Amor não era o plano
19 Investigações ( parte 2)
Notas iniciais
A porta se fechou atrás de Claire com força suficiente para fazer o vidro estremecer, mas eu não me dei ao trabalho de levantar os olhos imediatamente. Permaneci sentado diante do notebook, olhando para a mesma planilha que estava aberta havia quase uma hora e tentando encontrar novamente a linha que analisava antes de minha filha entrar no escritório como um furacão. Não consegui. Os números continuavam diante de mim, perfeitamente organizados em colunas, enquanto minha cabeça insistia em repetir a conversa que acabara de ter. Eu não me arrependia de ter bloqueado os cartões ou cortado o acesso de Claire às contas que eu sustentava. Aos vinte e cinco anos, casada e com uma participação considerável na empresa, ela não precisava que o pai continuasse pagando suas despesas, principalmente quando eu sabia que boa parte daquele dinheiro acabaria beneficiando Ethan. Se minha filha queria permanecer ao lado dele, eu não poderia amarrá-la dentro da minha casa até que recuperasse o juízo. O que eu podia fazer era impedir que meu patrimônio financiasse o homem que estava usando a confiança dela para continuar dentro da Black Enterprises.
Tentei voltar à planilha, mas minha concentração durou poucos minutos. Ethan tinha entrado na minha família como um homem ambicioso e competente, características que eu nunca considerei defeitos. Pelo contrário. Eu havia gostado da disposição dele para crescer dentro da empresa, dei oportunidades, abri portas e cheguei a acreditar que Claire tinha escolhido alguém capaz de construir alguma coisa ao lado dela. Agora eu precisava revisar mentalmente cada decisão que Ethan tinha tomado desde que começou a trabalhar comigo e me perguntava quantas delas realmente tinham sido profissionais. Paul já estava verificando movimentações, contratos e empresas relacionadas a ele, e meus advogados analisavam a procuração que Claire lhe dera. Eu não pretendia arrancar os dez por cento da minha filha ou impedir que ela exercesse seus direitos como acionista, mas Ethan descobriria rapidamente que representar Claire não significava ter liberdade para fazer o que quisesse dentro da empresa. O escritório que antes ocupava já tinha sido retirado dele, assim como boa parte das funções executivas, e agora ele trabalhava em uma pequena sala em outro corredor, condição que provavelmente feria mais o ego dele do que a demissão.
Meu celular estava sobre a mesa e, pela terceira vez naquela manhã, olhei para a tela esperando uma mensagem que ainda não tinha chegado.
Quil.
Eu tinha pedido que ele descobrisse como Renesmee estava.
Não gostava de admitir nem para mim mesmo o motivo daquela curiosidade. Desde a primeira vez que a vi na cozinha do hotel, alguma coisa naquela mulher tinha ficado presa na minha cabeça. Inicialmente não existia mistério. Renesmee era bonita pra caralho, jovem, ruiva e tinha chamado minha atenção antes mesmo que eu soubesse seu nome. Eu tinha desejado aquela mulher antes de descobrir que ela era a outra vítima de Ethan, e atração física nunca foi um assunto que me causasse constrangimento. O problema era continuar pensando nela depois. Eu me lembrava de sua expressão quando descobriu a verdade, da maneira como tentou se manter firme enquanto Ethan dizia que ela era uma ex desesperada e, principalmente, da menina correndo na direção dele e chamando-o de pai. Algumas vezes me peguei imaginando como Renesmee tinha explicado aquilo para a filha depois que voltou para Forks.
Era uma preocupação que eu não precisava ter.
Ainda assim, tinha mandado Quil descobrir.
Ouvi duas batidas na porta.
– Entra.
Quil apareceu com uma pasta debaixo do braço e fechou a porta atrás de si. Caminhou tranquilamente até a minha mesa e sentou na cadeira que Claire tinha ocupado minutos antes.
Esperei.
Ele também.
Levantei os olhos.
– E então?
Quil arqueou uma sobrancelha.
– Bom dia para você também.
– Bom dia. E então?
– Eu estou ótimo, obrigado por perguntar.
– Quil.
Ele sorriu.
– Você está ficando impaciente com a idade.
– E você está ficando inconveniente desde que aprendeu a falar. Não é novidade para nenhum de nós.
Quil riu e se acomodou melhor.
– A Cullen está em Forks.
– Isso eu já sabia.
– Então minha investigação está indo muito bem.
Fechei o notebook.
– Como ela está?
– Não sei.
Franzi o cenho.
– Eu mandei você descobrir.
– E descobri algumas coisas. Você pediu discrição, lembra? Não dava para bater na porta dela e dizer que Jacob Black me mandou perguntar se ela está dormindo bem.
– Não seja idiota.
– Estou apenas esclarecendo os limites do serviço.
– O que você descobriu?
O sorriso desapareceu aos poucos do rosto dele.
– A doceria está fechada.
Minha atenção aumentou.
– Desde quando?
– Poucos dias. Não sei se vai continuar fechada, mas ela recebeu uma notificação para desocupar o imóvel.
– Desocupar?
Quil assentiu.
– Ordem de despejo.
A informação me pareceu estranha.
– O prédio era alugado?
– Foi o que pensei quando descobri.
– E não era?
– Aparentemente, não.
Recostei na cadeira.
– Explica.
Quil colocou a pasta sobre minha mesa.
– Ainda estou tentando entender. Consegui algumas informações sobre o imóvel, nada muito profundo porque você me pediu para descobrir como ela estava e não para fazer uma auditoria patrimonial da vida da mulher. Mas existem pagamentos antigos ligados à Cullen e à aquisição do prédio. Pelo que consegui levantar, ela pagou acreditando que estava comprando o imóvel.
A palavra me incomodou.
– Acreditando?
– É.
– Ou comprou ou não comprou, Quil.
– Eu sei. O problema é que a documentação não parece tão simples.
– Quem cuidou da compra?
Quil me encarou por alguns segundos antes de responder.
– Ethan.
Fiquei imóvel.
– Repete.
– Ethan cuidou da negociação.
Minha mão deixou a caneta sobre a mesa.
– Tem certeza?
– Foi o que consegui descobrir. Ele participou da negociação, cuidou de parte da documentação e aparece ligado ao processo. Não sei exatamente o que aconteceu, Jacob. Ainda não consegui documentos suficientes para afirmar se houve fraude, se ela assinou alguma coisa sem entender ou se existe outra explicação.
– E agora estão tirando a Cullen do prédio.
– Sim.
Passei a língua pelos dentes enquanto pensava.
Talvez fosse coincidência. Talvez existisse uma dívida, um problema contratual ou qualquer outra explicação que não envolvesse Ethan. O problema era que, depois de tudo que eu tinha descoberto sobre meu genro, coincidências envolvendo aquele homem começavam a perder credibilidade.
– Ela continua trabalhando?
– Pelo que consegui descobrir, está tentando resolver a situação.
– E está em casa?
Quil demorou um pouco mais para responder.
– Essa é a outra parte.
Olhei para ele.
– Que outra parte?
– Ela não está mais na casa.
Por alguns segundos não vi nada de estranho naquilo.
– Não me surpreende. Depois do que aconteceu, eu também não ficaria numa casa onde vivi com aquele filho da puta.
– Não foi isso que eu quis dizer.
Minha expressão mudou.
– Então explica direito.
Quil apoiou os antebraços nas pernas.
– Eu não sei todos os detalhes. Estou te contando só o que consegui confirmar. Existe algum problema envolvendo a propriedade da casa também. A Cullen saiu de lá com a filha.
Meu maxilar se contraiu.
– Onde ela está?
– Com os pais.
– Em Forks?
– Sim. Ela e Belinha estão na casa dos Cullen.
Fiquei olhando para Quil.
A doceria.
A casa.
Dois imóveis relacionados à mesma mulher, duas situações acontecendo praticamente ao mesmo tempo e Ethan envolvido na documentação de pelo menos um deles.
– Quando ela saiu da casa?
– Recentemente. Não consegui saber exatamente em que circunstâncias. Também não falei com ela, então não me pergunta se Ethan apareceu, se houve discussão ou o que ela sabe. Não faço ideia.
Assenti lentamente.
Era exatamente o que eu tinha pedido. Discrição. Não queria que Renesmee soubesse que eu estava mandando alguém investigar sua vida, principalmente porque eu mesmo ainda não sabia explicar por que estava tão interessado.
Mas uma coisa começava a ficar clara.
– Você está me dizendo que a filha daquele filho da puta está morando de favor na casa dos avós enquanto ele continua aqui se escondendo atrás das ações da Claire?
Quil ergueu uma mão.
– Estou dizendo que Renesmee e Belinha estão morando com os Cullen. O motivo exato de terem saído da casa ainda estou tentando descobrir.
– Descobre.
– Jacob...
– Tudo.
Quil suspirou.
– Você pediu para eu saber se ela estava bem.
– Mudei o pedido.
– Percebi.
– Quero os registros dos dois imóveis. Quem eram os proprietários, quando foram negociados, quanto foi pago, de onde saiu o dinheiro, para onde foi e em nome de quem estão hoje. Quero qualquer empresa envolvida e qualquer ligação dela com Ethan.
Quil ficou me encarando.
– Isso já deixou de ser preocupação e virou auditoria.
– Então faça uma auditoria.
– Eu não sou contador.
– Temos contadores.
– Nem advogado.
– Temos um andar inteiro deles.
Quil começou a sorrir.
– Então por que você precisa de mim?
– Porque você conhece Forks, conhece gente naquela região e foi você quem trouxe a Cullen para o evento. Descobre o que conseguir e entrega para Paul. Ele cuida do resto.
Quil assentiu, mas o sorriso permaneceu.
– Posso fazer uma pergunta?
– Você vai fazer mesmo se eu disser não.
– Provavelmente.
– Então economiza meu tempo.
Ele cruzou os braços.
– Desde quando você está tão interessado na Renesmee?
Eu o encarei.
– Desde que pedi para você descobrir como ela estava.
– Isso não respondeu.
– Foi exatamente uma resposta.
– Jacob, eu conheço você desde criança.
– Esse é um problema seu.
– Você viu aquela mulher uma vez na cozinha e já perguntou quem era. Depois quis alguns minutos com ela no final da festa. Agora está me mandando investigar casa, doceria, patrimônio...
– Eu não mandei investigar o patrimônio dela porque quero casar com a mulher.
Quil riu.
– Ninguém falou em casamento. Deus me livre. Eu estava pensando em coisas bem menos sérias.
Recostei na cadeira.
– Quer tanto saber?
– Muito.
– Eu quero transar com ela.
Quil piscou.
Por um segundo consegui calá-lo, o que por si só já valeu a resposta.
Então ele começou a rir.
– Certo. Isso foi mais informação do que eu precisava.
– Você perguntou.
– Eu esperava alguma coisa como acho ela interessante.
– Tenho quarenta e nove anos, Quil. Não preciso dizer acho ela interessante quando quero dizer que tenho vontade de levar uma mulher para a cama.
– Justo.
Ele ainda ria.
– Mas isso explica só metade.
– Que metade?
– Você já quis levar muitas mulheres para a cama. Nunca mandou investigar se alguma delas tinha perdido a casa.
Meu sorriso desapareceu.
– Porque nenhuma delas tinha uma filha de cinco anos com um homem que trabalha dentro da minha empresa e é casado com a minha filha.
Quil ficou sério novamente.
– Belinha está bem, pelo que consegui descobrir.
Assenti.
– Quero saber se isso muda.
– Certo.
– E ninguém fala com Renesmee.
– Eu sei.
– Nem com os pais dela.
– Jacob, eu entendi o significado de discrição.
– Às vezes tenho dúvidas.
Quil se levantou e pegou a pasta.
– Vou falar com Paul e ver o que conseguimos levantar oficialmente sobre os imóveis.
– Hoje.
– Você é um chefe insuportável.
– E você continua recebendo muito bem para suportar.
Ele caminhou até a porta, mas parei de pensar na conversa quando uma coisa me ocorreu.
– Quil.
Ele se virou.
– O quê?
– Ethan está aqui hoje?
Quil estreitou os olhos.
– Está.
– Onde?
– Na salinha que você deu para ele.
Levantei.
Quil olhou para mim e depois para a porta.
– Não.
Peguei meu paletó no encosto da cadeira.
– Eu não disse nada.
– Eu conheço essa cara.
– Você acabou de dizer que me conhece desde criança. Então deveria saber que tentar me impedir é perda de tempo.
– Jacob, você já deu um soco nele na festa.
– Eu lembro.
– Edward Cullen deu outro em Forks.
Parei.
– Edward bateu nele?
Quil abriu um sorriso.
– Essa parte eu descobri.
Não consegui evitar uma pequena satisfação.
– Cullen está subindo no meu conceito.
– Eu sabia que você ia gostar dessa informação.
Saí do escritório.
Quil veio atrás.
– Jacob.
Continuei andando pelo corredor.
– O quê?
– Você ainda não tem certeza de que Ethan fez alguma coisa com os imóveis.
– Vou perguntar.
– E se ele disser não?
– Vou avaliar a resposta.
– Com o punho?
Olhei para ele.
– Você fala demais.
A pequena sala onde Ethan trabalhava agora ficava no final de um corredor secundário, distante o suficiente da presidência para deixar claro que ele não fazia mais parte do meu círculo executivo. Eu havia retirado o escritório dele no dia seguinte ao aniversário de Claire e não senti nenhum remorso em colocá-lo num espaço que provavelmente tinha metade do tamanho do banheiro da sala anterior. Ele queria permanecer na empresa usando a procuração da minha filha? Ótimo. Eu não era obrigado a tornar a experiência confortável.
Cheguei à porta e abri sem bater.
Ethan estava sentado diante do computador. Levantou os olhos imediatamente e sua expressão mudou ao me ver. O hematoma que eu tinha deixado no rosto durante a festa ainda estava discretamente visível, assim como uma pequena marca do presente que Edward Cullen aparentemente tinha dado alguns dias depois.
– Jacob.
Entrei.
Quil permaneceu na porta.
– A casa da Cullen.
Ethan franziu o cenho.
– O quê?
– E a doceria.
Ele não respondeu.
Foi rápido. Uma mudança mínima no olhar, um pequeno movimento do maxilar, mas passei a vida inteira negociando com homens que mentiam olhando na minha cara. Eu sabia reconhecer quando alguém precisava de um segundo a mais para escolher uma resposta.
Fechei a porta atrás de mim, deixando Quil do lado de dentro conosco.
– O que você fez?
Ethan se levantou.
– Não faço ideia do que está falando.
– Engraçado. Você parecia saber antes mesmo de eu terminar.
– Se veio aqui discutir sobre Renesmee novamente, não tenho nada para dizer.
– Ela recebeu uma ordem para sair da doceria.
Silêncio.
– E saiu da casa.
Ethan pegou uma caneta sobre a mesa e colocou em outro lugar, tentando parecer indiferente.
– Isso não é problema meu.
– Sua filha morava naquela casa.
– Belinha está bem.
Aquilo bastou.
Aproximei-me.
– Como você sabe?
Ethan percebeu tarde demais.
– Ela está com os avós.
– Eu não disse onde ela estava.
Ele ficou em silêncio.
Quil soltou um suspiro atrás de mim.
– Merda.
Ethan tentou recuperar a postura.
– Claire comentou.
– Claire não sabe.
– Então devo ter ouvido em algum lugar.
– Claro.
Parei diante dele.
– Você fez alguma coisa com os imóveis?
– Não tenho obrigação de discutir meus negócios particulares com você.
– A doceria não é seu negócio particular.
– Nem seu.
– A casa onde sua filha morava também não deveria ser.
A expressão dele endureceu.
– Desde quando você se importa tanto com Renesmee?
Não respondi.
Ethan abriu um sorriso pequeno.
– Interessante.
– Cuidado.
– Agora entendo.
– Não, não entende.
– Você está fazendo isso por ela.
– Estou perguntando o que você fez com o patrimônio dela.
– E eu estou dizendo que isso não é da sua conta.
– Sua filha está morando na casa dos avós.
– Ela não está na rua.
Meu punho fechou.
– Repete.
Ethan sustentou meu olhar.
– Belinha está perfeitamente bem. Os Cullen têm dinheiro suficiente para sustentar Renesmee e a menina pelo resto da vida se quiserem. Não transforme isso numa tragédia.
Não pensei.
Meu punho acertou o rosto dele com força suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio. Ethan bateu contra a lateral da mesa e caiu junto com a cadeira, derrubando alguns papéis no chão.
– Porra, Jacob! – Quil exclamou.
Ethan levou a mão ao nariz.
– Você ficou maluco?!
Agarrei a frente da camisa dele e o puxei para cima antes que pudesse se recuperar.
– Você deixou sua própria filha sem casa para punir a mãe dela?
– Me solta!
– Responde!
– Isso não é da sua conta!
Tentei acertá-lo novamente, mas Quil segurou meu braço.
– Chega.
– Me solta.
– Não. Um já resolveu a dúvida.
Ethan limpou o sangue que começava a escorrer do nariz.
– Eu vou acabar com você.
Olhei para ele.
– Tenta.
– Você não pode continuar me agredindo dentro da empresa!
– Então para de me dar motivos.
– Jacob – Quil chamou, ainda segurando meu braço. – Já deu.
Soltei Ethan com um empurrão. Ele bateu novamente contra a mesa, mas conseguiu permanecer de pé.
Apontei para ele.
– Eu vou descobrir o que você fez.
– Boa sorte.
– Não vou precisar.
Ethan sorriu, mesmo com sangue no rosto.
– Você acha que controla tudo porque tem dinheiro.
– Não.
Aproximei-me mais uma vez.
– Eu sei que dinheiro deixa rastros.
O sorriso dele diminuiu.
– E vou seguir cada um deles.
Virei e saí da sala antes que Quil precisasse me segurar novamente. Ele veio atrás de mim e fechou a porta, mas conseguimos andar apenas alguns metros antes que eu ouvisse uma risada.
Olhei para ele.
– O que foi?
Quil tentou controlar, sem sucesso.
– Nada.
– Então para de rir.
– Estou tentando.
Continuei andando.
– Quil.
– É que eu estava pensando numa coisa.
– Que surpresa.
Ele olhou para trás, na direção da sala onde Ethan provavelmente tentava estancar o sangue do nariz.
– Nesse ritmo, até o fim do mês o Ethan vai precisar de uma cirurgia plástica.
Parei por um segundo.
Olhei para Quil.
Ele começou a rir novamente.
Voltei a caminhar em direção ao meu escritório.
– Problema dele.
Fale com o autor