Amor não era o plano
29 Cartão de visitas
Notas iniciais
Renesmee
Eu já estava dentro daquele táxi havia tempo suficiente para o motorista ter perguntado duas vezes para onde deveria me levar, e nas duas eu tinha conseguido inventar alguma resposta apenas para ganhar mais alguns minutos. Na primeira, pedi que continuasse seguindo em frente. Na segunda, disse que ainda estava procurando o endereço no celular. A verdade era muito mais simples e muito mais humilhante. Eu não fazia ideia de para onde ir. Passava das dez da noite, eu estava em Seattle, sozinha, com o coração ainda disparado depois de ter praticamente fugido da casa que Ethan comprara para me manter como amante. Voltar para Forks naquela hora significaria enfrentar horas de estrada cansada e abalada, além de precisar explicar aos meus pais por que tinha retornado no meio da madrugada. Eu poderia voltar para o hotel, mas Ethan sabia que eu estava hospedada em algum lugar da cidade e, depois do que tinha acabado de acontecer, a simples possibilidade de ele descobrir onde me encontrava fazia meu estômago se contrair.
Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos por alguns segundos. Ainda sentia a mão de Ethan na minha cintura, a pressão de seu corpo quando tentou me beijar e, principalmente, ouvia sua voz dizendo para que eu parasse de lutar contra ele. Eu tinha sido uma completa idiota ao aceitar aquele jantar. Edward estava certo. Emmett estava certo. Charlie estava certo. Todo mundo tinha me avisado, mas o medo de perder Belinha tinha sido maior que meu bom senso. Ethan sabia disso. Sabia exatamente onde me atingir e tinha preparado aquela casa como se estivesse me oferecendo um presente, quando na verdade cada cômodo fazia parte de uma negociação. Minha casa, minha doceria, a guarda da minha filha e, em troca, eu deveria aceitar continuar pertencendo a ele.
– Senhora?
Abri os olhos e encontrei o motorista me observando pelo retrovisor.
– Desculpa.
– Preciso saber para onde vamos.
– Eu sei. Só um minuto.
Abri a bolsa procurando o celular. Minha mão passou pela carteira, algumas chaves, um batom e pequenos papéis até meus dedos encontrarem um cartão mais rígido no fundo. Puxei sem pensar e quase o devolvi quando reconheci.
O cartão tinha sido entregue por Quil semanas antes, quando ele devolveu meu carro depois que Jacob apareceu em Forks. Eu nem lembrava de tê-lo guardado. Na ocasião, Quil disse que aquele era um contato caso eu precisasse falar com Jacob e eu simplesmente enfiei o cartão na bolsa sem imaginar que algum dia usaria.
Passei o polegar sobre as letras.
Jacob Black.
Havia um número particular e, abaixo, um endereço residencial em Seattle.
Fiquei olhando para aquilo por alguns segundos.
Minha primeira vontade foi guardar novamente.
Eu tinha saído do almoço com Jacob praticamente dizendo que não precisava dele. Recusei seus advogados, sua ajuda e até a carona de volta para casa porque fiquei furiosa quando descobri que ele tinha investigado minha vida sem autorização. Jacob era dominador, arrogante e tinha uma facilidade irritante para decidir o que considerava melhor antes de perguntar se alguém concordava. Eu tinha acabado de fugir de um homem que tentou fazer exatamente isso comigo.
Mas havia uma diferença que naquele momento eu não conseguia ignorar.
Jacob tinha me contado a verdade.
Tudo que ele disse que Ethan faria estava acontecendo.
Primeiro a casa. Depois a doceria. Em seguida, a guarda de Belinha. E, quando eu estivesse assustada o suficiente, Ethan apareceria oferecendo uma saída para o problema que ele próprio tinha criado.
A casa daquela noite era exatamente essa saída.
Fechei os olhos.
– Que droga, Jacob.
O motorista voltou a olhar pelo retrovisor.
– Senhora?
Estendi o cartão entre os bancos.
– Pode me levar para esse endereço?
Ele pegou, conferiu rapidamente e assentiu.
– Claro.
Recostei no banco enquanto o carro mudava de direção. Durante todo o trajeto tive vontade de pedir que voltasse. Eu poderia procurar outro hotel, ligar para Emmett ou simplesmente enfrentar a estrada para Forks. Qualquer uma dessas opções faria mais sentido do que aparecer sem aviso na casa de Jacob Black depois das dez da noite.
Mesmo assim, não mandei o motorista parar.
Quando entramos em uma região mais afastada e sofisticada de Seattle, percebi que não deveria ter me surpreendido com o endereço. As propriedades ficaram maiores, os muros mais altos e a movimentação nas ruas diminuiu. Alguns minutos depois, o táxi reduziu a velocidade diante de uma entrada ampla protegida por um portão alto.
Olhei para o cartão mais uma vez.
– É aqui?
– É o endereço.
Paguei a corrida e desci.
O táxi foi embora e, no instante em que vi as lanternas traseiras desaparecerem, pensei seriamente que talvez tivesse cometido outra idiotice naquela noite. Diante de mim havia uma propriedade enorme cercada por muros e árvores. A iluminação discreta deixava visível parte da construção mais ao fundo, e mesmo daquela distância dava para perceber que chamar aquilo de casa seria modéstia. Era uma mansão.
Claro que era.
Jacob Black provavelmente não saberia morar em algum lugar que não anunciasse poder antes mesmo de alguém atravessar o portão.
Aproximei-me da entrada e não consegui chegar muito longe antes de um segurança sair da guarita.
– Boa noite, senhora.
– Boa noite.
– Posso ajudar?
Apertei a alça da bolsa.
– Eu preciso falar com Jacob Black.
– O senhor Black está esperando a senhora?
– Não.
O homem permaneceu educado, mas imediatamente mais atento.
– Tem horário marcado?
Quase ri diante do absurdo.
– Não. Na verdade, ele nem sabe que eu estou aqui.
– Preciso do seu nome.
Hesitei apenas um instante.
– Renesmee Cullen.
A reação dele foi discreta, sem qualquer sinal de reconhecimento. O segurança pediu que eu aguardasse e falou alguma coisa pelo rádio. Não consegui entender a resposta, apenas percebi quando outro homem apareceu mais adiante e os dois trocaram algumas palavras. Esperei abraçada à própria bolsa, sentindo minha coragem diminuir a cada segundo. Talvez Jacob nem estivesse em casa. Talvez estivesse acompanhado. Talvez mandasse dizer que não queria me receber depois da forma como o tratei em Forks.
A ideia me incomodou mais do que deveria.
Alguns minutos depois, o primeiro segurança voltou.
– Senhorita Cullen?
– Sim.
– Pode me acompanhar.
Soltei o ar que nem percebera estar prendendo.
– Obrigada.
O portão foi aberto e caminhei ao lado dele por uma entrada longa. A propriedade parecia ainda maior por dentro. A mansão ficava mais ao fundo, cercada por jardins perfeitamente cuidados, árvores altas e caminhos iluminados por pequenas luzes no chão. Havia alguma coisa elegante no lugar sem parecer exageradamente decorado. Era bonito, imponente e muito organizado. Combinava assustadoramente com o homem que morava ali.
Subimos alguns degraus, mas, em vez de me levar para dentro da casa, o segurança indicou um caminho lateral.
– Pode aguardar no jardim, senhorita Cullen. O senhor Black já foi avisado.
– Claro.
– Ele vem encontrá-la.
– Obrigada.
O homem se afastou e fiquei sozinha.
Olhei ao redor sem saber exatamente o que fazer com as mãos ou comigo mesma. O jardim era amplo e silencioso, iluminado o suficiente para que eu enxergasse as plantas ao redor. Caminhei alguns passos e parei diante de um conjunto de roseiras. As flores vermelhas chamaram minha atenção imediatamente. Aproximei-me e toquei delicadamente uma das pétalas, tentando me concentrar naquilo em vez de pensar na conversa que teria em alguns minutos.
O que eu diria?
Oi, Jacob. Você estava certo e eu fui uma idiota?
Não.
Talvez pudesse começar explicando o que aconteceu com Ethan. A audiência. Alec Volturi. A proposta. A casa.
Ou simplesmente admitir a verdade.
Eu estava com medo.
Muito mais do que queria que alguém soubesse.
Ouvi passos atrás de mim, mas não tive tempo de me virar antes de uma voz grave quebrar o silêncio do jardim.
– – As vermelhas são as mais bonitas. Embora eu tenha que admitir que hoje elas estão enfrentando uma concorrência desleal
Fechei os olhos por um segundo e virei lentamente.
Ele estava alguns metros atrás de mim, sem paletó ou gravata, usando apenas uma camisa escura com as mangas dobradas. O olhar percorreu meu rosto e parou em mim com uma intensidade que fez meu coração acelerar por um motivo que, dessa vez, não tinha nada a ver com Ethan.
Jacob inclinou levemente a cabeça, e um sorriso discreto surgiu no canto de sua boca.
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