Amor não era o plano

60 Rosalie Fitzgerald


Notas iniciais
Perdão pelo sumiço . Minha semana é super corrida, mas jo final de semana postarei bastante

Renesmee


Quinze dias haviam se passado desde que Bree Tanner entrara armada na Doce Encanto, e eu ainda tinha a impressão de que minha vida não tinha voltado completamente ao normal. O ferimento estava cicatrizando bem, o médico já havia reduzido várias das restrições e, para meu alívio, os exames mostravam que a gravidez continuava evoluindo sem qualquer sinal de complicação.

A parte jurídica da história tinha seguido por um caminho que Jacob considerava quase uma afronta pessoal. Blanca Tanner conseguira internar Bree em uma clínica psiquiátrica particular antes que a situação avançasse para uma acusação formal de tentativa de homicídio. Os relatórios médicos apontavam um quadro grave, necessidade de internação e incapacidade de responder adequadamente pelos próprios atos naquele momento. Eu conseguia compreender a decisão de uma mãe desesperada para salvar a filha, ainda que isso não apagasse o fato de que aquela filha tinha apontado uma arma para mim. Jacob compreendia muito menos. Na verdade, ele não compreendia porra nenhuma, como fizera questão de declarar ao advogado quando soube da internação. Para ele, Bree estar doente explicava o que havia acontecido, mas não anulava o risco que ela representara para mim e para o bebê. Desde então, ele tinha dobrado minha segurança, colocado mais câmeras na loja e praticamente transformado os dois homens que já trabalhavam comigo em minhas sombras.

Protestei durante dois dias. No terceiro, percebi que discutir com Jacob Black sobre segurança era tão produtivo quanto discutir com uma parede armada e possessiva.

Naquela tarde, porém, eu estava longe de Seattle e de qualquer assunto envolvendo advogados, clínicas ou seguranças. Tinha vindo para Forks com Belinha para o aniversário de meu pai e estava na cozinha da casa dos meus pais ajudando minha mãe com os últimos detalhes do jantar. Bella tinha decidido que seria uma comemoração pequena, apenas família e algumas pessoas próximas, exatamente como Edward preferia. Isso não a impedira de cozinhar como se esperasse alimentar metade de Forks. Havia travessas ocupando praticamente toda a bancada, uma panela no fogo, salada sendo finalizada e um prato no forno que minha mãe verificava a cada cinco minutos com uma ansiedade que estava começando a me divertir.

– Mãe, se você abrir esse forno mais uma vez, acho que a comida vai pedir privacidade.

Bella fechou a porta do forno e me lançou um olhar atravessado.

– Estou verificando.

– Você verificou há três minutos.

– E posso verificar novamente.

Continuei arrumando a salada enquanto ela pegava um pano e limpava uma parte da bancada que já estava perfeitamente limpa. Conhecia minha mãe o suficiente para perceber que o problema definitivamente não era o jantar.

– O que está acontecendo?

– Nada.

– Essa resposta nunca convenceu ninguém nesta família.

Bella respirou fundo e finalmente me olhou.

– Você acha que Jacob vai gostar?

Parei com o garfo na mão.

– Do quê?

– Do jantar.

Demorei alguns segundos para entender que ela estava falando sério.

– Você está nervosa porque Jacob vem jantar?

– Não estou nervosa.

– Está limpando uma bancada limpa e fiscalizando um assado como se ele pudesse fugir pela janela. Está nervosa.

Minha mãe estreitou os olhos.

– É a primeira vez que ele vem aqui como seu namorado. Eu quero que tudo esteja agradável.

A palavra namorado ainda provocava uma sensação estranha. Não porque estivesse errada, mas porque nossa relação havia avançado tão depressa que às vezes eu mesma precisava acompanhar. Quinze dias antes eu tinha acordado em um hospital, descoberto uma gravidez e ouvido Jacob admitir que me amava. Agora ele viria ao aniversário do meu pai oficialmente como o homem com quem eu estava me relacionando. Edward estava fazendo um esforço considerável para aceitar essa informação sem desenvolver uma úlcera.

– Não se preocupe com Jake. Ele come praticamente qualquer coisa.

Bella pareceu aliviada por aproximadamente dois segundos.

– Praticamente?

Sorri.

– E, se não gostar, ele vai dizer.

Minha mãe ficou me encarando.

– Muito obrigada, Renesmee. Era exatamente o que eu precisava ouvir.

Comecei a rir.

– Você perguntou.

– Você mudou depois que começou esse relacionamento com Jacob.

– Eu?

– Ficou ainda mais impossível.

– Então talvez tenhamos sido feitos um para o outro.

Bella apontou a colher para mim.

– Não incentive minha preocupação.

Antes que eu pudesse responder, passos rápidos vieram do corredor e Belinha entrou correndo na cozinha. Ela tinha passado boa parte da tarde brincando e apareceu com os cabelos ligeiramente bagunçados e a expressão dramática de quem estava há aproximadamente três meses sem receber alimento.

– Mamãe, eu tô com fome.

– O jantar está quase pronto, meu amor.

Belinha colocou as duas mãos sobre a barriga.

– Mas eu tô com muita fome.

– Você comeu há pouco tempo.

– Faz muito tempo.

Olhei para o relógio.

– Uma hora e vinte minutos.

– Viu? Muito tempo.

Bella virou o rosto para esconder o sorriso.

– Não ria, mãe. Ela percebe quando encontra aliados.

– Eu não estou rindo.

– Está, sim.

Belinha se aproximou e segurou minha blusa.

– Só um docinho.

– Não.

– Pequenininho.

– Isabella.

Ela fez um bico tão calculado que tive certeza de que aquela criança passava o tempo livre aperfeiçoando técnicas de manipulação.

– Você vai jantar daqui a pouco. Se comer doce agora, vai dizer que está sem fome quando sentar à mesa.

– Eu prometo que vou ter fome.

– Impressionante como sua fome funciona de acordo com a conveniência.

Antony entrou na cozinha exatamente naquele momento, mexendo no celular, e Belinha imediatamente encontrou uma nova vítima.

– Tio Antony, eu tô morrendo de fome.

Ele guardou o aparelho no bolso.

– Morrendo?

– Muito.

– Que situação grave.

– Antony, nem pense nisso – avisei.

Meu irmão ignorou completamente minha existência. Foi até uma bandeja, pegou um dos pequenos doces que minha mãe tinha separado para depois do jantar e entregou para Belinha.

– Medidas emergenciais.

Minha filha abriu um sorriso enorme.

– Obrigada!

Pegou o doce e saiu correndo da cozinha antes que eu pudesse impedir.

– Antony!

Ele me olhou com a maior tranquilidade do mundo.

– O quê?

– Eu tinha acabado de dizer não.

– A menina estava com fome.

– Você conhece a fome dela tão bem quanto eu. Daqui a pouco ela volta pedindo outro, depois outro, e na hora do jantar vai ficar empurrando comida pelo prato dizendo que está cheia.

– Um doce não vai destruir a alimentação da criança.

– Você fala isso porque não é você que precisa convencer a criança a comer depois.

Antony abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e deu de ombros.

– Problemas da maternidade.

– Quando tiver filhos, vou aparecer na sua casa quinze minutos antes do almoço e distribuir chocolate.

– Meus filhos vão amar a tia.

– E você vai me odiar.

– Provavelmente.

Bella colocou as mãos na cintura.

– Vocês dois têm quantos anos?

– Eu sou inocente – respondeu Antony imediatamente.

– Claro – falei. – Foi Belinha que alcançou aquela bandeja sozinha.

Minha mãe apontou para a porta.

– Fora da minha cozinha. Os dois.

– Eu estava ajudando – protestei.

– Estava discutindo.

– Com ele.

– Continuava sendo uma discussão na minha cozinha.

Antony passou um braço pelos meus ombros e começou a me empurrar para fora.

– Vamos obedecer antes que a aniversariante por associação perca a paciência.

– O aniversariante é o papai.

– E quem manda é a mamãe. Você já deveria saber como casamento funciona.

Bella balançou a cabeça, mas estava rindo.

Quando já estávamos próximos da porta, Antony pareceu se lembrar de alguma coisa.

– Ah, a namorada do Emmett chegou.

Olhei para ele.

– Finalmente? Quero conhecer essa mulher. Emmett fala dela como se tivesse encontrado a última mulher disponível no planeta.

– Considerando a personalidade dele, talvez tenha encontrado a última disposta.

– Eu ouvi isso! – a voz de Emmett veio da sala.

Antony gargalhou.

Bella nos empurrou definitivamente para fora.

– Vão conhecer a moça e deixem minha comida em paz.

Seguimos pelo corredor ainda discutindo sobre o doce de Belinha. Ouvi várias vozes na sala antes de entrar e reconheci meu pai, Charlie e Emmett. Belinha já estava lá, obviamente recuperada da fome mortal que quase a levara dessa para melhor alguns minutos antes.

Foi então que vi a mulher.

Ela estava ao lado de Emmett e foi impossível não notar como era bonita. Alta, loira, elegante, com cabelos claros caindo pelos ombros e uma postura segura que combinava estranhamente bem com meu irmão. Usava roupas discretas, mas sofisticadas, e conversava com meu pai quando Emmett percebeu minha chegada.

– Finalmente saiu da cozinha. – Ele passou o braço pela cintura da mulher e sorriu. – Rose, essa é minha irmã, Renesmee. Nessie, essa é Rosalie.

Aproximei-me sorrindo.

– Então você é a famosa Rosalie. Já estava começando a achar que Emmett tinha inventado uma namorada para parecer interessante.

– Engraçadinha – resmungou meu irmão.

A mulher riu e estendeu a mão para mim.

– Ele me avisou que eu precisaria sobreviver aos irmãos antes de ser oficialmente aceita.

– Não acredite em metade do que ele fala. Na outra metade também tenha cuidado.

– Ei!

Rosalie voltou a rir e apertou minha mão.

– Prazer, Renesmee. Rosalie Fitzgerald.

Meu sorriso permaneceu no rosto, mas alguma coisa dentro da minha cabeça travou.

Fitzgerald.

Eu conhecia aquele sobrenome.

Tinha ouvido Jacob pronunciá-lo recentemente com uma dureza que não deixava espaço para esquecê-lo.

Por alguns segundos, continuei segurando a mão daquela mulher enquanto tentava convencer a mim mesma de que Fitzgerald não podia ser um sobrenome tão incomum assim.

– Fitzgerald? – repeti.

Rosalie assentiu naturalmente.

– Sim.

Emmett olhou de mim para ela.

– Por quê?

Soltei a mão de Rosalie e forcei meu sorriso a voltar ao normal.

– Por nada. O sobrenome só me pareceu familiar.

Rosalie ainda me observava quando respondeu:

– É possível. Minha família viveu em Seattle durante muitos anos.

Aquilo não ajudou em absolutamente nada.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa, Belinha apareceu correndo e se agarrou à minha perna, anunciando que continuava com fome. Emmett começou a rir, Antony afirmou que tinha tentado salvar a criança da inanição e meu pai perguntou por que sua neta estava sendo alimentada clandestinamente antes do jantar.

A conversa ao meu redor voltou a ficar barulhenta.

Mas meus olhos retornaram para Rosalie.

Fitzgerald.

Dessa vez, o sobrenome não saiu da minha cabeça.