Amor não era o plano
17 Irmão mais velho
Renesmee
A volta de Emmett era uma das poucas coisas que eu esperava com verdadeira ansiedade naquela semana. Dois anos pareciam muito mais quando alguém da família estava longe, principalmente alguém como meu irmão, que nunca soube chegar discretamente a lugar algum e tinha a capacidade de ocupar qualquer ambiente com sua voz, suas piadas e aquela mania irritante de implicar com todo mundo que amava. Eu sabia que ele chegaria naquele fim de semana, mas ninguém tinha me contado o horário, então imaginei que só o encontraria mais tarde na casa dos meus pais, provavelmente durante algum jantar exagerado que Bella já devia estar planejando desde que soubera a data da volta dele. Por isso, naquela manhã, enquanto eu estava atrás do balcão da doceria conferindo a lista de encomendas e tentando descobrir como encaixar dois pedidos de última hora, ouvi a porta abrir e nem levantei a cabeça. Jessica estava na cozinha terminando algumas embalagens, Alice tinha aparecido havia pouco para me fazer companhia e Belinha estava na escola, então minha atenção estava completamente voltada para o papel diante de mim.
– É assim que você recebe seu irmão favorito depois de dois anos?
Levantei a cabeça tão depressa que quase derrubei a caneta. – Emmett?
Ele estava parado diante do balcão com os braços abertos e o mesmo sorriso enorme de que eu me lembrava. Por alguns segundos apenas fiquei olhando para ele, porque chamadas de vídeo ajudavam a diminuir a saudade, mas não substituíam a sensação de ter meu irmão ali de verdade. Então abandonei tudo sobre o balcão, dei a volta e praticamente corri em sua direção.
– Finalmente!
Emmett riu quando me joguei em seus braços e, como se eu ainda tivesse quinze anos, me levantou do chão com uma facilidade irritante.
– Também senti sua falta, pequena.
– Me coloca no chão!
– Dois anos sem me ver e já começou a reclamar?
– Você vai quebrar minhas costelas!
– Continua dramática.
– E você continua idiota.
Ele finalmente me colocou no chão, mas não me afastei imediatamente. Abracei meu irmão mais uma vez, dessa vez sem correr o risco de ser esmagada, e senti uma felicidade que fazia falta desde Seattle. Quando me afastei, segurei seus braços e o observei com atenção.
– Deixa eu olhar para você. Emmett abriu os braços.
– Pode admirar.
– Continua convencido.
– Isso não é convencimento quando é verdade.
– Dois anos estudando e ninguém conseguiu melhorar sua personalidade?
– Tentaram. Eu resisti bravamente.
– Não acredito!
A voz de Alice veio da cozinha e, no instante seguinte, minha irmã apareceu. Ela abriu um sorriso enorme ao ver Emmett e correu para abraçá-lo.
– Você chegou!
– Cheguei, tampinha.
Alice se afastou imediatamente.
– O quê?
Emmett colocou a mão sobre a cabeça dela e fez uma expressão séria.
– Impressionante. Dois anos e você continua tampinha.
Alice deu um tapa no braço dele.
– Idiota!
Comecei a rir.
– Você esperava que ela crescesse depois de adulta?
– Eu tinha esperança.
– Eu tenho altura normal! – Alice protestou.
Emmett olhou para mim. – Ela continua dizendo isso?
– Continua.
– Vocês dois são insuportáveis.
Ele passou o braço pelos ombros dela e a puxou para perto.
– Eu também senti sua falta.
Alice tentou manter a cara fechada por alguns segundos antes de sorrir e abraçá-lo novamente.
– Quando você chegou?
– Hoje cedo.
– Hoje cedo? – perguntei. – E só veio aqui agora?
– Passei em casa primeiro. Achei que encontraria todo mundo, mas a mãe tinha saído e o velho Cullen está de plantão.
Eu e Alice olhamos para ele ao mesmo tempo.
– O velho Cullen? – repeti.
– É.
Alice cruzou os braços e abriu um sorriso provocador.
– Quero ver você ter coragem de chamar o papai assim na frente dele.
Emmett puxou uma cadeira.
– Eu tenho.
– Mentira – falei.
– Não tenho medo do Edward.
– Então chama ele de velho Cullen quando ele chegar – Alice insistiu.
Emmett pensou por alguns segundos e pegou um doce da vitrine antes que eu conseguisse impedi-lo.
– Não vejo necessidade de provocar um senhor de idade.
Eu e Alice começamos a rir. – Covarde – ela disse.
– Inteligente. Existe uma diferença.
– E paga esse doce – avisei.
Emmett já tinha colocado metade na boca.
– Sou seu irmão.
– E?
– Família não paga.
– Na minha loja paga.
– Você ficou muito capitalista enquanto eu estava fora.
– Paga Emmett.
Ele riu e pegou a carteira, enquanto Alice aproveitava para pegar outro doce escondida.
– Eu vi isso.
– Eu trabalho aqui.
– Exatamente, trabalha aqui.
– E ainda ajudo emocionalmente.
– Então vou começar a pagar seu salário emocionalmente.
Alguns minutos depois, estávamos sentados em uma das mesas próximas à vitrine com três xícaras de café diante de nós.
Por algum tempo foi fácil esquecer tudo que tinha acontecido nos últimos dias. Emmett contou algumas histórias sobre a especialização, reclamou do lugar onde tinha morado, falou das pessoas que conhecera e fez Alice quase engasgar de tanto rir ao contar sobre uma apresentação em que tinha esquecido completamente o nome de um professor. Eu apenas ouvia, ria e aproveitava aquela sensação familiar que havia feito tanta falta. Ter meu irmão novamente em Forks parecia devolver uma pequena parte da normalidade que Ethan tinha arrancado da minha vida.
Em algum momento, porém, Emmett ficou mais sério. Ele girou a xícara entre as mãos e me observou durante alguns segundos antes de falar.
– O pai me deixou por dentro do que aconteceu.
Meu sorriso diminuiu.
– Claro que deixou.
– Ele me ligou antes mesmo de avisar que eu ia voltar.
– Isso também não me surpreende.
– Ele está preocupado com você.
– Todo mundo está.
Emmett inclinou a cabeça.
– E eu também.
Mexi o café lentamente. – Se essa conversa envolver Ethan, esse nome está proibido na minha vida.
Alice soltou um suspiro. – Infelizmente não tem como apagar completamente o Ethan da sua vida.
Olhei para ela. – Minha proibição durou quatro segundos.
– Estou sendo realista, Nessie. Tem a Belinha.
– Eu sei.
Minha resposta saiu mais baixa. Era a parte que tornava tudo muito mais complicado. Eu podia bloquear Ethan, tirar as coisas dele da minha casa e decidir que nunca mais permitiria que ele fizesse parte da minha vida como homem, mas não podia apagar o fato de que era pai da minha filha. Belinha continuava perguntando por ele, continuava amando o pai e ainda não tinha idade para entender por que as coisas tinham mudado de repente.
Emmett apoiou os braços sobre a mesa. – Como você está?
– Bem.
– Não acredito.
– Então por que perguntou?
– Para ver se você ainda mente mal.
Alice riu. – Continua péssima.
– Obrigada pelo apoio de vocês.
Emmett estendeu a mão por cima da mesa e apertou a minha. – Não precisa fingir comigo.
– Não estou fingindo. Estou lidando com isso. Tem dias melhores, outros piores, mas não quero passar minha vida falando sobre ele. Já perdeu tempo demais da minha vida.
Meu irmão assentiu e não insistiu. Eu sabia que Edward provavelmente tinha contado até sobre o soco que dera em Ethan na doceria, mas Emmett teve o bom senso de não começar um interrogatório.
– Então vamos falar de alguém que realmente importa. Cadê minha sobrinha?
– Na escola.
– Ela sabe que eu cheguei?
Eu e Alice trocamos um olhar.
Emmett estreitou os olhos.
– Por que vocês se olharam?
– Ninguém se olhou – respondi.
Alice começou a rir.
– Ontem a Belinha perguntou quem era tio Emmett.
– Alice!
Emmett colocou a mão sobre o peito.
– Minha própria sobrinha me esqueceu?
– Ela não esqueceu. Ela tinha três anos quando você foi embora.
– Eu fazia chamadas de vídeo!
– Para uma criança de cinco anos isso não representa uma memória muito organizada.
– Vou corrigir isso hoje.
– Não vai comprar minha filha – avisei rindo.
– Não prometo.
– Emmett.
– Talvez eu tenha trazido alguns presentes.
Alice arqueou as sobrancelhas.
– Quantos são alguns?
– Uma quantidade responsável.
– Uma mala? – perguntei. Ele desviou os olhos.
– Vamos falar de outra coisa.
Começamos a rir novamente, e eu estava prestes a perguntar quantas malas ele tinha trazido quando a porta da doceria se abriu. Um homem que eu nunca tinha visto entrou carregando uma pasta pequena debaixo do braço. Ele olhou ao redor, pareceu confirmar o endereço e caminhou em nossa direção.
– Renesmee Cullen?
Coloquei minha xícara sobre a mesa.
– Sou eu.
Levantei e o homem retirou um envelope da pasta.
– Tenho uma entrega para a senhora.
– Para mim?
– Sim. Preciso apenas que assine o recebimento.
Ele me entregou uma prancheta e uma caneta. Olhei rapidamente para o envelope, tentando encontrar alguma identificação que explicasse o conteúdo.
– Posso saber do que se trata?
– As informações estão na documentação, senhora. Aquilo não ajudou muito.
Conferi meu nome no comprovante, assinei onde ele indicou e devolvi a prancheta.
– Pronto.
– Obrigado. Tenha um bom dia.
– Obrigada.
O homem saiu e fiquei alguns segundos olhando para o envelope em minhas mãos.
– Isso parece coisa ruim – Emmett comentou.
– Nossa, obrigada pelo otimismo.
– Quando alguém entrega papel dentro de envelope e pede assinatura, nunca é convite para festa.
Alice se inclinou sobre a mesa.
– Abre logo.
– Curiosa.
– Muito.
Sentei novamente e abri o envelope. Retirei algumas folhas grampeadas e comecei a ler. Na primeira passada, as palavras não fizeram muito sentido. Meu nome aparecia no documento, assim como o endereço completo da doceria, e havia várias referências ao imóvel.
Voltei ao início e li com mais atenção, sentindo o sorriso desaparecer completamente quando encontrei uma expressão que não deveria estar ali. Desocupação do imóvel. Franzi o cenho.
– O quê?
Alice percebeu imediatamente.
– O que foi?
Não respondi. Passei para a página seguinte e continuei lendo. Havia um prazo determinado, referências legais que eu não entendia completamente e uma notificação formal para que o imóvel onde funcionava minha doceria fosse desocupado.
Emmett estendeu a mão.
– Me dá isso.
Entreguei os documentos e ele começou a ler. Alice se levantou e ficou ao lado dele, tentando acompanhar.
– Nessie – Emmett disse depois de alguns segundos. – Isso é uma ordem de despejo.
– Não.
– Está escrito aqui.
– Eu sei ler, Emmett. Estou dizendo que está errado.
Alice franziu o cenho.
– Você está com aluguel atrasado?
Olhei para ela.
– Que aluguel?
– Da loja.
– Eu não pago aluguel.
Emmett levantou os olhos dos documentos.
– Como assim?
– O prédio é meu.
Os dois ficaram em silêncio. Levantei e peguei as folhas novamente.
– Deve ser algum engano. Eu comprei esse prédio.
– Você comprou? – Emmett perguntou.
– Sim. Faz dois anos.
– Então ninguém pode simplesmente mandar você desocupar um imóvel que é seu.
– Exatamente.
Passei os olhos pelo documento outra vez, procurando alguma informação que explicasse aquilo.
– Eu juntei dinheiro durante dois anos para comprar esse lugar. Dei praticamente tudo que tinha de entrada e financiei o restante. Ethan cuidou de tudo.
O nome saiu naturalmente.
Mas o silêncio que veio depois fez alguma coisa dentro de mim parar.
Levantei os olhos. Emmett me encarava.
– O Ethan cuidou?
Minha boca ficou seca. – Sim.
– Cuidou de quê exatamente?
Olhei para os documentos em minhas mãos. – Da compra.
Emmett se endireitou na cadeira. – Como?
– Ele conhecia pessoas que podiam ajudar com a negociação. O antigo proprietário queria vender e eu não entendia nada dessas coisas. Ethan disse que cuidaria para mim. Ele conversou com o banco, resolveu a documentação, levou os papéis para eu assinar...
Minha voz começou a diminuir conforme as lembranças surgiam.
Alice deixou de olhar para os documentos e passou a olhar para mim.
– Nessie...
– Eu estava trabalhando muito naquela época. A Belinha ainda era pequena, a loja estava começando a crescer e eu não tinha tempo para ficar indo em banco e cartório. Ethan disse que resolveria tudo. Emmett se levantou.
– Onde estão as escrituras?
Olhei para ele. – O quê?
– As escrituras do prédio. Onde estão?
Abri a boca para responder. Não consegui.
– Nessie?
– Eu tenho os documentos.
– Onde?
– Em casa.
Emmett continuou me encarando.
– Você tem a escritura registrada no seu nome?
– Claro que tenho.
A resposta saiu automática. Mas alguma coisa dentro de mim já não tinha a mesma certeza.
– Então onde está? – ele perguntou.
Tentei lembrar. Eu me lembrava do dia em que Ethan apareceu dizendo que finalmente estava tudo resolvido. Lembrava de abrir uma garrafa de vinho para comemorar. Lembrava de ligar para meus pais e dizer que a doceria era realmente minha. Lembrava até de pegar Belinha no colo e contar que a mamãe tinha comprado aquele lugar, embora ela fosse pequena demais para entender por que eu estava tão feliz.
Mas não conseguia lembrar da escritura.
– Ethan guardava os documentos importantes – falei lentamente. – Ele organizava essas coisas.
Alice se aproximou. – Você nunca ficou com uma cópia?
– Deve estar em casa.
– Deve? – Emmett repetiu. Olhei para meu irmão.
– Eu assinei os documentos.
– Eu não estou perguntando se você assinou. Estou perguntando se já viu uma escritura desse prédio com seu nome.
A pergunta me atingiu com força.
Tentei lembrar de papéis, assinaturas, reuniões e envelopes. Ethan chegava com documentos e dizia onde eu precisava assinar. Algumas vezes explicava rapidamente o conteúdo, outras dizia que já tinha conferido tudo e que eu não precisava me preocupar.
E eu não me preocupava.
Porque confiava nele.
– Eu não sei – admiti. Alice segurou meu braço.
– Nessie, pensa com calma.
– Estou pensando.
– Você foi ao cartório? – Emmett perguntou.
Balancei a cabeça devagar. – Acho que não.
– Ao banco?
– Algumas vezes no começo. Depois Ethan assumiu.
– Quem negociou com o proprietário?
– Ethan. – Quem cuidou do financiamento?
– Ethan.
– Quem ficou com os documentos?
Fechei os olhos. – Ethan.
O silêncio pareceu ocupar a doceria inteira.
Olhei para a ordem de despejo novamente e senti minhas mãos começarem a tremer.
– Meu Deus.
Alice apertou meu braço. – A gente ainda não sabe o que aconteceu.
– Eu deixei ele cuidar de tudo.
– Você confiava nele – ela disse.
– Esse é o problema. Minha voz falhou. – Eu confiava nele para tudo.
Emmett pegou os documentos e colocou sobre a mesa.
– A primeira coisa que vamos fazer é encontrar toda a documentação dessa compra. Contratos, comprovantes, transferências, financiamento, qualquer coisa que você tenha.
Assenti, mas mal conseguia prestar atenção.
De repente me lembrei de Ethan naquela mesma doceria, poucos dias antes, depois de eu rejeitar sua proposta absurda para me mudar com Belinha para Seattle. Lembrei do sorriso frio antes de ele sair e das palavras que naquele momento tinham parecido apenas mais uma tentativa de me intimidar.
Você podia ter aceitado a proposta.
Já que quer fazer isso da forma mais difícil, aguente as consequências.
Senti um frio percorrer meu corpo. – Foi ele.
Emmett franziu o cenho. – Não conclui isso ainda.
– Ele me avisou.
– Como assim? – Alice perguntou.
Olhei para os dois. – Quando esteve aqui. Depois que eu disse que não iria para Seattle e que procuraria um advogado por causa da Belinha, ele disse que eu poderia ter aceitado a proposta dele. Depois falou que, já que eu queria fazer tudo da forma mais difícil, teria que aguentar as consequências.
A expressão de Emmett mudou. – Ele disse exatamente isso?
– Disse.
Alice levou a mão à boca.
Voltei a olhar para a doceria.
Para as vitrines que eu tinha escolhido, para as mesas onde Belinha fazia desenhos enquanto eu trabalhava, para o balcão que eu mesma tinha ajudado a montar e para a porta da cozinha onde passei incontáveis madrugadas preparando encomendas. Eu havia trabalhado durante anos para comprar aquele lugar.
Economizei dinheiro, deixei de fazer coisas que queria, aceitei pedidos demais e trabalhei até tarde porque acreditava que cada esforço estava construindo alguma coisa que seria minha e da minha filha.
Mas Ethan tinha cuidado da compra, tinha cuidado do financiamento, tinha cuidado dos documentos. E eu tinha assinado tudo que ele colocara na minha frente sem ler como deveria porque confiava no homem com quem dividia minha casa e criava minha filha.
Sentei lentamente.
Então a ordem de despejo deixou de parecer um engano.
E uma pergunta muito pior ocupou minha cabeça.
Se eu tinha confiado em Ethan para cuidar da compra daquele prédio sem sequer conferir a escritura, quantas outras coisas da minha própria vida eu havia colocado nas mãos dele sem saber o que estava realmente assinando?
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