Amor não era o plano

28 Jantar a luz de velas


Renesmee


Eu tinha passado os últimos dias tentando me convencer de que conseguiria lidar com aquilo de maneira racional, mas toda a minha coragem parecia desaparecer cada vez que olhava para a intimação. A audiência já tinha data marcada, meu advogado não escondia a dificuldade que enfrentaríamos e o nome de Alec Volturi continuava martelando na minha cabeça. Nunca perdeu uma causa. Eu sabia que reputações podiam ser exageradas e que nenhum processo era decidido apenas pelo advogado que estava diante do juiz, mas também sabia que Ethan não tinha escolhido aquele homem por acaso. Ele tinha dinheiro, influência e uma vida perfeitamente organizada em Seattle para apresentar diante de qualquer tribunal. Eu, naquele momento, morava novamente com meus pais e produzia doces na cozinha da minha mãe porque o prédio que comprei e a casa onde criei minha filha estavam no nome dele. Tudo aquilo tinha sido provocado por Ethan, mas bastava imaginar um advogado colocando nossas vidas lado a lado diante de um juiz para sentir o medo apertar meu peito. Eu não suportava a ideia de alguém decidir quantos dias eu poderia passar com Belinha, em quais finais de semana poderia colocá-la para dormir ou se teria permissão para buscá-la na escola. Era minha filha. Eu tinha cuidado dela durante cinco anos enquanto Ethan desaparecia por dias inteiros alegando viagens de trabalho que agora sabia terem outro nome, outra casa e outra família.

Talvez por isso eu tivesse feito exatamente aquilo que todos me aconselharam a não fazer.

Aceitei o jantar com Ethan.

Ele tinha ligado de outro número depois que bloqueei todos os que conhecia. Minha primeira reação foi desligar assim que ouvi sua voz, mas Ethan não pediu que eu voltasse, não discutiu e não fez ameaças. Apenas disse que aquela seria minha última oportunidade de ouvir a proposta antes da audiência. Eu deveria ter mandado que enfiasse a proposta onde bem entendesse. Em vez disso, fiquei olhando para Belinha brincando no chão da sala e pensei na possibilidade de perdê-la.

O medo venceu.

Agora eu estava em Seattle, sentada na cama de um quarto de hotel, olhando para o vestido que tinha escolhido para o jantar e me perguntando se estava prestes a cometer outro erro. Não contei a Ethan onde estava hospedada e fiz a reserva no meu próprio nome em um hotel distante dos lugares que ele costumava frequentar. Também tinha enviado para Emmett o endereço do restaurante e prometido que ligaria assim que saísse. Meu irmão queria vir comigo. Edward também. Recusei os dois. Se Ethan realmente tinha uma proposta relacionada à guarda de Belinha, eu precisava ouvi-la sem meu pai quebrando o nariz dele antes da sobremesa.

Meu celular começou a tocar sobre a cama.

Era uma chamada de vídeo da minha mãe.

Atendi imediatamente.

– Oi, mãe.

O rosto de Bella apareceu na tela.

– Finalmente. Eu já estava quase ligando para o hotel.

– Eu falei que ligaria antes de sair.

– Você também falou que não faria nenhuma besteira e está em Seattle para jantar com Ethan.

– Bella – ouvi Edward reclamar ao fundo.

– O quê? Estou mentindo?

Quase sorri.

– Onde está Belinha?

Minha mãe virou o celular.

Belinha apareceu sentada no chão de uma sala que reconheci imediatamente, cercada por lápis de cor e folhas de papel. Ela levantou o rosto assim que me viu.

– Mamãe!

– Oi, meu amor.

– Olha onde eu tô!

Meu sorriso desapareceu lentamente.

Eu conhecia aquela sala.

– Vocês estão na casa do vovô Charlie?

– Tô! Ele me deu chocolate!

– Antes do jantar? – perguntei.

Uma voz surgiu fora da câmera.

– Não começa, Nessie. Avô serve para isso.

Fechei os olhos.

– Meu Deus.

Minha mãe virou o aparelho novamente e eu vi Charlie sentado em sua poltrona. Edward estava ao lado dele com uma expressão que me disse tudo que precisava saber.

– Vocês contaram.

Bella fez uma careta.

– Não exatamente.

– Mãe.

– Ele percebeu que tinha alguma coisa acontecendo.

– Eu pedi para vocês não contarem nada ao vovô.

Charlie imediatamente protestou.

– E por que diabos eu seria o último a saber?

– Porque você não pode ficar nervoso!

– Eu estou velho, não morto.

– Pai – Bella repreendeu.

– Estou falando a verdade.

Passei a mão pela testa.

– Vovô, eu só não queria preocupar você.

– Pois conseguiu fazer exatamente o contrário.

– Seu coração...

– Meu coração está muito bem. Quem deveria se preocupar com o próprio coração é aquele sujeito se aparecer na minha frente.

– Charlie – Edward disse.

Olhei incrédula para meu pai.

– Você está repreendendo alguém por ameaçar o Ethan?

Edward ficou em silêncio.

Bella começou a rir.

– Essa eu também quero ouvir.

Meu pai ignorou nós duas e se aproximou da câmera.

– Renesmee, ainda acho que isso é um erro.

Meu sorriso desapareceu.

– Eu sei.

– Então volte para casa.

– Pai...

– Você não tem que sentar diante daquele homem e negociar sua filha.

– Eu não vou negociar a Belinha.

– Então o que espera conseguir nesse jantar?

Não soube responder imediatamente.

Talvez porque nem eu soubesse.

Queria ouvir Ethan. Queria saber até onde ele pretendia chegar. Acima de tudo, queria descobrir o que existia naquela pasta que ele carregava diante da escola e que tinha tentado me convencer a aceitar antes que Jacob aparecesse.

– Eu preciso saber o que ele quer.

– Nós já sabemos – Edward respondeu. – Ele quer controlar você.

As palavras me fizeram lembrar de Jacob dizendo exatamente a mesma coisa.

– Mesmo assim preciso ouvir.

Charlie se inclinou na poltrona.

– Não precisa coisa nenhuma. Volta para Forks, garota. A gente encontra um jeito.

Olhei para meu avô e senti os olhos arderem.

– Vovô...

– Você tem uma família inteira aqui. Esse sujeito pode ter dinheiro, advogado caro e o diabo que for. Ele não vai simplesmente pegar a menina e ir embora.

– Eu sei.

– Então volta para casa.

– Eu vou voltar. Só preciso fazer isso primeiro.

Edward balançou a cabeça.

– Você está desesperada, filha. E não é uma crítica. Eu estaria também. É justamente por isso que não deveria encontrar Ethan sozinha.

– Eu sei o que estou fazendo.

Meu pai me lançou aquele olhar que dizia claramente que não acreditava.

– Tem certeza?

Não.

Eu estava apavorada.

Mas não diria aquilo na frente deles.

– Tenho.

Belinha surgiu novamente diante da câmera.

– Mamãe, quando você volta?

Meu coração apertou.

– Amanhã, meu amor.

– Você vai dormir aí?

– Vou.

– Posso dormir com a vovó?

Edward apareceu atrás dela.

– Você vai dormir comigo.

Belinha fez uma careta.

– Você ronca.

Bella começou a rir e até Charlie abriu um sorriso.

Edward pareceu ofendido.

– Eu não ronco.

– Ronca sim.

– Quem falou?

– A vovó.

Meu pai olhou para Bella.

– Traidora.

Ri, e durante alguns segundos aquela conversa conseguiu afastar o peso que eu carregava desde que chegara a Seattle.

– Se comporte, está bem? Nada de ficar acordada até tarde.

– Tá.

– E chega de chocolate.

Charlie reclamou imediatamente.

– Ela comeu um pedaço.

– Eu conheço seus pedaços, vovô.

– Sua mãe sobreviveu.

Bella balançou a cabeça.

– Não use minha infância como argumento.

Belinha riu e eu aproveitei aquele som, tentando guardar a sensação que ele provocava. Era justamente por ela que eu estava ali.

– Mamãe precisa ir agora.

A expressão da minha filha murchou.

– Tá bom.

– Eu amo você.

– Também te amo.

– Muito?

Ela abriu os braços diante da câmera.

– Desse tamanho.

Sorri.

– Eu amo você maior.

– Não vale!

– Vale porque sou sua mãe.

Depois que Belinha saiu correndo, meu sorriso desapareceu. Edward percebeu imediatamente.

– Ainda dá tempo de desistir.

– Pai, confia em mim.

– Eu confio em você. Não confio nele.

– Nem eu.

Charlie apontou um dedo para a câmera.

– Se aquele sujeito ameaçar você...

– Eu vou embora.

Bella se aproximou.

– Nós vamos encontrar uma saída, Nessie.

Assenti. – Eu sei.

Despedi-me deles e encerrei a chamada antes que minha coragem desaparecesse completamente. Por alguns segundos permaneci sentada na cama olhando para a tela escura do celular. A imagem de Belinha continuava na minha cabeça. Desse tamanho. Ela tinha aberto os braços para mostrar quanto me amava sem fazer ideia de que adultos estavam discutindo em tribunais onde deveria morar.


Aquilo me deu forças para levantar.


Peguei minha bolsa, conferi novamente o endereço do restaurante e saí do quarto. Durante todo o caminho pelo corredor, tentei repetir para mim mesma que aquele era apenas um jantar. Eu ouviria Ethan, descobriria o que ele queria e iria embora. Não assinaria nada. Não aceitaria nada naquela noite. Meu advogado veria qualquer documento antes que eu sequer considerasse uma proposta.


Saí do elevador, atravessei o saguão do hotel e entrei no carro que me esperava do lado de fora. Durante o trajeto, mantive as mãos apertadas sobre a bolsa enquanto as luzes de Seattle passavam pela janela. Quando o veículo finalmente parou diante do restaurante escolhido por Ethan, respirei fundo e olhei para a entrada.

Eu não estava indo encontrar o homem que amei.

Aquele homem nunca existiu. Estava indo descobrir quanto Ethan Hale acreditava que custava o direito de continuar sendo mãe da minha própria filha.



Eu deveria ter percebido que alguma coisa estava errada quando o motorista passou direto pela região onde ficava o restaurante que Ethan havia mencionado. Nos primeiros minutos imaginei que estivesse pegando outro caminho por causa do trânsito, mas logo os prédios comerciais deram lugar a ruas mais tranquilas e residenciais, e meu desconforto aumentou a cada esquina.

Peguei o celular dentro da bolsa e conferi o endereço que Ethan tinha enviado, percebendo tarde demais que eu apenas presumira que se tratava de um restaurante. O endereço não tinha nome de estabelecimento algum. Olhei para o motorista pelo retrovisor e perguntei quanto ainda faltava. Ele respondeu que estávamos chegando e, menos de dois minutos depois, o carro diminuiu a velocidade diante de um portão que se abriu automaticamente.

Meu coração acelerou.

Do outro lado havia uma casa enorme, cercada por um jardim impecavelmente cuidado e iluminada por pequenas luzes distribuídas pelo caminho de pedras. Era bonita, talvez bonita demais, com grandes janelas de vidro, dois andares e uma arquitetura moderna que parecia ter saído de alguma revista. O carro avançou pela entrada e parou diante da varanda.

Ethan estava me esperando.

Desci segurando a bolsa contra o corpo e imediatamente me arrependi de não ter ido embora no instante em que percebi que aquele não era o lugar combinado. Ethan desceu os poucos degraus da varanda usando uma camisa social escura e abriu um sorriso ao me ver.

– Você veio.

– Você disse que jantaríamos em um restaurante.

– Eu disse que jantaríamos.

– Não começa.

Passei os olhos pela casa. – Onde estamos?

– Entre. Eu explico.

– Pode explicar aqui.

– Renesmee, está frio.

– Isso nunca incomodou você quando desaparecia por uma semana e me deixava esperando explicações.

O sorriso dele desapareceu por alguns segundos, mas voltou rapidamente.

– Entra, amor.

Meu estômago se revirou. – Não me chama assim.

– Você continua brigando com coisas pequenas enquanto nossa vida desmorona.

– Não existe nossa vida.

– Entra.

Eu deveria ter ido embora. Sabia disso. Mas pensei em Belinha, na audiência, em Alec Volturi e na possibilidade de aquela casa ter alguma relação com a proposta que Ethan pretendia fazer. Eu precisava saber exatamente o que ele estava planejando antes de decidir meu próximo movimento.

Subi os degraus e Ethan abriu a porta para mim.

Assim que entrei, entendi que aquele jantar não tinha sido preparado como uma reunião para discutir nossa filha. A sala estava iluminada principalmente pela lareira e por algumas luminárias, havia música baixa tocando e uma mesa posta para duas pessoas. Duas taças, pratos, velas e uma garrafa de vinho aberta esperavam sobre a mesa. Parecia a tentativa ridícula de recriar um jantar romântico que eu jamais teria aceitado se soubesse das intenções dele.

Virei imediatamente. – Que palhaçada é essa?

Ethan fechou a porta. – Um jantar.

– Isso não é um jantar para discutir a Belinha.

– Nós podemos discutir enquanto comemos.

– Eu não vim aqui para ter um encontro com você.

– Eu sei.

– Tem certeza? Porque aparentemente você perdeu completamente a noção da realidade.

Ele caminhou até a mesa e pegou a garrafa de vinho. – Senta.

– Não.

Ethan serviu uma taça mesmo assim e estendeu para mim, mas não aceitei. – Para de ser ridículo e vai direto ao ponto. O que você quer?

Ele me observou por alguns segundos antes de levar a própria taça aos lábios. Tomou um gole tranquilamente, como se eu não estivesse a poucos segundos de perder a paciência. – Quero resolver nossa situação.

– Não existe nossa situação. Existe você tentando tirar minha filha de mim.

– Nossa filha.

– Não usa isso agora.

– É justamente por ela que estamos aqui.

Soltei uma risada incrédula. – Você pediu a guarda integral dela.

Pela primeira vez, a segurança dele vacilou.

– Tenho meus motivos.

– Eu imagino os seus motivos.

– Imagino quem contou.

Não respondi.

– Black.

A maneira como pronunciou o sobrenome me chamou a atenção.

– Isso não interessa.

– Ele está se metendo demais na nossa vida.

– Você não tem mais uma vida comigo.

Ethan colocou a taça sobre a mesa.

– Só porque você decidiu transformar tudo numa guerra.

– Eu descobri que o homem que dormia na minha cama era casado com outra mulher e tinha outro filho. O que exatamente esperava que eu fizesse? Pedisse desculpas por descobrir?

– Eu cometi erros.

– Você construiu uma vida inteira em cima de uma mentira.

– E ainda assim eu cuidei de você e da Belinha durante todos esses anos.

– Cuidou tanto que tirou nossa casa.

Ele olhou ao redor. – Não tirei.

Franzi o cenho.

Ethan abriu os braços discretamente. – Comprei outra.

Demorei alguns segundos para entender. – O quê?

– Essa casa.

Olhei ao redor novamente. – Eu comprei para você e Belinha.

Meu estômago embrulhou. – Você está louco.

– Tem quatro quartos, uma área externa enorme e uma escola excelente a poucos minutos daqui. Belinha teria tudo que precisa.

– Ela já tinha uma casa, em Forks, aquela era a casa dela!

– E agora pode ter uma melhor.

Balancei a cabeça. – Qual é o preço?

– Não existe preço.

– Com você existe.

Ethan se aproximou. – Só precisa parar de lutar contra mim.

– Traduz.

– Aceita a casa. Muda para Seattle com Belinha. Eu devolvo a doceria para você ou compro outra aqui, se preferir. Você pode trabalhar, pode continuar com sua vida e eu fico perto da minha filha.

– E Claire?

Ele permaneceu em silêncioe aquilo respondeu tudo.

– Você continua casado com ela e eu fico escondida nesta casa esperando quando decidir aparecer.

– Não precisa ser assim.

– É exatamente assim.

– Eu amo você.

Soltei uma risada amarga. – Você não sabe amar ninguém.

Ethan chegou mais perto. – Sei que sou louco por você.

Antes que percebesse sua intenção, ele passou um braço pela minha cintura e me puxou contra seu corpo. Fiquei rígida imediatamente. Ethan encostou o rosto próximo ao meu pescoço e senti sua respiração contra minha pele.

– Senti falta disso – murmurou. – Senti falta de você.

Empurrei seu peito com força e consegui me afastar. – Não toca em mim.

– Para de fingir que tudo que tivemos desapareceu. – Não estou fingindo. Acabou.

– Você está com raiva.

– Estou com nojo.

A expressão dele endureceu. – Cuidado.

– Com o quê? Com você?

Peguei minha bolsa com mais força. – Eu prefiro vender minha alma ao diabo a voltar a ser sua.

Ethan passou a língua pelos dentes e respirou fundo.

– Não torna as coisas mais difíceis do que precisam ser.

– Foi você que fez isso.

– Eu estou oferecendo tudo de volta.

– Em troca que eu seja sua amante.

– Em troca da nossa família.

– Nós nunca fomos uma família, Ethan. É isso que você ainda não entendeu. Enquanto eu acreditava que estava construindo uma vida com você, você voltava para Seattle e dormia ao lado da sua esposa.

– Acabou — Falei passando por ele mas Ethan segurou meu pulso.

– Renesmee.

Puxei o braço. – Me solta.

– Escuta.

– Eu já escutei o suficiente.

Ele tentou me puxar novamente e, quando me virei, Ethan segurou minha cintura e tentou me beijar mas virei o rosto. – Para!

– Para de lutar comigo.

A frase provocou alguma coisa dentro de mim.

Quando ele tentou me beijar novamente, não pensei duas vezes, m ordi seu lábio com força.

Ethan me soltou imediatamente.

– Porra!

Não esperei que ele reagisse e sai correndo dali.

Atravessei a sala enquanto ouvia Ethan xingar atrás de mim, abri a porta e saí para a varanda praticamente tropeçando nos próprios pés.