Amor não era o plano
21 Seguindo rastros
Jacob
Eu tinha aprendido cedo que, quando alguém escondia alguma coisa, a pior estratégia era perguntar diretamente. Perguntas davam tempo para preparar respostas, apagar rastros e construir novas mentiras. Ethan já tinha provado que era especialmente bom nisso. Durante anos conseguiu manter duas famílias sem que Claire ou Renesmee soubessem da existência uma da outra, entrou na minha empresa, conquistou espaço suficiente para que eu confiasse nele e ainda conseguiu convencer minha filha a lhe dar poderes para representá-la. Eu não cometeria o erro de avisá-lo sobre cada passo que pretendia dar.
Depois que Quil me contou sobre a situação de Renesmee em Forks, mandei Paul e meus advogados seguirem cada movimento financeiro de Ethan que conseguissem alcançar legalmente. Queria empresas, propriedades, transferências, contratos, procurações e qualquer documento que tivesse passado pelas mãos dele nos últimos anos. Se Ethan tinha feito alguma coisa com o patrimônio de Renesmee, encontraria o rastro.
Encontramos.
A primeira descoberta foi a doceria. Renesmee tinha colocado dinheiro suficiente na compra do imóvel para acreditar que era proprietária dele, mas Ethan conduzira praticamente toda a negociação. Havia transferências saindo de contas dela, pagamentos vinculados à aquisição e documentos que demonstravam claramente que o dinheiro usado para comprar o prédio não tinha surgido do bolso dele. Mesmo assim, no fim do processo, o nome que aparecia onde deveria estar o de Renesmee era o de Ethan. Meus advogados ainda precisavam reconstruir exatamente como aquilo tinha sido feito e quais documentos ela assinara, mas uma coisa já parecia evidente: ela pagou por um patrimônio que acabou legalmente sob o controle dele.
A casa era ainda pior.
Paul colocou os documentos sobre minha mesa e permaneceu em silêncio enquanto eu analisava cada página. A situação se repetia de maneira parecida. Renesmee participara financeiramente da aquisição e manutenção do imóvel, mas Ethan tinha estruturado a documentação de forma que ela não tivesse a segurança patrimonial que provavelmente imaginava possuir. Quando a relação acabou e ela se recusou a aceitar a proposta dele, perdeu o acesso aos dois lugares praticamente ao mesmo tempo.
A casa onde criava a filha e a doceria de onde tirava o próprio sustento. Aquilo não era uma separação complicada.
Era controle.
– Filho da puta – murmurei.
Paul permaneceu diante da minha mesa.
– Ainda não temos tudo.
Levantei os olhos.
– O que falta?
– Entender exatamente o que ela assinou. Sem conversar com a própria Renesmee ou ter acesso aos documentos que estão com ela, existem lacunas. O jurídico está tentando reconstruir por registros públicos e bancários.
– Continua.
– Já estão fazendo.
Voltei a olhar para os documentos.
– Quero saber se ele transferiu algum dos imóveis recentemente.
– Também pedi isso.
– Empresas?
– Estamos cruzando.
– Procura qualquer empresa criada por ele, sócio, procurador, parente, amigo. Se Ethan tentou esconder patrimônio, alguma coisa vai aparecer.
Paul assentiu.
– Certo.
Eu deveria ter encerrado ali. Já tinha informação suficiente para saber que Ethan estava metido até o pescoço naquela história, mas havia uma coisa que continuava me incomodando. Ele tinha ido longe demais. Tirar a doceria poderia ser uma tentativa de prejudicar Renesmee financeiramente. Tirar a casa poderia ser vingança. Fazer as duas coisas praticamente juntas parecia outra coisa.
Pressão.
E eu queria saber para quê.
– Continua seguindo os passos dele.
Paul franziu o cenho.
– Já estamos fazendo isso.
– Não estou falando só de dinheiro.
Ele entendeu.
– Quer saber o que ele está fazendo fora da empresa.
– Quero saber o que ele pretende fazer.
– Isso é mais difícil.
– Não pedi facilidade.
Paul soltou o ar pelo nariz.
– Às vezes esqueço como é agradável trabalhar para você.
– Seu salário ajuda a lembrar.
Ele riu e saiu.
Durante os dias seguintes, continuei trabalhando e esperando. Ethan não demonstrava qualquer preocupação dentro da empresa. Circulava pelos corredores usando a procuração de Claire como se aquilo fosse uma vitória definitiva e fazia questão de agir como se ainda tivesse algum poder que eu não pudesse tocar. Deixei. Homens arrogantes costumavam cometer mais erros quando acreditavam que estavam ganhando.
Paul voltou ao meu escritório alguns dias depois.
Dessa vez não carregava pasta.
Entrou, fechou a porta e permaneceu diante dela.
Levantei os olhos do notebook.
– O que foi?
– Consegui uma informação.
– Então fala.
Ele não se mexeu.
– Essa não veio pelos canais normais.
Fechei o notebook.
– Paul.
– Um amigo meu é juiz.
Minha atenção se fixou nele.
– E?
– Ele me procurou porque reconheceu alguns nomes e sabe da relação do Ethan com sua família. Não deveria ter comentado comigo, então isso não sai daqui.
– O que aconteceu?
Paul caminhou até minha mesa. – Ethan entrou com uma ação envolvendo a filha.
Fiquei imóvel. – Que ação?
Ele demorou um segundo. – Ele pediu a guarda.
Não respondi imediatamente.
– Guarda de quem?
A pergunta era desnecessária. Sabíamos a resposta.
– Belinha.
Recostei lentamente na cadeira. – Ele pediu a guarda da menina?
– Sim.
– Quando?
Paul me deu a informação e minha raiva cresceu conforme as datas começaram a se encaixar.
Depois de ter sido rejeitado.
– Que tipo de guarda?
– Ainda não tenho os detalhes suficientes para afirmar tudo que ele está pedindo. A informação é sigilosa, Jacob. Meu amigo já se expôs demais me avisando.
– Ele sabe se Renesmee foi comunicada?
– Pelo que entendi, ainda não.
Levantei e Paul me observou contornar a mesa.
– Jacob.
– Ele tirou a casa dela, o lugar onde ela trabalha e agora pediu a guarda da filha.
A sequência era óbvia demais.
Caminhei até a janela e fiquei olhando Seattle vários andares abaixo. Ethan não tinha simplesmente se vingado de Renesmee porque ela o expulsou da vida dela. Ele estava desmontando a estabilidade daquela mulher peça por peça e, depois, pretendia entrar num tribunal como o pai rico, casado, empregado numa grande empresa e capaz de oferecer à filha tudo aquilo que a mãe supostamente não tinha mais.
Porque ele próprio tinha tirado.
– Ele está criando o problema que pretende usar contra ela.
Paul ficou em silêncio.
– Tira a casa, tira a renda e depois aparece diante de um juiz dizendo que a mãe está morando com os pais e trabalhando na cozinha da família.
– É uma possibilidade.
Olhei para ele. – É o que ele está fazendo.
– Ainda precisamos provar.
– Eu sei.
Passei a mão pelo maxilar e então outra parte se encaixou.
Ethan não queria Belinha ou pelo menos não era apenas isso. Ele queria Renesmee sob controle.
A menina era a arma.
– Ele vai fazer uma proposta.
Paul franziu o cenho.
– Como assim?
– Vai usar a guarda para negociar.
– Não temos como saber.
– Eu conheço homens como ele.
Voltei para a mesa. – Ele tirou duas coisas dela e deixou a terceira ameaçada. Casa, trabalho e filha. Não precisa ser um gênio para entender o que vem depois.
– O que pretende fazer?
Peguei meu celular. – Ir para Forks.
Paul arregalou ligeiramente os olhos.
– Você?
– Conhece outro Jacob Black aqui?
– Seus advogados podem conversar com ela.
– Não.
– Por quê?
A pergunta me fez parar.
Eu poderia ter dado uma dúzia de respostas profissionais. Renesmee estava diretamente ligada a Ethan, Ethan estava usando Claire para permanecer na minha empresa e qualquer movimento dele poderia atingir minha família. Tudo isso era verdade.
Mas não era toda a verdade.
Eu queria vê-la.
Desde o hotel, Renesmee continuava aparecendo nos meus pensamentos com uma frequência irritante. Pedi a Quil que descobrisse como estava porque queria saber. Mandei aprofundar a investigação porque fiquei furioso quando descobri o que Ethan tinha feito. Agora sabia que aquele filho da puta estava prestes a atacar o único ponto capaz de realmente destruir aquela mulher.
Sua filha.
Não mandaria um advogado.
– Porque ela precisa saber antes que seja surpreendida por uma intimação.
Paul continuou me observando.
– E precisa ser você?
Peguei o paletó.
– Não.
Pelo menos nisso eu podia ser sincero, não precisava ser eu.
Eu simplesmente queria que fosse.
───
A estrada para Forks me deu tempo demais para pensar sobre uma decisão que já tinha tomado. Quil estava no banco do passageiro e passou boa parte do caminho trabalhando no celular, até perceber que eu não tinha qualquer intenção de conversar. Quando finalmente entramos na cidade, ele guardou o aparelho e olhou pela janela.
– Então qual é o plano?
– Encontrar a Cullen.
– Essa parte eu deduzi quando você me mandou entrar no carro e disse que estávamos indo para Forks.
– Parabéns.
– Onde vamos procurar?
– Na doceria.
Quil olhou para mim.
– A doceria que está fechada?
– Ela pode estar lá resolvendo alguma coisa.
– Pode.
– Tem ideia melhor?
– Tenho. Telefonar.
Olhei para ele.
– Não tenho o número.
Quil começou a sorrir.
– O grande Jacob Black conseguiu investigar os imóveis da mulher, mas não conseguiu o telefone dela?
– Eu não pedi o telefone.
– Que cavalheiro.
– Cala a boca.
Ele riu.
Encontramos a doceria fechada. Estacionei diante do prédio e observei a fachada durante alguns segundos. Pela primeira vez consegui visualizar exatamente o que Ethan tinha tirado dela. Não eram apenas registros em documentos. Havia mesas atrás do vidro, uma pequena vitrine vazia e o nome do negócio ainda estampado na fachada. Renesmee tinha construído aquilo. Pagado por aquilo.
E agora não podia entrar.
– Ela não está – Quil disse o óbvio.
– Percebi.
Olhei o relógio.
Já passava do horário do almoço.
Quil também olhou.
– Ela tem uma filha na escola.
Virei o rosto.
– E?
– E criança sai da escola nesse horário.
– Obrigado pela informação.
– Quero dizer que talvez ela vá buscar Belinha.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
– Você sabe onde fica?
O sorriso dele aumentou.
– Claro que sei.
– Então dirige.
– Você está dirigindo.
Joguei a chave para ele.
– Agora não estou.
Quil riu.
───
Quando chegamos perto da escola, pedi que ele parasse antes do portão. Eu ainda não sabia exatamente como começaria aquela conversa. O que tinha para contar a Renesmee não era o tipo de informação que se entregava no meio da rua enquanto uma criança saía da escola. Talvez fosse melhor esperar, deixar que ela levasse Belinha para casa e depois procurar um lugar adequado, então vi um veículo que conhecia.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
– Para.
Quil freou. – O que foi?
Olhei para o carro preto estacionado alguns metros adiante. – Ethan.
Quil acompanhou meu olhar. – Filho da puta.
Saí do carro imediatamente.
– Jacob.
Bati a porta.
Não fui imediatamente até ele. Encostei no carro e observei. Se Ethan estava ali para ver a filha, aquilo não era problema meu. Por mais que eu o desprezasse, continuava sendo pai da menina.
Então Renesmee apareceu.
Ela vinha caminhando com Belinha pela mão, ouvindo alguma coisa que a menina contava. Mesmo de longe reconheci os cabelos ruivos e me peguei observando por alguns segundos mais do que deveria. Renesmee parecia diferente da mulher que conheci no hotel. Mais cansada, talvez. Ainda assim, a atração veio com a mesma força inconveniente.
Belinha viu Ethan e correu e Renesmee parou.
Observei enquanto Ethan pegava a menina no colo. Não ouvi o que disseram. Depois Renesmee se aproximou e a conversa começou.
Quil apareceu ao meu lado. – Quer que eu vá lá?
– Não.
– Parece que estão discutindo.
– Ela sabe falar.
Quil olhou para mim. – Então vamos ficar assistindo?
– Por enquanto.
Renesmee pegou Belinha no colo e deu as costas.
Ótimo.
Ela tinha feito a escolha dela, mas Ethan segurou seu braço.
Meu maxilar se contraiu.
Renesmee se virou e falou alguma coisa. Mesmo de longe, não era difícil perceber que mandava que ele a soltasse.
Ethan não soltou.
Afastei-me do carro e caminhei até eles.
– Jacob.
Ignorei Quil.
Quando me aproximei o suficiente, ouvi Renesmee negar novamente alguma coisa e Ethan insistir.
– Ela já disse não.
Os dois viraram o rosto.
Renesmee arregalou os olhos ao me reconhecer.
Ethan, por outro lado, pareceu ter acabado de descobrir que aquele seria um dia ainda pior do que imaginava.
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