Jacob

– Ela já disse não.

Os dois viraram o rosto na minha direção. Renesmee me encarou com uma surpresa que não tentou esconder, enquanto Ethan teve uma reação completamente diferente. O maxilar endureceu no instante em que me reconheceu e, para minha satisfação, a mão que ainda segurava o braço dela finalmente se afastou. Continuei caminhando sem pressa até os dois, embora por dentro estivesse muito menos calmo do que aparentava. Eu já tinha motivos suficientes para querer quebrar a cara daquele filho da puta novamente antes de chegar a Forks. Depois de vê-lo segurando Renesmee contra a vontade dela enquanto a própria filha estava em seus braços, a lista tinha acabado de aumentar.

– O que você está fazendo aqui? – Ethan perguntou.

Parei diante deles e olhei primeiro para Renesmee. Belinha estava agarrada ao pescoço da mãe e observava tudo com aqueles olhos curiosos, provavelmente tentando entender por que os adultos ao redor dela não conseguiam conversar sem transformar tudo numa discussão. Aquilo foi suficiente para me fazer controlar a vontade de resolver a situação do jeito que Ethan já conhecia muito bem.

– Não estava falando com você.

Voltei minha atenção para Renesmee.

– Está tudo bem?

Ela assentiu, embora continuasse claramente confusa.

– Está.

Ethan soltou uma risada sem humor.

– Isso é ridículo.

Ignorei.

– Renesmee, entra no meu carro.

Ela franziu o cenho.

– O quê?

Apontei discretamente para o veículo parado alguns metros atrás de mim.

– Entre no carro com sua filha.

– Senhor Black, eu...

– Jacob.

Ela piscou algumas vezes e, por algum motivo, mesmo naquela situação, gostei de ouvir meu nome quando respondeu.

– Jacob, eu não estou entendendo o que está acontecendo.

– Eu explico depois.

Ethan deu um passo em nossa direção.

– Ela não vai a lugar nenhum com você.

Dessa vez olhei para ele.

– Você está ficando muito confortável dando ordens para mulheres que já disseram não.

– Isso é entre mim e Renesmee.

– Era. Até você colocar a mão nela.

– Ela é a mãe da minha filha.

– Isso não dá a você o direito de segurá-la.

Renesmee olhou para Ethan e depois para mim. Eu sabia que estava pedindo que ela entrasse no carro de um homem que conhecia havia pouco tempo e não esperava confiança cega. Na verdade, depois do que Ethan tinha feito com ela, ficaria preocupado se confiasse facilmente em qualquer homem outra vez. Mas Belinha se remexeu em seus braços e escondeu o rosto em seu pescoço, aparentemente incomodada com a discussão. Renesmee imediatamente acariciou as costas da filha e sua expressão mudou.

– Meu carro está ali – disse ela.

Tirei a chave do bolso e a joguei para Quil, que tinha se aproximado.

– Quil resolve.

Renesmee olhou para ele, ainda mais surpresa.

– Quil?

– Eu vim com ele – Quil explicou, levantando a chave que acabara de pegar. – Pode deixar que levo seu carro para onde precisar.

Ethan balançou a cabeça.

– Você não precisa fazer isso, Renesmee.

Ela nem olhou para ele.

– Está bem.

Abri a porta traseira do meu carro e esperei. Renesmee passou por mim com Belinha nos braços, mas Ethan tornou a chamá-la.

– Renesmee.

Ela continuou.

– Não faz isso.

Renesmee não respondeu. Colocou Belinha no banco traseiro e, por sorte, a cadeirinha de Ephraim continuava instalada. Vi quando ela percebeu, provavelmente se perguntando por que diabos eu tinha uma cadeirinha infantil no carro, mas rapidamente acomodou a filha nela e entrou ao lado da menina.

Fechei a porta.

Quil se aproximou de mim.

– Eu levo o carro dela.

– Espera.

Ele olhou para Ethan e entendeu.

– Ah.

– Fica aqui.

– Com prazer.

Voltei.

Ethan continuava parado ao lado do próprio carro, a pasta ainda nas mãos e uma expressão de poucos amigos no rosto. Dessa vez não havia Renesmee entre nós e, principalmente, não havia Belinha perto o suficiente para ouvir o que eu tinha para dizer.

Parei diante dele.

– Eu sei o que tem nessa pasta.

A reação foi pequena, mas existiu.

– Não sabe do que está falando.

– Sei mais do que você gostaria.

– Então ilumina minha ignorância.

Olhei para a pasta.

– Você veio fazer uma proposta para Renesmee.

– Isso não é da sua conta.

– Uma proposta envolvendo a casa e a doceria.

O rosto dele endureceu.

Pronto.

– Está me investigando? – perguntou.

– Estou.

Não tinha motivo para mentir.

Ethan soltou uma risada.

– Você perdeu completamente a noção dos limites, Jacob.

– Engraçado ouvir isso de você.

– Minha relação com Renesmee não tem nada a ver com você.

– Não existe mais relação nenhuma entre vocês.

– Temos uma filha.

– Isso faz de você pai da Belinha. Não dono da mãe dela.

Ele se aproximou.

– Não fala da minha filha.

– Então começa a agir como pai.

– Você não sabe absolutamente nada sobre a minha relação com Belinha.

– Sei que ela está dormindo na casa dos avós porque você tirou a casa onde morava.

A expressão dele mudou.

– Cuidado com o que está dizendo.

– E sei que a mãe dela está trabalhando na cozinha da própria mãe porque você tirou a doceria que ela pagou.

– Renesmee assinou todos os documentos.

A resposta saiu rápida demais.

Sorri.

– Obrigado.

Ethan percebeu o erro.

– Pelo quê?

– Eu não disse que ela assinou alguma coisa.

Ele ficou em silêncio.

– Meus advogados ainda estavam tentando entender como você conseguiu fazer isso. Acabou de economizar um pouco do nosso tempo.

– Seus advogados não vão conseguir fazer nada. Está tudo legalizado.

– Veremos.

– Não há o que ver. Renesmee é adulta. Sabia o que estava assinando.

Dei um passo na direção dele.

– Você passou anos dizendo para aquela mulher confiar em você enquanto colocava os bens pagos por ela no seu nome.

– Você não estava lá.

– Não precisava estar.

– Então para de agir como se soubesse alguma coisa sobre nós.

– Sei que ela pagou pelo prédio.

Ethan ficou calado.

– Sei que colocou dinheiro na casa. Sei que você cuidou da documentação dos dois imóveis e sei que, depois que ela descobriu que você era casado e mandou você embora, perdeu os dois praticamente ao mesmo tempo.

Ele apertou a pasta.

– Isso não prova nada.

– Ainda não.

– Então não me acusa de roubo.

– Eu não acusei.

Aproximei meu rosto do dele.

– Mas gostei de saber que foi a primeira palavra que veio à sua cabeça.

Ethan respirou fundo.

– Acabou?

– Nem comecei.

A arrogância dele diminuiu um pouco.

Olhei para o carro. Renesmee estava lá dentro com Belinha. Não conseguia saber se nos observava, mas esperava que não conseguisse ouvir.

Voltei a encarar Ethan.

– Eu também sei por que você fez isso.

Ele riu.

– Agora lê pensamentos?

– Não precisa ser muito inteligente para entender seu plano. Primeiro você tira a casa dela. Depois tira o lugar de onde ela tira o sustento. Deixa Renesmee morando com os pais, trabalhando na cozinha da mãe e tentando reconstruir a vida enquanto você continua aqui, com dinheiro, emprego, patrimônio e uma esposa rica.

– Renesmee escolheu sair da minha vida.

– Escolheu.

– Então precisa aceitar as consequências.

A frase me deu vontade de bater nele novamente.

Dessa vez me controlei.

– Consequências?

– Ela fez as escolhas dela.

– E você decidiu puni-la.

– Eu não estou punindo ninguém.

– Não?

– Não.

Assenti lentamente.

– Então vamos falar da Belinha.

Ethan ficou imóvel.

Foi a primeira reação que realmente gostei de ver.

– O que tem minha filha?

– Você me diz.

– Não faço ideia do que está falando.

– Faz, sim.

Ele tentou sustentar meu olhar.

Deixei alguns segundos passarem antes de dar o golpe que tinha guardado desde Seattle.

– Eu sei que você pediu a guarda dela.

A cor do rosto de Ethan mudou.

Não muito.

Mas mudou.

– Como você...

Ele se calou.

Sorri sem qualquer humor.

– Essa foi uma pergunta perigosa.

– Essa informação é sigilosa.

– Então é verdade.

– Como conseguiu isso?

– Não interessa.

– Isso é ilegal.

– Reclama com o juiz quando chegar a hora.

Ethan olhou rapidamente ao redor e diminuiu a voz.

– Você não tem o direito de se meter nisso.

– Tenho o direito de impedir que você use uma criança para chantagear a mãe.

– Eu sou pai dela.

– Então pede guarda porque acredita sinceramente que Renesmee é uma mãe incapaz e deixa um juiz decidir. Não tira primeiro a casa e o trabalho dela para depois usar a situação que você mesmo criou como argumento.

– Você não sabe quais são meus argumentos.

– Ainda.

A palavra o incomodou.

– Mas vou saber.

– Fica longe disso.

– Não.

– Jacob, isso é assunto de família.

– Você tem uma definição bastante conveniente de família. Durante anos teve duas e nenhuma sabia da outra.

Ele apertou o maxilar.

– Renesmee não consegue oferecer à Belinha metade da estrutura que eu posso.

Foi ali.

A confirmação que eu precisava.

– Porque você tirou dela.

– Ela pode recuperar tudo.

Olhei para a pasta em sua mão.

– Aí está.

Ethan percebeu.

– Não sabe o que tem aqui.

– Não preciso abrir. Você acabou de me dizer.

– Eu vim oferecer uma solução.

– Para um problema que você criou.

Ele ficou em silêncio.

– Casa, doceria e agora a filha – continuei. – Você desmontou a vida dela e veio aqui oferecer as peças de volta.

– Renesmee pode resolver isso facilmente se parar de agir como uma criança mimada.

Meu corpo ficou rígido.

– Escolhe melhor as próximas palavras.

– Por quê? Vai me bater outra vez?

– Não preciso.

– Está me ameaçando?

– Ainda não.

Ethan soltou uma risada.

– Tudo isso por causa de uma mulher que você conheceu há um mês?

Não respondi.

Os olhos dele se estreitaram.

Então alguma coisa pareceu se encaixar.

– Você está interessado nela.

Mantive o olhar nele.

– Isso muda alguma coisa?

Ethan riu novamente, mas dessa vez havia raiva.

– Agora entendi.

– Duvido.

– Você quer a Renesmee.

– E você perdeu qualquer direito de se preocupar com quem ela vai querer depois de você.

– Ela é mãe da minha filha.

– Continua não sendo sua propriedade.

Ethan se aproximou.

– Fica longe dela.

Sorri.

Ele realmente não tinha entendido com quem estava falando.

– Escuta com atenção porque não vou repetir. A partir de agora, Renesmee Cullen está sob a minha proteção.

O sorriso desapareceu completamente do rosto dele.

– Ela não é nada sua.

– Era melhor para você quando não era.

Ethan ficou em silêncio.

Dei mais um passo.

– Quer discutir a guarda da sua filha? Vai fazer isso dentro de um tribunal. Quer discutir os imóveis? Vai conversar com advogados. Quer continuar usando os dez por cento da Claire para circular na minha empresa? Aproveita enquanto pode. Mas se você acha que vai tirar casa, trabalho e ameaçar tirar a filha de Renesmee até ela aceitar voltar para você, esquece.

Apontei discretamente para mim mesmo.

– Porque agora você vai ter que passar por mim.

– Renesmee pediu sua ajuda?

A pergunta me fez sorrir.

– Não.

– Então talvez devesse perguntar a ela antes de bancar o herói.

– Não sou herói de ninguém.

Olhei para a pasta.

– Só não gosto de covardes.

Ethan aproximou o rosto do meu.

– Você não sabe onde está se metendo.

– Sei exatamente.

– Ela vai mandar você para o inferno quando descobrir que está investigando a vida dela.

– Provavelmente.

Aquilo pareceu surpreendê-lo.

– E mesmo assim vai fazer isso?

– Vou.

– Por quê?

Olhei para o carro novamente.

Renesmee estava sentada no banco traseiro ao lado da filha, esperando por mim sem fazer ideia da notícia que eu teria de dar assim que entrasse naquele veículo.

Voltei os olhos para Ethan.

– Porque você já mostrou o que faz quando ninguém impede.

Ele ficou calado.

Apontei para a pasta em sua mão.

– Guarda sua proposta.

– Ela vai precisar de mim.

– Não.

Aproximei-me uma última vez e abaixei a voz.

– Esse é o seu problema agora, Ethan. Você construiu esse plano inteiro acreditando que Renesmee ficaria sem opção. Tirou a casa, tirou a doceria e foi atrás da guarda da filha porque queria que ela tivesse medo suficiente para voltar rastejando.

Deixei alguns segundos de silêncio entre nós.

– Só esqueceu de uma coisa.

Ethan me encarou.

– O quê?

Olhei diretamente em seus olhos.

– Agora ela não está sozinha.

Virei as costas e caminhei em direção ao carro.