Amor não era o plano

45 Audiência ( parte final)


Renesmee

Quando J. Jenks voltou a se sentar, senti que a parte mais difícil deveria ter passado, mas meu corpo não parecia acreditar nisso. Eu ainda mantinha as mãos unidas sobre o colo e os dedos apertados uns contra os outros enquanto a juíza analisava as últimas anotações. Do outro lado da sala, Alec conversou rapidamente com Ethan e tornou a organizar os documentos diante de si. A proposta de guarda compartilhada tinha partido deles e nós havíamos aceitado, mas aquilo não significava que eu estivesse feliz. Significava apenas que, algumas horas antes, eu tinha entrado naquela sala acreditando que poderia sair sem minha filha e agora sabia que Ethan não conseguiria me arrancar completamente da vida dela. Era uma vitória, talvez. Uma vitória pequena, amarga e muito diferente daquela que eu desejava.

A juíza permaneceu em silêncio por alguns minutos antes de finalmente levantar os olhos. Quando falou, sua voz era firme e não deixava qualquer espaço para que Ethan ou eu interpretássemos aquela decisão como uma vitória pessoal.

– Antes de estabelecer os termos, quero deixar uma questão absolutamente clara aos dois genitores. O que está sendo decidido aqui não é qual dos senhores foi melhor companheiro, quem possui maior patrimônio ou quem tem razões pessoais para se sentir prejudicado pelo outro. As alegações apresentadas nesta audiência são sérias e algumas delas deverão ser analisadas pelas vias adequadas, mas minha responsabilidade neste processo é Isabella. Todas as determinações que farei a partir deste momento têm como fundamento o melhor interesse da criança e a preservação dos vínculos que ela construiu com ambos os pais.

Engoli em seco e mantive os olhos nela.

– Ficou demonstrado que Isabella possui vínculo afetivo consolidado com a mãe, que exerceu os cuidados cotidianos durante a maior parte da vida da criança, e também com o pai, cuja figura ela reconhece e com quem mantém relação afetiva. Não existem, neste momento, elementos suficientes que justifiquem o afastamento de qualquer dos genitores. Por essa razão, homologo a composição apresentada pelas partes e estabeleço a guarda compartilhada de Isabella.

Meu coração apertou apesar de eu já saber que ouviria aquilo.

A juíza consultou uma das folhas antes de continuar.

– Considerando a necessidade de assegurar convivência efetiva e não meramente eventual com ambos, estabeleço inicialmente períodos alternados de quinze dias. Isabella permanecerá quinze dias sob os cuidados maternos e quinze dias sob os cuidados paternos, observadas as condições que serão formalizadas no termo desta audiência. Essa alternância não autoriza nenhum dos genitores a modificar unilateralmente aspectos essenciais da rotina da criança.

Quinze dias.

Foi só naquele instante que entendi de verdade o que tinha aceitado.

Quinze dias sem acordar Belinha para a escola. Quinze dias sem ouvir sua voz entrando no meu quarto de manhã. Quinze dias sem perguntar o que queria comer, sem reclamar dos brinquedos espalhados e sem sentir seus braços em volta do meu pescoço antes de dormir.

Eu sabia que depois ela voltaria.

Sabia que seriam outros quinze dias comigo.

Mesmo assim, doeu.

A juíza continuava falando, e precisei me obrigar a prestar atenção.

– A rotina escolar deverá ser preservada integralmente. A criança permanecerá matriculada na mesma instituição até que eventual mudança seja previamente acordada entre os responsáveis ou submetida ao juízo. Atividades extracurriculares, acompanhamento médico e compromissos habituais deverão ser respeitados independentemente de qual genitor esteja exercendo o período de convivência. A guarda compartilhada não significa que cada responsável terá liberdade para estabelecer uma vida diferente para Isabella a cada quinze dias. Ela precisa de continuidade, previsibilidade e segurança.

Jenks anotava alguns pontos ao meu lado.

– Decisões relevantes referentes à educação, tratamentos médicos não emergenciais, mudança de residência, viagens prolongadas e demais questões capazes de afetar substancialmente a vida da criança deverão ser tomadas conjuntamente. Nenhum dos genitores poderá utilizar seu período de convivência para impedir contato razoável com o outro. Isabella deverá ter liberdade para falar com a mãe quando estiver com o pai e com o pai quando estiver com a mãe.

Olhei para Ethan.

Ele permanecia sério, mas havia uma inquietação em sua expressão. Eu começava a perceber que aquilo também estava muito distante do resultado que ele esperava obter quando entrou naquela sala. Ethan queria controle. Em vez disso, recebia regras.

A juíza também olhou para ele antes de continuar.

– Quero ser particularmente clara sobre outro ponto. A criança não deverá ser utilizada como intermediária entre os pais. Discussões patrimoniais, questões relacionadas ao antigo relacionamento ou conflitos judiciais não poderão ser discutidos diante dela. Nenhum dos responsáveis deverá desqualificar o outro para Isabella ou utilizar a convivência como instrumento de pressão. Havendo indícios de alienação, manipulação emocional ou descumprimento reiterado dessas determinações, este juízo poderá reexaminar o regime estabelecido.

Aquilo me trouxe algum alívio.

Não era a proteção absoluta que eu queria, mas Ethan passaria a ter limites que não dependiam da minha capacidade de enfrentá-lo.

– Quanto às despesas da menor, serão distribuídas proporcionalmente à capacidade econômica dos genitores, sem que isso represente superioridade parental de qualquer das partes. Maior renda não confere maior direito sobre uma criança, assim como uma dificuldade financeira temporária não torna um pai ou uma mãe incapaz de exercer suas funções parentais. Eventuais alimentos e despesas extraordinárias serão regulamentados nos termos que constarão do acordo.

Meus olhos arderam.

Aquela frase atingiu justamente o medo que eu carregava havia semanas. Ethan tinha conseguido me fazer acreditar que perder minha casa e minha loja significava que eu poderia perder Belinha também.

Não significava.

Ainda assim, quando pensei nos quinze dias em que minha filha estaria longe de mim, não consegui comemorar.

Jenks percebeu minha expressão e falou baixo.

– Respire. Nós conseguimos impedir a guarda unilateral.

Assenti sem olhar para ele.

Eu sabia.

Só precisava de algum tempo para fazer aquela pequena vitória parecer uma vitória de verdade.

A juíza terminou de estabelecer algumas regras relacionadas aos horários de entrega e retirada da criança e então olhou para as duas mesas.

– Antes de encerrar, alguma das partes deseja se manifestar sobre questão necessária à execução prática do acordo?

Alec se levantou imediatamente.

– Sim, Excelência. Existe uma questão logística que considero indispensável resolver antes da homologação definitiva dos termos.

Meu estômago se contraiu.

Jenks levantou os olhos.

– Prossiga, doutor Volturi – autorizou a juíza.

Alec caminhou alguns passos e falou com a mesma serenidade que adotara desde o retorno do recesso.

– Meu cliente possui residência fixa em Seattle e exerce suas atividades profissionais naquela cidade. Também manifestou disposição para assumir integralmente determinadas despesas educacionais de Isabella e contribuir proporcionalmente para as demais necessidades da filha. Entretanto, um regime de alternância quinzenal entre Seattle e Forks seria incompatível com a continuidade da rotina escolar que Vossa Excelência acabou de determinar.

Eu já sabia aonde ele queria chegar.

– Não – murmurei.

Jenks se inclinou imediatamente na minha direção.

– Escute primeiro.

Alec continuou.

– A senhora Cullen atualmente reside com os pais em Forks, mas os documentos apresentados pela própria defesa demonstram que está em processo de reorganização profissional e possui uma proposta concreta para reabrir seu empreendimento em Seattle. Dessa forma, considerando que a mudança para Seattle já se apresenta compatível com seus planos profissionais, entendemos que estabelecer a residência da criança naquela cidade seria a solução menos prejudicial para a execução da guarda compartilhada.

Virei para Jenks.

– Ele quer me obrigar a mudar de cidade.

– Ele está pedindo que a residência de referência seja estabelecida em Seattle – respondeu Jenks em voz baixa. – E precisamos considerar isso.

– Minha família está em Forks.

– Eu sei.

– A escola da Belinha está em Forks.

– Renesmee, você vai reabrir a doceria em Seattle e a alternância de quinze dias é inviável mantendo vocês em cidades diferentes. Se recusarmos, abrimos novamente uma discussão que acabamos de conseguir encerrar em condições muito melhores do que aquelas com que entramos.

A juíza olhou para nossa mesa, mas permitiu que conversássemos.

Apertei os lábios.

– Então eu tenho que aceitar tudo o que ele pedir agora?

Jenks manteve a voz baixa e séria.

– Não. Mas esta parte da proposta é razoável do ponto de vista prático. Se a guarda será exercida em períodos equivalentes, Belinha precisa frequentar uma única escola e manter a mesma rotina independentemente da casa em que esteja. Além disso, a sua sociedade será em Seattle. Isso nos dá uma justificativa independente para a mudança. Não será uma mudança para seguir Ethan. Será uma mudança compatível com sua retomada profissional.

Olhei para Sam.

Ele assentiu discretamente.

– Eu aceitaria – murmurou. – Não entregue ao Alec a oportunidade de transformar uma questão logística em argumento de instabilidade.

Fechei os olhos por alguns segundos.

Eu estava cansada.

Cansada de documentos, estratégias, porcentagens e homens de terno decidindo como minha vida deveria funcionar para que eu não corresse o risco de perder minha filha.

Mas, acima de tudo, estava cansada de ter medo.

Soltei o ar lentamente e assenti para Jenks.

– Está bem. Aceite.

– Tem certeza?

– Não me faça responder isso de novo antes que eu mude de ideia.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto dele.

– Justo.

A juíza percebeu que havíamos terminado e dirigiu-se a Jenks.

– A defesa deseja se manifestar sobre o pedido?

Ele se levantou.

– Sim, Excelência. Conversei com minha cliente e, considerando que a senhora Cullen possui projeto profissional concreto para estabelecer novamente seu empreendimento em Seattle, não apresentaremos oposição à fixação da residência de Isabella naquela cidade, desde que seja assegurado à mãe prazo razoável para organizar sua mudança e que isso não implique qualquer obrigação de aceitar residência, patrimônio ou assistência pessoal fornecida pelo senhor Hale.

Alec assentiu antes mesmo de a juíza perguntar.

– Não há oposição quanto a essa ressalva.

– Muito bem – respondeu ela. – A mudança deverá ocorrer de maneira organizada, preservando-se a rotina da criança. As partes serão intimadas dos termos completos, inclusive quanto ao período de adaptação, calendário inicial de convivência e responsabilidades financeiras.

Ela fez uma última anotação e então olhou para Ethan e para mim.

– Quero que ambos compreendam que este acordo não encerra a responsabilidade dos senhores perante este juízo. A guarda poderá ser revista sempre que houver alteração relevante das circunstâncias ou demonstração de que o regime estabelecido deixou de atender ao melhor interesse de Isabella. Se qualquer dos genitores utilizar a criança para atingir o outro, descumprir reiteradamente o calendário, interferir indevidamente no vínculo afetivo ou adotar conduta que comprometa o bem-estar físico ou emocional da menor, a parte prejudicada poderá requerer nova apreciação.

Olhei para Ethan mais uma vez.

Dessa vez ele também estava olhando para mim.

A juíza encerrou:

– Espero que os dois compreendam que Isabella não precisa vencer esta disputa. Precisa sair dela com uma mãe e um pai capazes de colocar as necessidades dela acima do conflito existente entre vocês. Homologo a composição nos termos registrados e declaro encerrada a audiência.

O som discreto que marcou o encerramento pareceu liberar o ar que estava preso naquela sala havia horas.

Alec fechou sua pasta e conversou rapidamente com um assistente. Quando se levantou, havia satisfação em sua expressão, embora contida. Ele tinha entrado naquela audiência defendendo uma guarda integral que se tornara praticamente insustentável e conseguira sair com uma guarda compartilhada, convivência equivalente e a criança estabelecida na mesma cidade de seu cliente. Para um advogado que precisara reconstruir o caso no meio da audiência, provavelmente considerava aquilo um resultado bastante aceitável.

Ethan não.

Ele permaneceu sentado por alguns segundos.

Não havia satisfação em seu rosto.

Não havia alívio.

Apenas raiva.

Foi então que compreendi uma coisa que me causou mais desconforto do que todo o discurso de Alec.

Ethan nunca tinha entrado naquele tribunal querendo apenas mais tempo com Belinha.

Ele queria vencer.

Queria me colocar contra a parede até que eu não tivesse escolha além de voltar para ele.

E, apesar de eu precisar deixar Forks e dividir meus dias com minha filha, ele não tinha conseguido.

Levantei-me devagar enquanto Jenks recolhia os documentos. Eu não tinha saído daquela sala com tudo o que queria. Em quinze dias, teria de entregar minha filha ao homem em quem já não confiava e voltar para uma casa onde ela não estaria. Também precisaria deixar Forks, reorganizar minha vida em Seattle e começar praticamente de novo.

Doía.

Mas Belinha continuava sendo minha filha, Ethan não tinha conseguido tirá-la de mim.

Por enquanto, aquilo bastava.



Quando atravessei a porta da sala de audiência, tive a sensação de que meu corpo finalmente havia entendido que aquelas horas tinham terminado. O corredor estava mais movimentado do que antes, com advogados passando de um lado para o outro, funcionários carregando documentos e algumas pessoas aguardando diante das outras salas, mas meus olhos encontraram meus pais quase imediatamente. Alice havia ficado em Forks com Emmett para cuidar de Belinha, então Bella e Edward tinham vindo comigo e aguardado durante toda a audiência sem saber exatamente o que estava acontecendo. Minha mãe foi a primeira a se levantar quando me viu. Bastou olhar para seu rosto preocupado para toda a força que eu tinha reunido lá dentro ameaçar desaparecer.

Bella atravessou o corredor depressa e me envolveu em seus braços. Eu a abracei de volta, fechando os olhos por alguns segundos enquanto sentia sua mão acariciar meus cabelos. – Meu Deus, filha, eu estava ficando desesperada. Ninguém dizia nada e vocês demoraram horas. Como foi? – perguntou ela ao se afastar apenas o suficiente para olhar meu rosto.

Meu pai chegou logo depois e segurou meus ombros, examinando-me como se procurasse alguma resposta antes mesmo que eu falasse. – Você está bem? O que a juíza decidiu?

Olhei de um para o outro e tentei encontrar uma forma simples de resumir algo que parecia ter mudado minha vida inteira. – Ethan não venceu. Pelo menos, não da maneira que entrou naquela sala acreditando que venceria. A guarda integral foi retirada e ficou estabelecida a guarda compartilhada.

Minha mãe levou a mão ao peito, e vi o alívio aparecer em seu rosto antes que ela compreendesse que eu não estava exatamente feliz.

– Então Belinha continua com você – disse Bella.

– Continua comigo e com ele. Quinze dias com cada um.

Edward fechou a expressão imediatamente. – Quinze dias?

– Pai, por favor. Eu não consigo explicar tudo agora.

J. Jenks saiu da sala logo atrás de nós, acompanhado de um assistente, e percebeu imediatamente a preocupação dos meus pais. – Senhor e senhora Cullen, a decisão foi muito melhor do que o cenário que tínhamos quando entramos. Houve algumas concessões e teremos questões importantes para organizar, inclusive uma mudança para Seattle, mas posso explicar tudo com calma durante a volta para Forks.

– Mudança para Seattle? – Edward repetiu, olhando para mim.

Fechei os olhos por um instante. – Jenks acabou de dizer que explica no carro.

Minha mãe segurou o braço dele antes que começasse o interrogatório ali mesmo. – Edward, deixa ela respirar.

Ele claramente tinha umas cinquenta perguntas prontas, mas assentiu. Bella voltou a me abraçar rapidamente e começou a conversar com Jenks sobre Belinha. Eu deveria ter acompanhado os três.

Não acompanhei.

Alguma coisa me fez olhar para o fim do corredor.

E ele estava lá.

Jacob permanecia encostado próximo a uma das grandes janelas, vestido com o mesmo terno escuro que provavelmente usara naquela manhã, a camisa aberta no primeiro botão e sem gravata. Mantinha as mãos nos bolsos enquanto observava a movimentação, mas no instante em que nossos olhos se encontraram ele se afastou da parede.

Não sorriu.

Não fez nenhum gesto exagerado.

Apenas me olhou.

E foi ridículo o alívio que senti.

Eu tinha acabado de passar horas cercada por advogados extremamente competentes, tinha meus pais a poucos passos de distância e sabia que Belinha estava segura em Forks com Alice e Emmett. Ainda assim, bastou encontrar Jacob naquele corredor para alguma coisa dentro de mim finalmente relaxar. Era como se toda a tensão que eu havia mantido presa durante a audiência tivesse recebido autorização para desaparecer porque ele estava ali.

Comecei a caminhar em sua direção.

Jacob me observou aproximar e franziu discretamente o cenho, provavelmente tentando interpretar minha expressão.

– Nessie...

Não deixei que terminasse.

Quando cheguei até ele, simplesmente passei os braços ao redor de seu corpo e o abracei.

Não pensei no que estava fazendo. Muito menos nas pessoas ao nosso redor.

Jacob ficou rígido por uma fração de segundo, surpreso, mas logo senti seus braços se fecharem ao meu redor. Uma das mãos pousou firmemente em minhas costas enquanto a outra segurava minha nuca, trazendo-me um pouco mais para perto. Enterrei o rosto contra seu peito e respirei fundo.

Ele não perguntou nada. Talvez tivesse entendido que eu não precisava de perguntas naquele momento.

Ficamos assim por alguns segundos, abraçados no meio daquele corredor, e eu senti a tensão acumulada durante toda a manhã diminuir lentamente. Jacob não era exatamente um homem que transmitia tranquilidade. Na maior parte do tempo, ele parecia transmitir a possibilidade de algum problema bastante sério para qualquer pessoa que o irritasse.

Comigo, naquele momento, foi diferente.

Foi segurança.

Depois de algum tempo, sua voz grave surgiu perto do meu ouvido. – Você sabe que todo mundo está olhando para nós, não sabe?

Abri os olhos, mas não me afastei imediatamente. – Estou estragando sua reputação?

– Consideravelmente. – Senti o peito dele se mover numa risada curta. – Passei muitos anos construindo uma imagem de homem insuportável e você resolve me abraçar num corredor cheio de testemunhas.

Sorri contra sua camisa antes de finalmente levantar o rosto. – Desculpe.

Jacob baixou os olhos para mim, mas continuou com uma das mãos em minha cintura. – Não parece arrependida.

– Não estou.

O canto de sua boca se ergueu. – Melhor ainda.

Só então percebi o quanto estávamos próximos. Minhas mãos continuavam apoiadas no peito dele e a dele permanecia em minha cintura. Afastei-me um pouco, sentindo o constrangimento chegar tarde demais. – Eu só... precisava disso.

A provocação desapareceu da expressão dele. – Então não peça desculpas.

Assenti e abaixei os olhos por um instante. Jacob levou a mão ao meu queixo e me fez olhar para ele.

– Como foi?

– Complicado. A guarda será compartilhada.

Seu maxilar endureceu.

– Quanto tempo com ele?

– Quinze dias comigo e quinze com Ethan.

Eu vi claramente que Jacob não gostou.

– E você aceitou isso?

– Jenks, Sam, Paul e Embry acharam que era a melhor saída. Alec retirou o pedido de guarda integral depois que as provas foram apresentadas. Se eu recusasse, voltaríamos a depender da decisão da juíza.

Ele ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo a informação.

– Então foi a decisão certa.

– Não parece pela sua cara.

– Minha cara não tem obrigação de gostar. – Jacob passou os olhos pelo meu rosto. – Você entrou aqui correndo o risco de sair sem sua filha e Ethan não conseguiu o que queria. O resto nós resolvemos.

Nós.

Eu percebi a palavra.

Antes que pudesse comentar, uma voz surgiu atrás de mim. – Agora eu entendo.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Jacob também reconheceu a voz. A mão que estava em minha cintura desapareceu quando ele se virou, e a mudança em sua postura foi imediata.

Ethan vinha pelo corredor mas Alec não estava com ele.

Meu estômago se contraiu quando Ethan parou a alguns metros de nós e seus olhos passaram de mim para Jacob.

– Eu estava tentando entender como uma mulher que afirma estar praticamente sem dinheiro consegue aparecer numa audiência cercada por meia dúzia de advogados. – Ele soltou uma risada carregada de desprezo. – Agora ficou bastante claro.

Jacob deu um passo à frente. Foi um movimento simples, mas me colocou completamente atrás dele.

– Meça suas palavras, Hale.

Ethan sustentou o olhar. – Eu estava falando com ela.

– E eu estou falando com você. Escolha muito bem o que pretende dizer em seguida.

A voz de Jacob não estava alta. Era justamente isso que a tornava mais ameaçadora. Não havia descontrole nele, apenas aquela frieza que eu já tinha visto algumas vezes e que deixava claro que Ethan estava muito perto de ultrapassar um limite.

– Não preciso da sua proteção, Black – Ethan rebateu.

– Ainda bem, porque você não tem.

Eu teria achado graça em outra situação.

Ethan olhou para mim por cima do ombro de Jacob. – Você realmente não perde tempo, Renesmee. Algumas semanas e já encontrou alguém para pagar advogados, arrumar sua vida e provavelmente bancar o resto também.

Jacob avançou meio passo.

– Termine essa frase e descubra exatamente quanto autocontrole eu tenho dentro de um tribunal.

– Jacob – chamei, segurando seu braço.

Antes que Ethan respondesse, meu pai apareceu ao nosso lado.

Edward olhou primeiro para mim, depois para Ethan, e eu soube imediatamente que tinha ouvido o suficiente. – Acho melhor você ir embora enquanto ainda consegue fazer isso andando – disse meu pai, num tom assustadoramente tranquilo. – Porque estou tentando há semanas encontrar uma razão para não colocar meu punho nessa sua cara de pau e você está tornando esse esforço bastante desnecessário.

Olhei para ele, incrédula. – Pai!

Jacob virou o rosto para Edward e, para minha surpresa, havia um princípio de aprovação em sua expressão. – Se decidir fazer isso, Cullen, eu o deixo bater primeiro.

Edward olhou para ele. – Obrigado pela consideração.

– Posso ser generoso quando quero.

Fiquei encarando os dois.

Horas antes meu pai estava preocupado com o interesse de Jacob por mim. Agora eles negociavam a ordem em que socariam Ethan.

– Ninguém vai bater em ninguém – interrompi, colocando-me entre eles antes que aquela aliança improvável evoluísse. – Nós acabamos de sair de uma audiência. Eu gostaria muito de não voltar para dentro de uma sala por causa de uma acusação de agressão.

– Eu pagaria a fiança – Jacob comentou.

Virei lentamente para ele. – Isso não ajuda.

– Não estava tentando ajudar.

Edward soltou um som que parecia perigosamente próximo de uma risada.

Ethan não achou graça.

– Muito bonito. Agora você virou o herói da família Cullen também?

– Ethan.

A voz que surgiu atrás dele mudou imediatamente o clima.

Alec caminhava pelo corredor acompanhado de Sam, Paul e Embry. Os três homens pararam alguns passos atrás, mas Alec continuou até chegar perto do cliente.

– Eu pedi que me aguardasse na sala reservada.

Ethan virou-se para ele. – Eu só estava resolvendo uma coisa.

– Não. – Alec manteve a expressão séria. – O senhor estava iniciando uma discussão no corredor de um tribunal poucos minutos depois de concordar formalmente com uma composição que exige cooperação entre os genitores. Isso não é resolver uma coisa. É criar outra.

Ethan ficou em silêncio.

Alec indicou o corredor com um gesto discreto.

– Aguarde onde eu pedi. Precisamos concluir algumas providências antes que o senhor vá embora.

– Alec...

– Agora, senhor Hale.

Havia tanta autoridade na maneira como falou que até Ethan percebeu que insistir seria um erro. Ele lançou um último olhar para mim e depois para Jacob antes de se afastar.

Jacob acompanhou cada passo dele até vê-lo desaparecer pelo corredor.

– Não gosto dele – murmurou.

Paul parou ao nosso lado. – Acho que ninguém aqui estava com essa dúvida.

Jacob ignorou a provocação e voltou a atenção para Alec.

O advogado fechou a pasta que carregava e estendeu a mão.

– Senhor Black.

Jacob apertou a mão dele. – Volturi.

Os dois se analisaram por alguns segundos. Era estranho observar dois homens tão diferentes transmitirem a mesma sensação de que nenhuma palavra era dita sem intenção.

Alec foi o primeiro a quebrar o silêncio.

– Confesso que, quando reconheci sua equipe naquela sala, imaginei que Jacob Black não colocaria seu departamento jurídico inteiro em uma causa que considerasse injusta. Depois que tive acesso à documentação, compreendi melhor sua posição.

Jacob não demonstrou satisfação.

– Você recebeu uma versão conveniente.

– Recebi uma versão incompleta – corrigiu Alec, sem defender Ethan. – Existe uma diferença importante, principalmente para mim.

Ele então se virou para mim.

– Senhorita Cullen, não posso emitir conclusões sobre fatos que ainda precisam ser examinados pelas autoridades competentes. Entretanto, depois do que analisei hoje, espero sinceramente que consiga esclarecer a situação patrimonial e, caso as irregularidades sejam comprovadas, recuperar aquilo que lhe pertence.

A sinceridade daquela fala me surpreendeu.

– Obrigada, doutor Volturi.

Jenks, que havia se aproximado com meus pais, observou Alec por alguns segundos antes de perguntar:

– Isso significa que está oferecendo uma revanche, Volturi?

Alec olhou para ele e finalmente sorriu.

– De maneira alguma. Significa que estou fora do caso.

Todos ficaram em silêncio.

Até Jacob ergueu ligeiramente as sobrancelhas.

Jenks foi o primeiro a reagir. – Você está renunciando à representação de Ethan?

– As providências serão formalizadas ainda hoje. Minha atuação se encerra com o cumprimento das questões decorrentes da audiência. – Alec ajeitou a pasta sob o braço. – Existem situações em que uma divergência entre advogado e cliente pode ser administrada. Existem outras em que a confiança necessária à relação profissional deixa de existir. Prefiro não descobrir numa próxima audiência qual informação relevante meu cliente decidiu omitir de mim.

Paul soltou uma risada curta.

– Isso explica a cara dele quando voltou do recesso.

Alec lançou um olhar divertido para ele. – Eu recomendaria que não confundisse irritação com falta de estratégia. Ainda consegui um acordo bastante razoável para meu cliente.

– Eu sabia que você falaria isso – respondeu Paul.

– Porque é verdade.

Sam interferiu antes que aquilo se transformasse numa disputa entre advogados. – Você fez seu trabalho, Alec.

– Exatamente.

Alec voltou os olhos para mim e fez um gesto respeitoso com a cabeça.

– Boa sorte, senhorita Cullen.

– Obrigada.

Ele se afastou pelo corredor na mesma direção que Ethan havia seguido.

Fiquei olhando até ele desaparecer e então soltei o ar lentamente. Aquela manhã tinha começado comigo acreditando que Alec Volturi seria o homem responsável por tirar minha filha de mim.

Agora ele acabava de abandonar Ethan como cliente.

Virei para Jacob e encontrei seus olhos sobre mim.

Ele estendeu a mão e tocou discretamente minhas costas.

– Vamos, vou tirar você daqui.