Amor não era o plano

43 Audiência ( parte II)


Renesmee

J. Jenks se levantou levando consigo apenas alguns documentos, e a tranquilidade com que caminhou para o centro da sala contrastava com a indignação que eu ainda tentava controlar. Ele não parecia minimamente abalado pelo que Alec acabara de apresentar. Na verdade, havia algo em sua postura que me fez perceber que aquela versão de Ethan não tinha nos colocado em desvantagem. Pelo contrário. Jenks parecia ter esperado que eles seguissem exatamente aquele caminho. Parou diante da juíza, organizou as folhas que carregava e, antes de iniciar sua manifestação, voltou-se para a mesa da parte contrária.

– Excelência, antes de apresentar a realidade dos fatos, a defesa considera necessário esclarecer uma questão objetiva levantada pela parte requerente. – Jenks ergueu um dos documentos, mas manteve os olhos em Alec. – Doutor Volturi, o senhor afirmou que minha cliente acumulou dívidas decorrentes de investimentos malsucedidos e que seu cliente, senhor Ethan Hale, assumiu essas obrigações para preservar o patrimônio da senhora Cullen e de sua filha. A defesa gostaria de saber quais provas documentais sustentam essa afirmação. Existem contratos de empréstimo, notificações de cobrança, execuções, registros bancários, títulos inadimplidos ou qualquer documento capaz de demonstrar a existência dessas supostas dívidas?

Alec não respondeu imediatamente. Consultou a pasta diante dele e trocou algumas palavras em voz baixa com Ethan antes de erguer os olhos. – As informações foram prestadas pelo meu cliente e estão acompanhadas de documentos referentes às transferências patrimoniais e aos pagamentos realizados durante o período mencionado.

Jenks assentiu como se aquela fosse exatamente a resposta que esperava. – Com o devido respeito, doutor, documentos que demonstram transferências patrimoniais não comprovam a existência da dívida que supostamente as justificou. Uma coisa é demonstrar que um imóvel deixou de pertencer à senhora Cullen e passou ao patrimônio do senhor Hale. Outra, completamente diferente, é provar que essa transferência ocorreu para satisfazer uma obrigação legítima da antiga proprietária.

Meu coração bateu mais forte. Pela primeira vez desde que Alec começara a falar, eu senti que alguém estava desmontando a história de Ethan em vez de apenas reagir a ela.

A juíza fez uma anotação antes de dirigir-se a Alec. – Doutor Volturi, a pergunta da defesa é pertinente. Existem elementos capazes de demonstrar a origem e a exigibilidade das dívidas mencionadas?

Alec manteve a postura profissional. – Excelência, precisarei verificar especificamente quais documentos foram fornecidos pelo meu cliente para comprovar a origem das obrigações. Posso afirmar, neste momento, que existem registros das operações patrimoniais e dos valores envolvidos.

– Então peço que faça essa verificação antes de reiterar como fato comprovado que a senhora Cullen perdeu patrimônio em decorrência de dívidas pessoais – respondeu a juíza. – A situação patrimonial da genitora é relevante para esta ação, mas as circunstâncias que a produziram também são. Continue, doutor Jenks.

– Obrigado, Excelência. – Jenks caminhou alguns passos e então se voltou novamente para a juíza. – A defesa sustenta que a narrativa apresentada pela parte requerente inverte a ordem dos acontecimentos e omite fatos indispensáveis para a correta análise do pedido de guarda. Não houve um relacionamento breve entre o senhor Hale e minha cliente. O que existiu foi uma relação familiar pública e contínua durante aproximadamente seis anos. Durante esse período, o senhor Hale viveu com Renesmee Cullen em Forks, participou da criação de Isabella e apresentou-se socialmente como companheiro de minha cliente e pai da criança. O rompimento não ocorreu porque a senhora Cullen descobriu posteriormente que ele havia constituído outra família. O senhor Hale já era casado enquanto mantinha essa relação.

O silêncio que tomou a sala foi imediato.

Olhei para Ethan. Ele se mexeu na cadeira, mas Jenks continuou antes que qualquer reação pudesse interrompê-lo.

– Enquanto mantinha uma residência e uma relação familiar com minha cliente em Forks, o requerente era casado com Claire Black em Seattle, com quem também constituiu família e teve outro filho. Nenhuma das duas mulheres conhecia a existência da outra relação nos termos em que ela realmente ocorria. Minha cliente descobriu a verdade de forma absolutamente acidental, durante um evento em Seattle. Foi somente após essa descoberta que a relação terminou.

Sam abriu uma das pastas e retirou um conjunto de documentos. Levantou-se quando Jenks fez um gesto discreto e os entregou à funcionária responsável, que os levou até a juíza.

– O que está sendo apresentado? – perguntou ela enquanto recebia o material.

Jenks consultou suas anotações. – Certidões, registros de residência, documentos relacionados ao vínculo matrimonial do requerente, elementos referentes à composição das duas unidades familiares e outros registros que demonstram a sobreposição temporal das relações. Também estamos apresentando documentos que comprovam que o senhor Hale mantinha vida familiar regular com minha cliente em Forks durante o mesmo período em que permanecia legalmente casado e constituía família em Seattle.

A juíza começou a examinar os documentos, e eu vi Alec virar-se imediatamente para Ethan. A conversa entre eles foi tão baixa que não consegui ouvir, mas a expressão do advogado havia mudado. Não parecia irritado conosco. Parecia estar tentando entender por que estava recebendo aquelas informações apenas naquele momento.

Jenks esperou a juíza terminar de verificar as primeiras páginas antes de continuar. – Essa cronologia é essencial, Excelência, porque a parte requerente pretende apresentar as restrições impostas pela senhora Cullen após a descoberta da duplicidade familiar como uma retaliação injustificada. A defesa demonstrará que minha cliente não utilizou Isabella como instrumento de vingança. Ela encerrou uma relação depois de descobrir que havia sido enganada durante anos e, posteriormente, passou a estabelecer limites à convivência quando o requerente tentou usar a própria criança como forma de pressão para restabelecer a relação.

Alec se levantou. – Excelência, preciso registrar que parte dessas alegações ainda não foi submetida ao contraditório e não pode ser tratada como fato incontroverso apenas pela apresentação da defesa.

Jenks imediatamente assentiu. – Concordo inteiramente com o doutor Volturi. E é justamente por isso que trouxemos documentos e requeremos que sejam examinados. Não estamos pedindo que este juízo aceite a palavra da senhora Cullen contra a palavra do senhor Hale. Estamos pedindo que examine os fatos materiais.

A juíza olhou para ambos. – A observação está registrada. Os documentos serão analisados e a parte requerente terá oportunidade de se manifestar sobre eles. Prossiga, doutor Jenks.

Ele agradeceu e pegou outra folha.

– Chegamos, então, ao ponto que considero mais grave para a análise deste pedido. A parte requerente afirmou que Renesmee Cullen atravessa um período de instabilidade financeira e patrimonial e utilizou essa circunstância como fundamento para sustentar que o pai teria melhores condições de exercer a guarda. Isoladamente, a afirmação parece simples. Minha cliente perdeu o imóvel onde residia, perdeu o prédio onde mantinha seu estabelecimento comercial e precisou retornar temporariamente à residência de seus pais. O problema é que a narrativa omite quem provocou essa situação.

Senti meu corpo ficar rígido.

Jenks olhou rapidamente para mim antes de retornar à juíza.

– A defesa dispõe de elementos suficientes para demonstrar que Renesmee Cullen não perdeu esses imóveis por incapacidade de administração, endividamento decorrente de investimentos malsucedidos ou qualquer outro comportamento financeiramente irresponsável. Ela foi vítima de uma série de operações patrimoniais conduzidas pelo próprio requerente, pessoa em quem depositava confiança em razão da relação afetiva e familiar que mantinham.

Sam voltou a se levantar e retirou outra pasta. Dessa vez havia muito mais documentos.

– Excelência, estamos apresentando os registros de aquisição dos imóveis, comprovantes de pagamento, movimentações financeiras, instrumentos utilizados nas posteriores transferências de titularidade e uma análise cronológica preparada a partir desses registros. A residência e o imóvel comercial foram adquiridos com participação patrimonial direta da senhora Cullen. Posteriormente, o senhor Hale passou a conduzir questões documentais relacionadas aos bens e obteve as transferências que agora utiliza para afirmar que minha cliente não possui patrimônio.

Minha garganta apertou.

Ouvir aquilo em voz alta me fez sentir idiota outra vez. Eu tinha confiado nele. Quando Ethan aparecia com documentos e dizia que precisava da minha assinatura, eu assinava. Quando dizia que cuidaria da burocracia, eu permitia. Não porque fosse incapaz de administrar minha própria vida, mas porque acreditava estar dividindo responsabilidades com o homem que considerava meu companheiro e pai da minha filha.

Jenks continuou com a mesma firmeza. – A defesa não pretende transformar esta audiência de guarda em uma ação patrimonial. As questões relativas à propriedade e à eventual responsabilização civil serão discutidas na via adequada. Contudo, quando o requerente utiliza a atual situação financeira da mãe como fundamento para retirar dela a guarda da criança, torna-se indispensável demonstrar que existem indícios documentais de que ele próprio criou ou, no mínimo, contribuiu decisivamente para a situação que agora apresenta como prova de incapacidade materna.

A juíza deixou a caneta sobre a mesa. – Doutor Jenks, a defesa está afirmando que houve fraude patrimonial?

– Estamos afirmando que existem indícios sérios de obtenção indevida de vantagem patrimonial mediante abuso de confiança e que as circunstâncias das transferências precisam ser examinadas em procedimento próprio. Para os fins desta audiência, entretanto, o ponto é mais restrito e perfeitamente demonstrável: não é juridicamente razoável utilizar a redução patrimonial da mãe como fundamento de superioridade econômica do pai sem examinar a participação dele na produção dessa mesma redução. Além disso, capacidade econômica superior, por si só, não determina aptidão parental. O interesse da criança exige análise muito mais ampla, incluindo vínculo afetivo, histórico de cuidados, estabilidade emocional, disponibilidade parental e a conduta de cada genitor.

A juíza assentiu discretamente enquanto fazia outra anotação.

Jenks colocou um dos documentos sobre a mesa. – Durante toda a vida de Isabella, Renesmee Cullen exerceu os cuidados cotidianos da criança. Era minha cliente quem acompanhava a rotina escolar, atendimentos médicos, alimentação e todas as demais necessidades diárias. O requerente, embora participasse da vida da filha, ausentava-se frequentemente sob a justificativa de obrigações profissionais. Agora sabemos que parte dessas ausências correspondia ao período em que ele retornava à outra família em Seattle. Portanto, não estamos diante de um pai que exerceu os cuidados principais e pretende preservar uma rotina já existente. Estamos diante de um pedido de alteração radical da referência de moradia de uma criança para afastá-la da pessoa que desempenhou predominantemente essa função desde o nascimento.

Olhei para a juíza. Ela continuava séria, mas estava ouvindo com atenção.

Jenks respirou fundo antes de concluir aquele ponto. – A defesa sustenta, portanto, que a situação financeira de Renesmee Cullen não pode ser examinada fora do contexto que a produziu. Se o requerente participou da transferência dos bens, retirou da mãe o acesso aos imóveis após o rompimento e, imediatamente depois, utiliza a ausência desses mesmos bens para sustentar que ela não possui estabilidade suficiente para permanecer com a filha, temos uma circunstância extremamente relevante para a análise da boa-fé deste pedido.

– Isso é absurdo! – A voz de Ethan atravessou a sala antes que Alec conseguisse impedi-lo. – Esses documentos devem ser falsos. Ela está inventando isso porque sabe que vai perder!

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Alec virou-se imediatamente para ele. – Ethan, fique em silêncio.

A juíza ergueu os olhos e sua expressão endureceu. – Senhor Hale, o senhor está representado por advogado e terá oportunidade de prestar esclarecimentos quando for solicitado. Até lá, não interrompa novamente esta audiência.

Ethan ainda parecia disposto a responder, mas Alec colocou a mão sobre seu braço e falou baixo o suficiente para que apenas os mais próximos ouvissem. – Não diga mais nada sem falar comigo antes.

Eu conhecia Ethan. Conhecia o movimento de sua mandíbula quando estava tentando conter a raiva e a maneira como apertava os dedos quando sentia que estava perdendo o controle de uma situação. Ele não esperava aquilo. Talvez soubesse que eu contestaria a história dos imóveis, mas não esperava que Jacob colocasse uma equipe inteira para investigar cada documento que ele havia usado contra mim.

Alec permaneceu alguns segundos examinando o material que Sam havia entregue à juíza. Depois se levantou e voltou-se para ela. Sua postura continuava perfeitamente profissional, mas o tom havia se tornado mais cauteloso.

– Excelência, considerando a natureza e a relevância das alegações apresentadas, bem como o fato de alguns desses documentos não terem sido disponibilizados previamente a esta defesa na forma em que estão sendo expostos agora, solicito acesso imediato às cópias para que eu possa analisá-las antes de me manifestar. Não seria responsável da minha parte contestar ou reconhecer documentos que ainda não examinei.

A resposta me surpreendeu.

Eu esperava que Alec atacasse Jenks imediatamente. Em vez disso, ele parecia muito mais interessado em descobrir o que Ethan tinha escondido dele.

A juíza olhou para J. Jenks. – A defesa possui cópias integrais para a parte requerente?

– Sim, Excelência.

Jenks virou-se para Sam.

Sam já estava preparado. Pegou uma segunda pasta idêntica, levantou-se e caminhou até Alec. Os dois se encararam por um instante antes de Sam lhe entregar o material.

– Está tudo organizado cronologicamente – explicou Sam em tom profissional. – Os comprovantes correspondentes estão identificados pelos mesmos números utilizados no índice.

– Obrigado – respondeu Alec.

Ele retornou ao lugar e abriu a pasta.

Ethan imediatamente tentou se aproximar para dizer alguma coisa, mas Alec ergueu a mão sem sequer olhar para ele.

– Agora não.

Aquelas duas palavras me chamaram mais atenção do que qualquer discussão teria chamado.

Alec começou a examinar os documentos. Virou a primeira página, depois a segunda. Parou em uma delas por tempo suficiente para retornar à anterior e comparar as duas. Em seguida, retirou os óculos do bolso interno do paletó, colocou-os e continuou lendo.

Ethan estava cada vez mais inquieto ao seu lado.

Olhei para Jenks.

Ele se sentou novamente e organizou calmamente as próprias folhas, como se nada extraordinário tivesse acabado de acontecer.

Inclinei-me discretamente em sua direção. – Isso é bom?

Jenks manteve os olhos na frente. – Ainda é cedo para dizer.

– Pela cara do Alec, ele não sabia.

Dessa vez Jenks olhou para mim. – Foi exatamente por isso que não atacamos o advogado, Renesmee. Nosso problema é o cliente dele. Se Alec Volturi é o profissional que sua reputação indica, a última coisa que Ethan deveria ter feito foi colocá-lo diante de uma juíza para sustentar uma história baseada em informações incompletas.

Voltei os olhos para a outra mesa.

Alec continuava lendo.


O silêncio permaneceu na sala enquanto Alec analisava os documentos entregues por Sam. A juíza também examinava parte do material, detendo-se principalmente na cronologia das transferências dos imóveis e nos comprovantes anexados pela nossa equipe. Eu não conseguia interpretar sua expressão, e aquilo me deixava ainda mais nervosa. Em alguns momentos, ela fazia anotações. Em outros, voltava páginas, comparava datas e consultava documentos que já estavam no processo. Ethan permanecia inquieto ao lado do advogado, tentando acompanhar a leitura, mas Alec não lhe dirigia a palavra. Quando finalmente a juíza fechou a pasta, retirou os óculos e olhou primeiro para Jenks, depois para Alec.

– Antes de prosseguirmos com as manifestações dos advogados, preciso esclarecer alguns fatos diretamente com as partes. Algumas das informações apresentadas são incompatíveis entre si, e não pretendo analisar um pedido dessa natureza sem compreender adequadamente a cronologia dos acontecimentos. – Ela voltou os olhos para Ethan. – Senhor Hale, começaremos pelo senhor. Responda objetivamente às minhas perguntas e lembre-se de que suas declarações integram os autos.

Alec se inclinou imediatamente para o cliente. – Responda apenas ao que for perguntado.

Ethan assentiu e se levantou quando orientado. Eu conhecia aquela postura. Ombros retos, expressão tranquila, voz controlada. Era a mesma aparência que usava quando precisava convencer alguém de alguma coisa. Durante seis anos, eu havia confundido aquela segurança com honestidade.

– Senhor Hale – iniciou a juíza –, o senhor ouviu seu advogado afirmar que manteve um relacionamento de curta duração com a senhora Cullen. Essa informação é correta?

Ethan hesitou por uma fração de segundo. – Nosso relacionamento teve períodos diferentes, Excelência. No início, não havia propriamente uma vida conjugal estabelecida.

Meu sangue começou a ferver outra vez.

A juíza não demonstrou qualquer reação. – Minha pergunta é mais simples. Durante aproximadamente seis anos, o senhor manteve uma relação afetiva contínua com Renesmee Cullen?

– Mantive contato frequente por causa da nossa filha e tivemos uma relação afetiva durante parte desse período.

– O senhor residia com ela?

Ethan respirou fundo. – Eu permanecia na casa quando estava em Forks.

– Com que frequência?

– Dependia das minhas obrigações profissionais. Às vezes durante alguns dias, outras vezes por períodos maiores.

A juíza consultou uma folha. – Existem registros indicando que o senhor recebia correspondências nesse endereço, mantinha objetos pessoais no imóvel e era identificado por pessoas próximas à senhora Cullen como companheiro dela. O senhor contesta essas informações?

– Não contesto que passava bastante tempo lá.

– Então havia uma convivência familiar.

Alec mexeu-se na cadeira, mas não interrompeu.

Ethan escolheu as palavras com cuidado. – Havia uma relação entre nós e eu participava da criação da minha filha.

A juíza anotou alguma coisa. – O senhor era casado com Claire Black durante esse período?

Dessa vez o silêncio de Ethan durou mais.

– Sim.

– A senhora Cullen sabia?

– Minha vida conjugal com Claire era complicada.

A juíza ergueu os olhos. – Não foi isso que perguntei. Renesmee Cullen sabia que o senhor era casado?

Ethan apertou a mandíbula. – Não conhecia todos os detalhes.

Eu quase ri de incredulidade.

Todos os detalhes.

Era assim que ele chamava a existência de uma esposa e um filho.

A juíza permaneceu impassível. – A senhora Black sabia que o senhor mantinha uma relação afetiva e familiar com Renesmee Cullen em Forks?

– Não.

– Portanto, durante um período significativo, o senhor manteve duas relações familiares simultaneamente sem que nenhuma das mulheres tivesse conhecimento completo da outra.

Alec se levantou. – Excelência, apenas para preservar a precisão da manifestação, meu cliente já confirmou a existência das duas relações. Peço somente que qualquer conclusão acerca da natureza jurídica ou moral dessas relações seja reservada à apreciação do conjunto probatório.

A juíza assentiu. – Naturalmente, doutor Volturi. Estou estabelecendo a cronologia, não fazendo julgamento moral sobre a vida afetiva do requerente.

Alec agradeceu e voltou a se sentar.

A juíza então retomou as perguntas. – Senhor Hale, quando a senhora Cullen descobriu seu casamento?

– Há algumas semanas.

– E quando o senhor pediu a guarda integral de Isabella?

Ethan hesitou.

– Pouco depois.

– Quanto tempo depois?

– Não me recordo da data exata.

A juíza consultou os documentos. – Onze dias.

Senti Paul se mexer ao meu lado.

A juíza continuou. – O senhor convive com essa criança desde o nascimento. Durante aproximadamente seis anos não requereu a guarda integral. Onze dias depois do rompimento com a mãe, iniciou providências para obtê-la. Por quê?

– Porque depois que Renesmee descobriu tudo, passou a agir emocionalmente e começou a dificultar minha convivência com Isabella.

– De que maneira?

– Não permitia que eu levasse minha filha comigo. Recusava convites, evitava conversas e passou a decidir tudo sozinha.

Eu queria interromper. Jenks percebeu antes mesmo que eu me mexesse e colocou a mão sobre a mesa, discretamente, lembrando-me do que havia pedido.

A juíza perguntou: – O senhor possui registros de pedidos de convivência formalmente recusados? Mensagens nas quais a senhora Cullen impeça contato entre pai e filha sem justificativa? Algum episódio em que tenha procurado Isabella e sido impedido de vê-la?

Ethan demorou para responder. – Não trouxe essas mensagens comigo.

– Elas existem?

– Existem conversas entre nós.

– Isso não responde à pergunta.

A segurança dele começou a falhar.

– Renesmee deixou claro que não confiava mais em mim.

– Considerando os fatos que acabamos de estabelecer, parece razoável concluir que a confiança entre vocês foi comprometida. Minha pergunta diz respeito à criança. A senhora Cullen impediu o senhor de ver Isabella?

– Ela começou a criar dificuldades.

A juíza fez outra anotação. – Registrarei sua resposta dessa forma.

Eu não sabia se aquilo era bom ou ruim, mas a maneira como Alec fechou os olhos por um breve instante me fez acreditar que não era exatamente a resposta que ele gostaria de ouvir.

A juíza pegou outra folha.

– Agora vamos aos imóveis. O senhor afirmou ao seu advogado que a senhora Cullen acumulou dívidas decorrentes de investimentos malsucedidos e que assumiu essas obrigações para proteger o patrimônio familiar. Correto?

– Sim.

– Quais investimentos?

Ethan ficou em silêncio.

– Houve alguns negócios que não deram o retorno esperado.

– Quais?

– Eu precisaria consultar os documentos para fornecer os nomes e valores exatos.

A juíza apoiou as mãos sobre a mesa. – Senhor Hale, estamos discutindo dois imóveis de valor considerável que passaram para o seu nome supostamente porque o senhor quitou dívidas da mãe de sua filha. Espero que consiga explicar, ainda que de maneira geral, a origem dessas obrigações.

Ethan olhou rapidamente para Alec.

O advogado não o ajudou.

– Eram compromissos financeiros relacionados à loja e à residência.

Meu coração acelerou.

Aquilo era mentira.

– Ela estava tendo dificuldades para manter os pagamentos – continuou Ethan. – Eu assumi parte das obrigações e sugeri que os bens fossem transferidos temporariamente para meu nome para evitar que ela os perdesse.

A juíza consultou os documentos entregues por Sam.

– Temporariamente?

– Era a intenção.

– Existe instrumento estabelecendo que a transferência seria temporária?

– Não que eu me recorde.

– Existe documento em que a senhora Cullen reconheça uma dívida com o senhor?

– Não.

– Existe contrato de mútuo, confissão de dívida ou qualquer instrumento que estabeleça que os valores supostamente pagos pelo senhor seriam compensados mediante transferência dos imóveis?

Ethan começou a perder a paciência. – Nós éramos um casal, Excelência. Não fazíamos contratos para tudo.

A resposta saiu mais ríspida do que provavelmente pretendia.

A juíza permaneceu perfeitamente calma.

– Exatamente. E é por isso que estou tentando compreender como uma relação baseada, segundo o senhor, em confiança suficiente para dispensar contratos resultou na transferência de dois imóveis para seu nome e, poucas semanas após o rompimento, esses mesmos imóveis passaram a ser utilizados como evidência da instabilidade financeira da antiga proprietária.

Ethan não respondeu.

Pela primeira vez naquela manhã, senti vontade de olhar diretamente para ele.

Então olhei.

A juíza continuou. – O senhor retirou a senhora Cullen da posse ou utilização desses imóveis depois do rompimento?

– Eu exerci meus direitos como proprietário.

Meu estômago revirou.

– Portanto, sim.

– Sim.

– E, posteriormente, pediu a guarda integral da filha argumentando, entre outras coisas, que a mãe não possui residência própria e perdeu seu estabelecimento comercial.

Alec levantou-se imediatamente. – Excelência, apenas ressalvo que o pedido não se fundamenta exclusivamente na questão patrimonial.

– Estou ciente, doutor Volturi. Ainda assim, a situação financeira foi apresentada pela parte requerente e precisa ser examinada.

– Perfeitamente.

A juíza voltou a olhar para Ethan. – O senhor entende por que a sequência desses acontecimentos exige esclarecimentos?

Ethan assentiu. – Entendo, mas não houve golpe algum. Eu protegi aqueles imóveis quando Renesmee não tinha condições de fazê-lo.

Meu corpo ficou tenso.

Ele mentia com uma facilidade que me causava náusea.

A juíza não discutiu. Apenas fez outra anotação e então voltou os olhos para mim.

– Senhora Cullen, agora gostaria de ouvi-la.

Minha boca ficou seca imediatamente.

Jenks se inclinou para perto de mim. – Fale a verdade. Não tente decorar nada do que ensaiamos. Apenas responda.

Assenti e me levantei.

Minhas pernas pareciam estranhamente leves, e precisei juntar as mãos à frente do corpo para esconder o tremor.

A juíza percebeu.

– Está nervosa?

Soltei uma respiração curta. – Muito, Excelência.

Por um instante, sua expressão suavizou. – Não estamos avaliando sua capacidade de falar em público. Se precisar de alguns segundos para responder, use-os. Quero apenas que seja clara e verdadeira.

– Sim, senhora.

– Durante quanto tempo manteve relacionamento com o senhor Hale?

Olhei rapidamente para Ethan antes de responder. – Aproximadamente seis anos. Nós vivíamos como uma família. Eu não considerava Ethan um namorado eventual. Ele morava comigo quando estava em Forks, ajudava na rotina da Belinha e... – tropecei nas palavras e precisei respirar. – Eu acreditava que construíamos uma vida juntos.

– Sabia que ele era casado?

– Não.

– Alguma vez suspeitou?

Balancei a cabeça. – Eu suspeitei que existisse outra mulher pouco antes de descobrir. Encontrei outro celular e recebi explicações que hoje parecem absurdas. Mas eu não sabia que ele tinha uma esposa. Muito menos um filho.

– Como descobriu?

A lembrança do aniversário de Claire atravessou minha cabeça.

– Durante um evento em Seattle. Minha filha encontrou Ethan e o chamou de pai diante da família dele. Foi assim que tudo veio à tona.

A juíza permaneceu alguns segundos em silêncio antes de continuar. – Depois disso, impediu o senhor Hale de manter contato com Isabella?

– Não. – Respondi rápido demais e precisei me controlar. – Desculpe. Não, Excelência. Eu estava com raiva e não confiava mais nele, mas nunca disse à minha filha que o pai dela havia deixado de amá-la ou que não poderia vê-lo. Belinha ama Ethan. Eu não faria isso com ela.

– Recusou-se a acompanhá-lo em alguma ocasião?

Minha garganta apertou.

– Sim.

– Explique.

– Ele apareceu na saída da escola e queria que eu e Belinha fôssemos almoçar com ele. Eu recusei porque não queria conversar com Ethan daquela maneira e não sabia quais eram suas intenções.

– Ele pediu para levar apenas a filha?

Pensei por alguns segundos.

– Não. Ele queria que nós duas fôssemos.

– Houve outras ocasiões semelhantes?

– Houve uma em que aceitei encontrá-lo sozinha porque ele disse que tinha uma proposta. – Minha voz falhou um pouco. – Ele queria que eu voltasse para ele.

Alec levantou os olhos imediatamente.

A juíza perguntou: – O pedido de reconciliação estava relacionado à situação patrimonial ou à guarda da criança?

Engoli em seco. – Ele me mostrou uma casa e disse que tinha comprado para mim e para Belinha. Disse que eu poderia morar lá se aceitasse ficar com ele novamente.

Um silêncio pesado tomou a sala.

– Ele estabeleceu expressamente essa condição?

– Sim.

– Existem testemunhas?

Meu coração afundou. – Não. Estávamos sozinhos.

– Algum registro da conversa?

– Não.

– Entendo. Continue.

Passei a língua pelos lábios secos. – Eu recusei. Nós discutimos e fui embora.

Não contei imediatamente que Ethan havia tentado me agarrar. Jenks não tinha pedido que eu escondesse, mas naquele momento eu não conseguia colocar aquilo em palavras diante de todos.

A juíza mudou de assunto.

– Vamos aos imóveis. A senhora tinha dívidas significativas?

– Não.

– Realizou investimentos que resultaram nas obrigações descritas pelo senhor Hale?

– Não. Minha loja tinha despesas normais, claro, e havia meses melhores que outros, mas eu não estava endividada daquela maneira. Eu não precisava que Ethan salvasse meus imóveis.

– Então por que os transferiu para o nome dele?

A pergunta que eu mais temia chegou.

Baixei os olhos por alguns segundos.

– Porque fui uma idiota.

Jenks se mexeu imediatamente, mas a juíza respondeu antes dele.

– Senhora Cullen, não estou interessada em qualificações pessoais. Explique o que aconteceu.

Respirei fundo.

– Eu confiava nele. Ethan cuidava de parte da documentação porque entendia mais dessas coisas do que eu e dizia que estava organizando nosso patrimônio. Ele levava documentos para eu assinar e explicava de uma maneira que... – Parei, frustrada comigo mesma. – Eu sei como isso parece.

– Não se preocupe com a aparência da resposta. Continue.

– Eu assinava porque confiava no homem com quem vivia e que era pai da minha filha. Não imaginei que precisasse conferir cada documento como se ele estivesse tentando me roubar.

Minha voz começou a tremer, mas continuei.

– O prédio da doceria foi comprado para ser meu. Eu trabalhei durante anos naquele negócio. Quando recebi a ordem para deixar o imóvel, achei que fosse um engano porque acreditava que era proprietária. Foi quando descobri que os documentos diziam outra coisa. Depois aconteceu o mesmo com a casa. Eu percebi tarde demais que tinha permitido que Ethan controlasse coisas que eu deveria ter acompanhado pessoalmente.

– A senhora recebeu alguma contraprestação financeira pelas transferências?

– Não.

– O senhor Hale informou que estava quitando dívidas suas em troca dos imóveis?

– Nunca.

– Reconheceu formalmente alguma dívida com ele?

– Não.

– Depois do rompimento, ele permitiu que permanecesse na residência com Isabella?

– Não. Eu voltei para a casa dos meus pais.

A juíza consultou outra página.

– Atualmente está desempregada?

– Não. Estou trabalhando, mas ainda não reabri minha loja. Uso a cozinha da minha mãe para continuar atendendo encomendas e já estou organizando a retomada do negócio. – Pensei imediatamente em Rachel e Rebecca. – Também recebi uma proposta formal de sociedade para abrir novamente a doceria em outro imóvel.

– Essa proposta está documentada?

Jenks respondeu antes que eu precisasse. – Sim, Excelência. O instrumento preliminar e a documentação relativa ao espaço comercial já foram anexados pela defesa.

A juíza assentiu e voltou para mim.

– Quem cuida da rotina diária de Isabella?

– Eu.

– Quem a leva à escola?

– Eu ou alguém da minha família quando estou trabalhando.

– Consultas médicas?

– Eu.

– Reuniões escolares?

– Eu.

– Alimentação, horários, atividades e demais necessidades cotidianas?

– Eu. Ethan participava quando estava conosco, mas eu era a pessoa que permanecia com ela diariamente.

– Se mantiver a guarda, pretende impedir a convivência paterna?

A pergunta me atingiu.

Olhei para Ethan.

Apesar de tudo, pensei em Belinha correndo para ele quando o viu na saída da escola.

– Não – respondi com sinceridade. – Eu quero que minha filha tenha um pai. Só não quero que ele use o amor dela para me obrigar a voltar para ele.

Minha voz falhou no final.

A juíza permaneceu alguns segundos me observando antes de fazer uma anotação.

– Pode se sentar, senhora Cullen.

Voltei ao meu lugar com as pernas trêmulas. Jenks empurrou discretamente um copo de água para mim.

– Você foi bem – murmurou.

– Eu quase não consegui terminar metade das respostas.

– Você respondeu exatamente o que precisava.

A juíza consultou mais algumas páginas e então voltou sua atenção para a outra mesa.

– Doutor Volturi, considerando os esclarecimentos prestados e os documentos apresentados pela defesa, concedo-lhe novamente a palavra antes de prosseguirmos.

Alec permaneceu sentado por alguns segundos.

Ele olhou para a pasta que Sam havia lhe entregue. Depois para Ethan.

O olhar entre os dois não me pareceu amistoso.

Alec finalmente se levantou.

– Excelência, diante das informações novas apresentadas nesta audiência e da necessidade de confrontá-las com os dados que me foram fornecidos anteriormente pelo meu cliente, solicito um recesso de trinta minutos para uma conferência reservada. Considero inadequado prosseguir sem esclarecer algumas divergências factuais que agora se mostram relevantes para a própria estratégia da parte requerente.

Meu coração disparou.

A juíza olhou para Jenks. – A defesa se opõe?

Jenks levantou-se tranquilamente. – Não, Excelência. Nenhuma objeção.

– Muito bem. Fica concedido recesso de trinta minutos. Retomaremos pontualmente ao término desse período.

Todos começaram a se levantar.

Alec fechou a pasta com firmeza e se inclinou para Ethan.

– Venha comigo.

– Alec, eu posso explicar...

– Não aqui.

O tom do advogado encerrou a tentativa imediatamente.

Observei os dois atravessarem a sala. Ethan ainda tentou falar alguma coisa, mas Alec abriu a porta de uma sala reservada e esperou que o cliente entrasse antes de segui-lo.

Assim que a porta fechou, virei para os homens ao meu lado.

– O que isso significa?

Paul soltou lentamente o ar e fechou a pasta. – Significa que Volturi acabou de descobrir que o processo que recebeu do cliente é muito diferente do processo que está diante da juíza. Ele pediu trinta minutos porque precisa descobrir até onde Ethan mentiu para ele e decidir o que ainda consegue defender.

– Então isso é bom para nós?

– É melhor do que ele continuar confortável – respondeu Sam. – Mas não significa que acabou.

Jenks permaneceu sério. – Não cometam o erro de subestimar Alec agora. Ele não pediu esse intervalo para desistir. Pediu para reorganizar o caso.

Olhei para a porta por onde os dois tinham desaparecido. – Depois de descobrir que Ethan mentiu para ele?

– Especialmente depois disso – respondeu Jenks, acomodando-se novamente. – Volturi tem uma reputação construída sobre resultados e sabe que a credibilidade dele diante da magistrada também está em jogo. Se concluir que o cliente lhe forneceu informações falsas, não vai continuar sustentando uma versão que possa comprometer seu nome. Vai procurar outra tese, reduzir os danos e encontrar o melhor resultado juridicamente possível com aquilo que ainda tiver nas mãos.

Paul concordou. – E ele é muito bom nisso.

Meu pouco alívio desapareceu.

– Então ainda podemos perder.

Jenks olhou diretamente para mim. – Renesmee, enquanto não houver uma decisão, qualquer resultado continua possível. Nós conseguimos uma coisa importante: a narrativa inicial de Ethan sofreu um golpe sério. Agora precisamos descobrir o que Alec fará quando voltar por aquela porta.

Olhei para o relógio.

Trinta minutos.

Depois de duas horas que pareciam ter durado dias, aqueles trinta minutos conseguiram parecer ainda piores.