Amor não era o plano
2 Açúcar, Chuva e Preocupação
Narrado por Renesmee
O cheiro de baunilha e chocolate preenchia cada canto da cozinha da minha confeitaria enquanto eu terminava de decorar uma dúzia de cupcakes encomendados para uma festa infantil no fim de semana. A chuva caía do lado de fora, transformando as janelas em grandes painéis embaçados, mas aquilo já fazia parte da rotina em Forks. Depois de tantos anos morando ali, eu nem percebia mais o som constante das gotas batendo no telhado. Era quase como uma trilha sonora permanente da minha vida.
Na bancada ao lado, Jessica conferia uma prancheta cheia de anotações enquanto alternava entre responder mensagens de clientes e atualizar a agenda da loja. Nos últimos dias ela andava mais animada do que o normal, e eu entendia perfeitamente o motivo. Pela primeira vez desde que abri a confeitaria, as encomendas estavam chegando mais rápido do que conseguíamos produzir.
— Eu juro que se mais uma pessoa ligar hoje pedindo bolo para sábado vou começar a cobrar taxa por desespero — Jessica comentou enquanto folheava algumas páginas.
Eu ri sem desviar a atenção da cobertura que estava espalhando cuidadosamente sobre os cupcakes.
— Isso é uma reclamação ou um agradecimento?
— Um agradecimento muito cansado.
Ela colocou a prancheta sobre a bancada e apontou para uma lista.
— Olha isso, Nessie. Três bolos de casamento, duas mesas de doces, quatro aniversários e aquele evento corporativo em Port Angeles. Nós nunca tivemos tantas encomendas ao mesmo tempo.
Meu sorriso aumentou involuntariamente.
Durante muito tempo aquela confeitaria tinha sido apenas um sonho que parecia grande demais para mim. Meu pai continuava dizendo que eu tinha abandonado uma carreira promissora para vender doces, mas cada vez que via a agenda lotada eu sentia que tinha feito a escolha certa. Não foi fácil construir aquele negócio. Houve meses em que eu precisei contar moedas para pagar fornecedores e noites em que fiquei acordada até o amanhecer preparando encomendas enquanto Belinha dormia no quarto ao lado.
Agora, pela primeira vez, parecia que todo aquele esforço estava começando a dar resultado.
— Acho que estamos ficando famosas — brinquei.
— Acho que você está ficando famosa — corrigiu Jessica. — Eu só sou a pessoa que tenta impedir que você aceite cinquenta encomendas para o mesmo dia.
Soltei uma risada.
— Você exagera.
— Não exagero. Semana passada você tentou aceitar um casamento para cento e oitenta convidados com apenas cinco dias de antecedência.
— E deu certo.
— Por milagre.
Continuei trabalhando enquanto observava os doces alinhados sobre a bancada. Havia algo extremamente satisfatório em ver tudo organizado daquela forma. As cores, os aromas, os detalhes. Aquela cozinha era o lugar onde eu me sentia mais segura no mundo.
Talvez porque ali tudo fizesse sentido, receitas tinham medidas exatas, massas cresciam ou não cresciam. Coberturas davam certo ou davam errado.
A vida fora daquela cozinha era muito mais complicada.
Meu celular começou a tocar sobre a bancada.
Não dei atenção imediatamente. Imaginei que fosse algum fornecedor ou cliente querendo fazer alterações de última hora em alguma encomenda. Jessica também ignorou o som, ocupada demais organizando os pedidos.
Foi apenas quando o aparelho continuou vibrando que enxuguei as mãos em um pano e caminhei até ele.
Meu coração apertou no instante em que vi o nome da escola de Belinha na tela.
Atendi imediatamente.
— Pois não?
Do outro lado da linha, a voz da professora parecia calma, mas havia uma preocupação evidente em seu tom.
— Senhora Cullen? Desculpe incomodar durante o trabalho.
Minha postura mudou na mesma hora.
— Aconteceu alguma coisa com a Belinha?
— Ela está bem, mas começou a apresentar febre há cerca de uma hora. Nós a levamos para a enfermaria e verificamos a temperatura duas vezes para confirmar. Achamos melhor ligar para a senhora.
Toda a animação que eu sentia segundos antes desapareceu instantaneamente.
— Quanto de febre?
— Trinta e oito e meio.
Fechei os olhos por um momento.
Belinha raramente ficava doente, mas quando acontecia, parecia concentrar todas as doenças possíveis de uma única vez.
— Eu estou saindo agora.
— Ela pediu pela senhora.
Aquilo bastou.
— Chego em quinze minutos.
Desliguei sem perder tempo.
Jessica já estava me observando do outro lado da cozinha.
— Belinha?
Assenti rapidamente enquanto pegava minha bolsa.
— Febre.
A expressão dela mudou imediatamente.
— Vai. Eu cuido daqui.
— Tem certeza?
— Renesmee, sua filha está doente. A loja não vai explodir na sua ausência.
Sorri apesar da preocupação.
— Você é a melhor.
— Eu sei. Agora corre.
Peguei as chaves do carro e praticamente atravessei a confeitaria em direção à saída. A chuva continuava caindo lá fora, mas naquele momento eu mal a percebia.
Tudo o que conseguia pensar era na minha menina esperando por mim na enfermaria da escola.
E nada no mundo era mais importante do que chegar até ela.
Saí da escola carregando Belinha nos braços enquanto ela mantinha a cabeça apoiada no meu ombro. O corpinho estava quente demais, e aquilo era suficiente para deixar qualquer mãe preocupada. A chuva fina típica de Forks continuava caindo, transformando o estacionamento em um mar de poças brilhantes sob o céu cinzento. Apertei minha filha um pouco mais contra mim enquanto caminhava apressada até o carro, ignorando completamente a água que respingava nas minhas calças.
Belinha estava chorosa, daquele jeito manhoso que só aparecia quando ela realmente não estava bem. Normalmente minha filha era um pequeno furacão incapaz de ficar parada por mais de cinco minutos, mas naquele momento ela parecia exausta, agarrando-se ao meu pescoço como se estivesse usando as últimas forças para permanecer acordada.
— Mamãe... — ela murmurou com a voz fraca.
— Eu sei, meu amor. Já estamos indo para casa.
— Minha cabeça dói.
Meu coração apertou imediatamente.
— Vai passar, princesa. O vovô vai dar uma olhada em você e logo vai se sentir melhor.
Ela fungou baixinho e escondeu o rosto no meu pescoço.
Abri a porta traseira do carro e a coloquei cuidadosamente na cadeirinha. Mesmo febril, Belinha reclamou quando afastei seus braços de mim para prender o cinto.
— Não quero sentar.
— Eu sei que não quer, mas precisamos colocar o cinto.
— Quero colo.
Sorri apesar da preocupação.
— Daqui a pouco você pode ficar no colo da mamãe lá em casa.
Depois de alguns segundos de protesto, consegui prendê-la adequadamente. Afastei uma mecha dos cabelos castanhos que havia grudado na testa suada da minha filha e toquei sua testa mais uma vez. Continuava quente.
Fechei a porta do carro e caminhei rapidamente para o banco do motorista.
Antes mesmo de ligar o motor, peguei o celular, meu dedo encontrou o contato do meu pai quase automaticamente.
Se havia uma pessoa que eu ligava sem pensar duas vezes quando algo acontecia com Belinha, era ele.
A chamada foi atendida antes do terceiro toque.
— Nessie?
— Pai.
A preocupação na voz dele surgiu imediatamente.
— O que aconteceu?
— A escola me ligou. Belinha está com febre.
Houve uma pausa breve.
Aquela pausa profissional que Edward Cullen sempre fazia quando recebia alguma informação médica.
— Quanto?
— Trinta e oito e meio.
— Ela está reclamando de alguma coisa específica?
Olhei pelo retrovisor.
Belinha estava encolhida na cadeirinha, abraçada ao próprio casaco.
— Dor de cabeça e muito cansaço.
— Certo.
Ouvi alguns ruídos do outro lado da linha.
Provavelmente ele já estava pegando as chaves.
— Vou examiná-la.
Sorri discretamente.
Meu pai podia reclamar das minhas escolhas de vida, podia questionar minhas decisões e me lembrar semanalmente que eu deveria ter terminado a faculdade.
Mas quando o assunto era Belinha...Nada vinha antes dela.
— Estou indo para casa com ela agora.
— Ótimo. Chego aí em quinze minutos.
— Pai, você não precisa sair correndo do hospital.
— Renesmee.
Aquele tom bastou.
O mesmo tom que ele usava desde que eu tinha cinco anos. O tom que significava que a conversa já estava encerrada.
— Tudo bem — respondi, rendida.
— Dirija com cuidado.
— Vou dirigir.
— Com cuidado.
Revirei os olhos.
— Sim, doutor Cullen.
— Engraçadinha.
Sorri.
— Até daqui a pouco.
— Até já.
A chamada foi encerrada.
Por alguns segundos permaneci observando a tela apagada do celular, era impossível não me sentir mais tranquila depois de falar com ele.
Meu pai tinha esse efeito, mesmo quando eu já era adulta, mesmo quando tinha minha própria filha. Guardei o aparelho na bolsa, liguei o carro e olhei novamente pelo retrovisor.
Belinha havia fechado os olhos e seu rostinho estava corado pela febre. Pequeno e frágil. Meu coração apertou.
Tudo o que eu queria naquele momento era chegar em casa, colocá-la na cama e vê-la melhorar.
Engatei a marcha e saí do estacionamento enquanto a chuva continuava caindo sobre Forks, sem imaginar que aquela preocupação com uma simples febre era apenas o começo de uma sequência de acontecimentos que mudaria completamente a minha vida.
Assim que entrei em casa, subi com Belinha para o quarto e a acomodei na cama. Ela mal abriu os olhos durante todo o processo, apenas se encolheu debaixo das cobertas e voltou a dormir quase imediatamente. O calor da febre ainda deixava suas bochechas avermelhadas, e aquilo continuava me preocupando mais do que eu gostaria de admitir.
Enquanto aguardava a chegada do meu pai, tentei organizar algumas coisas pela casa, mas era impossível me concentrar. Minha atenção voltava constantemente para o celular.
Ethan ainda não tinha retornado nenhuma das minhas mensagens.
Nem uma.
Aquilo começou a me irritar.
Passei a mão pelos cabelos e comecei a andar de um lado para o outro na sala. A chuva batia contra as janelas enquanto eu observava a tela do telefone pela décima vez em menos de cinco minutos.
Então liguei novamente.
A chamada tocou.
Tocou.
Tocou.
E caiu na caixa postal.
Fechei os olhos.
Respirei fundo.
Liguei outra vez.
A mesma coisa.
Na terceira tentativa, deixei de tentar parecer compreensiva.
— Ethan, sou eu. Belinha está doente. A escola me ligou porque ela estava com febre e agora está dormindo. Eu já falei com meu pai e ele está vindo examiná-la.
Parei por um segundo.
A irritação escapou antes que eu pudesse impedir.
— E sinceramente? Gostaria de saber o que pode ser mais importante do que atender uma ligação quando sua filha está doente.
Desliguei antes de me arrepender, mas imediatamente senti culpa. Não porque eu estivesse errada, mas porque não gostava de brigar e ainda assim, Belinha era a filha dele, não era pedir muito que atendesse o telefone ou pelo menos respondesse uma mensagem.
Suspirei e deixei o celular sobre a mesa.
Foi nesse momento que ouvi a porta abrir, meu pai entrou carregando sua maleta médica.
Mesmo depois de tantos anos trabalhando em hospitais, Edward Cullen ainda tinha aquela postura impecável que fazia qualquer pessoa perceber imediatamente que ele era médico.
— Ela está acordada? — perguntou.
— Não. Dormiu faz uns vinte minutos.
Ele apenas assentiu antes de subir para o quarto.
Os minutos seguintes pareceram uma eternidade.
Fiquei andando pela sala, organizando objetos que já estavam organizados e olhando para o celular a cada trinta segundos.
Quando finalmente ouvi os passos dele descendo a escada, corri até o pé da escada.
— E então?
Meu pai sorriu de leve.
— Ela está dormindo como uma pedra.
— Pai.
— É um resfriado, Nessie.
Todo o ar que eu nem sabia que estava prendendo escapou dos meus pulmões.
— Graças a Deus.
— A febre está controlada. Vou deixar algumas orientações e provavelmente em um ou dois dias ela estará correndo pela casa de novo e te dando dor de cabeça.
Sorri imediatamente.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer.
Peguei o celular da mesa e o guardei na bolsa.
Foi então que meu pai observou meu rosto por alguns segundos.
O suficiente para perceber algo.
Edward arqueou uma sobrancelha.
— Deixa eu adivinhar.
Eu já sabia o que viria.
— Pai...
— O pai da sua filha não atendeu.
Suspirei.
— Pai.
Ele cruzou os braços.
— Renesmee, você sabe exatamente o que eu penso.
E eu sabia, sabia muito bem.
Edward nunca tinha escondido sua opinião sobre o fato de Ethan passar tanto tempo longe, nem sobre o fato de morarmos juntos sem qualquer compromisso oficial.
Nem sobre as ausências cada vez mais frequentes, mas eu não queria discutir. Não naquela noite, depois do susto com Belinha.
Meu pai percebeu isso imediatamente e a expressão dele suavizou. Então se aproximou e depositou um beijo carinhoso na minha testa.
Um gesto que fazia desde que eu era criança.
— Se minha neta se sentir mal durante a madrugada, você me liga.
— Pai...
— Qualquer horário.
Sorri.
— Você vai reclamar o caminho inteiro até aqui.
— Provavelmente.
— E vai dizer que eu deveria ter levado ela ao hospital.
— Com certeza.
Acabei rindo.
Ele também.
Então segurou meu rosto por um instante.
— Mas eu venho.
Meu coração se aqueceu imediatamente.
— Eu sei.
— Sempre soube.
Engoli o nó que surgiu na garganta.
— Obrigada.
Meu pai beijou minha testa mais uma vez antes de pegar a maleta.
E naquele momento, observando-o caminhar em direção à porta, tive a sensação reconfortante de que, não importava quantos anos eu tivesse ou quantos problemas surgissem, Edward Cullen continuaria sendo meu super herói.
Aquela foi uma noite longa.
Talvez não porque Belinha estivesse realmente mal, afinal meu pai havia garantido que era apenas um resfriado. Talvez tenha sido porque, quando se trata da própria filha, a lógica simplesmente deixa de existir. Eu poderia ouvir dez médicos diferentes dizendo que estava tudo bem e ainda assim passaria a madrugada verificando sua respiração.
Foi exatamente o que fiz.
Durante horas permaneci sentada ao lado da cama dela observando seu pequeno corpo encolhido debaixo das cobertas. A luz suave do abajur iluminava parcialmente o quarto enquanto a chuva continuava caindo do lado de fora. De tempos em tempos eu afastava os cabelos da testa dela, verificava sua temperatura e ajustava a manta mesmo quando ela não precisava ser ajustada.
Em algum momento da madrugada, peguei o celular novamente.
Abri nossa conversa mas não havia nenhuma respostas e o que mais me incomodou ainda mais foi perceber que as mensagens sequer tinham sido entregues.
Franzi a testa.
Aquilo não era comum.
Ethan passava dias trabalhando, viajava com frequência e às vezes demorava para responder, mas suas mensagens sempre eram entregues.
Sempre.
Observei a tela por alguns segundos.
"Belinha está com febre."
"Onde você está?"
"Me liga quando puder."
As palavras continuavam ali.
Ignoradas.
Ou pior.
Nem sequer recebidas.
Fechei os olhos e soltei um longo suspiro., talvez estivesse sem sinal ou o telefone tivesse descarregado, ou estivesse em alguma reunião importante.
Eu mesma comecei a criar desculpas para ele antes de perceber o que estava fazendo.
Guardei o aparelho para não pensar demais, naquele momento minha prioridade era minha filha.
Inclinei-me sobre a cama e toquei sua testa mais uma vez.
Sorri imediatamente ao perceber que a febre havia diminuído.
O alívio foi tão grande que senti meus ombros relaxarem pela primeira vez desde que recebi a ligação da escola.
Belinha continuava dormindo profundamente, com uma das mãos apertando o urso de pelúcia que ganhara de Ethan no último aniversário.
Aquela imagem finalmente me convenceu de que eu podia deixá-la sozinha por alguns minutos.
Saí do quarto em silêncio e caminhei até a cozinha.
A casa inteira parecia estranhamente calma.
Preparei café quase no automático, guiada apenas pelo hábito. O aroma familiar começou a se espalhar pelo ambiente enquanto a cafeteira trabalhava. Alguns minutos depois, enchi uma caneca e me sentei no sofá da sala.
A manhã começava a clarear através das janelas.
Liguei a televisão apenas para quebrar o silêncio. Um jornal matinal estava passando.
O apresentador falava sobre política estadual, depois sobre previsão do tempo e, em seguida, sobre alguma inauguração em Seattle que eu não prestei atenção suficiente para entender.
Segurei a caneca entre as mãos, o calor era reconfortante, pela primeira vez desde o dia anterior, senti que talvez pudesse respirar normalmente.
Meus pensamentos foram interrompidos pelo toque da campainha, franzi a testa imediatamente, quem seria tão cedo, minha mãe costumava simplesmente entrar sem tocar, meu pai tinha acabado de sair poucas horas antes.
Jessica jamais apareceria sem avisar.
A campainha tocou novamente.
Levantei do sofá e caminhei até a porta, por precaução, olhei pelo visor antes de abrir, havia um homem estava parado do lado de fora. Alto. Moreno.
Vestido com um terno escuro que parecia caro demais para alguém visitar uma casa simples em Forks numa manhã chuvosa.
Nunca o tinha visto antes.
Abri apenas o suficiente para manter alguma distância.
— Pois não? Posso ajudá-lo?
O homem pareceu aliviado ao me ver.
— A senhorita Renesmee Cullen?
Meu estômago se contraiu de leve.
— Sim.
Ele fez um breve aceno com a cabeça.
— Meu nome é Quil Alteara.
O nome não me dizia absolutamente nada, continuei parada na entrada.
Desconfiada.
Porque homens desconhecidos não costumavam aparecer na minha porta antes das oito da manhã.
Muito menos perguntando por mim.
— Certo...
Os olhos dele demonstraram certa hesitação.
Como se estivesse procurando as palavras certas.
— Eu gostaria de conversar com você, senhorita Cullen.
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