Amor não era o plano

11 Parabéns pra você ( parte 1)


Renesmee


A poucas horas do início da festa, eu já não sabia quantas vezes havia conferido as mesmas bandejas, mudado pequenos detalhes da apresentação e repetido para mim mesma que estava tudo sob controle. A cozinha do hotel tinha se transformado em uma linha de produção organizada, com funcionários entrando e saindo, garçons aguardando os primeiros aperitivos e Alice e Jessica seguindo as instruções que eu dava enquanto tentava manter os olhos em tudo ao mesmo tempo.

Os doces estavam prontos, os salgados quentes começavam a sair na temperatura certa e eu havia separado algumas bandejas que só deveriam ser levadas ao salão mais tarde para não comprometer a aparência. Eu estava explicando a Jessica a ordem em que queria que as sobremesas fossem apresentadas quando ouvi a voz de Belinha vindo da porta. – Mamãe!

Olhei imediatamente e encontrei minha filha entrando na cozinha acompanhada por um garotinho que eu nunca tinha visto. Ele parecia ter uns três anos, estava muito bem arrumado para alguém que já tinha a camisa parcialmente para fora da calça e seguia Belinha com a naturalidade de quem a conhecia havia muito mais do que alguns minutos.

Minha filha segurava a mão dele e parecia extremamente satisfeita com a nova amizade. – Esse é meu novo amigo Ephraim.

O menino levantou os olhos para mim, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa Alice apareceu ao meu lado. – Meu Deus, que bonitinho.

– Tia Alice – Belinha reclamou, como se aquilo fosse constrangedor. – O quê? Ele é bonitinho. Ephraim sorriu.

Abaixei-me um pouco para ficar mais próxima da altura dele. – Oi, Ephraim. Eu sou a mãe da Belinha.

– Oi. – Você está aqui com seus pais?

Ele assentiu. – Minha mamãe tá na festa.

– E seu papai? – Também.

Aquilo me tranquilizou um pouco, embora eu não gostasse da ideia de duas crianças pequenas circulando sozinhas por um hotel daquele tamanho. Olhei para Belinha.

– Onde você encontrou seu amigo? – Lá fora. Ele tava procurando doce.

Ephraim imediatamente se defendeu. – Eu não tava procurando. Belinha colocou as mãos na cintura.

– Tava sim.

– Não tava.

– Você perguntou se tinha chocolate.

– Porque eu gosto.

Jessica começou a rir enquanto eu tentava manter alguma seriedade.

– Certo, antes que vocês dois comecem a primeira discussão dessa amizade, precisam sair daqui. Belinha arregalou os olhos.

– Por quê? Apontei ao redor. – Porque isso é uma cozinha, meu amor. Tem forno quente, facas, gente carregando bandejas e um monte de coisas que podem machucar vocês. Não podem ficar correndo aqui dentro.

– A gente não vai correr. Olhei para ela. Belinha tentou fazer uma expressão inocente.

– Muito.

– Para fora.

Ela soltou um suspiro dramático. – Tá.

– Mas vocês ficam no corredor, perto da porta. Não vão para o salão e não saiam de onde eu possa encontrar vocês.

– Tá bom, mamãe.

Olhei para Ephraim. – Você também, mocinho. Ele assentiu com muita seriedade.

– Tá. Belinha segurou a mão dele novamente e os dois saíram da cozinha. Antes mesmo de cruzarem completamente a porta, minha filha começou a correr. – Belinha! Ela diminuiu o passo.

– Sem correr!

– Tá! Ephraim passou por ela correndo.

– Ele tá correndo!

– Ephraim! – gritei.

Ouvi a risada dos dois no corredor e balancei a cabeça. Alice cruzou os braços.

– Você acabou de colocar duas crianças de cinco anos juntas e pediu que não corressem.

– Ele deve ter três.

– Pior ainda. Não consegui evitar o sorriso enquanto voltava para a bancada.

– Pelo menos estão perto. – Belinha faz amizade em cinco minutos – Jessica comentou.

– Ela conversa até com o caixa do supermercado. Não sei a quem puxou. Alice e Jessica olharam para mim ao mesmo tempo.

– Nem pensem em responder. As duas riram e voltei minha atenção para o trabalho. Mostrei a Jessica como queria que os doces fossem distribuídos nas bandejas e expliquei novamente que não queria todos os sabores saindo ao mesmo tempo.

A apresentação precisava acompanhar o restante do serviço, principalmente porque algumas sobremesas eram mais delicadas e não poderiam permanecer muito tempo fora da refrigeração.

– Esses aqui ficam para depois do parabéns – falei, apontando para uma das bancadas.

– Os de pistache podem sair agora, junto com os de chocolate. Os de frutas vermelhas só quando eu avisar. Jessica fez uma anotação.

– E os macarons?

– Metade agora. Guarda o restante. Alice aproximou uma bandeja.

– Esses estão prontos? Analisei rapidamente. – Troca aquele do canto.

Ela olhou. – O que tem de errado?

– Está torto.

Alice me encarou. – Nessie, ninguém vai medir o doce.

– Eu vou saber que ele estava torto.

– Você precisa de tratamento.

– Depois da festa. Os primeiros garçons entraram na cozinha carregando bandejas vazias, e qualquer brincadeira terminou ali.

Passei os minutos seguintes completamente concentrada no serviço, distribuindo os doces, conferindo quantidades e orientando a equipe sobre o que deveria seguir para cada parte do salão. O movimento aumentou rapidamente, e por algum tempo esqueci até mesmo que estava dentro de um dos hotéis mais luxuosos de Seattle.

Aquela era uma cozinha e eu sabia trabalhar dentro de uma. Era o meu espaço, mesmo que temporariamente, e a sensação de ver tudo aquilo que planejamos durante dias finalmente saindo como eu queria compensava cada noite mal dormida. Quando o último garçom daquele grupo saiu, respirei fundo e apoiei as mãos na bancada.

– Primeira parte foi. Jessica sorriu.

– E ninguém morreu.

– Ainda.

Alice pegou uma garrafa de água e me entregou.

– Bebe antes que você desmaie dentro de uma bandeja.

Aceitei e tomei alguns goles. Foi quando olhei automaticamente para a porta. O corredor estava vazio. Continuei bebendo por um instante antes de baixar a garrafa.

– Cadê a Belinha?

Alice olhou também. – Ela estava ali agora há pouco. Aproximei-me da porta.

– Belinha? Nenhuma resposta. Coloquei a cabeça para fora e olhei para os dois lados do corredor. Havia funcionários circulando mais adiante, mas nenhum sinal das crianças.

– Belinha! Meu coração acelerou.

Jessica apareceu atrás de mim. – Calma. Eles devem ter ido um pouquinho mais para frente.

– Eu falei para ela ficar aqui.

– Eu vou procurar – Jessica disse, já retirando as luvas. Balancei a cabeça.

– Não. Eu vou.

– Nessie, eu posso...

– Tem muita gente lá fora, Jessica. Ela não conhece ninguém. Tirei o avental rapidamente e o deixei sobre a bancada.

A preocupação cresceu quando olhei novamente para o corredor e percebi o movimento que vinha do salão. Eu conseguia ouvir música, conversas e o anúncio de alguma coisa pelo sistema de som. A festa já estava cheia e Belinha era pequena o suficiente para desaparecer facilmente no meio de dezenas de adultos. Virei-me para Alice e Jessica.

– Vocês duas assumem aqui. Alice assentiu. – Vai. A gente cuida de tudo.

– Os doces de frutas vermelhas não saem ainda. Os salgados da bancada dois podem ir assim que...

– Renesmee – Alice me interrompeu. – Vai procurar sua filha. Eu sei o que fazer. Respirei fundo. – Certo.

Saí da cozinha e comecei a caminhar rapidamente pelo corredor, olhando para cada porta e chamando por Belinha.

Quanto mais me aproximava do salão, maior ficava o movimento. Algumas pessoas estavam paradas próximas à entrada, funcionários passavam carregando bandejas e ouvi alguém anunciar que a aniversariante seria chamada ao palco. Meu estômago apertou.

– Belinha? Passei por outro grupo de convidados e procurei entre eles, sentindo a preocupação aumentar a cada segundo. Ela tinha prometido que ficaria perto da cozinha. E eu só precisava encontrá-la antes que aquela pequena curiosa resolvesse transformar um simples passeio pelo corredor em uma aventura pelo hotel inteiro.

Saí do corredor de serviço e encontrei um movimento muito maior do que imaginava. A festa já estava completamente diferente do salão quase vazio que eu tinha visto durante a tarde. Havia pessoas por toda parte, música tocando, garçons atravessando os espaços entre os convidados e grupos conversando próximos às enormes janelas do hotel. Uma área externa se abria ao lado do salão e dava acesso a uma piscina iluminada, cercada por mesas e pequenos sofás onde alguns convidados conversavam antes do momento do parabéns.

Por alguns segundos, fiquei ainda mais nervosa ao perceber quantos lugares Belinha poderia ter encontrado para explorar. Passei os olhos rapidamente pelas pessoas, procurando pelo vestido rosa que eu mesma havia escolhido para ela naquela manhã, mas não encontrei nenhum sinal da minha filha. Parei o primeiro garçom que passou por mim carregando uma bandeja quase vazia.

– Desculpe, você viu uma menininha de uns cinco anos usando um vestido rosa? Ela está acompanhada de um garotinho menor, de camisa social. Ele pensou por alguns segundos antes de negar.

– Desculpe, senhora. Não reparei.

– Tudo bem, obrigada. Continuei andando e parei outro funcionário próximo à piscina.

Repeti a descrição, dessa vez acrescentando que o menino se chamava Ephraim, mas recebi novamente uma resposta negativa. Meu coração começou a acelerar ainda mais, e já estava pegando o celular para ligar para Alice e pedir que ela procurasse pelo outro lado quando encontrei um terceiro garçom saindo do salão.

– Por favor, você viu duas crianças passando por aqui? Uma menina de vestido rosa e um menino menor. Eles provavelmente estavam correndo.

O rapaz assentiu imediatamente. – Vi. Passaram por mim há poucos minutos. Soltei o ar aliviada.

– Para onde foram? Ele apontou para dentro do salão. – Na direção do palco. O menino estava correndo na frente e a menina atrás dele.

– Muito obrigada. Guardei o celular e segui na direção indicada, tentando não ficar irritada antes mesmo de encontrar Belinha.

Eu tinha dito claramente que ela não deveria sair de perto da cozinha, e ter feito um amigo havia aparentemente sido suficiente para que todas as minhas orientações fossem esquecidas.

Quanto mais me aproximava do palco, mais pessoas precisava contornar. Um homem falava ao microfone e pedia que os convidados se aproximassem porque estava chegando a hora do parabéns, o que tornava minha busca ainda mais difícil. Fiquei na ponta dos pés por um instante, tentando enxergar entre os adultos, até finalmente encontrar o vestido rosa alguns metros adiante.

O alívio veio primeiro. Belinha estava bem. Então meus olhos encontraram outra pessoa e todo o resto deixou de importar. Ethan. Parei de andar. Por alguns segundos, fiquei olhando para ele sem conseguir compreender exatamente o que estava vendo. Ethan estava próximo ao palco, cercado por pessoas que eu não conhecia.

Jacob Black estava ao lado dele, assim como algumas mulheres e outros convidados que pareciam fazer parte do grupo mais próximo da aniversariante. Mas não foi a presença do homem que eu conhecera naquela tarde que me deixou imóvel.

Foi Ethan. Meu Ethan.

Ou pelo menos o homem que eu acreditava conhecer. Ele vestia um terno impecável, perfeitamente ajustado ao corpo, muito diferente das roupas que costumava usar quando saía de Forks dizendo que precisava viajar a trabalho.

O cabelo estava cuidadosamente arrumado, o relógio em seu pulso não era o que usava em casa e havia algo até na postura dele que parecia diferente. Ethan não parecia um funcionário qualquer participando de um evento da empresa.

Ele parecia pertencer àquele lugar. As pessoas ao redor falavam com ele com familiaridade, e a maneira como estava posicionado próximo a Jacob Black me fez lembrar imediatamente do nome estampado nos documentos do evento. Black Enterprises. Senti um frio atravessar meu estômago. Ethan nunca havia me dito onde trabalhava.

De repente, todas as perguntas dos últimos dias voltaram ao mesmo tempo. O celular desconhecido. A pessoa salva como amor. A semana longe de casa. A ligação atendida afastado. A viagem repentina para Seattle justamente quando eu precisava dele. Dei um passo.

Ethan levantou os olhos. Ele me viu. A mudança em seu rosto foi tão imediata que qualquer esperança de estar interpretando a situação de maneira errada começou a desaparecer. Ethan empalideceu e ficou completamente imóvel.

Não houve surpresa feliz por encontrar a mulher com quem morava inesperadamente em Seattle. Não houve sorriso, pergunta ou qualquer gesto de quem acabara de receber uma visita inesperada.

Houve medo. Continuei andando na direção dele sem conseguir desviar os olhos. Eu queria perguntar o que estava fazendo ali, por que nunca havia me contado que trabalhava para a Black Enterprises e por que parecia tão assustado ao me ver. Antes que conseguisse chegar perto o suficiente, Belinha percebeu minha presença.

– Mamãe! Ela correu até mim. Abaixei automaticamente e segurei seus braços.

– Isabella, onde você estava? Eu falei para não sair de perto da cozinha.

– Eu fui com o Ephraim.

– Você não pode desaparecer desse jeito. Eu fiquei preocupada. Minha voz saiu mais nervosa do que eu pretendia, e Belinha fez uma pequena careta antes de apontar para trás.

– Mas olha, mamãe. Segui a direção de seu dedo. Ethan continuava parado.

– Eu disse que vi o papai mais cedo. Meu coração pareceu bater ainda mais forte. Olhei para minha filha. – O quê?

– Era ele. Eu falei que tinha visto o papai e você disse que eu tava confundindo. Belinha segurou minha mão e começou a me puxar.

– Vem. Não precisei ser levada. Caminhei ao lado dela até o pequeno grupo, sentindo os olhos de algumas pessoas se voltarem para nós. Ethan continuava sem dizer nada, e quanto mais perto eu chegava, menos conseguia reconhecer o homem diante de mim.

– Ethan? Ele abriu a boca.

– Nessie... Foi tudo o que conseguiu dizer.

Belinha sorriu, completamente alheia ao peso daquele momento, soltou minha mão e correu os últimos passos até ele.

– Papai! Ela abraçou as pernas de Ethan.

O silêncio que se formou ao nosso redor me fez perceber que havia algo muito maior acontecendo. Ethan olhou para baixo. Não tocou em Belinha. Não a pegou no colo como fazia em Forks. Não disse nada. Foi Jacob Black quem quebrou o silêncio.

– Então é verdade? Olhei para ele.

A cordialidade que havia visto na cozinha algumas horas antes tinha desaparecido completamente. Seu rosto estava sério e seus olhos estavam presos em Ethan.

– O que significa isso, Ethan? Meu olhar voltou imediatamente para o homem com quem eu dividia uma casa havia anos.

Ethan engoliu em seco. – Eu posso explicar. Senti minha garganta apertar.

– Então explica. Ele olhou para mim e depois para as pessoas ao redor. Seus olhos pararam por um instante em uma mulher próxima dele, uma mulher elegante que eu ainda não conhecia, mas que naquele momento também parecia esperar uma resposta.

Foi quando percebi que ela estava usando uma aliança. Meu olhar desceu quase involuntariamente para a mão de Ethan. Havia uma aliança no dedo dele também. Uma aliança que nunca existia quando ele voltava para Forks.