Jacob


A porta se fechou atrás de Quil e o silêncio que tomou a sala durou alguns segundos. Ethan continuou sentado diante de mim com aquela expressão de superioridade ensaiada, mas eu já não estava interessado nas ações que ele tinha acabado de comprar. Vinte e cinco por cento da Black Enterprises era um problema que Solomon e meu jurídico resolveriam. O homem sentado do outro lado da mesa era outro tipo de problema, um que tinha começado muito antes de Claire ou qualquer um de nós entender o que estava acontecendo. Tirei o relógio do pulso e o coloquei sobre a mesa, mais por hábito do que por necessidade, antes de me recostar na cadeira e observá-lo. Ele tinha entrado ali querendo me provocar, querendo que eu entendesse que havia conseguido colocar os pés novamente dentro da empresa que eu o expulsara. O que Ethan ainda não sabia era que, desde a conversa com Quil, eu finalmente conhecia o motivo daquela obsessão.

– Fitzgerald – chamei, pronunciando o sobrenome devagar.

O sorriso dele desapareceu por uma fração de segundo. Foi pouco, mas suficiente. Ethan inclinou a cabeça e tentou recuperar a postura arrogante.

– Vejo que Black fez o dever de casa. Parabéns pelo esforço, mas é Hale.

– Não para mim. – Apoiei os braços sobre a mesa e o encarei. – Você passou anos arquitetando uma vingança em nome de Michael Fitzgerald, se aproximou da minha família, entrou na minha empresa e casou com a minha filha. Depois de toda essa dedicação ao papai, renegar o sobrenome dele parece até falta de respeito.

A mandíbula de Ethan endureceu.

– Você não sabe nada sobre mim.

– Sei o suficiente. Inclusive que você começou essa merda muito antes de colocar os olhos em Claire.

– Cuidado com o que vai dizer.

Sorri sem humor.

– Está dando ordens dentro da minha sala agora?

– Estou avisando para não falar sobre coisas que desconhece.

– Eu conheci seu pai, Fitzgerald. Você conheceu a versão que uma criança consegue enxergar. Existe uma diferença do caralho entre as duas coisas.

Ele se inclinou para frente e toda aquela tranquilidade que tinha carregado até ali começou a desaparecer.

– Não fale do meu pai.

– Você entrou aqui procurando uma guerra por causa dele. Agora vai ouvir.

– Eu não preciso ouvir sua versão.

– Precisa, sim. Principalmente porque passou metade da vida construindo uma vingança em cima de uma mentira.

Os olhos dele escureceram.

– Mentira?

– Michael Fitzgerald não perdeu aquele prédio porque eu o enganei. Não perdeu porque eu o ameacei, manipulei documentos ou roubei qualquer coisa dele. Seu pai perdeu aquele prédio porque era um jogador compulsivo que já tinha destruído praticamente tudo que possuía antes de bater na minha porta.

Ethan levantou abruptamente da cadeira.

– Cala a boca.

Permaneci sentado.

– Senta.

– Não fale dele desse jeito.

– Eu disse para sentar.

Ele apoiou as duas mãos sobre a mesa e se inclinou na minha direção.

– Você matou meu pai.

Aquilo finalmente me fez levantar. Não com pressa, porque eu não precisava fazer movimentos bruscos para intimidar ninguém. Fiquei de pé diante dele e abotoei lentamente o paletó.

– Repete.

– Você ouviu.

– Ouvi. Quero ver se tem coragem de repetir olhando para mim.

Ethan sustentou meu olhar.

– Você matou Michael Fitzgerald.

Soltei uma risada baixa e balancei a cabeça.

– Então é isso que você conta para si mesmo há quinze anos? Que eu apareci, roubei o patrimônio da sua família e depois matei seu pobre pai inocente?

– Você ficou com o prédio dele.

– Fiquei.

– Depois ele morreu.

– Morreu.

– E você espera que eu acredite em coincidência?

Dei a volta na mesa e parei diante dele. Ethan era um homem adulto e tinha porte suficiente para não parecer pequeno diante de muita gente. Diante de mim, porém, precisou erguer um pouco o rosto.

– Não houve coincidência nenhuma na morte do seu pai.

Ele congelou.

Vi exatamente o momento em que aquela frase o atingiu.

– O que você disse?

– Você ouviu.

– Então admite.

– Admito que Michael morreu por causa das escolhas que fez. Só não fui eu quem o matou.

Ethan soltou uma risada amarga.

– Conveniente.

– Conveniente teria sido deixar seu pai se foder sozinho quando ele apareceu desesperado na minha frente pedindo milhões emprestados. Eu não fiz isso.

A expressão dele mudou.

– Você está mentindo.

– Seu pai me procurou porque estava devendo para gente que não manda carta de cobrança, Fitzgerald. Eles tinham ameaçado sua família. Ele já tinha vendido propriedades, queimado investimentos e perdido praticamente tudo que os Fitzgerald levaram gerações para construir. Aquele prédio era a última coisa de valor que restava porque era herança da família.

– Pare.

Ignorei.

– Michael me pediu dinheiro. Eu emprestei.

– Você tomou o prédio como garantia.

– Claro que tomei. Eu era amigo dele, não um completo idiota. Seu pai precisava de milhões e já tinha provado que não conseguia controlar a própria vida. O prédio foi a garantia do empréstimo e ele assinou cada documento sabendo exatamente o que aconteceria se não pagasse.

Ethan balançou a cabeça.

– Você está tentando transformar meu pai num incompetente para justificar o que fez.

– Não preciso justificar porra nenhuma. Tenho documentos guardados há quinze anos. Contratos, transferências, registros da dívida, tudo. Se veio atrás de vingança sem sequer fazer a merda do trabalho de descobrir contra quem deveria se vingar, isso é problema seu.

Ele apontou um dedo para mim.

– Meu pai confiava em você.

– E eu tentei ajudá-lo.

– Você ficou com tudo!

Minha voz subiu pela primeira vez.

– Porque ele apostou o dinheiro!

Ethan ficou imóvel.

Deixei o silêncio pesar entre nós antes de continuar.

– Essa parte ninguém contou para você, não é?

Ele não respondeu.

– Michael veio até mim dizendo que precisava pagar uma dívida de jogo porque tinham ameaçado vocês. Eu dei o dinheiro. Milhões. Dinheiro suficiente para encerrar a dívida e tirar aqueles homens das costas dele. Sabe o que seu pai fez?

– Não.

– Apostou de novo.

– Mentira.

– Pegou o dinheiro que deveria salvar a própria família e tentou recuperar tudo que já tinha perdido. Porque jogador afundado não pensa como empresário, marido ou pai. Pensa como jogador. Michael acreditou que conseguiria transformar aqueles milhões em muito mais, pagar a dívida, recuperar o patrimônio e voltar para casa como o grande homem que queria que todos acreditassem que ainda era.

Ethan respirava mais rápido.

– Cala a boca.

– Perdeu tudo.

– Cala a boca!

– Cada centavo.

Ele empurrou uma das cadeiras para trás com violência.

– Você está mentindo!

Não recuei.

– Depois voltou para mim.

– Pare de falar.

– Pediu mais dinheiro.

Ethan passou a mão pelos cabelos e começou a andar pela sala.

– Você não sabe quem ele era.

– Sei melhor do que você aparentemente quer saber. Michael era meu amigo. Gostava dele. Mas amizade não apaga a verdade. Seu pai era um viciado em jogo, Fitzgerald. Um homem inteligente que deixou o vício transformar inteligência em arrogância e arrogância em estupidez. Perdeu prédios, dinheiro, segurança, dignidade e quase levou a família inteira junto.

Ethan virou-se bruscamente.

– Você não tem o direito de falar dele assim.

– Tenho mais direito do que você de me acusar de assassinato.

– Ele morreu depois que você tomou o último patrimônio da nossa família!

– O prédio deixou de ser dele porque ele não pagou a dívida que tinha comigo. Eu não tomei nada. Executei uma garantia que ele mesmo ofereceu.

– Você podia ter devolvido!

Soltei uma risada incrédula.

– Depois de ele perder milhões meus numa mesa de jogo?

– Você já era rico!

– E daí?

Ele ficou em silêncio.

Aproximei-me mais.

– Escuta bem essa parte porque parece que ninguém ensinou a você. Ter dinheiro não transforma ninguém em instituição de caridade para homem irresponsável. Eu tentei ajudar seu pai quando ainda existia alguma coisa para salvar. Ele recebeu uma oportunidade que muita gente jamais teria recebido e jogou fora. Literalmente.

Ethan fechou as mãos em punhos.

– Você sabia que ele estava sendo ameaçado.

– Sabia.

– E deixou acontecer.

Minha expressão endureceu.

– Eu tentei impedir que acontecesse. Michael continuou procurando as mesmas pessoas, fazendo as mesmas apostas e acumulando novas dívidas. Quando descobri o tamanho da merda pela segunda vez, já era tarde demais.

– Ele morreu por sua causa.

– Não. – Minha voz saiu baixa e dura. – Seu pai morreu por causa do vício dele e dos homens com quem escolheu se envolver. Pode me odiar porque fiquei com o prédio. Pode me culpar porque eu não consegui salvá-lo. Pode passar mais quinze anos alimentando essa merda se isso ajudar você a dormir. Mas não coloque a morte de Michael nas minhas costas porque eu me recuso a carregar a culpa que pertence a ele.

Ethan ficou me encarando e, pela primeira vez desde que entrara naquela sala, eu não vi o homem calculista que tinha enganado Claire durante anos. Vi raiva. Raiva de verdade, desorganizada e desesperada.

– Você está tentando sujar a memória dele porque sabe o que fez.

Balancei lentamente a cabeça.

– Não, Fitzgerald. Você é que precisa que eu seja o monstro.

– Vai se foder.

– Finalmente chegamos perto da verdade.

Ele franziu o cenho.

– Que verdade?

– Você precisa que eu seja culpado porque, se eu não for, o que sobra? – perguntei, encarando-o sem qualquer intenção de aliviar o golpe. – Sobra um pai viciado que destruiu o próprio patrimônio. Sobra um homem que recebeu dinheiro para proteger a família e apostou tudo. E sobra você percebendo que passou quinze anos construindo a própria vida ao redor de uma vingança que nunca teve fundamento.

– Você não sabe porra nenhuma sobre o que eu fiz.

– Sei que se aproximou de Claire sabendo exatamente quem ela era. Sei que armou para Quil ser encontrado com outra mulher e destruiu o relacionamento dos dois porque precisava abrir espaço para chegar até minha filha. Depois ocupou o lugar dele, casou com Claire, entrou na Black Enterprises e passou anos construindo confiança suficiente para chegar perto de mim sem levantar suspeitas. Isso exige planejamento. Paciência também. Só faltou inteligência para conferir se a história que justificava toda essa merda era verdadeira.

Ethan avançou um passo.

– Eu vi minha mãe perder tudo por sua causa.

– Não. Você viu sua mãe perder tudo e precisava de alguém para culpar. Eu estava ali, fiquei com o prédio e era muito mais fácil odiar Jacob Black do que admitir que Michael Fitzgerald destruiu a própria família.

– Você não conhecia minha casa.

– Conhecia seu pai.

– Não conhecia o que aconteceu depois que ele morreu!

– E você não conhecia o que aconteceu antes!

Minha voz ecoou pela sala. Ethan ficou imóvel e eu continuei antes que ele pudesse interromper.

– Essa é a parte que você se recusa a aceitar. Você construiu uma história com metade dos fatos e transformou a outra metade no que precisava para justificar suas escolhas. Durante quinze anos, você repetiu que eu roubei seu pai, destruí sua família e causei a morte dele. Era perfeito. Dava a você um inimigo, um propósito e uma desculpa para cada coisa filha da puta que fez depois.

– Eu não preciso de desculpa.

– Precisa mais do que imagina.

Aproximei-me até restar pouco espaço entre nós.

– Porque, se você aceitar que estou dizendo a verdade, vai ter que olhar para tudo que fez sem Michael para usar como justificativa. Vai ter que admitir que Claire não era culpada. Quil não era culpado. Minha família não era culpada. Mesmo assim, você passou por cima de todos eles porque queria me atingir.

Ethan respirou fundo, tentando recuperar a postura que tinha ao entrar.

– Você acha que alguns documentos vão apagar o que sua família fez com a minha?

– Não. Acho que os documentos vão provar que você escolheu o inimigo errado. O resto é problema seu.

Ele soltou uma risada amarga.

– Você continua arrogante como eu lembrava.

– E você continua evitando a parte que incomoda.

– Qual?

Cruzei os braços.

– Você sabe que é verdade.

Ele me encarou.

– Não sabe nada sobre o que eu sei.

– Sei que, se tivesse certeza de que estou mentindo, estaria rindo da minha cara. Em vez disso, está quase perdendo o controle porque cada detalhe que contei encaixa em alguma coisa que você passou quinze anos tentando ignorar.

Ethan ficou em silêncio.

Eu sorri.

– É uma merda quando a verdade começa a fazer sentido, não é?

– Você acha que venceu alguma coisa com isso?

– Não estou tentando vencer. Você é que transformou sua vida inteira numa competição comigo.

A expressão dele mudou novamente.

Ali estava a parte que eu queria atingir.

– Talvez no começo fosse vingança – continuei. – Talvez aquele garoto que perdeu o pai realmente acreditasse que estava fazendo justiça. Eu até consigo entender essa parte. O problema é que você cresceu e teve tempo suficiente para investigar. Teve acesso a documentos, pessoas, informações e até à porra da minha empresa. Poderia ter descoberto a verdade anos atrás.

– E por que eu acreditaria em você?

– Não precisa acreditar. Verifique.

Apontei para a porta.

– Vá atrás dos contratos. Converse com quem estava lá. Procure as transferências bancárias. Levante as dívidas do seu pai, os imóveis vendidos, as apostas, tudo. Faça agora o trabalho que deveria ter feito antes de transformar a vida da minha filha numa ferramenta de vingança.

Ethan apertou os lábios.

– Você quer muito acreditar que tudo isso foi um erro.

– Não. Eu acho que o erro acabou faz tempo.

Ele franziu a testa.

– O que quer dizer?

– Quero dizer que talvez você tenha começado querendo vingar Michael. Mas em algum momento isso deixou de ser sobre ele.

Ethan não respondeu.

– Você entrou na Black Enterprises e viu o prédio que um dia pertenceu à sua família carregando meu nome. Viu minha empresa crescer, viu dinheiro, influência, respeito e tudo aquilo que acredita que deveria ter sido seu. E gostou de me odiar porque isso permitia olhar para tudo que construí e pensar que eu tinha roubado a vida que pertencia a você.

– Você está delirando.

– Estou?

Sorri friamente.

– Então me explica por que continua aqui. Michael está morto. A verdade pode ser comprovada. Você já conseguiu vinte e cinco por cento da empresa. Se era justiça que queria, poderia simplesmente pegar seu dinheiro e seguir a vida. Mas não consegue.

Apontei para ele.

– Porque isso não é mais vingança, Fitzgerald.

A raiva apareceu novamente em seu rosto.

– Você não sabe o que é.

– Sei exatamente.

Dei um passo à frente.

– É inveja.

Ethan soltou uma risada seca.

– Inveja de você?

– É. E eu sei que essa palavra deve doer para caralho.

– Você se acha importante demais.

– Não preciso me achar nada. Você passou quinze anos medindo sua vida pela minha.

Ele tentou responder, mas continuei.

– Queria o prédio de volta porque agora ele é meu. Queria entrar na minha empresa porque ela cresceu sobre algo que um dia pertenceu à sua família. Queria espaço no meu conselho, acesso às minhas decisões e poder suficiente para sentar diante de mim e dizer que agora é meu sócio. Você não quer recuperar Michael. Quer provar que pode ser maior do que Jacob Black.

Ethan me encarava com puro ódio.

– Você não faz ideia do que está falando.

– Faço. E a parte mais engraçada dessa merda toda é que você teve quinze anos para me destruir e acabou precisando comprar vinte e cinco por cento da minha empresa só para conseguir voltar a sentar nesta sala.

O maxilar dele travou.

Mantive o sorriso.

– Então pode continuar chamando isso de vingança se ajudar seu ego. Pode colocar uma fotografia do seu pai na parede e repetir que tudo é por Michael Fitzgerald. Mas nós dois sabemos que essa desculpa ficou pequena há muito tempo.

Inclinei-me ligeiramente na direção dele.

– Você não quer justiça pelo seu pai, Fitzgerald. Você quer o que acredita que deveria ser seu.

Minha voz baixou.

– E isso tem outro nome.

Ethan permaneceu calado.

Eu sustentei seu olhar antes de concluir:

– Inveja.


Ethan ficou me encarando por alguns segundos depois que pronunciei a palavra inveja. Eu esperava outra explosão, talvez mais uma tentativa patética de defender a memória do pai ou de justificar os quinze anos que havia desperdiçado tentando me atingir. Em vez disso, a expressão dele mudou lentamente. Primeiro surgiu um sorriso incrédulo, depois uma risada baixa que cresceu até preencher a sala. Ethan levou uma das mãos à boca, afastou-se de mim e continuou rindo enquanto caminhava até as janelas. Deixei que terminasse. Eu tinha aprendido cedo que um homem que precisava rir daquela maneira depois de ser confrontado não estava se divertindo. Estava procurando tempo para recuperar o controle.

– Inveja de você, Black? – perguntou finalmente, virando-se na minha direção enquanto ainda ria. – Essa foi provavelmente a coisa mais absurda que ouvi desde que entrei aqui.

Voltei para minha cadeira e me sentei com tranquilidade.

– Fico feliz em proporcionar entretenimento. Agora tenta rir sem parecer que está a dois minutos de quebrar alguma coisa. A provocação funcionou. O sorriso dele desapareceu parcialmente.

– Você realmente acredita que alguém teria motivos para invejá-lo? – Ethan caminhou lentamente pelo escritório. – Jacob Black, o grande empresário que construiu um império e passou a acreditar que isso lhe dava autoridade para controlar todo mundo ao redor. Você compra pessoas, intimida funcionários, ameaça quem atravessa seu caminho e trata a própria família como extensão da sua vontade. Sua filha passou anos tentando conseguir sua aprovação. Sua ex-mulher mal consegue permanecer no mesmo ambiente que você sem uma discussão. Você ficou quatro anos sem falar com o próprio pai porque era orgulhoso demais para admitir que talvez estivesse errado. É arrogante, autoritário, agressivo, possessivo e tão acostumado a conseguir tudo que quer que acredita que dinheiro resolve qualquer problema.

Inclinei a cabeça, acompanhando a lista.

– Terminou?

– Ainda não.

– Então continua. Está ficando interessante descobrir quantos defeitos meus você decorou durante quinze anos.

Ethan ignorou a provocação.

– Você não sabe ceder. Não sabe pedir desculpas. Não aceita ser contrariado e transforma qualquer discordância numa disputa de poder. É um homem de quase cinquenta anos que continua resolvendo metade dos problemas ameaçando quebrar a cara de alguém.

– Essa parte funciona bastante.

– E acha isso motivo de orgulho.

– Dependendo da cara, sim.

Ele soltou uma risada sem humor.

– Você é um filho da puta.

Assenti.

– Frequentemente.

Minha concordância pareceu irritá-lo mais do que qualquer defesa teria feito.

– É só isso?

– O que esperava? Que eu começasse a argumentar que sou um sujeito adorável? – Apoiei os braços na cadeira. – Você esqueceu manipulador, vingativo e filho da puta quando necessário. Também tenho pouca paciência, gosto de mandar, odeio perder e provavelmente tenho um problema sério com a ideia de alguém tocar no que considero meu. Se vai fazer uma análise da minha personalidade, Fitzgerald, pelo menos faça direito.

– Você fala como se isso fosse uma qualidade.

– Não. Falo como alguém que chegou aos quarenta e nove anos sem precisar fingir que é outra pessoa.

Ethan ficou em silêncio.

Eu sorri. – E mesmo assim ela me escolheu.

A mudança no rosto dele foi imediata.

Finalmente.

Durante toda aquela conversa, eu tinha evitado Renesmee deliberadamente. Queria primeiro destruir a fantasia sobre Michael Fitzgerald sem misturar o passado com o presente. Agora que Ethan já não conseguia se esconder atrás do pai, eu podia atingir a ferida que ele tentava proteger desde que entrara na sala.

– O quê? – perguntou ele.

– Você ouviu.

O maxilar dele endureceu. – Não coloque Renesmee nessa conversa.

– Engraçado. – Recostei-me na cadeira. – Bastou eu dizer ela e você soube exatamente de quem estava falando.

– Não fale dela.

– Por quê? Esse assunto incomoda mais do que seu pai?

Ethan caminhou até a mesa. – Você não sabe nada sobre o que existiu entre mim e Renesmee.

– Sei o que existe agora. Para mim é suficiente.

Ele apoiou as mãos na mesa.

– Foram seis anos, Black.

– E você conseguiu jogar os seis no lixo. Parabéns.

– Eu construí uma família com ela.

– Enquanto mantinha outra em Seattle.

– Você não estava lá.

– Ainda bem. Tenho pouca tolerância para homem que precisa de duas casas para sustentar uma mentira.

Os olhos dele se estreitaram. – Renesmee me amava.

– Provavelmente.

Minha resposta pareceu surpreendê-lo.

– Não vou diminuir o que ela sentiu por você só para ganhar uma discussão. Ela te amou, confiou em você e teve uma filha contigo. Isso torna o que você fez ainda mais filha da puta.

Ethan apontou para mim. – Você acha que alguns meses apagam seis anos?

– Não preciso apagar nada. Inclinei-me para frente. – Esse é o erro que continua cometendo. Você acha que estou competindo com seu passado. Não estou. Pode guardar cada lembrança dos seis anos, Fitzgerald. Pode fazer um álbum se quiser. No presente, ela está comigo.

O rosto dele endureceu. Eu continuei antes que ele pudesse responder. – Você pode ser bom no mundo das trapaças. Preciso reconhecer isso. Conseguiu enganar Claire, enganou minha família, entrou na minha empresa e passou anos sem que ninguém descobrisse quem realmente era. Até conseguiu comprar vinte e cinco por cento da Black Enterprises escondendo o próprio nome. É um filho da puta competente quando o jogo é mentira e manipulação.

Apontei para ele.

– Mas existe uma coisa que você não vai conseguir trapaceando.

– Renesmee não é uma coisa.

– Finalmente disse alguma coisa inteligente.

Levantei e caminhei lentamente até a lateral da mesa.

– Ela é uma mulher adulta que pode escolher quem quiser. E escolheu justamente o homem que você acabou de passar cinco minutos descrevendo como arrogante, autoritário, agressivo, possessivo e controlador.

Dei uma risada curta. – O que deve ser particularmente humilhante para você.

– Você acha que ela escolheu você porque ama você?

– Não acho.

Ethan arqueou uma sobrancelha.

– Tenho certeza.

O silêncio se instalou entre nós.

– Ela disse – continuei. – Sem eu perguntar. Sem precisar arrancar nada dela. E antes que tente encontrar alguma explicação conveniente, eu também amo aquela mulher.

Ethan desviou o olhar por um segundo.

Só um. Foi suficiente.

– Você não sabe amar ninguém além de você mesmo.

– Pode ser. Ainda estou aprendendo essa merda.

– E acha que vai funcionar?

– Não faço ideia. Mas pretendo descobrir.

Voltei a me sentar e cruzei os braços.

– Olha como sua situação ficou ruim, Fitzgerald. Renesmee conhece meus defeitos. Ela sabe que eu sou um desgraçado difícil, sabe que não vou virar príncipe de conto de fadas, sabe que provavelmente vou irritá-la até ficarmos velhos e, mesmo com todas essas informações, olhou para as opções disponíveis e ficou comigo.

O rosto de Ethan se fechou.

– Então pensa na merda que você precisa ser para eu ainda parecer uma escolha melhor.

Ele avançou até a mesa.

– Não brinca comigo, Black.

– Não estou brincando. Estou começando a me divertir, mas é diferente.

– Você acha que ganhou porque está dormindo com ela?

Meu sorriso desapareceu. – Cuidado com a próxima frase.

Ethan percebeu.– Ainda dói, não é? Saber que durante seis anos ela foi minha.

Levantei os olhos lentamente.

– Você está tentando provocar ciúme no homem errado.

– Estou falando a verdade.

– Então eu devolvo outra. Ela era sua mulher e você escolheu mentir para ela todos os dias durante seis anos. Agora ela acorda na minha cama porque quer. Essa diferença deve te corroer.

Ethan apertou as mãos.

– Isso não vai durar.

– Talvez dure cinquenta anos. Talvez ela acorde amanhã, olhe para minha cara e perceba que cometeu um erro do caralho. Ainda será decisão dela. Essa é outra coisa que você nunca entendeu.

– Você não conhece Renesmee como eu conheço.

– Conheço o suficiente para saber que ela odeia ser tratada como propriedade. Então essa sua obsessão em decidir o que ela sente provavelmente explica bastante coisa.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos e então soltou uma risada curta.

– Você está muito confiante.

– Normalmente estou.

– Talvez devesse tomar cuidado.

Minha atenção aumentou, embora não demonstrasse.

– Isso foi uma ameaça?

Ethan ajeitou o paletó.

– Foi um conselho.

– Conselhos seus têm pouco valor por aqui.

– Você acha que sabe tudo porque descobriu meu nome e ouviu algumas histórias sobre meu pai. Ainda existem coisas que você não sabe, Black.

– Imagino. Você passou quinze anos escondendo merda. Deve ter um estoque considerável.

Ele sorriu.

Havia algo diferente naquele sorriso.

– Só não fique confortável demais.

Meu instinto me disse para prestar atenção, mas mantive a expressão indiferente.

– Está preocupado com meu conforto agora? Que consideração.

Ethan começou a caminhar em direção à porta.

– Algumas coisas mudam muito rápido.

– Fitzgerald.

Ele parou e olhou por cima do ombro.

Levantei da cadeira.

– Vou deixar uma coisa muito clara porque aparentemente você precisa que algumas informações sejam repetidas. Pode comprar ações, pode tentar entrar no conselho, pode gastar cada centavo que tiver tentando me atingir. Eu vou responder dentro da empresa e, no fim, veremos quem fica de pé.

Caminhei alguns passos na direção dele.

– Mas Renesmee não entra nessa guerra.

Ethan sorriu discretamente.

– Você não decide isso sozinho.

– Decido a parte que envolve você chegar perto dela.

– Ela é mãe da minha filha.

– E existe uma ordem judicial dizendo exatamente como essa convivência funciona. Respeite cada vírgula.

Ele sustentou meu olhar.

– Ou?

Parei diante dele.

– Ou você vai descobrir por que todo mundo nesta empresa tem inteligência suficiente para não testar meus limites.

– Outra ameaça?

– Não. Essa você vai entender perfeitamente.

Minha voz baixou.

– Se você chegar perto da minha futura esposa ou colocar em risco a mãe do meu filho, vai encontrar Michael Fitzgerald mais cedo do que imaginava.

A expressão dele mudou ao ouvir futura esposa.

Não corrigi.

Eu mesmo ainda não tinha feito aquela pergunta a Renesmee, mas, naquele momento, percebi que tinha acabado de falar em voz alta algo que minha cabeça já tratava como decidido.

Ethan olhou para mim por alguns segundos.

– Futura esposa?

– Alguma dificuldade de audição?

– Interessante.

– Para mim, bastante.

Ele segurou a maçaneta.

– Só existe um problema nos seus planos, Black.

– Imagino que esteja desesperado para me contar.

Ethan abriu a porta e, antes de sair, virou o rosto na minha direção. O sorriso que apareceu não tinha mais nada da arrogância exagerada com que entrara. Era controlado demais.

– Renesmee pode mudar de ideia.

Fiquei olhando para ele.

– Sobre casar comigo?

– Sobre muita coisa.

Ethan saiu antes que eu respondesse e fechou a porta atrás de si. Permaneci parado no meio da sala por alguns segundos.

Eu poderia ter ido atrás dele. Poderia ter exigido que explicasse aquela merda ou chamado a segurança para revistá-lo antes que deixasse o prédio. Não fiz nenhuma das duas coisas. Ethan queria exatamente aquilo. Queria deixar uma frase no ar e me fazer correr atrás dela como se estivesse assustado.

Não daria esse prazer ao filho da puta.

Peguei o relógio sobre a mesa e o coloquei novamente no pulso. Depois alcancei o telefone interno.

– Mande Solomon voltar para a sala. E quero tudo sobre a origem do dinheiro usado por Ethan Fitzgerald para comprar aquelas ações.

Desliguei sem esperar resposta.

A ameaça velada de Ethan podia esperar alguns minutos.

Mas não seria ignorada.