Amor não era o plano
46 Almoço
Renesmee
Quando atravessei as portas do fórum de Seattle, a claridade do lado de fora me incomodou por alguns segundos. Depois de tantas horas naquela sala fechada, cercada por documentos, acusações e decisões que determinariam como seria a minha vida com Belinha dali em diante, respirar o ar da rua deveria ter trazido alívio. Trouxe apenas a estranha sensação de que eu ainda precisava compreender tudo o que havia acontecido. Saí ao lado dos meus pais, com J. Jenks alguns passos atrás e Jacob acompanhando o grupo em silêncio. Eu tinha vencido o pior cenário, mas agora precisava deixar Forks, reabrir minha doceria em Seattle e aprender a dividir os dias da minha filha com um homem em quem já não confiava. A audiência tinha acabado, mas as consequências dela estavam apenas começando.
Jenks alcançou meu lado enquanto descíamos os degraus e abriu a pasta que carregava para conferir algumas anotações. – Renesmee, preciso que você trate as próximas semanas com o mesmo cuidado que teve dentro daquela sala. A partir de agora, não podemos oferecer ao Ethan nenhum argumento que permita alegar descumprimento do acordo ou instabilidade da sua parte.
– Depois de hoje, a última coisa que pretendo fazer é facilitar a vida dele – respondi, ajustando a bolsa no ombro. – Vou cumprir exatamente o que foi determinado.
– Não estou falando apenas dos quinze dias – explicou Jenks. – Precisamos organizar residência, atividade profissional, escola e toda a rotina de Isabella. O acordo funcionou a seu favor porque conseguimos demonstrar que sua situação atual é transitória. Agora precisamos transformar isso em realidade. Quanto menos espaço houver entre aquilo que apresentamos e aquilo que efetivamente acontecer, menos argumentos ele terá numa eventual tentativa de revisão.
Assenti, porque já tinha pensado nisso enquanto ainda estava dentro da sala. – Vou conversar com Rachel e Rebecca hoje. A proposta da sociedade já estava praticamente definida, mas agora preciso saber quando o prédio estará disponível e quanto tempo vamos levar para colocar a doceria funcionando. Se eu realmente vou morar em Seattle, quero organizar trabalho e residência ao mesmo tempo.
Minha mãe, que caminhava do outro lado, virou-se imediatamente para mim. – Hoje? Você não vai voltar conosco para Forks?
Parei por um instante. Meu primeiro impulso foi dizer que sim. Belinha estava lá e, depois daquela manhã, tudo que eu queria era pegá-la no colo e não soltar mais. Porém, se eu voltasse naquele momento, provavelmente passaria o resto do dia respondendo perguntas, explicando a decisão para Alice e Emmett e tentando fingir que não estava apavorada com o que aconteceria nas próximas semanas. Eu precisava resolver algumas coisas antes.
Meu olhar encontrou Jacob.
Ele estava alguns passos atrás, com as mãos nos bolsos da calça e uma expressão séria enquanto nos observava. Não tinha interferido na conversa, mas percebi imediatamente que estava prestando atenção em cada palavra.
– Não – respondi, voltando-me para minha mãe. – Vou ficar mais algumas horas. Preciso começar a organizar tudo antes de ir buscar Belinha. Quanto mais rápido eu resolver a mudança, melhor.
Edward franziu o cenho. – Você não precisa fazer isso sozinha. Posso ficar em Seattle com você e ajudar a procurar um apartamento. Se for necessário adiantar algum valor para a mudança ou para a loja, também posso fazer isso.
Havia tanta preocupação na voz dele que parte da irritação que eu ainda carregava da nossa discussão em La Push desapareceu. Meu pai podia ser sufocante quando queria, e definitivamente ainda enxergava em mim uma adolescente incapaz de perceber quando um homem estava interessado, mas eu sabia de onde vinha aquilo.
Toquei seu braço e sorri. – Obrigada, pai. Se eu precisar, prometo que vou pedir. Primeiro quero conversar com Rachel e Rebecca. Talvez elas já conheçam alguma coisa perto do prédio e isso facilite.
Edward não pareceu completamente convencido. – Não vejo por que esperar para começar a procurar.
Bella segurou o braço dele. – Porque nossa filha acabou de passar horas numa audiência e talvez não queira procurar apartamento com o pai respirando no pescoço dela.
Ele olhou para minha mãe com indignação. – Eu não respiro no pescoço de ninguém.
– Edward, você queria saber onde ela estava cinco minutos depois de sair para brincar quando tinha doze anos.
– Ela tinha doze anos.
– Aos vinte e seis você continua fazendo a mesma coisa.
Não consegui evitar o sorriso. Meu pai olhou para mim como se esperasse algum apoio.
– Não me coloque no meio disso.
– Excelente – murmurou ele. – Agora as duas estão contra mim.
– Ninguém está contra você. – Passei os braços rapidamente ao redor de sua cintura e o abracei. – Eu sei que quer ajudar. E agradeço por isso. Se eu precisar, você será a primeira pessoa para quem vou ligar.
Ou talvez a segunda.
O pensamento surgiu antes que eu pudesse impedir e, contra meu bom senso, meus olhos procuraram Jacob outra vez.
Ele continuava nos observando.
Jenks fechou a pasta e chamou minha atenção de volta para o que realmente importava. – Ainda hoje enviarei para você uma cópia digital de toda a documentação da audiência e, assim que o termo definitivo estiver disponível, encaminharei também. Quero que leia tudo, mesmo as partes que pareçam excessivamente formais. Se tiver qualquer dúvida sobre o que pode ou não fazer, ligue para mim antes de tomar uma decisão.
– Pode deixar.
– Outra coisa. – Ele tornou-se ainda mais sério. – Quando ocorrer a primeira troca de Isabella, estarei presente.
Franzi a testa. – É realmente necessário?
– Considerando o histórico recente entre você e Ethan, considero prudente. A primeira entrega estabelecerá um padrão. Quero ter certeza de que horários, local e condições sejam respeitados sem discussões paralelas. Depois, se tudo transcorrer normalmente, podemos reduzir essa intervenção.
A ideia de entregar Belinha para Ethan pela primeira vez fez meu estômago apertar novamente, mas assenti. – Certo. Prefiro que esteja lá.
– Estarei.
Chegamos ao estacionamento e meus pais pararam próximos ao carro. Bella me abraçou novamente, dessa vez demorando um pouco mais antes de se afastar.
– Ligue quando terminar o que precisa fazer. E não demore para voltar. Belinha perguntou por você umas vinte vezes esta manhã.
Meu peito apertou. – Diga que vou buscá-la ainda hoje.
– Eu digo.
Edward aproximou-se e me beijou na testa. – Se mudar de ideia, basta ligar. Eu volto.
– Eu sei.
Ele olhou por cima do meu ombro.
Não precisei virar para saber quem estava atrás de mim.
A expressão de meu pai mudou discretamente.
– E tenha cuidado.
– Pai.
– Só estou dizendo para ter cuidado.
– Com Seattle?
– Com tudo.
Jacob soltou uma risada baixa atrás de mim.
Edward imediatamente olhou para ele. – Algum problema, Black?
– Nenhum. Estou admirando sua sutileza.
Meu pai estreitou os olhos. – Ainda não decidi se gosto de você.
Jacob não pareceu minimamente incomodado. – Eu sobrevivo.
– Tenho certeza.
Minha mãe segurou Edward pelo braço antes que aquela conversa se prolongasse. – Vamos embora.
– Estou indo.
Bella me lançou um olhar divertido antes de conduzi-lo até o carro. Observei os dois entrarem e esperei até que meu pai saísse da vaga. Ele ainda me olhou uma última vez pelo retrovisor antes de seguir em direção à saída.
Jenks permaneceu comigo por mais alguns minutos, repassando horários e dizendo que entraria em contato assim que recebesse a versão final do termo. Quando terminou, apertou minha mão.
– Você se saiu muito bem hoje, Renesmee. Sei que o resultado não é exatamente o que queria, mas lembre-se de como entrou naquela sala.
– Com trinta por cento.
– E saiu sem perder sua filha. Agora tenha paciência e não transforme uma vitória parcial numa derrota por agir com pressa.
– Pode deixar. Acho que já tive emoções suficientes por um dia.
Ele sorriu. – Considerando que ainda são pouco mais de meio-dia, não faça promessas.
Despedi-me dele e fiquei observando enquanto se afastava pelo estacionamento. Quando finalmente desapareceu entre os carros, percebi que havia restado apenas uma pessoa comigo.
Jacob.
Virei devagar.
Ele continuava exatamente onde estava, embora agora tivesse tirado as mãos dos bolsos. Seus olhos passaram pelo meu rosto com aquela atenção incômoda que parecia perceber coisas que eu preferia esconder.
– Acabou? – perguntou.
– Por hoje.
– Ótimo. Onde quer almoçar?
A naturalidade da pergunta me fez erguer as sobrancelhas.
– Desculpe?
Jacob caminhou até mim.
– Perguntei onde você quer almoçar.
– Eu ouvi. Só estou tentando descobrir em que momento concordei em almoçar com você.
Ele parou diante de mim. – Não concordou.
– Então temos um pequeno problema de comunicação.
– Não vejo problema algum.
Cruzei os braços. – Você acabou de admitir que eu não aceitei.
Jacob inclinou levemente a cabeça, me observando com uma tranquilidade que já começava a me irritar e, para meu desgosto, divertir.
– Nessie, você passou a manhã inteira dentro de um tribunal, provavelmente tomou café há horas e está com essa expressão de quem vai sobreviver à base de raiva até chegar em Forks. Eu não vou colocar você dentro de um carro com o estômago vazio.
– Que interessante. Eu não sabia que essa decisão era sua.
– Agora sabe.
Soltei uma risada sem humor. – Essa sua mania de decidir as coisas pelos outros deve funcionar muito bem na empresa.
– Funciona extraordinariamente bem.
– Eu não sou uma funcionária sua.
Ele sorriu de lado. – Eu já percebi. Meus funcionários não costumam discutir comigo no estacionamento.
– Talvez devessem.
– Talvez gostem dos empregos que têm.
Balancei a cabeça, tentando passar por ele, mas Jacob acompanhou meu movimento e ficou novamente diante de mim. Não me tocou nem bloqueou de verdade meu caminho. Apenas me encarou com aquela expressão segura demais.
– Você é inacreditável.
– Já me disseram.
– Imagino que muitas vezes.
– Principalmente mulheres irritadas comigo.
– Isso deveria lhe dizer alguma coisa.
– Diz. – Ele aproximou um pouco o rosto. – Que tenho um gosto bastante consistente.
Tentei conter o sorriso.
Não consegui completamente.
Jacob percebeu.
Claro que percebeu.
– Não use essa cara de satisfação – reclamei.
– Qual delas?
– Essa que diz que conseguiu o que queria.
– Ainda não consegui. Você não respondeu onde quer almoçar.
Suspirei. – Eu tenho coisas para resolver.
– E vai resolver depois de comer.
– Rachel e Rebecca estão esperando minha ligação.
– Elas sobreviverão por uma hora.
– Você pretende argumentar contra tudo que eu disser?
– Se continuar me dando argumentos ruins, sim.
Fiquei alguns segundos olhando para ele. Eu deveria estar irritada. Em parte, estava. Mas havia alguma coisa estranhamente confortável naquela discussão depois das horas que passei dentro daquele tribunal. Jacob não me olhava com pena. Não falava comigo como se eu estivesse prestes a desmoronar. Também não me perguntava a cada trinta segundos se eu estava bem.
Ele simplesmente tinha decidido que eu precisava comer.
– Você consegue ser extremamente mandão.
O sorriso dele desapareceu um pouco, substituído por aquela expressão mais séria que combinava melhor com o homem que eu conhecia.
– Consigo. E você ainda não viu metade.
Minha respiração mudou discretamente quando ele deu mais um passo e diminuiu a distância entre nós.
– Mas não confunda as coisas, Nessie. Se disser que realmente quer ir embora, eu abro a porta do meu carro, levo você para onde quiser e não volto a tocar no assunto. – Os olhos dele permaneceram presos aos meus. – Agora, se estiver apenas procurando uma boa desculpa para recusar porque acha que aceitar um almoço comigo significa alguma coisa além de comer na minha companhia, pare de perder seu tempo. Eu já deixei claro que quero você. Não preciso esconder minhas intenções atrás de um prato de comida.
Senti meu rosto esquentar.
– Você realmente não tem nenhum filtro.
– Tenho vários. Só não costumo usá-los com você.
– Isso não é um elogio.
– Não pretendia ser.
Ele estendeu a mão.
– Então escolha. Você pode voltar para Forks com fome e passar as próximas duas horas pensando em tudo que aconteceu hoje ou pode vir comigo, comer alguma coisa decente e continuar pensando em tudo que aconteceu hoje, mas com uma sobremesa na frente.
Olhei para a mão dele.
Depois para seu rosto.
– Essa foi sua tentativa de ser convincente?
– Não. – O sorriso de Jacob voltou lentamente. – Se eu começar a tentar de verdade, você vai acabar aceitando muito mais do que um almoço.
Meu coração deu aquela batida inconveniente que começava a acontecer com frequência demais perto dele.
Coloquei minha mão na sua.
– Só um almoço, Black.
Seus dedos se fecharam ao redor dos meus, firmes, e ele começou a me conduzir em direção ao carro.
– Por enquanto, Cullen.
O restaurante escolhido por Jacob ficava a poucos minutos do fórum, no último andar de um hotel no centro de Seattle. Eu deveria ter imaginado que ele não me levaria a qualquer lugar. Havia uma recepcionista que o cumprimentou pelo nome antes mesmo que ele dissesse alguma coisa e um gerente que apareceu quase imediatamente para nos conduzir até uma mesa mais reservada, próxima às janelas. Não perguntei se ele era cliente frequente. Pela maneira como todos se movimentavam ao redor dele, a resposta parecia óbvia. Jacob agradeceu com um aceno discreto, puxou minha cadeira antes de ocupar a dele e, para um homem que passava metade do tempo parecendo disposto a intimidar o mundo, demonstrava uma educação que surgia nos momentos mais inesperados.
Durante os primeiros minutos, tentei não falar sobre a audiência. Eu estava cansada de Ethan, de guarda, de advogados e principalmente de imaginar como seriam os primeiros quinze dias longe da minha filha. Jacob pareceu perceber e não tocou no assunto. Em vez disso, perguntou sobre a doceria, sobre a sociedade com Rachel e Rebecca e, depois de descobrir que eu havia abandonado a faculdade para me dedicar ao negócio, passou a me olhar com uma curiosidade diferente.
– Então você realmente largou a faculdade para abrir uma doceria em Forks? – perguntou enquanto cortava a carne com a tranquilidade de quem fazia uma pergunta simples, embora o olhar demonstrasse que esperava uma resposta detalhada.
– Quando você fala assim, parece uma decisão tomada durante um surto.
– Estou tentando decidir se foi coragem ou irresponsabilidade.
Apoiei os talheres no prato e estreitei os olhos. – Que delicadeza.
– Você já percebeu que delicadeza não é uma qualidade que faço questão de cultivar.
– Percebi nas primeiras cinco vezes em que você me deu uma ordem sem que eu tivesse pedido sua opinião.
Jacob sorriu discretamente e tomou um gole de água. – E mesmo assim está almoçando comigo.
– Sob protesto.
– Continue repetindo isso se fizer você se sentir melhor.
Balancei a cabeça, mas sorri. Era irritante como ele conseguia transformar qualquer tentativa minha de enfrentá-lo numa provocação. – Eu fazia Gastronomia. Gostava do curso, mas quando comecei a vender meus doces percebi que poderia construir alguma coisa minha. No início eram encomendas pequenas, depois vieram festas, casamentos, eventos. Quando vi, passava mais tempo trabalhando do que estudando.
– E resolveu escolher o trabalho.
– Resolvi escolher o que estava funcionando naquele momento. Meu pai quase teve um colapso.
– Cullen parece gostar de controlar os seus movimentos.
– Não fale assim dele. – A advertência saiu imediata, embora sem irritação. – Meu pai é complicado, protetor demais e acredita que consegue resolver a minha vida antes mesmo que eu perceba que existe um problema, mas fez tudo por mim durante esses anos.
Jacob ergueu uma sobrancelha. – Eu não o critiquei.
– Criticou com a cara.
– Minha cara não é problema meu.
Ri e levei o copo à boca. – Você e meu pai têm mais coisas em comum do que imaginam.
Ele não pareceu gostar da comparação. – Não estrague meu almoço.
– Estou falando sério. Os dois gostam de decidir o que é melhor para todo mundo, têm dificuldade para ouvir um não e ficam insuportáveis quando acham que estão certos.
– Existe uma diferença importante.
– Qual?
Jacob apoiou o antebraço sobre a mesa e me encarou. – Eu geralmente estou certo.
Soltei uma risada antes de conseguir evitar. – Meu Deus, como você consegue conviver consigo mesmo?
– Numa mansão bastante grande. Temos espaço suficiente.
A resposta me fez rir ainda mais, e Jacob ficou me observando com aquele sorriso pequeno e satisfeito que eu começava a reconhecer. Quando minha risada diminuiu, ele retomou o assunto com mais seriedade.
– Pretende terminar a faculdade algum dia?
A pergunta me surpreendeu. Mexi no guardanapo sobre meu colo enquanto pensava. – Já pensei nisso algumas vezes. Depois veio Belinha, a doceria cresceu e Ethan... – Parei antes de terminar. – A vida foi acontecendo. Acho que comecei a acreditar que aquela parte tinha ficado para trás.
– Você tem vinte e seis anos, Nessie. Não oitenta.
– Eu sei.
– Então, se quer terminar, termine.
– É um pouco mais complicado quando se tem uma filha, uma empresa para reconstruir e agora duas casas para encaixar na rotina dela.
– Complicado não significa impossível.
Olhei para ele. Não havia condescendência em sua voz. Jacob não estava tentando me convencer de que tudo seria fácil. Apenas parecia incapaz de aceitar a ideia de que uma dificuldade fosse suficiente para impedir alguma coisa.
– Você fez faculdade? – perguntei.
– Administração e Economia.
– Duas?
– Sim.
– Isso explica muita coisa.
Ele franziu o cenho. – O quê exatamente?
– Essa obsessão por números, empresas, relatórios e mandar nas pessoas.
– A última parte veio antes da faculdade.
Sorri. – Disso eu não duvido.
O celular sobre a mesa vibrou.
Jacob lançou um olhar rápido para a tela e sua expressão mudou. Era um aparelho diferente daquele que eu o vira usando algumas vezes. Mais simples, sem capa, completamente preto.
– Esse é o famoso telefone que toca quando alguém está prestes a ser demitido?
– Meu número privado.
– Então retiro o que disse.
Ele observou a tela por mais um segundo.
– É Sam.
Atendeu imediatamente.
– Fale.
Continuei comendo enquanto tentava não prestar atenção na conversa, mas aquilo se tornou impossível quando a expressão de Jacob endureceu.
– Quando descobriram isso?
Houve uma pausa.
Ele largou os talheres.
– Não, Sam. Não quero saber quem deveria ter verificado. Quero saber por que ninguém verificou.
A voz continuava controlada, mas o homem que estava conversando comigo sobre faculdade havia desaparecido. O Jacob diante de mim era exatamente aquele que eu tinha visto na mansão dando ordens a funcionários. Ombros firmes, olhar frio e uma maneira de falar que fazia até frases simples soarem como advertências.
Sam falou alguma coisa do outro lado e Jacob passou a mão pela mandíbula.
– Estamos negociando há quatro meses com um grupo alemão e você está me dizendo, faltando poucas horas para a reunião final, que não temos um intérprete disponível?
Fiquei imóvel por um instante.
Alemão?
– Não me interessa se o intérprete cancelou por emergência médica. Isso explica por que ele não estará lá, não explica por que uma operação desse tamanho depende de uma única pessoa. – Jacob recostou-se na cadeira e olhou pela janela. – Quem está procurando outro?
Outra resposta.
– Coloque Paul nisso também. Quero alguém que entenda alemão comercial, não uma pessoa que passou seis meses em Berlim e acha que consegue improvisar numa negociação de milhões. Se houver uma palavra mal interpretada naquela mesa, o prejuízo pode ser maior do que o contrato inteiro do trimestre.
Eu o observei em silêncio.
Até aquele momento, eu tinha conhecido Jacob principalmente através dos problemas que nos aproximaram. O pai de Claire. O avô de Ephraim. O homem que investigara Ethan, oferecera sua equipe jurídica para me ajudar e me acolhera em sua casa quando apareci desesperada no meio da noite. Era fácil esquecer que aquele mesmo homem comandava uma empresa enorme e tomava decisões que envolviam valores que eu provavelmente teria dificuldade até para imaginar.
– Quantas horas? – perguntou ele.
Ouvi uma resposta indistinta.
Jacob olhou para o relógio.
– Poucas demais. Resolva, Sam. Se precisar trazer alguém de outra cidade, traga. Helicóptero, avião, motorista, não me interessa. Quero um intérprete competente naquela sala antes de eu chegar.
Desligou e deixou o aparelho sobre a mesa com mais força do que o necessário.
O garçom apareceu naquele momento com nossas sobremesas, percebeu a expressão de Jacob e teve a sensatez de apenas colocar os pratos diante de nós antes de se afastar.
– Problemas? – perguntei.
Jacob passou a mão pelo rosto. – Um contrato importante com investidores alemães. O intérprete que acompanharia a reunião foi hospitalizado esta manhã e aparentemente ninguém naquela empresa pensou que seria inteligente manter uma segunda opção.
– Talvez ninguém imaginasse que ele fosse ser hospitalizado.
Os olhos escuros vieram imediatamente para mim.
– É para isso que existe planejamento. Eu não pago uma equipe inteira para trabalhar supondo que tudo dará certo.
– Você deve ser um chefe muito agradável.
– Não sou pago para ser agradável.
– Eles também não são pagos para adivinhar o futuro.
– São pagos para impedir que um problema previsível se transforme numa crise. – Ele pegou a colher e finalmente experimentou a sobremesa. – Sam tem algumas horas para encontrar alguém. Vai encontrar.
A convicção me fez sorrir.
– Você confia muito nele.
– Confio. Por isso ainda não liguei para fazer o trabalho dele.
– Que demonstração bonita de amizade.
– É uma demonstração de sobrevivência profissional.
Balancei a cabeça e provei minha sobremesa. Jacob continuava olhando ocasionalmente para o celular, embora tentasse disfarçar. Não era impaciência. Pela primeira vez desde que a ligação terminara, percebi que ele estava realmente preocupado.
Então me ocorreu uma ideia.
Apoiei a colher no prato e falei tranquilamente:
– Wenn du mich weiter so ansiehst, löst sich dein Problem auch nicht von allein.
Jacob parou.
Seus olhos subiram lentamente até os meus.
– O que você acabou de dizer?
Tive que morder o interior da bochecha para não rir. – Eu disse que, se continuar olhando para o celular desse jeito, seu problema não vai se resolver sozinho.
Ele ficou me encarando.
– Em alemão.
– Geralmente é assim que funciona quando alguém fala alemão.
A colher dele voltou para o prato.
– Você fala alemão?
– Falo.
– Quanto?
– O suficiente para saber que essa pergunta foi ofensiva.
Jacob se inclinou sobre a mesa, e a preocupação de segundos antes foi substituída por interesse absoluto. – Nessie.
– Fluentemente.
– Onde aprendeu?
– Intercâmbio. Passei um tempo na Alemanha quando era mais nova e continuei estudando depois. Meu pai achava importante que eu aprendesse outros idiomas.
A expressão dele mudou.
Eu conhecia aquela expressão.
Era a mesma que aparecia quando Jacob tomava uma decisão e concluía que todas as outras pessoas envolvidas apenas seriam informadas dela.
– Você está contratada.
Pisquei.
– Perdão?
– Hoje, quatro da tarde. Black Enterprises. Você vem comigo para a reunião.
Soltei uma risada, esperando que ele fizesse o mesmo.
Não fez.
– Jake, eu não pedi um emprego.
– E eu não ofereci um emprego.
– Você acabou de dizer que estou contratada.
– Para uma reunião.
– Isso continua sendo trabalho.
– E você será paga.
– Esse não é o ponto.
– É um dos pontos.
Inclinei-me para a frente. – Você sequer sabe se eu consigo interpretar uma negociação empresarial.
– Você é fluente?
– Sim.
– Entende alemão formal?
– Sim.
– Consegue acompanhar uma conversa rápida?
– Consigo, mas...
– Então o resto você aprende antes das quatro.
Fiquei olhando para ele, incrédula. – Você pretende colocar uma mulher que abandonou Gastronomia numa reunião milionária porque ela disse uma frase em alemão durante o almoço?
Jacob sustentou meu olhar sem demonstrar a menor dúvida.
– Pretendo colocar uma mulher fluente em alemão numa sala onde preciso desesperadamente de alguém fluente em alemão. Sua faculdade de Gastronomia não tem nenhuma relevância para mim hoje.
– Você é completamente insano.
– Não. Sou eficiente.
– Existe uma diferença muito pequena.
O canto da boca dele se ergueu. – Às três você recebe o material. Uma hora é suficiente para entender o assunto.
– Jacob...
Meu celular começou a tocar.
Fechei os olhos por um segundo.
– Essa conversa não terminou.
– Para mim terminou há uns dois minutos.
Peguei o aparelho e vi o nome de Rachel na tela.
– É sua irmã.
– Meus sentimentos.
Atendi antes que ele pudesse dizer outra coisa.
– Oi, Rachel.
– Nessie, desculpa ligar agora. Eu precisava falar com você sobre nossa reunião de hoje.
– Eu ia ligar justamente quando terminasse o almoço.
Jacob continuou comendo a sobremesa como se não tivesse qualquer interesse na conversa.
Rachel hesitou do outro lado. – Então... vamos precisar deixar para amanhã.
Franzi o cenho. – Aconteceu alguma coisa?
– Surgiu um compromisso e eu não vou conseguir encontrar você hoje. Rebecca também achou melhor fazermos tudo amanhã com mais calma.
Olhei para Jacob.
Ele levou outra colherada da sobremesa à boca sem levantar os olhos.
Estreitei os meus.
– Que compromisso?
– Uma coisa que preciso resolver.
– Rachel.
– Amanhã de manhã eu explico tudo. Prometo. Você ainda está em Seattle, certo?
Continuei olhando para o irmão dela.
– Aparentemente estou.
Jacob finalmente ergueu os olhos.
Havia um brilho descarado de satisfação neles.
– Perfeito – respondeu Rachel. – Então amanhã nos encontramos. E não se preocupe com o prédio. Está tudo certo. Só quero que Rebecca esteja conosco para acertarmos os últimos detalhes.
– Certo.
– Descansa um pouco hoje. Você merece depois dessa audiência.
– Vou tentar.
– Beijo, Nessie.
– Beijo.
Desliguei lentamente.
Jacob ainda me observava.
Coloquei o celular sobre a mesa.
– Negue.
Ele ergueu uma sobrancelha. – Negar o quê?
– Negue que você pediu para Rachel cancelar nossa reunião.
Jacob limpou a boca com o guardanapo antes de responder. – Não.
Esperei.
Nada.
– Não o quê?
– Não vou negar.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
– Você ligou para sua irmã.
– Mandei uma mensagem.
– Durante o almoço?
– Enquanto você estava escolhendo a sobremesa.
Minha boca se abriu de indignação. – Você não tinha nem me contado sobre a reunião ainda!
– Eu sabia que precisaria de você antes de você saber que eu precisava.
– Isso é uma das coisas mais arrogantes que já ouvi na minha vida.
Jacob recostou-se tranquilamente na cadeira.
– E resolveu o problema.
– O seu problema.
– Exatamente.
– Eu tenho uma vida, Jake.
– Eu sei. Acabei de reorganizar duas horas dela.
Soltei uma risada incrédula e passei a mão pela testa. – Você realmente mandou Rachel desmarcar comigo antes de perguntar se eu aceitaria ir com você.
– Se perguntasse primeiro, você perderia quinze minutos discutindo.
– E o que acha que estou fazendo agora?
Ele olhou para o relógio.
– Gastando oito. Ainda estamos no lucro.
Eu não sabia se queria rir ou jogar meu guardanapo nele.
– E se eu disser que não vou?
Jacob apoiou os antebraços sobre a mesa. A provocação diminuiu, mas aquela segurança irritante continuou em seus olhos.
– Então eu ligo para Sam e mando continuar procurando.
A resposta me surpreendeu.
– Só isso?
– Só.
– Você não vai tentar me obrigar?
Ele inclinou a cabeça. – Posso ser insistente, Nessie. Não sou idiota. Você não entra numa negociação da minha empresa se não quiser estar lá.
Fiquei em silêncio.
Jacob apontou discretamente para meu celular.
– Mas você estava indo encontrar minhas irmãs para discutir uma sociedade que agora ficou para amanhã. Está em Seattle, sabe alemão e eu tenho um problema que você pode resolver. Vou pagar pelo seu trabalho e mandar um motorista buscar suas coisas no hotel enquanto estivermos na empresa. Depois da reunião, levo você para Forks pessoalmente para buscar Belinha.
– Você já pensou em tudo.
– É o que faço.
– E está muito convencido de que vou aceitar.
Jacob voltou a pegar a colher.
– Estou.
– Por quê?
Ele provou a sobremesa antes de responder, como se não houvesse urgência alguma.
– Porque você está curiosa.
Franzi o cenho.
– Não estou.
– Está olhando para mim há cinco minutos tentando imaginar que negócio é importante o suficiente para me deixar irritado durante o almoço.
Droga.
Ele tinha razão.
Jacob sorriu de lado ao perceber que eu não responderia.
– Três horas, Cullen. Meu escritório.
Peguei minha colher e voltei para a sobremesa apenas para não lhe dar o prazer de ver meu sorriso.
– Se eu aceitar, quero ser paga como intérprete profissional.
– Naturalmente.
– E você não vai me tratar como uma funcionária sua.
– Durante a reunião, se estiver trabalhando para mim, vou tratar você exatamente como trato qualquer profissional que contrato.
Ergui os olhos.
– Isso deveria me tranquilizar?
– Provavelmente não.
Ri, balançando a cabeça.
Talvez eu tivesse enlouquecido depois daquela audiência.
Ou talvez passar algumas horas pensando em termos empresariais em alemão fosse exatamente o que eu precisava para parar de pensar em Ethan.
– Está bem. Eu vou.
Jacob nem sequer comemorou. Apenas pegou o telefone privado e começou a digitar.
– O que está fazendo?
– Avisando Sam para parar de procurar.
– Você tinha certeza mesmo, não tinha?
Ele levantou os olhos para mim.
– Eu disse que estava contratada.
E voltou tranquilamente para a sobremesa, como se a discussão inteira tivesse servido apenas para eu alcançar uma conclusão que, na cabeça de Jacob Black, já estava decidida desde o início.
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