Amor não era o plano

31 Lareira, vinho e confissões



Jacob


A noite começou a ficar muito mais fria que o normal por isso o Jardim deixou de ser um local confortável para se conversar, não insisti a Renesmee que me explicasse por que tinha aparecido na minha casa no meio da noite. Já tinha visto o suficiente no jardim para saber que pressioná-la naquele momento seria inútil.

Ela estava cansada, assustada e tentando esconder isso atrás das respostas atravessadas que começava a usar comigo. Preferi conduzi-la até a sala principal, onde a lareira ainda estava acesa, e indiquei o sofá enquanto fui até o bar. Quando voltei com uma garrafa de vinho e duas taças, ela já estava sentada diante do fogo, olhando para as chamas como se tivesse esquecido que eu estava ali.

Servi uma dose para cada um e me sentei na poltrona ao lado, mantendo uma distância que normalmente não teria qualquer preocupação em manter. Depois do estado em que ela chegou, achei melhor deixá-la decidir o quanto queria se aproximar.

Começamos falando sobre qualquer coisa que não fosse o motivo de sua visita. Viagens acabaram surgindo quando Renesmee perguntou sobre uma fotografia que havia visto na sala e, alguns minutos depois, eu estava contando sobre lugares onde tinha estado por causa dos negócios. Paris, Londres, Roma, Tóquio, cidades que para mim significavam aeroportos, hotéis e salas de reunião. Ela ouvia com atenção e fazia perguntas, principalmente quando percebia que eu não demonstrava grande entusiasmo por nenhum daqueles lugares.

– Você fala de Paris como se estivesse falando de uma ida ao supermercado.

– Porque na última vez que estive lá passei dois dias dentro de uma sala discutindo contratos.

– Isso deveria ser crime.

– Foi lucrativo.

Ela riu e eu gostei disso.

– Então qual lugar você realmente gosta?

Pensei por alguns segundos.

– La Push.

Renesmee me olhou como se eu tivesse dado a resposta errada. – Você conhece metade do mundo e escolhe La Push?

– Você perguntou qual eu gosto mais, não qual impressionaria você.

– Por que La Push?

Girei a taça entre os dedos. – Porque foi onde cresci.

– Você sente falta de lá?

– Às vezes.

Um sorriso surgiu em seus lábios. – Isso foi quase sentimental.

Apontei para ela com a taça. – Não espalhe.

– Sua reputação estaria acabada.

– Exatamente.

Ela riu outra vez e bebeu.

Eu devia ter prestado mais atenção na velocidade com que fazia aquilo. A primeira taça desapareceu enquanto conversávamos. A segunda também. Na terceira, Renesmee já estava mais relaxada, sentada com as pernas recolhidas no sofá e os sapatos abandonados perto do tapete. Quando percebi que ela tinha começado a quarta sem ter comido praticamente nada, afastei a garrafa quando sua mão veio novamente em sua direção.

– Não.

Ela franziu a testa. – Não o quê?

– Essa já é a quarta.

– Você está contando?

– Alguém precisa.

– Eu consigo contar.

– Então quantas bebeu?

Ela olhou para a própria taça com uma concentração que quase me fez rir.

– Três.

– Quatro.

Renesmee levantou os olhos.– Então por que perguntou?

– Queria confirmar uma suspeita.

– Qual?

– Você está bêbada.

Ela riu. – Não estou.

– Está chegando lá.

– Talvez eu queira chegar.

A resposta mudou o clima e meu sorriso se desfez. Renesmee tentou alcançar a garrafa novamente e a coloquei do outro lado da mesa.

– Devagar, Cullen.

– Não me chama de Cullen.

– Por quê?

– Parece que você está brigando comigo.

– Talvez esteja.

– Então não chame.

Ela estendeu a mão para a garrafa e eu a afastei novamente.

– Você não quis comer alguma coisa.

– Não preciso comer , preciso beber.

– Já constatei isso.

Renesmee me lançou um olhar irritado, mas a expressão não durou. Seus olhos baixaram para o vinho e, quando tornou a falar, a voz estava diferente.

– Eu preciso esquecer um pouco.

Apoiei minha taça na mesa. – Esquecer o quê?

– Tudo.- Ela deu outro gole.

– Ethan. A audiência. Minha casa. Minha loja. O fato de eu ter sido uma completa idiota durante anos.

– Você não foi idiota.

Renesmee riu sem humor. – Não precisa mentir porque eu chorei na sua camisa.

– Eu não faço esse tipo de gentileza.

Ela me olhou. – Eu deixei aquele verme cuidar dos documentos da minha casa, da doceria, de tudo. Eu confiava nele.

– Confiar em alguém não dá a essa pessoa o direito de ferrar com você.

Ela ficou alguns segundos em silêncio. – Ele sabia que eu estava desesperada.

Meu corpo ficou alerta. – Sabia o quê?

– Que eu estou com medo de perder Belinha. Foi por isso que me chamou para jantar.

Olhei para o vestido que ela ainda usava.m f inalmente as peças começaram a se encaixar.

– Você estava com Ethan esta noite?

Ela assentiu.

Minha mandíbula se contraiu. – Sozinha?

– Achei que era só um jantar.

– Imagino que não tenha terminado como um.

Renesmee bebeu mais um pouco. – Ele tinha uma proposta.

– Qual?

– Me ofereceu uma casa- Ela soltou uma risada amarga.- Muito bonita. Aqui em Seattle, para mim e Belinha. Ele disse que eu poderia morar lá, que devolveria minha doceria ou compraria outra para mim.

Eu já sabia a resposta antes de perguntar.

– Em troca de quê?

Renesmee levantou os olhos para mim e deu um sorriso irônico – De que eu volte para ele.

Fiquei em silêncio, por alguns segundos, precisei controlar o impulso de pegar o telefone e mandar alguém descobrir exatamente onde Ethan estava.

– Enquanto continua casado com Claire?

– Essa é a parte que eu deveria rir...

Passei a mão pelo maxilar. – Filho da puta.

– Eu disse que não.

– Espero que tenha sido menos educada que isso.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

– Eu disse que preferia vender minha alma ao diabo.

– Melhor.

– Ele também não gostou.

A maneira como ela disse aquilo chamou minha atenção. Olhei para sua mão. Os dedos estavam apertados ao redor da taça.

– O que ele fez?

Ela ficou pensativa – Nada.

– Não minta para mim.

– Eu só fui embora.

– Isso eu já entendi. Quero saber o que aconteceu antes.

Renesmee desviou os olhos.

Meu sangue começou a esquentar. – Nessie.

Ela respirou fundo.

– Ele me segurou.

Fiquei imóvel. – O que?

– Jake...

– Ele colocou as mãos em você?

Renesmee finalmente me encarou.

– Eu não sei quem é esse Ethan, o Ethan que conheci jamais tentaria me forçar a....

Minha mão se fechou lentamente.

– Aquele filho da puta.

Comecei a andar diante da lareira, tentando controlar a raiva que subiu de uma vez. Agora entendia as lágrimas no jardim. Entendia por que ela tinha chegado à minha casa perdida e sem saber para onde ir.

– Ele tentou algo com você a força?

Ela assentiu.

Por alguns segundos não disse nada porque qualquer coisa que saísse da minha boca seria uma ameaça que eu provavelmente cumpriria naquela mesma noite.

– Eu o mordi e saí correndo– Renesmee acrescentou.

Olhei para ela.

– E foi por isso que apareceu aqui.

Renesmee baixou os olhos. – Eu não sabia para onde ir.

A frase me irritou por um motivo diferente.

Não com ela, com ele.

Ethan tinha tirado a casa daquela mulher, a fonte de renda, estava ameaçando tomar a filha e agora tinha tentado usar tudo aquilo para forçá-la de volta para sua cama. Eu já o considerava um verme. Naquele momento comecei a pensar que os socos que tinha dado nele até então tinham sido poucos.

– Eu fui uma idiota por aceitar aquele jantar.

– Para com isso.

– Todo mundo me avisou. Meu pai pediu que eu voltasse, meu avô também. Eu sabia que não devia ter ido, mas achei que talvez pudesse convencer Ethan a desistir da guarda e...

– Chega.

Ela se calou.

Abaixei um pouco o corpo para ficar na altura de seus olhos. – Você aceitou conversar com o pai da sua filha porque está com medo de perdê-la. Ele usou esse medo contra você. A culpa é dele.

Os olhos dela voltaram a ficar úmidos.

Aquilo bastou. Tirei a taça de sua mão.

– Ei.

– Já chega por hoje.

– Eu ainda estava bebendo.

– Exatamente, estava.

– Devolve.

– Não.

Ela me olhou indignada. – Jake.

– Quatro taças de estômago vazio. Você já fez estrago suficiente.

– Eu estou perfeitamente bem.

– Claro.

Ela falou levantando do sofá para provar exatamente aquilo, deu um passo e tropeçou, rapidamente segurei pela cintura antes que fosse parar no chão.

– Excelente demonstração.

Ela apoiou as mãos no meu peito e levantou o rosto. Eu ia fazer alguma provocação, mas as palavras morreram antes de sair.

Estávamos perto demais.

Minha mão continuava firme em sua cintura. A outra segurava seu braço, e Renesmee simplesmente ficou ali, olhando para mim. Os olhos ainda estavam um pouco vermelhos, o rosto corado pelo vinho e algumas mechas ruivas tinham escapado sobre suas bochechas.

Meu olhar desceu para sua boca.

Foi instintivo e ainda asssim foi uma péssima ideia.

Eu queria beijá-la.

Não havia sentido romântico naquele pensamento. Eu não era adolescente e muito menos homem de fantasiar futuros depois de olhar para uma mulher. Eu a desejava desde a primeira vez que a vi naquela cozinha do hotel e, com Renesmee colada ao meu corpo, ficou impossível fingir que aquilo tinha desaparecido.

Mas ela estava bêbada, então essa possibilidade estava totalmente descartada.

Seus olhos percorreram meu rosto.

– Você é forte.

Ergui uma sobrancelha.

– Essa foi sua grande descoberta da noite?

Ela balançou a cabeça com uma seriedade quase engraçada.

– Não.

– E tem outra?

– Você é bonito.

Sorri. – Eu sei.

Renesmee franziu o nariz.

– Convencido.

– Você acabou de confirmar. Não vejo motivo para falsa modéstia.

– Muito convencido.

– Amanhã você vai reclamar.

Esperei que ela se afastasse.

Em vez disso, Renesmee passou os braços ao redor da minha cintura e encostou o rosto no meu peito me surpreendendo, foi uma reação inesperada.

Meu primeiro impulso foi fazer algum comentário para quebrar aquela proximidade estranha, mas senti o corpo dela relaxar contra o meu e fiquei quieto. Depois de tudo que acabara de me contar, o fato de Renesmee escolher se aconchegar justamente em mim significava mais do que eu estava disposto a analisar naquela hora.

Passei uma mão pelas costas dela.

– Nessie.

– Hum?

– Chega de vinho por hoje.

– Você conseguiu estragar o vinho- Ela suspirou.

– Vai me agradecer por isso amanhã.

Ela se acomodou ainda mais contra meu peito.

– Jake?

– O que foi?

Ela ficou em silêncio, o silencio tomou conta da sala por alguns segundos e quando percebi ela havia apagado.

– Você só pode estar brincando ruiva.

Seu corpo amoleceu de vez e precisei passar o outro braço por sua cintura para sustentá-la. Soltei um suspiro e olhei para a mulher desacordada nos meus braços.

– Quatro taças, Cullen. Impressionante.

Ela obviamente não respondeu.

Afastei uma mecha de cabelo de seu rosto e fiquei alguns segundos olhando para ela. Minutos antes eu queria descobrir onde Ethan estava e terminar pessoalmente o que tinha começado no hotel. Ainda queria. Mas aquilo teria que esperar.

Peguei o celular com uma das mãos, mantendo Renesmee apoiada contra mim, e procurei o número da minha irmã. Rachel atendeu depois de alguns toques.

– Jacob? Você sabe que horas são?

– Sei.

– Então alguém morreu?

Olhei para Renesmee. – Ainda não.

– O que aconteceu?

– Preciso que venha aqui.

Houve alguns segundos de silêncio. – Na sua casa?

– Foi o que eu disse.

– O que diabos aconteceu?

Baixei os olhos para a ruiva apagada contra meu peito. – Tenho uma mulher bêbada nos braços.

Rachel ficou em silêncio, dpois começou a rir.

Fechei os olhos.– Rachel.

– Desculpa. É que você ligar para mim porque não sabe o que fazer com uma mulher é provavelmente o melhor momento do meu ano.

– Terminou?

– Ainda não, mas posso continuar no carro.

– Vem logo.

Desliguei antes que ela piorasse.

Guardei o celular e passei um braço por baixo dos joelhos de Renesmee, levantando-a com facilidade. Ela se mexeu apenas o suficiente para encostar o rosto no meu peito outra vez.

Olhei para ela. – Você vai me dar trabalho, não vai?

Dessa vez, para minha própria irritação, não consegui evitar um pequeno sorriso.