Renesmee


Observei Jacob se afastar de Ethan e caminhar em direção ao carro com a mesma tranquilidade com que tinha ido enfrentá-lo minutos antes. Aquilo me deixou ainda mais confusa, porque eu não conseguia imaginar o que Jacob Black fazia em Forks, muito menos por que tinha aparecido exatamente na escola de Belinha e se metido em uma discussão que não lhe dizia respeito. Pelo vidro, vi Ethan continuar parado no mesmo lugar, segurando a pasta contra o corpo e acompanhando Jacob com uma expressão que eu conhecia bem. Ele estava furioso. Parte de mim queria saber o que os dois tinham conversado, outra parte estava ocupada demais tentando entender como eu tinha saído de uma discussão com Ethan e terminado sentada no banco traseiro do carro de Jacob Black. Belinha, ao contrário de mim, parecia perfeitamente confortável. Estava presa à cadeirinha e mexia distraidamente na barra do uniforme enquanto olhava ao redor do veículo.


A porta do motorista foi aberta e Jacob entrou, fechando-a logo em seguida. Por alguns segundos ele não disse nada, apenas colocou a chave na ignição e olhou pelo retrovisor. Seus olhos encontraram primeiro os de Belinha.


– Tudo certo aí atrás?


– Sim.


– Cinto?


Belinha puxou o cinto como se precisasse provar.


– Tá preso.


– Ótimo.


Então os olhos dele encontraram os meus pelo espelho.


– E você?


Cruzei os braços.


– Não.


Ele virou um pouco o rosto.


– Não está com o cinto?


– Não está tudo certo.


Jacob soltou o ar pelo nariz e se virou no banco para me olhar. A proximidade me fez perceber novamente como aquele homem era diferente de Ethan. Não apenas fisicamente, embora isso fosse impossível de ignorar. Jacob tinha uma presença que ocupava espaço sem esforço, e mesmo sentado parecia grande demais para aquele carro. O cabelo escuro tinha alguns fios grisalhos próximos às têmporas e o rosto carregava marcas discretas da idade que só faziam com que parecesse ainda mais seguro de si. Eu já tinha percebido que era bonito quando o conheci no hotel. Naquele momento, porém, beleza era a última coisa com que deveria me preocupar.


– O que você está fazendo em Forks?


Ele sustentou meu olhar.


– Vim falar com você.


Demorei alguns segundos para responder.


– Comigo?


– Sim.


– Você veio de Seattle até Forks para falar comigo?


– Foi o que eu disse.


Olhei pela janela para Ethan, que finalmente entrava no próprio carro.


– Como sabia que eu estava aqui?


– Não sabia.


Minha desconfiança aumentou.


– Então como apareceu exatamente na escola da minha filha?


– Primeiro fui até a sua doceria.


Meu estômago apertou.


– A doceria está fechada.


– Eu vi.


Aquela resposta me incomodou mais do que deveria. Talvez porque eu ainda sentisse vergonha toda vez que alguém mencionava o assunto, como se ter sido enganada por Ethan fosse uma placa pendurada no meu pescoço dizendo a todos o tamanho da idiota que eu tinha sido.


– Então você sabe.


Jacob não fingiu não entender.


– Sei de algumas coisas.


– Que coisas?


Ele olhou rapidamente para Belinha pelo retrovisor antes de voltar a me encarar.


– Não aqui.


Franzi o cenho.


– Como assim não aqui?


– Sua filha está no banco de trás.


Meu coração acelerou.


– Tem alguma coisa acontecendo com a Belinha?


– Ela está bem.


– Então me conta.


– Renesmee...


– Não faz isso comigo. Você aparece do nada na escola da minha filha, manda eu entrar no seu carro, discute com Ethan e agora diz que veio de Seattle para conversar comigo, mas não quer dizer por quê?


Jacob permaneceu calmo, o que naquele momento me irritou ainda mais.


– Eu vou contar tudo que sei. Só não vou ter essa conversa na frente dela.


Olhei para Belinha. Ela parecia não prestar atenção em nós, ocupada tentando enxergar alguma coisa pela janela, mas eu conhecia minha filha. Belinha tinha ouvidos especialmente eficientes quando o assunto não era para ela.


Voltei os olhos para Jacob.


– É sobre Ethan?


– Sim.


– Sobre minha casa?


– Também.


Aquela única palavra fez meu estômago afundar.


– Também?


Jacob assentiu.


– O que mais existe?


Novamente ele olhou para Belinha.


Entendi o recado.


Passei a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. Eu já estava cansada de descobrir coisas. Durante o último mês, parecia que toda vez que alguém dizia que precisava conversar comigo, uma parte da minha vida desmoronava logo depois. Primeiro tinha sido a doceria. Depois a casa. Agora Jacob Black atravessava o estado para me contar alguma coisa que não podia dizer na frente da minha filha.


– Eu quero saber agora.


– E eu vou contar.


– Então fala.


– Vamos almoçar.


Fiquei olhando para ele.


– O quê?


– Almoçar.


– Eu ouvi. Só não entendi.


Jacob finalmente ligou o carro, mas não saiu do lugar.


– Eu ainda não almocei. Imagino que você também não.


– Isso é um convite?


– É.


Soltei uma risada incrédula.


– Você está me convidando para almoçar depois de aparecer na escola da minha filha, mandar eu entrar no seu carro e discutir com Ethan no estacionamento?


– Não discutimos.


Olhei pela janela e depois novamente para ele.


– Eu vi vocês dois.


– Ninguém sangrou.


Tentei continuar séria, mas a lembrança do rosto de Ethan depois das duas últimas vezes em que tinha encontrado Jacob tornou a tarefa um pouco difícil.


– Isso agora é seu critério para considerar uma conversa tranquila?


– Com Ethan, é uma evolução.


Mordi a parte interna da bochecha para não sorrir.


– Obrigada pelo convite, mas não.


– Certo.


A resposta imediata me surpreendeu. Eu esperava insistência. Talvez uma ordem disfarçada de sugestão, principalmente depois da maneira como ele tinha simplesmente mandado que eu entrasse no carro. Em vez disso, Jacob colocou as mãos sobre o volante e permaneceu parado.


– Certo?


– Você disse não.


– E você aceitou?


Ele virou o rosto e arqueou uma sobrancelha.


– Depois do que acabei de dizer para Ethan sobre respeitar essa palavra, seria um pouco contraditório começar a discutir com você cinco minutos depois.


Aquilo me calou.


Jacob olhou novamente para Belinha.


– Mas ainda preciso conversar com você.


– Pode conversar na casa dos meus pais.


– Posso.


A resposta veio tão facilmente que me deixou desconfiada outra vez.


– Você iria até a casa deles?


– Se for onde você se sente mais confortável, sim.


Imaginei Edward abrindo a porta e encontrando Jacob Black do lado de fora. Meu pai provavelmente faria um interrogatório antes que ele conseguisse chegar à sala.


– Não sei se isso seria uma boa ideia.


– Então escolhe outro lugar.


– Eu não entendo por que você está fazendo isso.


– Fazendo o quê?


– Tudo isso.


Ele permaneceu em silêncio.


– Você não me conhece, Jacob.


– Eu sei.


– Nos encontramos duas vezes.


– Três agora.


– Isso não melhora sua situação.


Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.


– Imaginei.


– Então por que veio até Forks?


O sorriso desapareceu. Jacob me observou durante alguns segundos antes de responder.


– Porque descobri uma coisa que você precisa saber.


– Você poderia ter ligado.


– Poderia.


– Poderia mandar Quil.


– Também.


– Seus advogados poderiam falar comigo.


– Poderiam.


Comecei a me irritar.


– Então por que você veio?


Ele inclinou levemente a cabeça.


– Porque eu quis vir.


Meu coração fez alguma coisa estranha que decidi ignorar.


– Essa não é uma explicação.


– É a única que tenho para dar agora.


Sustentei o olhar dele e percebi alguma coisa que não soube identificar. Jacob não parecia constrangido por admitir que tinha atravessado horas de estrada simplesmente porque quis me encontrar. Não tentava transformar aquilo em algo profissional nem inventava uma desculpa elaborada. Ethan tinha passado anos me oferecendo explicações demais para coisas que nunca fizeram sentido. Jacob parecia fazer exatamente o contrário.


– E por que eu deveria confiar em você?


A pergunta saiu antes que pudesse pensar melhor.


Jacob não respondeu imediatamente.


– Não deveria.


Franzi o cenho.


– Como é?


– Você não me conhece.


A resposta me pegou completamente desprevenida.


– Então está me convidando para entrar num restaurante com um homem em quem acabou de dizer que eu não deveria confiar?


– Você já está dentro do meu carro.


– Porque entre você e Ethan naquele estacionamento, você parecia a opção menos ruim.


Ele riu baixo.


– Vou considerar um elogio.


– Não foi.


– Mesmo assim.


Balancei a cabeça.


– Você é estranho.


– Já me chamaram de coisa pior.


Jacob apoiou um braço no volante e continuou me olhando.


– Depois do que Ethan fez com você, seria estranho se confiasse em outro homem só porque ele apareceu dizendo que quer ajudar. Então não confia. Pergunta. Confere tudo que eu disser. Se achar que estou mentindo, pega sua filha e vai embora. Não vou impedir você.


A resposta atingiu um lugar desconfortável dentro de mim. Durante anos, Ethan tinha usado justamente minha confiança como argumento. Quantas vezes ouvi que deveria acreditar nele porque éramos uma família? Quantas vezes ele disse que cuidaria das coisas porque sabia mais sobre contratos, bancos e documentos? Eu tinha aprendido da pior maneira possível que confiança não podia significar fechar os olhos.


– Você sabe mesmo sobre os imóveis?


– Sei o suficiente para dizer que seus problemas não começaram quando recebeu aquela ordem de despejo.


Meu corpo ficou tenso.


– O que descobriu?


– Renesmee.


Ele indicou discretamente Belinha com os olhos.


Respirei fundo.


– Certo.


– Vamos deixar sua filha com alguém ou ela vem conosco?


– Eu não vou deixar Belinha em lugar nenhum para ir almoçar com você.


– Então ela vem.


– Você não se incomoda?


Jacob pareceu genuinamente confuso.


– Por que me incomodaria?


– Porque você me convidou para almoçar.


– E ela é sua filha.


A simplicidade da resposta me fez observá-lo por mais tempo. Ethan costumava reclamar quando nossos planos precisavam mudar por causa de Belinha. Dizia que precisávamos de momentos apenas nossos e, embora isso não fosse errado, agora eu me perguntava quantas vezes ele queria a filha longe porque precisava controlar horários para conciliar as duas vidas.


Antes que eu respondesse, uma voz surgiu do outro lado do banco.


– Mamãe.


Virei para Belinha.


– Oi, amor.


– Eu tô com fome.


Fechei os olhos por um segundo.


Jacob olhou para ela pelo retrovisor.


– Finalmente alguém sensato nesse carro.


Belinha sorriu.


– Eu sou sensata.


– Muito.


Olhei para ele.


– Não usa minha filha para me convencer.


– Eu não fiz nada. Ela trabalha sozinha.


– Eu quero batata – Belinha anunciou.


Jacob assentiu com toda a seriedade do mundo.


– Excelente escolha.


– Com ketchup.


– Melhor ainda.


– E suco de morango.


– Aí você vai precisar negociar com sua mãe. Meu poder acaba no ketchup.


Belinha riu e eu balancei a cabeça, percebendo que estava perdendo aquela batalha para uma criança de cinco anos e um homem de mais de quarenta que parecia satisfeito demais consigo mesmo.


– Vocês dois acabaram de se conhecer.


– Ela é boa negociadora – Jacob respondeu.


– Puxou a mim.


– Espero que sim.


A frase saiu naturalmente, mas nós dois entendemos a referência a Ethan. Jacob desviou o olhar primeiro e colocou a mão na marcha.


– Escolhe o restaurante.


– Você não conhece Forks?


– Minha família é de La Push. Saí daqui quando tinha dez anos, mas não apaguei completamente o mapa da cabeça.


– Então você escolhe.


– Não. Você escolhe.


– Por quê?


– Porque é sua cidade.


Fiquei alguns segundos pensando até lembrar de um restaurante simples onde costumava ir com minha família e que tinha mesas mais reservadas nos fundos.


– Tem um lugar perto da avenida principal.


– Me diz como chegar.


Passei as instruções e Jacob finalmente colocou o carro em movimento. Quando saímos da frente da escola, olhei pelo vidro traseiro e vi o carro de Ethan ainda parado alguns metros atrás. Não consegui enxergá-lo através dos vidros escuros, mas sabia que estava lá.


Voltei a olhar para Jacob.


– Um almoço.


Ele assentiu.


– Um almoço.


– Você vai me contar tudo que sabe.


– Tudo.


– Sem esconder nada porque acha que está me protegendo.


O maxilar dele se contraiu discretamente.


– Tudo que eu sei.


– E depois você leva eu e Belinha para casa.


– Levo vocês para onde quiser.


– E não toma nenhuma decisão por mim.


Dessa vez ele demorou um pouco mais.


Estreitei os olhos.


– Jacob.


– Vou tentar.


– Tentar?


Ele me lançou um olhar rápido antes de voltar a atenção para a rua.


– Prefiro não começar nossa conversa mentindo para você.


Apesar de mim mesma, soltei uma risada.


– Meu Deus. No que eu estou me metendo?


Jacob sorriu sem tirar os olhos da estrada.


– Considerando que você escolheu o restaurante, tecnicamente sou eu que estou indo atrás de você.


Revirei os olhos e virei o rosto para a janela, mas não consegui impedir o sorriso que apareceu.


Era estranho. Eu tinha acabado de deixar Ethan no estacionamento da escola, estava prestes a descobrir mais alguma coisa terrível sobre o homem com quem havia dividido minha vida e deveria estar pensando apenas nisso. Mesmo assim, pela primeira vez em semanas, senti meus ombros relaxarem um pouco.


Olhei discretamente para Jacob.


Eu ainda não confiava nele.


Mas estava começando a querer descobrir se poderia.