Amor ou obsessão
7 O Jogo das Sombras
A luz do sol mal havia se retirado das colinas de Tara quando a notícia chegou aos ouvidos de Ester. Otávio, o conselheiro real, entregou a mensagem com uma polidez que beirava o cinismo: o Rei, ainda sofrendo com os resquícios da crise anterior, requisitava os cuidados contínuos da filha do druida. Ele alegava que apenas as mãos dela e suas misturas específicas de ervas haviam surtido efeito real.
— Massagens? Todas as noites? — Ester apertou o pilão contra o almofariz de pedra com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. — Meu pai é o Druida Real, Otávio. Ele tem mãos muito mais experientes que as minhas para curar um monarca.
— O Rei foi enfático, senhorita Ester — Otávio respondeu, mantendo a expressão impenetrável. — Ele afirma que a energia de João é... rústica demais para a sensibilidade de sua enxaqueca. Ele deseja o toque que o trouxe de volta ao sono na noite passada.
Ester sentiu o sangue ferver. Ela não era tola; sabia exatamente o que Dominic Mackenzie estava fazendo. Ele estava cercando-a, criando uma necessidade oficial para garantir sua presença privada. Era um plano astuto, digno de um homem que governara um país inteiro por décadas.
— Ele quer um jogo? — ela murmurou para si mesma, após o conselheiro partir. — Pois ele terá.
O banquete daquela noite foi longo e tenso. Dominic estava impecável, conversando com Ricardo sobre a fortificação das fronteiras, mas seus olhos, como bússolas, voltavam-se para Ester a cada intervalo de silêncio. Ela, por sua vez, manteve-se gélida, ignorando os olhares curiosos de Mellysa e as risadinhas abafadas de Munique.
Assim que a última taça foi esvaziada e a família real começou a se recolher, Ester pegou sua bolsa de ervas e dirigiu-se aos aposentos reais.
Ao entrar, encontrou Dominic não na cama, mas sentado em uma poltrona de couro perto da lareira, vestindo apenas uma túnica de seda fina e calças escuras. O fogo lançava sombras dançantes em seu rosto maduro, destacando o cinza prateado de seu cabelo e a intensidade de seu olhar.
— Veio salvar seu Rei novamente, Ester? — ele perguntou, sua voz vibrando com uma satisfação que ele nem tentava esconder.
— Vim cumprir uma ordem, Majestade — ela respondeu, a voz carregada de um sarcasmo cortante. — Embora eu ache milagroso que um homem que galopou como um jovem de vinte anos hoje cedo precise de cuidados médicos tão urgentes agora que a lua subiu.
Dominic deu um sorriso de canto, levantando-se e caminhando lentamente em direção a ela.
— O esforço físico é fácil, Ester. É a mente que me trai. A dor ainda está aqui, atrás dos olhos.
— Então sente-se — ela ordenou, apontando para o banco de madeira à frente da lareira. — Vamos acabar com isso para que eu possa voltar para minha família.
Dominic obedeceu, sentindo a raiva dela como uma corrente elétrica no ar. Ester começou a trabalhar. Ela derramou um óleo de bétula aquecido em suas mãos e começou a massagear os ombros e a nuca do rei. Ela não foi gentil. Seus movimentos eram fortes, quase punitivos, pressionando os músculos rígidos com uma firmeza que faria qualquer outro homem reclamar.
Mas Dominic apenas soltou um gemido baixo de alívio. Ele fechou os olhos, entregando-se ao toque dela.
— Você está furiosa — ele constatou, a voz abafada pelo relaxamento.
— O senhor é um manipulador, Dominic — ela disse, aproximando-se do ouvido dele enquanto trabalhava a base do seu crânio. — Usar a posição de meu pai para me obrigar a vir aqui todas as noites... é um golpe baixo, mesmo para um Mackenzie.
— Eu não a obriguei — ele retrucou, virando o rosto levemente para olhá-la. — Eu apenas criei a oportunidade. A escolha de entrar por aquela porta e cuidar de um homem com dor foi sua. Você poderia ter enviado um aprendiz com o bálsamo, mas veio pessoalmente. Por que, Ester?
Ela parou as mãos por um segundo, o calor da pele dele queimando suas palmas.
— Vim porque meu pai é um homem honrado e não quero que sua posição seja ameaçada pelos seus caprichos reais.
Dominic esticou o braço e segurou o pulso dela, impedindo que ela se afastasse. Ele se levantou, ficando de frente para ela. A diferença de altura e a imponência física dele preencheram o espaço, mas Ester não recuou.
— Seus lábios dizem que é pelo seu pai — ele sussurrou, a voz carregada de uma gravidade que fazia as chamas da lareira parecerem frias. — Mas seus olhos dizem que você quer saber até onde esse "velho" está disposto a ir por você.
— O senhor não vai conseguir o que quer, Dominic — ela disse, embora sua respiração estivesse começando a falhar.
— Eu já consegui o que queria para esta noite — ele soltou o pulso dela com uma delicadeza inesperada e tocou um cacho de seu cabelo molhado pelo orvalho da noite. — Você está aqui. E amanhã à noite, você estará aqui novamente. E em cada uma dessas noites, eu vou mostrar a você que o tempo não me tirou nada... ele apenas me ensinou a esperar pelo que realmente vale a pena.
Ester recolheu suas coisas apressadamente, sentindo que a raiva era agora a única barreira protegendo seu coração de algo muito mais avassalador.
— Até amanhã, Majestade — ela disse, com a voz firme apesar do tremor interno.
— Até amanhã, Ester. Durma com os anjos... ou comigo em seus pensamentos.
Ela saiu batendo a porta, deixando o Rei sozinho com o estalar da lenha e o triunfo silencioso de quem sabia que a caçada estava apenas começando.
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