Amor não era o plano

10 Festa de aniversário


Notas iniciais
Repostando pois esta dando erro

Jacob A festa de Claire ocupava um dos salões do Four Seasons Hotel Seattle, um lugar que eu conhecia bem demais por ter passado anos recebendo investidores, parceiros comerciais e pessoas que gostavam de discutir contratos enquanto contemplavam a baía de Elliott através das enormes paredes de vidro. Naquela noite, porém, não havia apresentações financeiras nem pastas sobre as mesas. Quil e Rachel tinham transformado o salão em algo que combinava muito mais com Claire do que comigo, elegante sem parecer excessivo, com arranjos de flores distribuídos entre as mesas, iluminação baixa e música suficiente para preencher o ambiente sem obrigar ninguém a gritar para conversar. Pela quantidade de rostos conhecidos que encontrei assim que entrei, minha filha tinha convidado metade do círculo empresarial de Seattle, além de amigos, parentes e algumas pessoas que eu tinha certeza de que Rachel acrescentara à lista sem consultar ninguém. Claire circulava pelo salão recebendo os convidados enquanto Ethan permanecia próximo dela, e Ephraim alternava entre os braços do pai, da mãe e de qualquer parente que estivesse disposto a carregá-lo. Eu fiz o que se esperava de mim e fiquei próximo à entrada durante os primeiros minutos, cumprimentando pessoas, aceitando felicitações que deveriam ser dirigidas à minha filha e recusando educadamente todas as tentativas de transformar aquela noite em reunião de negócios.

Leah apareceu ao meu lado pouco depois, usando um vestido preto que provavelmente faria metade dos homens daquela sala esquecer que ela tinha idade suficiente para ser mãe da aniversariante. Minha ex-esposa continuava bonita, talvez até mais do que quando éramos casados, porque os anos tinham levado embora parte da impaciência que ela carregava quando vivia comigo. Ou talvez eu simplesmente não precisasse mais conviver com ela o suficiente para provocá-la diariamente. Nosso casamento não terminara por falta de atração e muito menos porque algum de nós tivesse traído o outro.

Terminara porque Leah se cansara da minha necessidade de controlar tudo e eu demorei demais para entender que uma esposa não era uma extensão das minhas decisões. O divórcio havia sido a escolha mais sensata que fizemos juntos e, ainda assim, ela parecia se divertir lembrando de tempos em tempos por que nunca conseguiríamos dividir novamente o mesmo teto.

– Estou surpresa – Leah comentou enquanto acompanhava com os olhos um casal que acabara de entrar. Peguei uma taça da bandeja de um garçom.

– Isso costuma ser perigoso.

– Você veio sozinho.

Olhei para ela. – E?

– Nada de Bree Tanner? Bebi um pouco antes de responder.

– Não. – Nenhuma namorada nova? – Não.

Leah inclinou a cabeça e fingiu preocupação. – Nem uma das suas amantes?

Claire, que acabara de se aproximar para cumprimentar alguém, ouviu exatamente aquela parte e fechou os olhos.

– Mãe, por favor.

Leah sorriu inocentemente.

– Eu só fiz uma pergunta.

– E eu conheço vocês dois.

Uma pergunta vira provocação, provocação vira discussão e daqui a pouco vocês estão lembrando coisas de quinze anos atrás no meio da minha festa.

– Eu não estava discutindo – respondi.

Claire apontou para mim.– Você ainda não estava discutindo. Depois apontou para Leah. – E você para de perguntar sobre a vida sexual do meu pai. Eu realmente não preciso saber.

Leah começou a rir.

– Está bem.

– Obrigada.

Claire olhou ao redor.

– Agora preciso encontrar meu marido e descobrir onde meu filho se meteu antes que Ephraim consiga convencer alguém a deixá-lo entrar na cozinha atrás de doces.

Ela beijou a bochecha da mãe, depois a minha, e se afastou entre os convidados chamando por Ethan.

Esperei até que estivesse longe antes de olhar para Leah. – Você deveria superar nossa separação.

Ela virou lentamente o rosto na minha direção. – Perdão?

– Está ficando feio. Leah soltou uma risada incrédula.

– Jacob, eu superei você antes de o juiz terminar de assinar o divórcio.

– Então essa preocupação constante com quem entra na minha cama é curiosidade científica?

– Não é preocupação. É entretenimento. Existe diferença.

– Encontre outro passatempo.

– Você continua insuportável.

– E mesmo assim veio falar comigo.

– Porque é aniversário da nossa filha e eu estava tentando ser civilizada.

– Perguntar pelas minhas amantes é sua versão de civilidade?

Leah abriu um sorriso. – Para você, sim.

Balancei a cabeça e me afastei antes que Claire estivesse certa e acabássemos discutindo sobre alguma coisa que já não importava. Peguei outra bebida com um garçom que passava e observei o salão enquanto tomava um gole. Foi quando vi Quil perto do palco, falando com dois funcionários do hotel e apontando para alguma coisa na iluminação. Esperei que terminasse e caminhei até ele.

Quil percebeu minha aproximação e olhou para o copo na minha mão. – Já está bebendo?

– É uma festa.

– Você odeia festas.

– Justamente.

Ele riu e voltou a verificar alguma coisa no celular. – Está tudo certo. Daqui a pouco fazemos o parabéns, passa o vídeo que Rachel preparou e depois eu oficialmente deixo de ser responsável por qualquer desastre.

A menção à organização me lembrou de alguém que eu ainda não tinha visto desde que entrara no salão.

– A Cullen ainda está na cozinha?

Quil levantou os olhos do celular.

Um sorriso apareceu lentamente em seu rosto.

– Eu sabia.

– Sabia o quê?

– Que você perguntaria por ela.

– Fiz uma pergunta simples.

– Renesmee está trabalhando.

O fato de ele usar o primeiro nome dela me incomodou por uma razão que não fazia sentido, então ignorei.

– Ainda na cozinha?

– Imagino que sim. Ela está supervisionando a saída das sobremesas.

Olhei discretamente na direção do corredor que levava à área de serviço.

Quil acompanhou meu olhar.

– Nem pense nisso.

– Em quê?

– Ir atrás dela agora.

Voltei a encará-lo.

– Não vou.

– Ainda bem, porque pegaria muito mal o dono da empresa invadir a cozinha no meio do aniversário da própria filha para flertar com a chef contratada.

– Eu não invado lugares que estou pagando.

– Essa frase conseguiu piorar tudo.

Ignorei o comentário e tomei outro gole.

– Só preciso de alguns minutos com ela quando terminar.

Quil ficou me observando. – Alguns minutos? – Não faça essa cara. – Que cara? – A que você está fazendo.

Ele começou a rir. – Jacob Black pedindo ajuda para falar com uma mulher. Eu devia registrar esse momento.

– Não pedi ajuda. Estou dizendo que, quando ela terminar o trabalho, quero conversar com ela sem você aparecendo no meio.

– Entendi.

– Ótimo.

Quil guardou o celular no bolso e, para minha surpresa, bateu duas vezes no meu ombro.

– Você vai ter seus minutos.

Franzi o cenho.

O sorriso dele aumentou.

– Tenha certeza disso.

Antes que eu pudesse perguntar o que diabos aquilo significava, Quil se afastou.

– Onde você vai?

Ele continuou andando de costas por alguns passos.

– Trabalhar. Diferente de certas pessoas, ainda tenho responsabilidades nesta festa. Está na hora do parabéns. Observei enquanto ele seguia em direção ao palco e chamava um dos funcionários. Havia alguma coisa estranha naquela reação.

Quil tinha passado a tarde fazendo piadas sobre meu interesse por Renesmee e, de repente, parecia satisfeito demais com a ideia de que eu conversasse com ela depois da festa. Talvez estivesse apenas aproveitando mais uma oportunidade para me irritar.

Aos vinte e sete anos, ele ainda carregava aquele prazer quase juvenil de provocar alguém que conhecia desde criança, e eu tinha cometido o erro de permitir intimidade suficiente para que continuasse fazendo isso. Mesmo assim, as palavras ficaram na minha cabeça. Você vai ter seus minutos. Tenha certeza disso.

Olhei mais uma vez na direção do corredor que levava à cozinha antes de voltar minha atenção para o salão. Claire já estava sendo chamada para perto do palco, Ethan havia reaparecido ao lado dela e Ephraim corria na direção dos pais enquanto Leah tentava alcançá-lo. Coloquei o copo sobre a bandeja de um garçom e caminhei até minha família.

A chef de Forks teria que esperar. Aquela noite era de Claire. Encontrei Rachel e Rebecca perto de uma das mesas laterais do salão, as duas conversando enquanto observavam os convidados se aproximarem do palco. Minha irmã segurava uma taça de champanhe e Rebecca mexia no celular, provavelmente respondendo alguma mensagem do hospital, porque ela tinha a irritante incapacidade de deixar o trabalho completamente de lado, característica que Rachel dizia ter aprendido comigo.

Assim que me aproximei, Rachel me entregou a própria taça sem perguntar se eu queria e pegou outra da bandeja de um garçom que passava. Aceitei porque discutir com minha irmã por causa de uma bebida exigiria mais energia do que simplesmente tomá-la.

– A festa ficou boa – comentei, olhando ao redor. – Claire parece satisfeita.

Rachel abriu um sorriso.

– Isso foi um elogio?

– Foi uma constatação.

– Rebecca, registra a data. Jacob aprovou alguma coisa que outra pessoa organizou.

Rebecca guardou o celular na bolsa e riu.

– Ele está ficando mais tolerante com a idade.

– Cuidado – respondi. – Vocês duas ainda aparecem no meu testamento.

– Está vendo? – Rachel disse. – Isso é praticamente uma declaração de amor vindo dele.

Balancei a cabeça e bebi um pouco do champanhe enquanto procurava alguns rostos conhecidos pelo salão. Minha família estava espalhada entre os convidados, mas uma ausência era evidente. Eu já imaginava o motivo e, mesmo assim, perguntei.

– Billy não veio?

Rebecca fez uma careta.

– Não quis sair de La Push.

– Sarah tentou convencer – Rachel acrescentou. – Passou a manhã inteira falando que era aniversário da neta, que ele deveria vir, que o carro estava preparado e que não precisava fazer absolutamente nada além de sentar e aproveitar a festa. A resposta dele foi que não pisaria em Seattle só para ficar dentro de um hotel cheio de gente que ele não conhece.

Soltei um suspiro.

– Ele é teimoso.

As duas ficaram em silêncio.

Olhei primeiro para Rachel e depois para Rebecca. Ambas me encaravam com a mesma expressão.

– O quê?

Rachel ergueu as sobrancelhas.

– Nosso pai é teimoso?

– Foi o que eu disse.

Rebecca cruzou os braços.

– Tem certeza de que é o Billy Black que você quer chamar de teimoso?

– Tenho.

Rachel soltou uma risada.

– Jacob, você já encerrou uma reunião porque alguém mudou a marca do café sem te avisar.

– O café era ruim.

– Você recusou trocar de carro durante três anos porque disse que o modelo novo tinha o painel idiota – Rebecca acrescentou.

– Tinha.

– E passou seis meses dizendo que não precisava de óculos para ler até Claire comprar um e colocar na sua mesa.

Olhei para minha irmã.

– Eu continuo não precisando.

– Claro.

Rachel aproximou a taça dos lábios.

– Mas Billy é o teimoso da família.

– Exatamente.

As duas começaram a rir e decidi que aquela conversa não merecia continuidade. Meu pai era teimoso, independentemente do que minhas irmãs pensassem, e eu provavelmente teria que dirigir até La Push no fim de semana seguinte para ouvir pessoalmente sua justificativa para ter faltado ao aniversário da própria neta. Billy reclamaria de Seattle, diria que festas daquele tamanho eram desperdício de dinheiro e, dez minutos depois, perguntaria por Claire e Ephraim como se não tivesse passado a semana inteira fingindo que não se importava.

Antes que Rachel encontrasse outro exemplo da minha suposta teimosia, um homem da equipe de organização subiu ao palco e pegou o microfone.

– Boa noite. Posso pedir a atenção de todos por alguns minutos?

As conversas diminuíram gradualmente. Rachel imediatamente procurou Claire pelo salão enquanto Rebecca ajeitava o vestido e colocou a taça sobre a mesa.

– Acho que chegou a hora – ela disse.

O homem continuou falando enquanto nós três caminhávamos para mais perto do palco. – Gostaria de convidar nossa aniversariante para vir até aqui. Claire, por favor, antes que seu pai resolva assumir o microfone e transformar isso numa reunião de acionistas. Algumas pessoas riram.

– Quil colocou isso no texto – falei.

Rachel riu. – Com certeza.

Eu procurava Claire entre os convidados quando finalmente a vi vindo em nossa direção com Ethan. Bastou olhar para minha filha para perceber que havia alguma coisa errada. Ela não estava sorrindo. Seus olhos percorriam o salão enquanto segurava o celular, e Ethan fazia o mesmo.

– Pai – Claire chamou assim que se aproximou.

– O que aconteceu?

– Você viu Ephraim?

Franzi o cenho.– Ele não estava com vocês?

– Estava com a babá – Ethan respondeu. – Ela veio procurar a gente agora porque ele saiu de perto dela.

Meu corpo ficou imediatamente tenso.

– Como assim saiu de perto dela?

Claire passou a mão pelos cabelos, já nervosa.

– Ela estava falando com minha mãe, virou por alguns segundos e ele desapareceu. Nós procuramos perto das mesas e no corredor, mas não encontramos.

Olhei ao redor.

O salão era grande, mas Ephraim conhecia aquele andar e havia funcionários por toda parte. Ainda assim, saber que meu neto estava andando sozinho dentro de um hotel foi suficiente para fazer qualquer interesse pela festa desaparecer.

– Eu vou procurar.

– Pai, eu...

– Fique aqui. Estão chamando você para o palco. Ethan, procure no corredor do outro lado. Eu vou até a cozinha e...

Não consegui terminar.

Uma pequena figura surgiu entre dois grupos de convidados e veio correndo em nossa direção.

– Vovô!

Soltei o ar que nem havia percebido estar prendendo. – Ephraim.

Ele corria sorrindo como se não tivesse acabado de colocar quatro adultos à beira de um ataque. Claire levou a mão ao peito e fechou os olhos por um segundo, enquanto Ethan soltou um palavrão baixo ao meu lado. Dei dois passos na direção do meu neto, preparado para pegá-lo, quando percebi que ele não estava sozinho.

Uma menina vinha correndo atrás dele.

Ela parecia ter alguns anos a mais que Ephraim, talvez cinco, e tentava acompanhá-lo enquanto segurava alguma coisa pequena nas mãos.

– Ephraim! Espera!

Meu neto apenas riu e continuou correndo.

– Você corre muito devagar!

– Eu falei!

A menina finalmente conseguiu alcançá-lo quando ele parou perto de nós. Eu estava prestes a perguntar de onde os dois tinham vindo quando ela levantou o rosto. Seus olhos passaram por mim.

Depois por Claire.

Então encontraram Ethan.

A expressão da menina mudou imediatamente.

Ela abriu um sorriso tão espontâneo que por um instante achei que estivesse confundindo meu genro com alguém. – Papai!

O salão continuava cheio de vozes e música, mas alguma coisa naquela palavra chamou minha atenção de uma maneira que eu não soube explicar. A menina largou o que carregava e correu diretamente para Ethan.

Olhei para meu genro.

Ethan não se mexeu.

Não sorriu.

Não pareceu surpreso como alguém que acabara de ser confundido com outro homem.

Ele simplesmente empalideceu.

A menina chegou até ele e abraçou suas pernas com a intimidade de quem já havia feito aquilo centenas de vezes.

– Papai! Eu sabia que tinha visto você!

Meu olhar desceu para a criança e depois voltou para Ethan. Claire estava ao lado dele, completamente imóvel, tentando entender a mesma coisa que todos nós.

E foi a expressão de Ethan que me fez parar de considerar aquilo um simples engano.

Ele conhecia aquela menina.