Notas iniciais
Boa leitura!

Já havia se passado três meses desde que Misty fora morar na casa da família Ketchum, e a situação não se encontrava favorável para os apoiadores dos Soldados do Governo: Vermilion e Saffron haviam sido tomadas por membros da Equipe Rocket e da Equipe Galáctica, que juntaram forças nas últimas semanas, e batalhas eram travadas nas rotas principais.

Naquela manhã, a ruiva estava em ligação com sua irmã Lily, que se encontrava na casa de praia de uma amiga em Undella. Ficou sozinha nas prieiras semanas, entretanto logo depois chegaram outros rebeldes de Unova para se refugiar com ela. A casa de três cômodos comportava agora cerca de sete pessoas, que se dividiam nas tarefas.

— Teve notícias de alguém de Cerulean?

— Sim, se lembra do Mark, que morava perto de nós? — A caçula assentiu afirmamente. — Ele comentou que dias atrás houve uma batalha lá, e por enquanto foi vitória para os Soldados do Governo, mas que as coisas não estão fáceis...

— Entendi... — Misty comentou em um muxoxo.

— Está se comportando?

— É claro que sim! Faço tudo o que a Delia pede, e ajudo em outras coisas aqui de casa.

— E você e o Ash estão se dando bem?

— Sim, tem dias que a gente discute, mas na maioria das vezes a gente brinca de alguma coisa ou joga videogame.

— Está certo... Olha, não esquece de ligar pra Violet e pra Daisy, beleza? Elas também estão com saudades.

— Relaxa, eu vou ligar! — A menina resmungou.

— Te amo, maninha. — O tom de voz de Lily tinha uma pontada de dor, mesmo que às vezes implicasse com a caçula sentia saudades da época que estavam juntas.

— Também te amo.

Assim que desligou o telefone, a menina saiu do comunicador e foi para a cozinha, onde encontrou os anfitriões tomando café. Delia comia um pedaço de pão que havia assado no dia anterior, e Ash devorava uma tigela de cereal, um pedaço do pão, e ainda tomava suco. Tudo ao mesmo tempo.

— Você é guloso demais, sabia? — A Sr.ª Ketchum comentou, encarando o filho.

— Tô em fase de crescimento, poxa!

Misty riu baixo, o amigo realmente procurava qualquer desculpa para poder comer desvairadamente. Ela se juntou a eles e se serviu.

— Crianças, preciso falar com vocês. — Delia começou, chamando a atenção dos mais novos. — Bem, as coisas não estão muito fáceis, vocês sabem disso.

— Sim, sabemos. — Ash e Misty disseram em uníssono.

— Por isso, acabei me juntando com o professor Carvalho e outras pessoas, e estamos oferecendo asilo para outras vítimas que precisam deixar suas casas.

— Asilo? Vai chamar idosos pra nossa casa? Eu não sei se tenho idade pra ser cuidador, mãe...

— Não Ash, não é esse tipo de asilo. É "asilo" no sentido de "abrigar" outras pessoas. — A mulher suspirou. — Enfim, ontem recebi uma ligação de uma família de Pewter, são os responsáveis pelo ginásio de lá. Eles ainda não tinham sofrido ataques, e nem mesmo equipes tinham chegado. Mas tudo mudou há uma semana, quando membros da Equipe Rocket invadiram a casa deles e levaram a maioria dos filhos deles.

— Maioria dos filhos? Como assim?

— São uma família de dez filhos, além dos pais, e semana passada, quando a família sofreu o ataque, o pai, a mãe e cinco das crianças foram levadas pela equipe. Eu conversei com o filho mais velho, ele conseguiu salvar quatro dos irmãos, e vai mandá-los para um abrigo infantil em Zapapico, em Paldea.

— E por que ele não vai com os irmãos? — Questionou a menina.

— O lugar aceita crianças até dez anos, e ele já tem catorze. — Delia respondeu enquanto tomava um gole de seu chá. — O ponto é: diferente da Misty, que consegui usar um carro para poder buscá-la, com ele vou precisar parar o carro do professor Carvalho na entrada de uma estrada para poder chegar na cidade de Pewter e ir a pé para lá. Significa que provavelmente vou demorar um dia ou dois para fazer o trajeto.

As crianças se entreolharam com um misto de confusão e preocupação. Confusos pois não tinham certeza de onde Delia queria chegar com aquela conversa, e preocupados por ela ter que ficar dias distante e sem notícias.

— Mas mãe, não está perigoso?

— Sim, mas eu me ofereci para ajudar todos que eu pudesse, então não posso dar pra trás agora. Estou dizendo pois amanhã é o dia que vou buscá-lo, e volto provavelmente na quarta ou na quinta, eu preciso que vocês colaborem, cuidem da casa pra mim, e talvez até mesmo trabalhem na floricultura por um ou dois dias. Me entendem?

— Sim.

A resposta das crianças possuía o mesmo tom de medo e tristeza. Delia notou a preocupação de ambos e sorriu na tentativa de acalmá-los. Fez tudo isso seguido de um abraço caloroso, era uma mãezona para qualquer um que precisasse.

[...]

Era cerca de seis e meia da manhã quando Delia foi embora. Misty acordou cedo, por volta das oito horas, e encontrou o papel com as anotações da mulher: o leite e a manteiga estavam na geladeira, e o pão na bancada; eles deveriam ir para a floricultura, cuidar das plantas e atender caso tivessem algum cliente; e o almoço estava na geladeira, apenas deveriam esquentar.

A ruiva tratou de pegar uma roupa limpa no quarto, foi para o banheiro e tomou banho. Após terminar de se banhar e de se trocar, foi até o quarto e chamou por Ash, que resmungou bastante antes de se dar por vencido e acordar.

— Vai logo, a gente precisa tomar café e ir pra floricultura! — A menina exclamou indignada. — O Mr. Mime já está lá, a gente precisa ajudar ele!

— Já vou... — O garoto resmungou, praticamente se arrastando até o banheiro.

Misty pegou o pão, o leite, a manteiga e o achocolatado, foi montando tudo enquanto Ash se banhava e tentava acordar um pouco. Quando ele chegou, os dois tomaram café ao lado de Pikachu e Togepi tranquilamente, sem muito papo, e logo depois seguiram rumo à floricultura.

Na Perfume In Natura, Mr. Mime já colocava água nas plantas quando a dupla chegou. Ele acenou feliz, e abriu espaço para a ruiva ficar na bancada, enquanto o moreno ia ajudá-lo a cuidar das flores. Não haviam muitos clientes, um ou outro chegava e pedia uma flor para entregar aos namorados e namoradas, mas sem pedidos grandes.

Por volta das dez da manhã, Gary Carvalho apareceu sendo uma surpresa e tanto. Ao entrar na floricultura, viu Misty fazendo o papel de caixa do lugar, e deu um sorriso para ela.

— Bom dia, Misty. Tudo bem?

— Tudo Gary, e você? — A menina disfarçava sua desconfiança para cima do rapaz. Não confiava nele, afinal era o rival de seu melhor amigo.

— Escuta, já que a tia Delia tá viajando, meu avô disse pra chamar você e o Ash pra jantarem lá em casa hoje. Topam?

— Peraí. — Ela saiu do balcão e foi em direção à estufa. — ASH, 'BORA JANTAR NA CASA DO PROFESSOR CARVALHO HOJE?

— BELEZA!

— Tá confirmado, a gente aparece por lá!

— Certo, então até mais tarde. — Gary saiu, levantando o rosto e empinando o nariz.

A menina ficou encarando a saída do Carvalho, e com certeza concordava com o melhor amigo: ele exalava ares de superioridade que nem sequer tinha perante os outros.

Ao meio-dia, eles fecharam a floricultura para o almoço, saíram do estabelecimento e caminharam de forma tranquila em direção à casa Ketchum. Quando entraram, as crianças foram lavar as mãos no banheiro, fazendo uma pequena guerra de água ao se enxugarem. Enquanto isso, Mr. Mime retirava a comida da geladeira e tratava de esquentar tudo no microondas.

A dupla desceu rindo da brincadeira, sentaram na mesa junto do Pokémon Mímico e começaram a comer a macarronada. Ash, que costumava ser um descontrolado quando se tratava de comida, parecia um pouco quieto e pensativo.

— Tudo bem?

— Não muito... Eu tô preocupado com a minha mãe, será que ela tá bem?

— Ela vai ficar bem, não se preocupe. — Misty sorriu e acariciou o ombro do amigo. — Sua mãe é durona, vai dar tudo certo!

Mr. Mime concordou com a ruiva, e isso fez o Ketchum sorrir agradecido para eles. Ao fim do almoço, voltaram para a Perfume In Natura e deixaram a louça por lá, que ficou por conta dos pokémons da Waterflower.

O dia passou devagar, alguns poucos clientes fizeram encomendas e nada além disso. Aproveitaram para cuidar das plantas, adubar flores e trocar a terra. No fim, trancaram a loja e optaram por ir direto para a casa do Professor Carvalho. Os cinco andavam tranquilamente, Ash, Misty, Mr. Mime, Pikachu e Togepi, pareciam não se preocupar com nada, ou ao menos não queriam se preocupar muito.

Chegando na residência dos Carvalho, foram recebidos por Gary e seu Umbreon. A raposa noturna lançou um olhar esnobe para Pikachu, que rosnou para a mesma.

— Acho que alguém não superou a perda, não é?

— O que disse? — O moreno respondeu enraivecido.

— Qual é, já faz três meses, não precisa ficar remoendo isso Mula de Pallet.

— Ei, não chama ele assim!

— O que está acontecendo? — A voz imponente e adulta do Professor Carvalho ressoou na sala.

Crianças e pokémons se entreolharam, optaram por deixar a discussão de lado e fingiram que nada estava acontecendo.

— Venham, espero que gostem de yakisoba, fiz uma receita especial da minha família. — O senhor sorriu, tentando amenizar o clima. — Mr. Mime, Umbreon, Pikachu e Togepi, podem ir para o quintal, os outros pokémons estão jantando lá.

Os quatro saíram de encontro com os outros, já os humanos foram para a cozinha. Era grande, diferente da que se tinha na casa dos Ketchum, e Misty surpreendeu-se com a quantidade de espaço que havia lá. Armários, prateleiras, pia com uma bancada grande, uma ilha que tinha três cadeiras, e ainda cabia uma mesa com oito cadeiras no espaço.

— Faz muito tempo que Gary e eu não recebemos visitas, e quando Delia comentou que ficaria fora achei que seria bom chamar vocês aqui.

— Muito obrigado, professor! — Ash exclamou enquanto pegava um pouco da comida na panela. — E tem notícias da minha mãe?

— Ela me ligou há uma meia hora, ela e o rapaz vão passar a noite em um esconderijo e de manhã pegarão a estrada. Acho que de tarde estão de volta.

— E deu tudo certo?

— Mais ou menos... — Samuel Carvalho começou, e logo notou a expressão de medo do menino. — Mas não se preocupe! Ela está segura agora, e não está machucada.

— O que aconteceu?

— Nada de demais Ash, ela apenas teve um encontro com membros da Equipe Rocket perto de Pewter, mas não foi nada.

Era claro que o professor Carvalho omitira informações, como o fato de Delia ter sido seguida até a cidade, com dois membros usando seus Arcanines para seguí-la, e vez ou outra dando chutes nas pernas da mulher para que ela revelasse o que iria fazer em uma cidade invadida como Pewter. A Sr.ª Ketchum alegava estar lá para visitar uma velha amiga, um plano combinado com outro membro do GRK — Grupo Reacionário de Kanto. Encontrou a mulher em uma casa repleta de destroços, abraçou-a, fingiram ser as melhores e maiores amigas do mundo, sendo que na realidade se conheceram há poucas horas e haviam trocado inúmeras informações para as perguntas dos Membros das Equipes.

O professor também omitiu sobre a situação caótica da cidade que continha a Insígnia de Pedra: destroços, escombros, cidadãos presos nos primeiros dias, enquanto outros puderam se manter livres, porém traumatizados. Havia escassez de comida e água, tudo era racionado, e os pokémons em sua grande maioria foram roubados de seus mestres.

— Bem, o que está achando da comida? — O homem procurou desviar a atenção de Ash para o assunto.

— Uma delícia! O senhor colocou um tempero diferente? — Misty alegou, saboreando o yakisoba.

— Sim, tempero secreto da minha família, não posso contar. — Ele piscou e as crianças riram.

O jantar durou um bom tempo, às vezes as crianças comentavam algumas coisas e contavam das brincadeiras que faziam, como se fantasiarem, correrem de um lado para o outro, e entre outros momentos. O professor se levantou depois da janta e trouxe uma sobremesa: pudim de leite, uma especialidade de sua falecida esposa.

— A Alma fazia todo fim de semana, e quando ela se foi não perdi a tradição.

— É batata, todo sábado o vovô unta a forma e faz pudim. Eu não reclamo nem um pouco.

— Minha mãe às vezes fazia uma torta de morango que tinha gelatina junto, eu adorava! — A Waterflower comentou nostálgica, era uma das poucas lembranças que tinha de Lucy.

— Está muito bom, professor! — O Ketchum teceu o elogio enquanto enfiava diversas colheradas do doce na boca, tal atitude fez Gary revirar os olhos discretamente.

Era quase nove horas da noite quando Ash e Misty foram embora junto de Mr. Mime, Pikachu e Togepi. Agradeceram a hospitalidade antes de saírem, e disseram que no dia seguinte a floricultura seria toda do pokémon mímico, já que a clientela estava baixa. No fundo, Samuel se aliviou pelo fato de as crianças poderem ficar em casa e longe de qualquer possível problema.

O caminho fora silencioso, tranquilo. Uma brisa fresca de fim de verão os refrescava, as estrelas salpicavam o céu azul escuro, e a lua iluminava o trajeto deles. Quando chegaram na residência, Mr. Mime despediu-se e foi dormir no quarto, enquanto as crianças ficaram embaixo. Psyduck e Staryu dormiam no sofá, relaxando, a ruiva tratou de colocá-los de volta para a poké-bola e sentou onde eles estavam.

— Misty, você tá com sono?

— Um pouco, tava bem quente hoje...

— Sabe, eu tava pensando, e a gente podia fazer tipo uma festa do pijama, né?

— Bom, acho que não tem problema. — Ela sorriu travessa, correndo para o quarto pegar seu pijama. — E se a gente colocar os colchões na sala?

— Sim! E a gente pode trazer os travesseiros, e assistir uns filmes, e ficar brincando a noite toda! — Ash dizia empolgado, pulava no sofá em claro sinal de euforia.

Assim que a menina pegou sua camisola azul e levou para o banheiro, o menino também trocou de roupa, colocando um pijama verde e amarelo. Enfim vestidos, desceram as escadas escorregando pelo corrimão, Pikachu e Togepi entravam na onda deles e deram risada.

— Ei, podíamos colocar uma música, né?

— Sim! Peraí... — O moreno foi em direção ao hack da sala, abriu uma das gavetas e encontrou diversos CDs de sua mãe. — Vem, me ajuda a escolher!

Inúmeras bandas estavam lá, Beatles, Skank, ABBA, e alguns até mesmo eram gravações misturadas de Delia. Havia um que recebia o curioso nome de "Mix 15 anos", o qual o garoto sorriu alegremente ao encontrar.

— Põe esse no rádio, põe, põe!

— Tá bom, calma... — A ruiva falou enquanto pegava o objeto e fazia o que o amigo havia indicado.

A primeira música chamava-se Take Me Back To Piauí, era animada, alegre, fazia o corpo querer se mexer na mesma hora. As crianças começaram a requebrar de forma desengonçada, mas descontraída, da forma que eles sabiam dançar. Em um dado momento, Misty pegou na mão de Ash, e logo começaram a sincronizar os passos, davam risadas altas e se divertiam.

Ouviram outras músicas, como Private Idaho e Você Não Soube Me Amar. Estavam na última faixa, tocava uma canção linda, todavia um pouco melancólica e lenta. Chamava-se Cittá Vuota, e o garoto logo torceu o nariz.

— A minha mãe sempre achou essa música bonita, mas eu acho ela chata! Sempre pulo.

— Não pula, ela é muito bonita...

Em um instante, a menina começou a rodopiar pela sala, seguindo o compasso da música. Ash não entendeu o porquê, mas se viu vidrado naquele modo de dança, naqueles passos. Não soube dizer quando e nem como, entretanto logo tratou de pegar na mão de Misty e praticamente conduzí-la, quase como uma valsa. Não tinham prática, vez ou outra pisavam no pé um do outro, porém estavam gostando de dançar juntos, um momento de união que trazia um sentimento que não entendiam bem. Quem sabe, no futuro, entenderiam melhor.

O CD parou de tocar, o moreno foi em direção ao rádio e retirou o objeto de lá, guardando com carinho na caixa. A ruiva olhou mais atentamente para ela, havia uma colagem de fotos antigas, mais precisamente de uma festa de aniversário, e nelas reconheceu algumas pessoas: Delia mais nova, provavelmente com 15 anos, era a aniversariante; usava um longo vestido rosa choque com mangas bufantes e uma saia volumosa, além de usar um aparelho fixo nos dentes e o cabelo possuir uma permanente. Lá também estavam Lucy, mãe de Misty, e Mary, tia de Misty, com 21 e 19 anos respectivamente. A menina avaliava a imagem que acabava de conhecer de sua falecida mãe: o cabelo ruivo era liso e comprido, indo na altura da cintura dela, usava um vestido longo e verde-água, que realçava sua pele; já a tia exibia um sorriso enorme de ponta a ponta, o cabelo castanho era volumoso e estava repleto de laquê, e os olhos castanhos escuros eram os mesmos da irmã, além de usar um vestido azul claro mais justo por conta da sua corpulência.

— De quando é isso, Ash?

— Ah, é do aniversário de 15 anos da minha mãe, ela montou esse CD com as músicas, e deixou algumas fotos na capa. Por que?

— Aqui, a minha mãe e a minha tia! — A Waterflower apontou para as garotas em uma das fotos.

O Ketchum arregalou seus olhos de leve, encarando as jovens Lucy e Mary.

— Uau... — Ele murmurou. — A minha mãe conta que as três estavam sempre juntas, e que a sua mãe costumava tomar conta dela e da sua tia, mas que elas sempre brincavam e saíam por aí desfilando. Ela falou também que o seu pai era um cara muito legal, que levou sua mãe pra Cerulean e cuidou muito bem dela. Só não lembro muito da sua tia...

— A tia Mary foi pra LaRousse, em Hoenn, pra estudar botânica, ela ama plantas! Ela e a sua mãe adoravam cuidar das plantas daqui de Kanto, mas a tia Mary queria estudar pra valer, então acabou se mudando pra lá.

— A minha mãe estudou por aqui mesmo, às vezes eu sinto que atrapalhei ela...

— Como assim?

— Bom, é que ela não tava esperando me ter, e contaram pra mim que a minha mãe ia estudar fora, ficar longe de Pallet, mas acabou conhecendo o meu pai e... Bem... Me teve...

Aquela frase trouxe uma sensação de vergonha em Ash, não demonstrava para a mãe, porém no fundo se culpava por ela não ter tido uma vida mais fácil.

— Mas ela te ama muito, Ash. Não precisa se sentir assim, você com certeza foi a melhor coisa que aconteceu na vida dela, é só ver como ela te trata: te dá muito amor, te apoia, se preocupa com você... — Houve uma pausa na fala de Misty. — Eu me sinto assim quando penso nas minhas irmãs, às vezes acho que elas não queriam que eu tivesse nascido, porque não teria dado trabalho, mas aí quando elas me ligam e dizem que me amam, eu sinto que é de verdade. Então, não fica assim.

O moreno sorriu de canto, abraçou a amiga e agradeceu por ela mostrar um outro ponto de vista para aquela situação. Ele quase chorou, entretanto sacudiu a cabeça e correu para o seu quarto, trazendo fantasias para eles vestirem e brincarem de faz-de-conta. A verdade é que aquela pequena "festa do pijama" o distraía de pensar o pior sobre sua mãe estar fora em meio a uma guerra.

Foram dormir às três da manhã, depois de brincarem de faz-de-conta, jogarem esconde-esconde no quintal escuro junto de Pikachu, Staryu e Psyduck (que mais uma vez saíram de suas poké-bolas) e por fim assistirem à um filme que passava na TV. Acordaram às onze e meia, Mr. Mime já tinha ido para a Perfume In Natura, e todos estavam esparramados no monte de colchões, travesseiros e lençóis finos. Misty e Ash se espreguiçaram antes de levantarem e arrumarem tudo, precisavam deixar a casa em ordem para quando Delia chegasse.

As crianças varreram a casa, deram uma limpada nos móveis, tiraram pó de onde precisava, e tratou de tentar fazer um macarrão à bolonhesa, tendo em vista que não sabiam cozinhar direito. A Waterflower começou a ferver a água para colocar a massa, enquanto o Ketchum fritava a carne na frigideira.

— Acha que vai dar certo?

— Sim, é só não deixarmos nada explodir! — O garoto comentou alegre, sentindo-se um mestre cuca.

— Tá bem!

Os preparos na cozinha foram interrompidos quando escutaram a porta abrir. Ash e Misty olharam curiosos para a entrada, e viram Delia junto de um adolescente de pele morena, traços orientais e cabelos castanhos escuros arrepiados. A ruiva já o tinha visto algumas vezes em eventos da Liga Pokémon, conhecia-o de vista, mas mal tinham se falado no passado.

— Mãe! — O Ketchum gritou, correu e abraçou a mulher com força.

— Delia! — A Waterflower sorriu e fez o mesmo que o amigo.

— Oi, crianças! — A mulher retribuiu o abraço e beijou a testa do filho. — Meninos, esse é o Brock, ele era o líder de ginásio de Pewter, e vai ficar com a gente de agora em diante.

O adolescente fez um aceno de mão para os mais novos, que retribuíram o gesto. Não demorou para que ele sentisse o cheiro de algo, e saísse correndo em direção à cozinha, vendo a comida começar a queimar.

— Eu dou um jeito aqui, Sr.ª Ketchum! — Brock exclamou, já pegando um avental na gaveta e colocando uma bandana na cabeça.

— Tudo bem! E já disse, não precisa me chamar assim, é só Delia!

Enquanto ele desenrolava o almoço, as crianças pegavam as malas e levavam para o quarto de Ash. No fundo, estavam empolgados por terem um novo colega de quarto.