Renesmee

Na noite da inauguração da Doce Encanto, eu descobri que todos os nossos cálculos tinham sido modestos demais.

Rachel tinha preparado uma projeção de movimento para as primeiras semanas, Rebecca havia insistido que a localização privilegiada nos daria uma vantagem considerável e eu passei dias tentando convencer as duas de que precisávamos manter os pés no chão. Era uma loja nova, numa cidade onde ninguém conhecia meu trabalho, e por mais que tivéssemos investido em divulgação, eu estava preparada para uma primeira noite tranquila, com minha família ocupando metade das mesas e nós três fingindo que aquilo representava um grande sucesso.

Não foi o que aconteceu.

Pouco depois da abertura, todas as mesas estavam ocupadas. Havia pessoas esperando no caixa, outras escolhendo doces diante das vitrines e uma fila que em alguns momentos chegava até a entrada. A cozinha trabalhava sem parar, Jessica parecia ter desenvolvido a capacidade de estar em três lugares ao mesmo tempo e Alice circulava entre o salão e os fundos dando ordens com uma autoridade que ninguém tinha concedido a ela. Em determinado momento, encontrei Rachel parada perto do balcão observando a movimentação com uma taça de espumante na mão e uma expressão incrédula.

– Se continuar entrando gente nesse ritmo, vamos ficar sem metade do estoque antes das nove – ela comentou, acompanhando uma funcionária que levava outra bandeja para a vitrine.

Rebecca apareceu ao nosso lado e pegou um pequeno doce antes que eu pudesse impedir. – Então amanhã produzimos mais. Esse é exatamente o tipo de problema que eu queria ter.

– Você acabou de roubar um doce da própria empresa – reclamei.

– Sou proprietária.

– Isso não significa que pode comer o estoque.

Rachel tomou um gole da bebida e apontou para a irmã. – Tecnicamente, ela acabou de reduzir nosso lucro.

Rebecca colocou o doce inteiro na boca e sorriu. – Descontem da minha parte.

Eu ri e voltei os olhos para o salão.

Minha família tinha ocupado algumas mesas próximas às janelas. Meus pais estavam com Charlie e Renée, que haviam vindo especialmente para a inauguração, enquanto Emmett conversava com Antony. Meu irmão do meio tinha acabado de voltar de uma temporada de intercâmbio e sua presença tinha sido uma das melhores surpresas daquela semana. Alice, evidentemente, estava mais interessada em trabalhar sem ser contratada do que em ficar sentada com os outros, mas aquilo também era perfeitamente normal para ela.

Era a noite que eu havia imaginado tantas vezes desde que perdera minha antiga doceria.

Talvez até melhor.

E eu não conseguia me sentir completamente feliz.

Meus olhos procuraram instintivamente uma criança que não estava ali.

Belinha deveria estar correndo entre as mesas, tentando roubar brigadeiros das bandejas e contando para qualquer pessoa disposta a ouvi-la que aquela era a loja da mamãe. Eu tinha imaginado minha filha escolhendo o primeiro doce vendido naquela noite. Tinha imaginado uma fotografia nossa diante da fachada e até separado uma roupa para ela usar.

Mas ainda faltavam quatro dias.

Quatro dias para terminar o primeiro período de quinze dias na casa de Ethan.

Eu sabia que ele jamais levaria Belinha à inauguração. Não importava o quanto aquele momento fosse importante para mim ou o quanto nossa filha provavelmente gostaria de participar. Ethan cumpria a decisão judicial com uma precisão quase ofensiva. Fazia as chamadas nos horários determinados, permitia que eu conversasse com Belinha e não ultrapassava nenhum limite que pudesse ser usado contra ele, mas também não me oferecia um único minuto além daquilo que tinha sido estabelecido.

– Está fazendo aquela cara.

A voz masculina ao meu lado me tirou dos pensamentos. Virei o rosto e encontrei Antony me observando com uma taça na mão.

– Que cara?

– Essa que você fazia quando era criança e dizia que estava tudo bem cinco minutos antes de começar a chorar.

Revirei os olhos. – Você ficou tempo demais fora. Perdeu o direito de interpretar minhas expressões.

Antony sorriu e apoiou o ombro no meu. – Posso ter ficado longe, mas ainda sou seu irmão. Conheço você o suficiente para saber quando está feliz pela metade.

Olhei novamente para o salão. – Eu estou feliz.

– Não disse que não está. Disse que está pela metade.

Não precisei explicar.

Antony acompanhou meu olhar até uma mesa onde havia duas crianças dividindo uma fatia de bolo e compreendeu imediatamente.

– Belinha.

Assenti. – Faltam quatro dias.

Ele passou o braço pelos meus ombros e me puxou para perto. – Então daqui a quatro dias ela vai entrar por aquela porta, comer metade da loja e obrigar você a produzir tudo novamente.

– Ela teria amado isso.

– Vai amar. A loja não desaparece depois da inauguração.

Eu sabia que ele estava certo. Ainda assim, era difícil não sentir que faltava alguém na fotografia daquele momento.

– E você deveria estar comemorando – continuou Antony. – Olhe isso, Nessie. Tem uma fila enorme para comprar coisas que você criou. Eu mal cheguei e já ouvi umas seis pessoas elogiando os doces.

– Mamãe deve ter pagado.

– Bella não tem dinheiro para contratar tanta gente.

– Edward tem.

Antony riu. – Agora reconheci minha irmã.

– O que está acontecendo aqui?

Emmett surgiu do outro lado e colocou uma mão pesada sobre meu ombro.

– Estamos tentando impedir sua irmã de ficar deprimida na própria inauguração – respondeu Antony.

Emmett imediatamente olhou para mim. – É por causa da baixinha?

– Eu não estou deprimida.

– Está com cara de quem vai entrar na cozinha, comer chocolate direto da panela e dizer que foi controle de qualidade.

Afastei a mão dele. – Vocês dois poderiam simplesmente me parabenizar como irmãos normais.

– Parabéns – disseram os dois praticamente juntos.

Olhei de um para o outro.

– Idiotas.

Emmett abriu um sorriso. – Melhorou. Agora podemos falar de coisas realmente importantes.

Antony pareceu interessado. – Por exemplo?

– Minha vida amorosa.

Soltei uma gargalhada. – Definitivamente não existe nada menos importante acontecendo nesta loja.

Emmett levou a mão ao peito como se eu tivesse acabado de ofendê-lo profundamente. – Você vai retirar isso quando conhecer Rosalie.

– Rosalie? – repeti. – Então ela realmente existe?

– Por que ninguém acredita em mim?

Antony respondeu antes de mim. – Histórico.

– Inveja é uma coisa feia.

– Qual é o sobrenome dela? – perguntei, pegando uma taça de espumante que passava numa bandeja.

Emmett ajeitou a gola da camisa antes de responder com uma solenidade completamente desnecessária:

– Fitzgerald.

Parei com a taça próxima aos lábios.

– Rosalie Fitzgerald? Nome chique.

– Mulher chique – ele respondeu, convencido. – Você vai gostar dela.

– Espero que ela tenha consciência do problema em que está se metendo.

– Engraçadinha. E Fitzgerald nem é tão chique assim.

– É bastante.

Emmett inclinou o corpo na minha direção e abriu aquele sorriso que imediatamente me deixou desconfiada.

– Não mais do que senhor Black.

Antony começou a rir.

Dei um tapa no braço de Emmett.

– Cala a boca.

– O que foi? Só fiz uma comparação de sobrenomes.

– Faça outra e eu conto para sua Rosalie algumas histórias da adolescência.

O sorriso dele desapareceu. – Isso é chantagem.

– É prevenção.

Antony ergueu a taça. – Finalmente alguma coisa capaz de controlar Emmett Cullen.

– Não comemore cedo demais – respondeu Emmett antes de voltar a atenção para mim. – Aliás, cadê o senhor Black?

– Trabalhando.

– Na inauguração da loja da mulher dele?

– Eu não sou a mulher dele.

Emmett e Antony trocaram um olhar tão sincronizado que minha vontade foi bater nos dois.

– Não façam essa cara.

– Que cara? – Antony perguntou com uma inocência ridícula.

– Essa cara de irmãos fofoqueiros.

Emmett tomou um gole da bebida. – Nessie, o carro daquele homem já passou mais noites estacionado em frente ao seu prédio do que o meu passa na minha própria garagem.

– Como você sabe quantas noites o carro dele ficou aqui?

– Porque sou um irmão preocupado.

– Você é um desocupado.

– Também.

Eu estava prestes a responder quando Alice apareceu entre as mesas numa velocidade que só poderia significar problema. Ela parou diante de mim e segurou meu braço.

– Nessie, preciso de você na cozinha.

Minha atenção mudou imediatamente.

– Aconteceu alguma coisa?

Alice fez uma expressão séria demais.

– Emergência.

Olhei para o salão lotado. – O que aconteceu? Acabou alguma coisa?

– Você precisa vir comigo.

– Alice, fala logo.

Ela apertou meus dedos e começou a me puxar.

– Se eu explicar aqui, deixa de ser emergência.

Emmett estreitou os olhos. – Isso não fez o menor sentido.

Alice apontou para ele sem sequer olhar para trás. – Ninguém pediu sua opinião.

Acabei rindo enquanto era arrastada entre as mesas.

– Se for porque Jessica derrubou outra bandeja, eu juro que...

– Não é a Jessica.

– Algum equipamento quebrou?

– Também não.

– Então por que estamos indo para a cozinha?

Alice abriu a porta e praticamente me empurrou para dentro.

– Porque eu disse que é uma emergência.

Entrei ainda rindo, pronta para reclamar daquela mania da minha irmã de transformar qualquer problema em uma operação militar.

Mas bastou levantar os olhos para entender que Alice não tinha me chamado até ali por causa de doce algum.


Entrei na cozinha ainda rindo da maneira exagerada como Alice tinha me arrancado do salão, mas não tive tempo sequer de perguntar onde estava a tal emergência. A porta mal havia se fechado atrás de mim quando uma voz infantil, conhecida demais para que eu pudesse confundi-la com qualquer outra, atravessou o ambiente.

– Mamãe!

Meu corpo inteiro parou. Por um segundo, tive certeza de que minha cabeça estava pregando uma peça em mim. Então Belinha apareceu correndo do outro lado da cozinha, com os cabelos balançando e um sorriso enorme no rosto.

– Mamãe!

– Belinha?

Ela veio tão depressa que mal tive tempo de me abaixar antes de seus braços envolverem meu pescoço. Peguei minha filha no colo por puro reflexo e a apertei contra mim, sentindo meu coração disparar enquanto tentava entender como aquilo era possível.

– Meu Deus, meu amor! O que você está fazendo aqui?

Belinha ria enquanto me abraçava, completamente alheia ao susto que tinha acabado de me dar.

– Eu vim na sua loja!

Enchi seu rosto de beijos. Beijei as bochechas, a testa, o nariz e voltei a apertá-la contra mim, respirando aquele cheirinho que eu tinha sentido tanta falta nos últimos onze dias.

– Eu não acredito que você está aqui. Deixa eu olhar para você.

Afastei-a apenas o suficiente para examinar seu rosto. Ela parecia ótima. Feliz, corada e tão animada que mal conseguia ficar parada nos meus braços.

– Você está comendo direito? Está dormindo? Está se comportando?

Belinha fez uma expressão séria. – Sim.

– As três coisas?

Ela hesitou.

– Quase.

Comecei a rir e a beijei novamente. – Eu sabia.

Foi somente então que me lembrei de que crianças de cinco anos não apareciam sozinhas numa cozinha em Seattle.

Levantei os olhos.

Jacob estava alguns metros adiante, encostado próximo a uma das bancadas, com os braços cruzados sobre o peito. Vestia uma camisa escura com as mangas dobradas até os antebraços e me observava com aquela expressão satisfeita que eu já conhecia bem. Alice estava ao lado dele, sorrindo como se também tivesse participado de uma conspiração internacional.

Olhei para Jacob e depois para minha filha.

Não precisei perguntar quem era o responsável.

– Você.

O canto da boca dele se ergueu. – Eu o quê?

– Não se faça de desentendido. – Ajustei Belinha nos meus braços e caminhei na direção dele. – Como você fez isso?

Jacob descruzou os braços com toda a tranquilidade do mundo.

– Claire saiu com as crianças.

Esperei pelo restante.

– E?

– E eu a convenci a deixar Belinha vir comigo por uma hora.

Fiquei olhando para ele.

– Você convenceu Claire?

– Foi o que acabei de dizer.

– A mesma Claire que mal fala comigo e que sabe perfeitamente que ainda faltam quatro dias para terminar o período do pai?

Jacob inclinou levemente a cabeça. – Essa mesma.

Aquilo não fazia sentido.

– Como?

– Conversando.

Soltei uma risada incrédula. – Jacob, eu conheço você. Quando diz que convenceu alguém conversando, geralmente existe um advogado, dinheiro ou uma ameaça escondida em algum ponto da conversa.

Alice levou a mão à boca para esconder uma risada.

Jacob lançou um olhar para ela antes de voltar para mim. – Não ameacei ninguém.

– Essa resposta foi específica demais. E o resto?

– Claire sabe que hoje é importante para você. Eu disse que Belinha ficaria comigo durante uma hora e que a devolveria exatamente no horário combinado. Ela aceitou.

Eu ainda estava desconfiada. – Assim?

– Não exatamente. Houve uma discussão no meio.

– Eu sabia.

– Mas o resultado é o que importa.

Belinha segurou meu rosto entre as mãozinhas, claramente cansada de ser ignorada.

– Mamãe, o tio Jake disse que eu não posso ir lá fora.

Olhei para Jacob e ele imediatamente ficou mais sério. – Essa é a única condição. Ela não pode aparecer no salão.

Minha alegria diminuiu apenas um pouco.

– Por causa do acordo?

Jacob assentiu. – Claire permitiu que eu a trouxesse para ver você. Não para participar da inauguração. Tem muita gente lá fora, muita fotografia sendo tirada e provavelmente alguém vai postar alguma coisa nas redes sociais. Não dê a Ethan a oportunidade de transformar uma hora com a mãe numa acusação de descumprimento da guarda.

Ele tinha razão.

Eu odiava que aquilo precisasse ser feito quase escondido, como se abraçar minha própria filha fosse alguma coisa proibida, mas não seria irresponsável depois de tudo que tinha enfrentado para chegar até ali.

– Ela fica aqui comigo.

– Foi o que prometi a Claire.

Belinha olhou para mim. – Mas eu posso comer doce?

A seriedade desapareceu imediatamente.

– Você veio até uma doceria perguntar se pode comer doce?

Ela abriu um sorriso enorme. – Posso escolher?

– Pode escolher dois.

– Três.

Olhei surpresa para minha filha. – Desde quando você negocia?

A voz de Jacob veio atrás dela: – Está aprendendo comigo.

– Ah, não. – Apontei para ele. – Minha filha não precisa aprender nada com você sobre negociação.

Jacob sorriu. – Tarde demais.

Belinha se inclinou na minha direção e cochichou, embora alto o bastante para todos ouvirem:

– O vovô Jake falou que eu podia pedir três.

Fechei os olhos.

– Claro que falou.

Alice começou a rir e se aproximou para pegar Belinha, mas eu imediatamente afastei minha filha.

– Nem pense.

– Nessie, você precisa trabalhar.

– Passei onze dias sem minha filha. A loja pode sobreviver uma hora sem mim.

– Eu só ia levar ela para escolher os doces.

– Eu levo.

Belinha bateu palmas e eu a coloquei no chão, mas ela continuou agarrada à minha mão. Parecia tão feliz por estar ali que meu peito voltou a apertar. Eu tinha passado a noite inteira tentando comemorar uma conquista enquanto sentia que faltava alguma coisa. Agora compreendia o tamanho daquele vazio justamente porque ele tinha desaparecido.

Antes de acompanhar Belinha, voltei a olhar para Jacob.

Ele permanecia no mesmo lugar, observando nós duas e caminhei até ele – Você sabia.

– Sabia o quê?

– Que eu estava triste porque ela não estava aqui.

Jacob deu de ombros, como se aquilo não tivesse importância. – Não precisava ser muito inteligente para perceber.

– E por isso foi atrás dela?

– Eu já disse que Claire estava com as crianças.

– Você sabe que não foi isso que perguntei.

Ele sustentou meu olhar durante alguns segundos antes de responder num tom mais baixo.

– Você trabalhou demais para chegar até esta noite. Não fazia sentido passar a inauguração inteira olhando para a porta esperando alguém que não poderia entrar por ela.

Meu coração apertou de um jeito completamente diferente, me aproximei um pouco mais e selei seus lábios.

– Obrigada.

Jacob segurou minha cintura antes que eu me afastasse e falou perto do meu ouvido:

– Não faça essa cara. Foram onze dias, não onze anos.

– Para uma mãe, pareceu quase isso.

– Então aproveite sua hora. Eu cuido do relógio.

Me afastei e olhei novamente para ele. Havia uma quantidade enorme de perguntas que eu ainda queria fazer. Queria saber como tinha sido a conversa com Claire, quanto ele precisara insistir e principalmente por que continuava fazendo coisas que tornavam cada vez mais difícil manter meus sentimentos por ele dentro de uma definição segura.

Perguntaria depois. Naquele momento, Belinha puxou minha mão.

– Mamãe, meus doces.

Olhei para minha filha e sorri.– Estou indo, meu amor.

Deixei que ela me arrastasse em direção às bancadas enquanto falava sem parar sobre Ephraim, sobre o quarto na casa do pai e sobre todas as coisas que tinha feito nos últimos dias. Alice veio conosco, imediatamente entrando na discussão sobre quais doces Belinha deveria experimentar primeiro.

Olhei uma última vez para trás.

Jacob continuava ali, agora sim tudo estava perfeito.