Amor não era o plano

42 Audiência ( parte I)


Renesmee

Eu tinha imaginado aquela manhã tantas vezes nas últimas semanas que, quando finalmente atravessei a porta da sala onde aconteceria a audiência, tive a sensação de estar entrando em um lugar que já conhecia. A realidade, no entanto, era muito pior do que qualquer cenário que minha cabeça havia criado. O ambiente era sóbrio, silencioso e formal demais para uma decisão que envolvia a parte mais importante da minha vida. Havia mesas separadas para as partes, cadeiras alinhadas e, à frente, o lugar ainda vazio onde a juíza se sentaria. Tudo parecia impessoal, quase frio, e talvez fosse exatamente assim que precisasse ser. Para aquelas pessoas, tratava-se de um processo de guarda. Para mim, tratava-se de Belinha acordando de manhã e entrando no meu quarto, de suas mãos pequenas procurando as minhas quando tinha medo, das noites em que dormia abraçada comigo e de todos os detalhes que transformavam uma criança em muito mais do que um nome escrito em documentos.

J. Jenks caminhava ao meu lado e percebeu que eu havia diminuído os passos. Ele parou discretamente antes de chegarmos à mesa e falou em um tom baixo, cuidadoso para que apenas eu ouvisse. – Respire, Renesmee. Não tente antecipar o que ainda não aconteceu. Quando for questionada, responda apenas o que perguntarem, seja objetiva e não permita que Ethan provoque você. Alec pode tentar explorar suas emoções se considerar isso útil para o cliente dele.

Assenti e apertei a alça da bolsa entre os dedos. – Eu vou tentar, mas acho difícil ser objetiva quando alguém está decidindo se minha filha continua morando comigo.

– Ninguém espera que você não tenha sentimentos. O que precisamos demonstrar é que, apesar deles, você consegue agir pensando no melhor interesse da sua filha. – Jenks puxou a cadeira para que eu me sentasse e colocou a pasta diante dele. – Você cuidou de Belinha durante toda a vida dela. Isso não desapareceu porque sua situação financeira mudou nas últimas semanas.

Aquelas palavras deveriam ter me tranquilizado, mas minha cabeça imediatamente encontrou os setenta por cento. Eu tinha tentado não pensar naquele número desde que acordei, sem qualquer sucesso. Setenta por cento de chance de perder. Trinta por cento de chance de sair dali ainda podendo colocar minha filha para dormir todas as noites sem depender da autorização de Ethan. Eu tinha passado os últimos dias me agarrando àqueles trinta como se fossem muito maiores, repetindo para mim mesma que probabilidades não eram sentenças, mas sentada diante daquela mesa tudo parecia brutalmente real.

Ouvi a porta abrir atrás de mim e me virei depressa. Paul entrou primeiro, seguido por Sam e Embry. Os três estavam de terno e carregavam pastas, com expressões muito diferentes das que eu tinha visto na festa de Billy. Não havia brincadeiras ou sorrisos descontraídos. Ali eles eram parte da equipe jurídica que Jacob havia colocado à disposição de J. Jenks, e a presença deles trouxe um alívio que eu não esperava sentir.

Paul se aproximou e apertou meu ombro antes de ocupar a cadeira ao lado de Jenks. – Como está?

Soltei o ar devagar. – Considerando que em poucos minutos alguém pode decidir que não tenho condições de criar minha própria filha, acho que estou extraordinariamente calma.

Embry puxou uma cadeira e colocou uma pasta sobre a mesa. – Essa é uma maneira bastante generosa de definir calma.

Olhei para minhas próprias mãos e percebi que estava apertando os dedos com tanta força que as pontas estavam brancas. Soltei imediatamente.

Sam ocupou o lugar mais próximo de mim e falou com a serenidade que tinha demonstrado durante toda a preparação. – Nós revisamos tudo novamente esta manhã. Jenks sabe exatamente o que fazer, e Alec ainda não conhece parte do que apresentaremos. Isso é importante. Não entre aqui pensando que a decisão já está tomada.

Assenti, mas meus olhos voltaram automaticamente para a porta.

Só então percebi quem estava faltando.

– E o Jacob?

A pergunta escapou antes que eu pudesse pensar se deveria fazê-la.

Os quatro homens olharam para mim. Paul foi particularmente rápido em esconder um sorriso, e eu estreitei os olhos.

– O quê?

– Nada – respondeu ele, abrindo a pasta diante de si com uma concentração repentinamente exagerada.

– Essa sua cara definitivamente não significa nada.

– Paul – Sam advertiu, evitando que aquilo fosse adiante. Depois se voltou para mim. – Jacob está aqui, mas não pode participar da audiência. Ele não tem vínculo familiar ou legal com Belinha e sua presença poderia ser questionada pela outra parte. Achamos melhor não oferecer ao Alec nenhum argumento desnecessário.

Não deveria ter me incomodado.

Incomodou.

Olhei novamente para a porta e senti uma decepção absurda. – Então ele foi embora?

– Tente fazer Jacob Black ir embora de algum lugar quando decidiu ficar – Embry comentou enquanto organizava alguns documentos. – Se conseguir, me ensine.

Sam quase sorriu. – Ele está em uma sala reservada no outro corredor. Muito contrariado, provavelmente andando de um lado para o outro e verificando o relógio a cada trinta segundos, mas está aqui. Disse que vai esperar até terminar.

Meu peito relaxou de uma maneira que me constrangeu um pouco.

Ele estava ali.

Não poderia entrar, não poderia sentar ao meu lado e provavelmente não poderia fazer absolutamente nada durante as próximas horas, mas estava no mesmo prédio esperando por mim.

Por alguma razão que eu ainda não queria analisar profundamente, precisava saber disso.

– Certo – murmurei, tentando parecer menos afetada pela informação do que realmente estava. – Eu só queria saber.

Paul levantou os olhos da pasta. – Evidentemente.

Jenks lançou um olhar severo para ele. – Podemos nos concentrar?

– Estou completamente concentrado.

– Então demonstre em silêncio.

Apesar do nervosismo, um pequeno sorriso escapou de mim. Talvez tivesse sido exatamente a intenção deles, porque Sam pareceu satisfeito quando percebeu que eu finalmente tinha relaxado os ombros.

A tranquilidade durou pouco.

A porta se abriu novamente.

Meu corpo reconheceu Ethan antes que minha cabeça tivesse tempo de reagir.

Ele entrou usando um terno escuro impecável, os cabelos cuidadosamente arrumados e aquela postura segura que eu conhecia tão bem. Durante anos eu tinha visto aquele homem entrar em nossa casa, largar as chaves sobre o móvel da entrada e beijar minha testa como se fosse a coisa mais natural do mundo. Agora ele atravessava uma sala de audiência para tentar tirar minha filha de mim.

Ao lado dele vinha Alec Volturi.

Eu já tinha pesquisado sobre o advogado, apesar de Jenks ter me aconselhado a não passar horas lendo matérias sobre os processos que ele havia vencido. Alec era mais jovem do que eu imaginara, extremamente elegante e tinha uma expressão controlada que não permitia descobrir o que estava pensando. Cumprimentou algumas pessoas discretamente antes de caminhar com Ethan até a mesa destinada a eles.

Ethan me viu.

Nossos olhos se encontraram.

Ele não sorriu, mas também não demonstrou qualquer constrangimento. Apenas me encarou por alguns segundos com uma tranquilidade que fez meu estômago se revirar.

Desviei o olhar.

– Não faça isso – Jenks falou baixo ao meu lado.

Franzi a testa. – O quê?

– Não permita que a presença dele faça você diminuir. Se não quiser olhar para Ethan, olhe para mim, para a juíza ou para qualquer outra pessoa nesta sala. Mas não baixe a cabeça como se tivesse alguma coisa da qual se envergonhar.

Endireitei a postura.

Ele tinha razão.

Eu não tinha criado aquela situação.

Não tinha mentido.

Não tinha mantido duas famílias.

E definitivamente não deveria me sentir pequena diante do homem que tinha feito tudo aquilo.

Ethan voltou a conversar com Alec, e percebi que o advogado estava fazendo algumas perguntas em voz baixa. Em determinado momento, Alec olhou para nossa mesa e seus olhos passaram por Jenks, Paul, Sam e Embry. Sua expressão não mudou, mas alguma coisa naquele olhar me fez perceber que ele tinha entendido imediatamente que Ethan não enfrentaria apenas meu advogado.

A equipe de Jacob estava ali.

Paul também percebeu e se inclinou discretamente na direção de Sam. – Ele reconheceu Solomon nos documentos e agora reconheceu o restante da equipe.

– Melhor – Sam respondeu sem tirar os olhos da pasta. – Quero que saiba exatamente contra quem está trabalhando antes de decidir até onde pretende seguir a versão do cliente.

Jenks fez um gesto discreto para que encerrassem a conversa. Eu voltei a olhar para frente e tentei controlar a respiração. Ethan estava a poucos metros de mim. Pensei em Belinha, que havia ficado com meus pais naquela manhã. Ela me abraçara antes de eu sair e perguntara por que eu precisava conversar com um juiz. Eu tinha respondido que eram assuntos de adultos e prometido voltar para almoçar com ela.

Naquele momento, desejei não ter prometido.

Porque eu não sabia como sairia dali.

A porta lateral se abriu e todos se levantaram quase ao mesmo tempo.

Meu coração disparou.

A juíza entrou.

Era uma mulher que aparentava estar na faixa dos cinquenta anos, cabelos escuros presos de maneira discreta e uma expressão séria que fez a sala inteira silenciar imediatamente. Ela caminhou até seu lugar enquanto eu permanecia em pé ao lado de Jenks, tentando controlar o tremor nas mãos.

Olhei discretamente para Sam.

Ele estava sorrindo.

Foi pequeno, quase imperceptível, mas estava.

Quando nos autorizaram a sentar, inclinei-me imediatamente para Jenks. – Por que Sam está sorrindo?

Jenks acompanhou meu olhar e depois abriu uma pasta diante de si. – Porque esperávamos um juiz diferente.

Meu coração acelerou ainda mais. – Isso é ruim?

– Pelo contrário. – Ele se aproximou um pouco para falar sem que a outra mesa ouvisse. – Para uma disputa como a sua, considerando os argumentos que Ethan pretende usar sobre estabilidade financeira e estrutura familiar, eu prefiro que seja ela.

Olhei para a juíza, tentando não demonstrar esperança cedo demais. – Por quê?

Jenks manteve os olhos nos documentos enquanto respondeu. – Porque ela tem reputação de ser extremamente criteriosa em processos envolvendo crianças e não costuma confundir capacidade financeira com capacidade parental. Não significa que vencemos, Renesmee. Não se iluda com isso. Mas significa que teremos uma oportunidade muito boa de obrigar Ethan a explicar por que um homem tão preocupado com o bem-estar da filha ajudou a mãe dessa mesma criança a ficar sem casa e sem fonte de renda poucas semanas antes de pedir a guarda integral.

Meu coração pareceu bater ainda mais forte.

Pela primeira vez naquela manhã, aqueles trinta por cento pareceram um pouco maiores.

A juíza organizou alguns documentos diante dela, confirmou informações com uma funcionária e então levantou os olhos para as duas mesas. Sua atenção passou primeiro por Ethan e Alec, depois chegou até nós. Quando seus olhos encontraram os meus, precisei reunir toda a força que tinha para não demonstrar o medo que me consumia.

Jenks colocou discretamente a mão sobre a mesa perto da minha, sem me tocar, apenas sinalizando que estava ali.

Sam se inclinou um pouco atrás de mim. – Lembre do que conversamos. Não tenha medo do silêncio e não responda além do que perguntarem.

Assenti.

Do outro lado da sala, Alec disse alguma coisa a Ethan e fechou a pasta que tinha diante de si.

Então a juíza começou a falar.

– Estamos reunidos para analisar o pedido de guarda integral da menor Isabella Cullen Hale, apresentado pelo senhor Ethan Hale, bem como a contestação apresentada por sua mãe, Renesmee Cullen. Antes de iniciarmos, quero deixar uma coisa absolutamente clara às duas partes. Esta audiência não existe para determinar quem possui mais recursos, quem tem o advogado mais caro ou quem consegue apresentar a imagem mais conveniente de uma família. Meu interesse aqui é exclusivamente o bem-estar da criança.

Senti Jenks se mexer discretamente ao meu lado.

Paul ergueu os olhos, Sam permaneceu imóvel, mas percebi o canto de sua boca subir outra vez.

Do outro lado, Alec apenas ouviu.

Ethan perdeu uma parte da segurança que carregava quando entrou.

Eu respirei fundo e mantive os olhos na juíza.

A audiência tinha começado.


A juíza consultou os documentos diante dela por alguns instantes antes de erguer os olhos para as duas mesas. O silêncio dentro daquela sala parecia tornar qualquer movimento mais perceptível. Eu ouvia o som das folhas sendo viradas por J. Jenks, o clique discreto da caneta de Paul e até minha própria respiração, que eu tentava manter controlada. Do outro lado, Ethan permanecia ao lado de Alec com uma tranquilidade que começava a me incomodar. Ele parecia preparado. Pior, parecia confiante.

– Considerando que o pedido foi apresentado pelo senhor Hale, começaremos pela parte requerente. Doutor Volturi, apresente os fundamentos do pedido de seu cliente.

Alec se levantou sem pressa. Abotoou o paletó e caminhou alguns passos à frente, carregando apenas algumas folhas nas mãos. Não havia arrogância evidente em sua postura, mas havia segurança. Era fácil perceber por que sua reputação tinha me assustado tanto quando descobri que ele representaria Ethan.

– Obrigado, Excelência. – Alec lançou um breve olhar para Ethan antes de continuar. – O senhor Ethan Hale e a senhora Renesmee Cullen mantiveram um relacionamento de curta duração há aproximadamente seis anos. Dessa relação nasceu Isabella Cullen, filha biológica do meu cliente.

Demorei alguns segundos para compreender o que tinha acabado de ouvir.

Relacionamento de curta duração?

Virei imediatamente para Jenks.

– Relacionamento rápido? – sussurrei, indignada. – Nós moramos juntos durante seis anos.

Jenks não virou completamente para mim, mas sua mão fez um gesto discreto pedindo calma. – Eu ouvi. Controle-se e deixe que ele termine.

– Ele está mentindo.

– Então permita que eu demonstre isso.

Fechei a boca, embora meu sangue parecesse ter começado a ferver.

Alec continuou como se não tivesse percebido minha reação.

– Durante esses anos, meu cliente jamais se eximiu das responsabilidades paternas. Embora não residisse permanentemente em Forks, visitava a filha com frequência, contribuía financeiramente para suas necessidades e mantinha participação ativa em sua criação sempre que suas obrigações profissionais permitiam.

Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo.

Aquela versão transformava os anos de ausência de Ethan em viagens profissionais. Transformava as mentiras em circunstâncias. Transformava uma família inteira que ele escondera em Seattle numa simples relação passageira comigo.

Olhei para Ethan.

Dessa vez não desviei.

Ele sustentou meu olhar.

Foi isso que me deixou ainda mais furiosa.

Não havia vergonha em seu rosto. Nenhuma hesitação. Ethan estava sentado diante de uma juíza ouvindo o próprio advogado reduzir seis anos da minha vida a um relacionamento breve e não demonstrava qualquer intenção de corrigir uma palavra.

Jenks percebeu minha tensão e falou sem tirar os olhos de Alec. – Não dê a ele a reação que está procurando.

Respirei fundo.

Alec caminhou lentamente diante da própria mesa.

– A situação entre os pais tornou-se conflituosa recentemente, quando a senhora Cullen tomou conhecimento de que meu cliente havia formalizado outro relacionamento e constituído família em Seattle. A partir dessa descoberta, a convivência entre o senhor Hale e Isabella passou a ser dificultada.

Minha cabeça virou imediatamente para Jenks.

– Formalizado outro relacionamento? Ele já era casado!

– Renesmee – Jenks advertiu em voz baixa.

Alec prosseguiu.

– Meu cliente tentou manter o diálogo e preservar a relação com a filha, mas passou a encontrar resistência crescente por parte da mãe. O que deveria permanecer uma questão exclusivamente parental tornou-se, infelizmente, extensão de um conflito afetivo entre dois adultos. A menor começou a ser utilizada como instrumento de retaliação contra o pai.

Eu quase me levantei.

Jenks percebeu e segurou meu antebraço por baixo da mesa.

– Ele abandonava Belinha durante semanas porque estava com a outra família e agora eu sou a responsável por afastá-la?

– Eu sei – Jenks murmurou. – E daqui a pouco a juíza também saberá. Não interrompa.

Alec olhou em nossa direção por um instante. Não sabia se tinha ouvido alguma coisa, mas voltou imediatamente para a juíza.

– A intenção do senhor Hale não é afastar Isabella de sua mãe. Pelo contrário. Meu cliente reconhece a importância da presença materna na vida da criança. O pedido de guarda decorre da preocupação com a estabilidade que a senhora Cullen atualmente consegue oferecer à filha.

Aquilo fez meu estômago apertar.

Eu sabia exatamente aonde ele queria chegar.

Alec pegou uma folha da mesa.

– Nos últimos meses, a situação financeira da senhora Cullen sofreu deterioração significativa. Seu estabelecimento comercial deixou de funcionar no imóvel em que operava, ela perdeu a residência onde vivia com a filha e atualmente encontra-se morando na casa dos próprios pais. Além disso, não possui neste momento renda equivalente àquela que mantinha anteriormente.

Paul se inclinou discretamente para frente. Sam trocou um olhar rápido com Jenks, mas ninguém interrompeu.

Eu mantive as mãos unidas sobre o colo.

Eles tinham me preparado para aquilo.

Ainda assim, ouvir doía.

– Em contrapartida – Alec continuou –, meu cliente possui residência fixa em Seattle, emprego estável, renda elevada e estrutura suficiente para proporcionar à filha moradia adequada, educação, assistência médica e todas as demais condições necessárias ao seu desenvolvimento. Condições, inclusive, equivalentes àquelas já proporcionadas ao outro filho do senhor Hale.

Outro filho.

Ephraim.

Alec conseguia falar como se aquela situação fosse perfeitamente normal. Como se Ethan não tivesse criado duas crianças em famílias diferentes sem que nenhuma soubesse da existência da outra.

A juíza fez uma anotação e então ergueu os olhos. – Doutor Volturi, os documentos anexados indicam que os imóveis mencionados pela defesa da requerente estão atualmente registrados em nome de seu cliente. Refiro-me especificamente à residência utilizada pela senhora Cullen e ao prédio onde funcionava seu estabelecimento comercial. O senhor pretende abordar essa questão?

Alec assentiu.

– Sim, Excelência. E considero importante esclarecê-la justamente para evitar uma interpretação equivocada dos fatos.

Senti Jenks mudar discretamente de posição ao meu lado.

Alec retornou à mesa, pegou outro documento e prosseguiu.

– Durante o relacionamento entre as partes, a senhora Cullen realizou investimentos e assumiu compromissos financeiros que acabaram comprometendo parte considerável de seu patrimônio. Meu cliente interveio para impedir consequências mais graves. Quitou obrigações existentes e assumiu responsabilidades financeiras que pertenciam à senhora Cullen. Como forma de preservar os bens e impedir que fossem alcançados por credores, a titularidade dos imóveis foi transferida para o senhor Hale.

Por alguns segundos, achei que tivesse entendido errado.

Investimentos?

Dívidas?

Virei lentamente para Jenks.

– Que dívidas? – sussurrei. – Eu nunca tive essas dívidas.

O maxilar dele estava travado.

– Eu sei.

– Ele falsificou isso?

– Ainda não sabemos exatamente o que ele apresentou ao Alec. Não faça nada.

Minha vontade era atravessar aquela sala.

Ethan não tinha apenas tomado meus imóveis. Agora tinha criado uma história para justificar como havia conseguido fazer aquilo.

Alec continuava falando.

– Meu cliente não se apropriou desses bens para benefício próprio. As transferências tiveram como finalidade proteger um patrimônio que, em última análise, também representava segurança para Isabella. O senhor Hale assumiu dívidas, preservou os imóveis e continuou permitindo que a senhora Cullen usufruísse deles enquanto a relação permaneceu minimamente cooperativa.

Não consegui ficar calada.

– Isso é mentira.

Minha voz não foi alta, mas o silêncio da sala fez com que todos ouvissem.

Jenks fechou os olhos por um segundo.

A juíza olhou diretamente para mim.

– Senhora Cullen, compreendo que as alegações dizem respeito diretamente à senhora, mas preciso que permita ao advogado concluir. Seu representante terá oportunidade de responder a cada ponto apresentado.

– Desculpe, Excelência – respondi imediatamente. – Mas eu nunca tive as dívidas que ele está mencionando.

Alec virou o rosto para mim, mas não disse nada.

A juíza manteve a expressão séria. – Essa informação poderá ser apresentada no momento apropriado. Por enquanto, peço que não interrompa novamente.

Assenti e voltei a me sentar corretamente.

Jenks se aproximou discretamente. – Agora respire e me deixe trabalhar.

– Ele está transformando um golpe em ajuda.

– Eu percebi.

– E Alec está acreditando nele.

Jenks olhou para o advogado do outro lado da sala. – Não tenha tanta certeza disso.

A observação me fez acompanhar seu olhar.

Alec tinha voltado para junto de Ethan e conferia alguns documentos. Pela primeira vez desde que entrara naquela sala, sua expressão parecia diferente. Não era insegurança, mas havia uma atenção maior enquanto examinava uma das folhas. Ele perguntou alguma coisa a Ethan em voz baixa. Ethan respondeu rapidamente.

Alec permaneceu olhando para ele por um segundo antes de retornar à frente.

– Em resumo, Excelência, o senhor Hale não pretende eliminar a figura materna da vida de Isabella. O que solicita é a guarda integral com regime amplo de convivência materna, até que a senhora Cullen consiga restabelecer sua situação profissional, financeira e residencial. Entendemos que, neste momento, essa é a configuração que oferece maior estabilidade à menor.

Eu apertei as mãos sobre o colo.

Guarda integral.

Ethan queria levar minha filha para Seattle e me conceder visitas até que eu provasse estar financeiramente recuperada de uma situação que ele próprio tinha criado.

Aquilo não era preocupação.

Era exatamente o que Jacob havia me alertado semanas antes.

Ethan tinha tirado minha casa. Depois minha loja. Agora usava as duas coisas para tentar tirar Belinha.

Pela primeira vez desde que entrara naquela sala, meu medo começou a dividir espaço com outra coisa.

Raiva.

A juíza fez algumas anotações e consultou os documentos à sua frente antes de olhar para Alec.

– Obrigada, doutor Volturi. O senhor terá oportunidade de complementar seus argumentos posteriormente.

– Obrigado, Excelência.

Alec retornou ao lugar e sentou-se ao lado de Ethan.

A juíza então voltou sua atenção para nossa mesa.

– Doutor Jenks, a defesa da senhora Cullen pode se manifestar.

Jenks fechou a pasta que estava diante dele.

Paul recostou-se na cadeira. Sam cruzou as mãos sobre a mesa. Embry puxou discretamente uma segunda pasta para mais perto.

Havia alguma coisa na mudança de postura dos três que me chamou a atenção.

Eles estavam esperando por aquele momento.

J. Jenks ajeitou o paletó e se levantou com uma tranquilidade que contrastava completamente com a fúria que eu sentia.

Antes de se afastar da mesa, olhou para mim.

Não disse nada.

Nem precisava.

Então se virou para a juíza.