Amor não era o plano
32 Ressaca
Renesmee
A claridade atravessando as cortinas foi a primeira coisa que percebi quando abri os olhos. Pisquei algumas vezes, incomodada com a luz da manhã, e demorei alguns segundos para entender por que tudo ao meu redor parecia estranho. Aquele não era o teto do meu antigo quarto na casa dos meus pais e tampouco o quarto do hotel onde eu havia deixado minhas coisas na noite anterior. Permaneci deitada enquanto tentava organizar as lembranças e reconhecer o lugar.
O quarto era amplo, claro e elegante, decorado em tons suaves de branco e verde. A enorme cama tinha uma cabeceira arredondada que acompanhava as cores das almofadas e da manta, pequenos pendentes iluminavam as laterais e um lustre delicado ocupava o centro do teto. Próximo às grandes janelas havia uma poltrona, e as paredes eram decoradas com nichos iluminados, vasos discretos e um quadro de flores acima da cabeceira. Tudo parecia cuidadosamente escolhido, bonito e certamente caro demais para pertencer a qualquer lugar onde eu costumasse acordar.
Sentei devagar e uma pressão desagradável surgiu nas têmporas. Fechei os olhos e massageei a cabeça, esperando que passasse, mas bastou baixar o olhar para meu próprio corpo para que a dor deixasse de ser minha maior preocupação. Eu vestia uma camisola de seda branca que nunca tinha visto antes. Segurei o tecido na altura do peito e procurei ao redor. Meu vestido não estava ali. Meus sapatos também haviam desaparecido. Virei o rosto para o outro lado da enorme cama e encontrei o espaço vazio, com os lençóis praticamente intactos, exceto pela parte onde eu tinha dormido. Meu coração acelerou enquanto tentava entender como tinha ido parar ali.
As lembranças da noite anterior começaram a voltar em partes. Primeiro veio Ethan e, com ele, a repulsa. Lembrei da casa, da mesa preparada para um jantar que nunca deveria ter aceitado, da proposta absurda e da maneira como ele tentou me agarrar depois que deixei claro que não queria qualquer aproximação. Recordei a mordida que dei em seu lábio, minha fuga, o táxi e o cartão de Jacob esquecido no fundo da bolsa. Depois vieram a mansão, o jardim, Bree e, por fim, o momento em que toda a força que eu vinha fingindo ter simplesmente desapareceu.
Eu tinha chorado nos braços de Jacob.
Recordava seu peito contra meu rosto, seus braços ao meu redor e a voz grave dizendo que não permitiria que alguém me fizesse chegar novamente naquele estado. Forcei a memória além daquele ponto e encontrei apenas fragmentos confusos. A sala, talvez. O calor de uma lareira. A voz dele. Depois, nada que conseguisse organizar.
A dor em minha cabeça aumentou quando tentei insistir.
– Que maravilha... – murmurei, afastando as cobertas enquanto colocava os pés no chão.
Levantei com cuidado e atravessei o quarto, esperando alguns segundos quando uma leve tontura me obrigou a diminuir o passo. Ao chegar às enormes janelas, afastei parte da cortina e imediatamente reconheci os jardins que tinha atravessado na noite anterior. Não havia mais qualquer dúvida. Eu ainda estava na mansão de Jacob Black.
Meu olhar desceu novamente para a camisola.
A inquietação aumentou.
Eu confiara nele o suficiente para procurar sua casa no pior momento da minha noite, mas acordar vestindo uma roupa que não lembrava de ter colocado era outra coisa. Passei as mãos pelos braços e tentei recuperar mais alguma lembrança, porém minha cabeça parecia se recusar a colaborar. A última imagem realmente nítida continuava sendo Jacob me abraçando.
O som da porta sendo aberta me fez virar depressa.
Uma mulher entrou carregando algumas roupas dobradas nos braços e precisei apenas de alguns segundos para reconhecê-la. Rachel Black estava diferente da noite da festa, mais casual, mas era impossível confundi-la.
– Rachel? – perguntei, surpresa, enquanto me afastava da janela.
– Bom dia, Renesmee. – Ela sorriu ao me encontrar acordada e fechou a porta atrás de si. – Que bom que finalmente levantou. Eu já estava começando a achar que teríamos de guardar o café da manhã para o almoço.
Olhei instintivamente para algum relógio que não encontrei.
– Que horas são?
– Quase dez. – Rachel caminhou até a cama e, ao perceber minha expressão assustada, acrescentou com certo humor: – Pelo seu estado ontem à noite, algumas horas extras de sono não fizeram mal algum.
Passei a mão pelos cabelos e a dor de cabeça voltou com força suficiente para me fazer franzir o rosto.
– Espere. Você disse meu estado ontem à noite. Então sabe o que aconteceu?
Rachel percebeu minha preocupação e deixou as roupas sobre a cama.
– Sei de uma parte. Trouxe algumas coisas minhas para você vestir. Talvez fiquem um pouco largas, mas devem servir até você recuperar suas roupas.
Olhei para o conjunto e voltei imediatamente a atenção para ela.
– Rachel, eu agradeço pelas roupas, mas neste momento estou um pouco mais preocupada em entender por que acordei na casa do seu irmão sem lembrar de como cheguei a este quarto.
A expressão dela perdeu o tom divertido.
– Jacob pode explicar melhor o restante da noite. Ele está esperando você para tomar café com ele.
– Essa resposta não é exatamente tranquilizadora.
Rachel soltou uma pequena risada e se sentou na beirada da cama.
– Então permita que eu tranquilize pelo menos a parte que está deixando você com essa expressão. Não aconteceu nada que deva preocupá-la.
– Eu gostaria de acreditar nisso, mas tenho uma lacuna considerável na memória.
– Culpe o vinho. – Rachel indicou discretamente minha cabeça. – E talvez essa dor seja uma boa lembrança para não acompanhar meu irmão quando ele resolver abrir uma garrafa.
Aquilo trouxe um fragmento de memória.
A lareira.
Uma taça em minha mão.
Jacob falando sobre viagens.
Fechei os olhos por um instante.
– Eu bebi.
– Pelo que meu irmão contou, mais do que deveria.
– Quanto?
– Essa parte você pergunta a ele. Quando cheguei, a festa já tinha terminado.
Abri os olhos.
– Jacob chamou você?
– No meio da noite. – Rachel sorriu de lado. – O que, vindo dele, já seria motivo suficiente para eu atravessar Seattle apenas para descobrir que tipo de desastre tinha acontecido.
Ela se levantou e ajeitou as roupas sobre a cama antes de caminhar em direção à porta.
Olhei novamente para a camisola. Ainda faltava a resposta mais importante e, embora sentisse vergonha de perguntar, não conseguiria sair daquele quarto sem saber.
– Rachel, espere.
Ela parou com a mão na maçaneta e voltou o rosto para mim.
Respirei fundo antes de perguntar:
– Quem trocou minha roupa?
Rachel me observou por um instante e pareceu compreender finalmente o motivo real da minha inquietação.
– Fui eu. – Sua resposta veio firme, sem brincadeiras. – Jacob me ligou porque você tinha bebido demais e acabou dormindo. Quando cheguei, ajudei você a tirar o vestido, coloquei a camisola e a deixei confortável neste quarto.
O alívio foi imediato, embora eu tentasse não demonstrar o quanto aquela resposta tinha sido necessária.
– Então Jacob não me trouxe para cá e...
Interrompi a frase, constrangida, mas Rachel entendeu.
– Meu irmão trouxe você até o quarto porque você mal conseguia ficar em pé, mas foi até aí. – Ela cruzou os braços e me encarou com serenidade. – Jacob pode ser difícil, arrogante e ter uma necessidade irritante de controlar tudo ao redor dele. Acredite, sou irmã dele, tenho material suficiente para escrever um livro. Mas existe uma coisa sobre a qual você não precisa ter dúvida. Ele jamais tiraria a roupa de uma mulher sem o consentimento dela. Por isso me chamou.
A tensão em meus ombros finalmente diminuiu.
– Obrigada por ter vindo. Imagino que receber uma ligação dessas no meio da noite não estivesse nos seus planos.
– Definitivamente não estava. – Rachel sorriu. – Mas confesso que ouvir Jacob admitir que precisava da ajuda da irmã tornou o inconveniente um pouco mais divertido.
Acabei sorrindo também.
– Tenho a impressão de que ele não vai gostar quando souber que você me contou isso.
– Tenho quase cinquenta anos de experiência irritando meu irmão. Sobrevivo ao risco.
Rachel tornou a caminhar para a porta e apontou para as roupas sobre a cama.
– Tome um banho e se troque. Depois desça para comer alguma coisa. Jacob está esperando você e, dessa vez, aconselho que troque o vinho por café.
– Rachel... – chamei antes que ela saísse.
Ela voltou a me olhar.
Hesitei por alguns segundos.
– Ele ficou irritado comigo ontem?
Rachel pareceu genuinamente surpresa com a pergunta.
– Por que ficaria?
– Eu apareci sem avisar, chorei na frente dele, aparentemente bebi além da conta e agora descubro que ele precisou chamar você para cuidar de mim. Não foi exatamente uma visita discreta.
Um sorriso surgiu lentamente no rosto dela.
– Não, Renesmee. Jacob não está irritado com você.
Ela abriu a porta, mas parou antes de sair.
– Agora, pelo pouco que consegui arrancar dele quando cheguei, existe outra pessoa com quem meu irmão está bastante irritado. E, se eu fosse essa pessoa, evitaria cruzar o caminho de Jacob por algum tempo.
Não precisei perguntar de quem ela estava falando.
Rachel saiu e fechou a porta, deixando-me novamente sozinha. Olhei para as roupas dobradas sobre a cama e depois para a camisola que vestia. O alívio por saber que ela tinha cuidado de mim na noite anterior veio acompanhado de outra sensação que eu ainda não sabia nomear.
Jacob tinha me encontrado bêbada, fragilizada e praticamente apagada em seus braços. Poderia ter feito o que quisesse enquanto eu sequer tinha condições de lembrar.
Em vez disso, chamou a irmã.
Talvez aquilo devesse ser apenas o mínimo esperado de qualquer homem. E era.
Ainda assim, depois de passar a noite afastando as mãos de Ethan do meu corpo, descobrir que Jacob tinha respeitado um limite que eu nem estava consciente para estabelecer naquele momento mexeu comigo.
Restava descobrir o que eu tinha contado antes de apagar.
E, considerando a advertência de Rachel, começava a suspeitar que Jacob Black sabia muito mais sobre a minha noite com Ethan do que eu gostaria.
Depois que Rachel saiu, permaneci alguns minutos diante da cama, observando a roupa que ela havia deixado para mim. Era um conjunto bonito e delicado, muito mais elegante do que qualquer coisa que eu esperaria receber emprestada apenas para descer e tomar café da manhã. A blusa branca de mangas compridas tinha o tecido canelado e um decote reto que deixava os ombros descobertos, enquanto a saia longa e plissada seguia o mesmo tom claro, marcada na cintura por um cinto fino bege.
Rachel era um pouco maior do que eu, então precisei ajustar melhor a saia e a blusa ficou mais folgada do que provavelmente ficaria nela.
Ainda assim, quando parei diante do espelho, tive que admitir que o conjunto havia caído bem no meu corpo. Arrumei os cabelos sem muita preocupação, deixando algumas mechas ruivas soltas ao redor do rosto, e nem tentei disfarçar com maquiagem os sinais da noite anterior. Meus olhos ainda estavam levemente inchados e a dor de cabeça permanecia ali, discreta, mas pronta para piorar toda vez que eu tentava forçar as lembranças que o vinho havia apagado.
Encontrei minha bolsa sobre a poltrona próxima à cama e peguei o celular. A tela se acendeu tomada por notificações, e bastou ver os nomes para sentir uma pontada de culpa. Havia várias chamadas perdidas e mensagens de minha mãe, meu pai, Alice e Emmett. Eu tinha prometido entrar em contato depois do jantar com Ethan e, em vez disso, desaparecera durante a noite inteira sem dar qualquer notícia. As primeiras mensagens de Bella perguntavam se eu já tinha voltado ao hotel. Depois, o tom mudava conforme as horas passavam e eu não respondia. Edward avisava que iria para Seattle se eu continuasse incomunicável, Emmett queria o endereço de Ethan e Alice tinha enviado mensagens suficientes para me fazer imaginar que, se eu demorasse mais uma hora para aparecer, os três estariam batendo de porta em porta pela cidade.
Abri a conversa com minha mãe antes que minha família realmente começasse uma operação de busca.
"Mãe, estou bem. Desculpa não ter respondido. Meu celular ficou na bolsa e acabei dormindo. Volto para Forks hoje e explico tudo quando chegar. Como está a Belinha?"
A resposta veio tão depressa que Bella provavelmente estava com o celular na mão.
"BELINHA ESTÁ ÓTIMA. QUERO SABER ONDE VOCÊ ESTÁ."
Fechei os olhos por um instante e quase consegui ouvir a voz dela lendo aquelas palavras.
Claro que minha mãe usaria letras maiúsculas.
Digitei uma nova mensagem, escolhendo cuidadosamente o que dizer.
"Estou em segurança, mãe. Prometo. Daqui a pouco eu ligo e conversamos."
Não mencionei Jacob. Ainda não. Bella já tinha passado a noite preocupada comigo e eu não queria imaginar o que aconteceria quando Edward descobrisse que sua filha havia desaparecido depois de um encontro com Ethan e acordado na mansão de Jacob Black usando uma camisola emprestada. Eu mesma ainda estava tentando organizar essa história dentro da cabeça. Não precisava acrescentar meu pai furioso antes de conseguir tomar um café.
Guardei o celular na bolsa, respirei fundo e saí do quarto. O corredor do andar superior mantinha a mesma elegância discreta do restante da mansão, e caminhei devagar enquanto tentava me orientar naquele lugar enorme. Pouco depois encontrei uma escadaria ampla que dava para a sala principal e comecei a me aproximar, mas parei antes do primeiro degrau ao ouvir a voz de Jacob vindo do andar de baixo.
Ele estava de costas para mim, falando ao celular, enquanto um homem de terno permanecia alguns passos à sua frente com um tablet nas mãos. Bastou observar a postura do funcionário para entender que aquela conversa não estava indo bem. O homem parecia ter aprendido a arte de permanecer absolutamente imóvel enquanto Jacob Black destruía a manhã de alguém.
– Não me interessa quem cometeu o erro, quero saber quem vai corrigi-lo – Jacob falou ao telefone, andando alguns passos pela sala enquanto a irritação endurecia sua voz. – Estou olhando para perdas que não deveriam existir e não vou aceitar outro relatório tentando justificá-las. Se essa operação continuar consumindo dinheiro nesse ritmo, eu encerro tudo antes do fim do mês e substituo quem for necessário.
Permaneci no alto da escada, observando-o.
Aquele era o Jacob Black que eu imaginara quando Quil falou pela primeira vez sobre a empresa em que trabalhava. Ele não gritava. Na verdade, talvez fosse mais intimidador justamente porque não precisava fazer isso. Havia autoridade suficiente na maneira como falava para deixar claro que aquilo não era uma ameaça feita durante um momento de raiva. Se dissesse que fecharia alguma coisa, provavelmente fecharia.
Jacob ouviu alguma resposta do outro lado e sua expressão ficou ainda mais fechada.
– Não quero outra explicação sobre o problema. Quero uma solução na minha mesa antes do meio-dia. Se você não consegue me dar uma, encontre alguém que consiga.
Ele encerrou a ligação e voltou a atenção para o funcionário que aguardava diante dele.
– Revise os contratos dos últimos seis meses e cruze com todas as despesas da operação. Há dinheiro saindo de algum lugar sem justificativa e quero saber exatamente de onde antes de receber o próximo relatório.
– Vou providenciar, senhor Black – respondeu o homem, já fazendo algumas anotações no tablet.
– Não providencie. Resolva.
O funcionário assentiu e se afastou rapidamente.
Fiquei alguns segundos parada, olhando para Jacob sem que ele percebesse minha presença. Era difícil conciliar aquele homem com o mesmo que tinha me segurado enquanto eu chorava na noite anterior. No jardim, Jacob havia suportado minhas lágrimas sem demonstrar impaciência, me oferecido abrigo sem exigir qualquer explicação e, pelo que Rachel acabara de contar, ainda teve o cuidado de chamar a própria irmã quando percebeu que eu não tinha condições de cuidar de mim mesma. Agora, diante de um problema nos negócios, parecia outra pessoa. Frio, exigente e tão pouco disposto a tolerar incompetência que senti uma pontada de pena do homem que acabara de sair.
Comecei a descer as escadas.
– Bom dia – falei enquanto segurava discretamente o corrimão, ainda desconfiada da leve dor de cabeça.
Jacob virou o rosto imediatamente. A dureza da conversa anterior permaneceu em sua expressão por um breve instante, mas desapareceu assim que seus olhos encontraram os meus. Ele guardou o celular no bolso e me observou durante a descida, demorando um pouco mais na roupa antes de voltar a atenção para meu rosto.
– Bom dia, Nessie. – O tom dele estava completamente diferente agora. – Pela sua aparência, imagino que esteja melhor do que estava algumas horas atrás. Como está se sentindo?
Parei por um segundo ao ouvir meu apelido.
Nessie.
Até então, para Jacob, eu havia sido Renesmee, Cullen ou senhorita Cullen quando ele estava especialmente disposto a me provocar. Ouvir aquele nome em sua voz trouxe uma intimidade inesperada, pequena demais para que eu tivesse qualquer motivo racional para me importar, mas suficiente para me deixar consciente dela.
– Considerando que acordei em um quarto desconhecido, usando uma camisola que não lembrava de ter colocado e com uma parte da noite completamente apagada da memória, acho que estou surpreendentemente bem. – Continuei descendo e toquei discretamente a têmpora. – Só minha cabeça ainda está cobrando pelos excessos.
A expressão de Jacob ficou mais atenta.
– Está doendo muito?
– O suficiente para me ensinar uma lição, mas não para você transformar isso em uma emergência médica.
Um sorriso discreto apareceu no canto de sua boca.
– Não pretendia transformar em emergência alguma. Só queria saber se precisava mandar buscar alguma coisa para você.
A naturalidade da resposta me fez sentir ligeiramente culpada pela provocação.
– Não precisa. Acho que café, água e algumas horas serão suficientes.
– Finalmente uma decisão sensata nesta manhã.
– Rachel também pareceu satisfeita em usar minha ressaca contra mim. Estou começando a perceber uma semelhança de família.
– Minha irmã aproveita qualquer oportunidade para se divertir às minhas custas. Não incentive.
Sorri enquanto chegava aos últimos degraus.
– Ela também me emprestou a roupa. – Passei as mãos discretamente pela lateral da saia. – Ficou um pouco larga, mas foi melhor do que aparecer aqui embaixo usando uma camisola.
Jacob deixou os olhos percorrerem o conjunto sem qualquer pressa. Não havia constrangimento nele e isso acabou provocando constrangimento em mim.
– Ficou bem em você.
– Sua irmã provavelmente ficaria muito satisfeita em saber que você acha que as roupas dela ficam melhores em outra mulher.
– Por isso mesmo não vejo necessidade de informá-la.
Balancei a cabeça, contendo um sorriso.
Quando cheguei diante dele, porém, lembrei do verdadeiro motivo pelo qual tinha descido. A conversa com Rachel tinha respondido apenas parte das minhas perguntas. Eu sabia quem havia trocado minha roupa e como tinha ido parar no quarto, mas ainda existia uma lacuna enorme entre as últimas lembranças da noite anterior e o momento em que aparentemente apaguei.
– Jake, preciso que me conte o que aconteceu ontem à noite. Rachel explicou a parte em que você chamou por ela, mas minhas lembranças ficam bastante confusas depois que entramos na casa.
O sorriso desapareceu do rosto dele. Jacob me observou por alguns segundos antes de cruzar os braços.
– O quanto você lembra?
– Do jardim eu lembro praticamente tudo. Depois disso tenho algumas imagens soltas. A lareira, uma taça de vinho, nós conversando... – Franzi o cenho enquanto tentava organizar os fragmentos. – Depois fica tudo muito nebuloso.
– Isso acontece quando alguém resolve beber quatro taças de vinho sem ter jantado.
Arregalei os olhos.
– Eu bebi quatro taças?
– E tentou conseguir uma quinta.
A informação me fez fechar os olhos por um instante.
– Por favor, diga que pelo menos mantive alguma dignidade.
O sorriso de Jacob voltou, lento demais para me tranquilizar.
– Depende da definição que você usa para dignidade.
– Essa resposta foi péssima.
– Foi sincera.
Olhei desconfiada para ele.
– O que eu fiz?
Jacob soltou uma pequena risada e apontou para uma passagem que levava a outra parte da mansão.
– Primeiro você vai tomar café.
– Jake, eu já sobrevivi à vergonha de perguntar para sua irmã quem tirou meu vestido. Acredite, neste momento prefiro saber tudo de uma vez.
A diversão desapareceu de sua expressão ao ouvir aquilo.
– Rachel explicou?
– Explicou. E me tranquilizou.
– Ótimo. Então pelo menos uma preocupação já foi resolvida. Quanto ao restante, conto enquanto você come. Você praticamente não tocou na comida ontem, bebeu mais do que deveria e ainda está com dor de cabeça. Não vou ficar parado aqui assistindo você passar mal outra vez.
Dessa vez não discuti. Havia firmeza na voz dele, mas não me incomodou como talvez tivesse acontecido semanas antes. Talvez porque não parecesse uma disputa para decidir quem tinha razão. Jacob simplesmente havia percebido que eu não estava bem e estava cuidando da situação da maneira pouco delicada que parecia natural para ele.
– Tudo bem. Mas você vai me contar sem esconder as partes constrangedoras.
– Isso torna a conversa muito mais interessante para mim.
– Começo a me arrepender do acordo.
Jacob virou-se e começou a caminhar.
– Tarde demais.
O acompanhei e, depois de alguns passos, voltei a observá-lo discretamente. Ainda havia muitas perguntas. Precisava saber exatamente o que tinha contado sobre Ethan, o que havia feito depois da quarta taça e, principalmente, por que minha última lembrança mais forte era a sensação de estar protegida nos braços daquele homem.
Mas algo tinha mudado desde a noite anterior.
Eu tinha chegado àquela mansão sem saber para onde ir, assustada demais para voltar ao hotel e orgulhosa demais para ligar para minha família e admitir que todos estavam certos sobre Ethan. Jacob havia aberto a porta sem exigir explicações e, mesmo quando eu estava vulnerável demais para estabelecer qualquer limite, tinha respeitado todos eles.
Agora eu caminhava ao lado dele em direção ao café da manhã e percebia uma coisa que me deixou mais inquieta do que a própria lacuna na memória.
Eu ainda precisava voltar para Forks.
Só não estava mais com tanta pressa para ir embora.
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