Amor não era o plano
18 Investigações
Jacob
Os dias que se seguiram ao aniversário de Claire foram uma sequência de problemas que pareciam disputar qual deles conseguiria me irritar mais. Ethan continuava circulando pela Black Enterprises graças à procuração que Claire tinha lhe dado para representá-la como acionista, meus advogados trabalhavam para descobrir até onde iam aqueles poderes e, principalmente, quais caminhos eu tinha para reduzi-los sem criar uma guerra societária desnecessária.
Paul estava cuidando de outra parte do problema, revisando documentos e movimentações que envolviam Ethan dentro da empresa, e eu tinha deixado bastante claro que queria saber de qualquer coisa fora do padrão, por menor que parecesse.
Claire continuava sem atender minhas ligações quando estava irritada comigo, Rachel se encarregava de me lembrar que pressioná-la demais poderia aproximá-la ainda mais do marido, e Ephraim era a única razão pela qual eu ainda media algumas das minhas atitudes. Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo, porque havia outra pessoa ocupando meus pensamentos com uma frequência que começava a me incomodar.
Renesmee Cullen.
Eu não tinha nenhum motivo razoável para pensar tanto naquela mulher. Tinha conversado com ela por poucos minutos antes da festa e depois a visto no pior momento possível da vida dela. Ainda assim, desde a primeira vez que a encontrei naquela cozinha, com os cabelos ruivos presos de qualquer jeito enquanto organizava bandejas de doces, ela tinha ficado na minha cabeça. Inicialmente eu atribuía aquilo à atração. Era bonita, jovem, tinha um corpo que qualquer homem saudável notaria e eu nunca fui do tipo que precisava inventar sentimentos para justificar desejo. O problema era que o interesse tinha sobrevivido ao desastre da festa. Eu me pegava imaginando como ela estava, se Ethan havia procurado por ela, como estava a menina e, principalmente, se ele tinha tentado alguma coisa depois de perceber que as duas vidas que construíra tinham desmoronado. Aquilo me incomodou o suficiente para eu fazer o que normalmente fazia quando queria uma resposta. Pedi a Quil que buscasse para mim. Esse foi o acordo para perdoa-lo, ele tinha sido responsável por contratá-la para a festa quando descobriu a existencia dela, tinha contato com pessoas em Forks. Disse para ele que apenas que queria saber se ela e a filha estavam bem. Quil riu na minha cara, perguntou desde quando eu me preocupava com a vida particular de uma chef que conhecera durante cinco minutos e recebeu como resposta um olhar que encerrou a brincadeira. Eu não devia explicações a ele. Muito menos admitiria que Renesmee não saía dos meus pensamentos.
Naquela manhã eu estava no escritório desde cedo, concentrado em uma planilha com as projeções do trimestre. Números eram mais fáceis do que pessoas. Não choravam, não mentiam, não apareciam com filhos escondidos e, quando estavam errados, bastava encontrar onde alguém tinha cometido o erro. Eu conferia uma coluna de despesas quando a porta do escritório foi aberta com tanta força que bateu contra o limitador.
Não precisei levantar os olhos. – Bom dia, Claire.
– Você enlouqueceu?
Continuei olhando para a tela. – Também estou feliz em ver você.
– Não brinca comigo, pai.
– Não estou brincando.
– Você bloqueou meus cartões.
Cliquei em outra célula. – Bloqueei.
– E minhas contas.
– Algumas.
– Algumas?
Claire atravessou a sala e parou diante da minha mesa. Mesmo sem olhar diretamente para ela, conseguia imaginar a expressão furiosa. Conhecia minha filha havia tempo suficiente para reconhecer cada variação do silêncio dela.
– Eu tentei pagar uma compra esta manhã e meu cartão foi recusado. Depois tentei outro. Recusado. Liguei para o banco e descobri que você bloqueou tudo.
– Então o banco prestou um excelente atendimento. Vou lembrar disso na próxima avaliação.
– Pai!
Finalmente levantei os olhos. – Claire, estou trabalhando.
– E eu estou falando com você.
– Percebi.
Ela colocou a bolsa sobre a cadeira com força.
– Quero meus cartões desbloqueados.
Voltei para a planilha. – Não.
– Como assim não?
– É uma palavra bastante simples.
– Você não pode fazer isso comigo.
– Acabei de fazer.
– Isso é por causa do Ethan.?
Continuei olhando para os números. – Não.
– Claro que é! Você está se vingando dele através de mim.
– Se eu quisesse me vingar de Ethan, você saberia.
– Então por que bloqueou minhas contas?
Parei de digitar. – Porque você tem vinte e cinco anos, Claire.
Ela ficou em silêncio. – Você é adulta, casada e decidiu sair da minha casa para viver com seu marido. Portanto, não existe mais motivo para eu continuar pagando suas despesas pessoais.
– Você nunca se importou com isso antes.
– Antes eu acreditava que você tinha escolhido um homem capaz de assumir as responsabilidades de um casamento.
– Ethan trabalha.
– Excelente. Então ele pode sustentar a esposa.
Claire soltou uma risada incrédula. – Você está fazendo isso para humilhar ele.
– Não. Estou fazendo exatamente o contrário. Estou dando ao seu marido a maravilhosa oportunidade de provar que não precisa do dinheiro do sogro.
Ela apoiou as duas mãos sobre minha mesa. – Meu dinheiro também está nessa empresa.
– Dez por cento.
– Continua sendo meu.
– E ninguém tocou nas suas ações.
– Você bloqueou meu acesso ao dinheiro.
– Eu bloqueei contas que são abastecidas por mim e cartões vinculados às minhas contas. O que pertence legalmente a você continuará pertencendo.
Claire estreitou os olhos. – Então eu vou receber meus dividendos.
– Vai receber exatamente o que corresponder à sua participação.
Voltei minha atenção para o notebook. – Por enquanto.
O silêncio que veio depois foi diferente. Claire percebeu. – O que significa por enquanto?
– Significa exatamente o que eu disse.
– Você está ameaçando tirar minhas ações?
– Estou dizendo que dez por cento da Black Enterprises pertencem a você. O restante continua sob meu controle, e eu vou decidir o que acontece com ele no futuro.
– Eu sou sua filha.
– Nunca esqueci.
– Parece.
Fechei o notebook lentamente. Claire queria minha atenção. Agora tinha.
– Você quer saber o que parece para mim? Parece que seu marido entrou nesta família, conquistou sua confiança, conseguiu uma procuração para representar você dentro da minha empresa e, no primeiro momento em que percebeu que eu pretendia tirá-lo daqui, usou você e meu neto para garantir a posição dele. Então me perdoe se neste momento eu não estou particularmente interessado em facilitar o acesso de Ethan ao meu dinheiro.
– Meu dinheiro!
– O dinheiro que é seu continua seu. O meu acabou.
Claire ficou vermelha.
– Você está tentando me obrigar a deixar meu marido.
– Não. Se eu quisesse comprar sua decisão, teria oferecido mais dinheiro, não menos.
– Você sabe que Ethan está passando por uma situação difícil na empresa por sua causa.
– Ethan não está passando por situação nenhuma por minha causa. Está enfrentando as consequências das escolhas dele.
– Você o demitiu!
– E ele entrou aqui no dia seguinte usando sua procuração para continuar circulando na empresa.
– Porque eu dei esse direito a ele.
– Eu sei. Foi uma decisão brilhante.
– Para de me tratar como uma idiota!
– Então pare de agir como uma.
Ela recuou como se eu tivesse dado um tapa. Talvez tivesse sido pesado mas não retirei o que disse.
– Você não suporta que eu tenha escolhido acreditar nele.
– Não suporto ver minha filha sendo manipulada por um homem que já provou ser capaz de sustentar uma mentira durante anos.
– Ele me contou tudo.
– Depois de ser descoberto.
– Isso não significa que tudo que Renesmee disse seja verdade.
Meu maxilar se contraiu ao ouvir o nome dela.
– Não precisa acreditar na Renesmee. A existência da filha dele já é um fato.
– Belinha foi antes de mim.
– E ele escondeu a menina durante todo o casamento.
– Porque tinha medo de me perder!
– Claire, escuta o absurdo que está dizendo.
Ela pegou a bolsa. – Você não entende.
– Espero sinceramente nunca entender.
Claire caminhou alguns passos, mas voltou. – E Ephraim?
Meu olhar se fixou nela. – O que tem meu neto?
– Você pensou nele quando bloqueou tudo? Ou estava ocupado demais tentando punir Ethan para lembrar que seu neto também depende de mim?
Aquilo me fez levantar. – Não usa Ephraim nessa conversa.
– Por quê? Porque ele é sua fraqueza?
– Porque ele tem três anos e não tem nada a ver com os erros dos adultos.
– Então como você espera que eu cuide dele sem acesso às minhas contas?
Contornei a mesa e parei diante dela. – Na minha casa nunca faltará absolutamente nada para Ephraim. Nunca. Ele pode morar comigo hoje, amanhã ou pelo resto da vida se for necessário. Vai ter comida, escola, médico, roupas e tudo mais que precisar.
– Você está sugerindo que eu deixe meu filho com você?
– Estou dizendo que, se você e seu marido não conseguem sustentar o próprio filho sem meus cartões de crédito, deixem Ephraim comigo.
Claire arregalou os olhos. – Você passou dos limites.
– Não. Você trouxe meu neto para uma discussão sobre dinheiro tentando me fazer sentir culpado. Não faça isso novamente. – Ele é meu filho!
– Eu sei.
– Você acha que pode simplesmente tomar Ephraim de mim?
– Eu não quero tomar ninguém de você. Quero que acorde antes que seja tarde.
– Para quê?
– Para o homem com quem você está casada.
Ela balançou a cabeça. – Você odeia Ethan.
– Ele não me interessa o suficiente para isso.
– Você está obcecado em destruir ele!
– Estou interessado em impedir que ele destrua você.
– Ele me ama.
Soltei o ar lentamente. – Talvez. Talvez ame você do jeito torto dele. Isso não muda o que estou vendo.
– E o que exatamente você está vendo?
Aproximei-me um pouco mais e abaixei a voz. – Um homem que entrou na minha empresa como seu marido, ganhou espaço, conquistou minha confiança, recebeu poderes para representar seus dez por cento e agora, quando tudo começou a desmoronar, se agarrou justamente a esses dez por cento para impedir que eu o colocasse para fora. Claire ficou em silêncio.
– Ethan não está dando um golpe em mim.
– Espero que não.
– Você está paranoico.
– Também espero que sim. Ela franziu o cenho, provavelmente porque esperava que eu discutisse.
– Então por que está fazendo tudo isso?
– Porque se eu estiver errado, você continua com seu marido, recebe o dinheiro das suas ações e daqui a alguns meses pode entrar por essa porta para dizer que seu pai é um velho controlador que desconfiou do homem errado. Eu aguento.
Parei diante dela.
– Mas se eu estiver certo, ele não vai levar você junto quando cair.
Claire apertou a bolsa contra o corpo.
– Você não manda na minha vida.
– Não.
– Não manda no meu casamento.
– Também não.
– Então fica fora dele.
– Posso ficar fora do seu casamento. Do meu patrimônio, não.
Ela respirou fundo, furiosa. – Eu odeio quando você faz isso.
– Isso o quê?
– Age como se já soubesse como tudo vai terminar.
– Eu não sei.
Voltei para trás da mesa e abri o notebook. – É por isso que estou verificando.
Claire permaneceu parada durante alguns segundos, esperando alguma mudança de posição que não viria.
– Desbloqueia meus cartões.
Olhei para a planilha. – Não.
– Pai.
– Converse com seu marido.
– Você é impossível.
– Já me disseram.
Ela pegou a bolsa e caminhou até a porta. Antes de abri-la, porém, virou-se novamente.
– Ethan não está tentando dar um golpe em mim.
Dessa vez levantei os olhos. – Ele não vai dar um golpe em você, Claire.
Ela pareceu surpresa com a minha concordância. Apoiei os braços sobre a mesa.
– Porque eu não vou deixar.
Claire me encarou furiosa por mais alguns segundos e saiu, batendo a porta com força suficiente para fazer o vidro vibrar. Fiquei olhando para a porta fechada antes de voltar para a tela do notebook.
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