atrever a olhar para trás, terá que enfrentar a espada de um Mackenzie.

​O boticário pareceu prender a respiração. João olhou para a filha e viu no rosto de Ester a confirmação de que aquele era o desejo dela. O "velho rei" que ela antes desprezara agora era o único homem que ela via como seu igual.

​— Se o senhor puder dar a ela a paz que o mundo lhe tirou aos dezenove anos — disse João, com a voz embargada —, então o senhor tem a nossa bênção, Majestade. Mais do que um rei, vejo que nossa filha encontrou um homem digno dela.

​Dominic aproximou-se de Ester, que agora sorria entre as lágrimas. Ele pegou a mão dela e, desta vez, não foi um beijo protocolar de banquete, mas uma promessa selada em pele.

​— Você ouviu, Ester? — ele sussurrou para ela. — Não há mais segredos. Não há mais sombras. Apenas nós e o que decidirmos construir a partir de hoje.

​Ester o abraçou, escondendo o rosto no peito dele, sentindo o calor e a segurança que sempre buscou nas florestas e que, por ironia do destino, encontrou no coração do homem que ela achava ser sua gaiola. O Rei da Irlanda acabara de conquistar seu maior território: a paz da mulher que amava.

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