Notas iniciais
Boa leitura!!

Ash olhava impaciente para o relógio enquanto sua mãe preparava o almoço e Misty lia um livro tranquilamente no sofá. Ele balançava a perna freneticamente em claro sinal de ansiedade, precisava comer logo para poder enfim lutar contra Gary próximo ao lago de Pallet.

— Tá na mesa! — Delia exclamou assim que terminou de colocar a panela com arroz sobre o móvel.

As crianças saíram rumo às cadeiras, sentaram nas mesmas e começaram a montar seus pratos. A mulher olhava de canto de olho para seu filho, o conhecia suficiente para saber que estava aprontando algo, só restava saber o que, quando e onde.

— Tá tudo bem, Ash?

— Claro, mãe. — O garoto dizia enquanto mastigava a comida.

— Não fala de boca cheia! — Ela retrucou. — E posso saber o por que de estar tão agitado?

— Ah, é que... Bom, eu vou... Vou ver um filme novo hoje na TV, vai estrear a quinta parte de "Os Guerreiros Pokémons Galácticos"!

— Ah é?

— É!

O sorriso forçado, o suor escorrendo, Delia tinha certeza de que havia algo de errado naquela história.

— Misty, vai assistir "Os Guerreiros Pokémons Galácticos" também?

— Talvez, mas acho que vou ficar lendo. — A resposta da menina era tranquila demais, provavelmente não estava envolvida na bagunça de Ash.

— Tá bem... — a Ketchum respondeu, tomando seu suco em seguida.

Seguiram o almoço com tranquilidade, sem muita conversa. Decidiram que, assim como no dia anterior, a dupla estaria encarregada pela louça, e pouco tempo depois a mulher saiu em direção à Perfume In Natura, deixando para trás duas crianças prestes a aprontar.

— Valeu por não me dedurar, Misty. — Ash agradeceu sorrindo.

— Relaxa, e outra coisa, se você perder vai precisar me pagar um chocolate. — A ruiva respondeu de forma travessa. — Só pra deixar registrado, eu adoro KitKat.

— Acontece que eu não vou perder. — Ele respondeu de forma convencida, fez um sinal para Pikachu subir em seu ombro como costumava fazer. — E também, pra deixar registrado, meu chocolate favorito é o Suflair.

O Ketchum saiu andando em direção à porta dos fundos, que dava acesso ao quintal. Ao abrí-la, fez o caminho que conhecia para não passar em frente à floricultura, passou pelos fundos rumo à floresta que ficava atrás de sua casa, tinha decorado a trilha que o levava ao lago de Pallet: Andaria até a antiga árvore que tinha o rosto de um Haunter, viraria para a esquerda, encontraria o pé de amoras e depois disso estaria no local combinado.

— Já estamos chegando, Pikachu. Tá pronto pra derrotar o idiota do Gary?

O ratinho elétrico grunhiu animado, e assim como seu treinador sentia uma animação passando por seu pequeno corpo, aumentando ainda mais a eletricidade em si.

Avistaram o lago pouco tempo depois, onde Gary estava parado olhando para os lados, procurando por Ash, e vez ou outra olhando o relógio de bolso que carregava consigo. Ao avistar o moreno, o Carvalho revirou os olhos.

— Tá atrasado, Mula de Pallet.

— Você disse depois do almoço, foi o que eu fiz.

— Tá, tá, chega de conversa fiada... — O mais velho retrucou, andando até o Ketchum e o olhando de cima a baixo, intimidando-o. — Vai ser uma batalha de um contra um, entendido?

— Entendido.

Ambos deram passos para trás, Ash ordenou que Pikachu fosse para o espaço de batalha, e não demorou para encarar seu rival.

— E então? O que tá esperando pra mostrar seu Blastoise?

— Huh, Blastoise? — Riu Gary. — Então já veio com isso em mente? É, você ainda é moleque demais pras batalhas...

— COMO É?!

O ruivo-acastanhado sorriu maldoso para o oponente, pegou a poké-bola que tinha em seu cinto e a atirou para o alto. O feixe de luz vermelho disparou rumo ao chão, devagar foi criando forma, e em poucos segundos um pokémon preto e amarelo similar a uma raposa apareceu.

— Não acredito...

— Eu apresento a vocês: Umbreon. Consegui ele quando comecei minha jornada por Johto

Ash engoliu em seco. Seu pensamento acelerado acabou o atrapalhando, o desestabilizando por alguns segundos. Ele olhou de relance para seu Pikachu, que parecia também estar chocado com o oponente, entretanto, o ratinho amarelo não se mostraria impactado, precisava parecer forte.

— Vou começar para dar uma demonstração pra você. — Exclamou o Carvalho. — Umbreon, Mordida agora!

Pikachu, por instinto, se esquivou do pokémon tipo noturno, todavia um dos dentes conseguiu atingir a cabeça do pequeno ratinho amarelo, deixando-o com fortes dores pelo corpo todo.

— Não desista, Pikachu! Revide usando o Choque do Trovão!

O Pokémon amarelo gemia de dor, entretanto esperou Umbreon se aproximar para novamente atacar com Mordida, carregou suas forças e lançou raios na direção da raposa preta. Umbreon deu um grito esganiçado, e caiu com os olhos fechados.

— Isso! — Ash exclamou, comemorando com o punho para o alto. Pikachu sorriu, aos poucos se recuperando do ataque.

— Heh, cedo demais pra comemorar, Mula de Pallet! — Gary rebateu, logo encarando seu Pokémon. — Umbreon, use Investida!

A raposa de pelos pretos, em um instante surpreendente, recuperou forças e começou a correr na direção de Pikachu. O Ketchum arregalou seus olhos castanhos, e logo ordenou que seu ratinho amarelo desviasse, o que fez de última hora. Não estava em seus cálculos que Umbreon se recuperasse tão facilmente, muito menos que teria forças para contra atacar.

Pikachu escorregou, e por pouco não foi golpeado. O Pokémon olhava desesperado para seu treinador, esperava por qualquer ordem que fosse, mas Ash parecia estar mais perdido que ele.

— Desiste?

— Nunca! — Gritou o Ketchum, voltando de seu estado catatônico. — Pikachu, Soco de Trovão agora!

— Evasiva, Umbreon!

Enquanto corrida na direção da raposa, o ratinho concentrava sua eletricidade nas patas dianteiras, era apressado. Todavia, Umbreon era veloz, desviou com graça de Pikachu.

— Agora, use Mordida!

Ash arregalou os olhos ao ver a raposa noturna abocanhar o braço de seu Pokémon. O ratinho elétrico gritou de dor, devagar foi juntando suas pupilas e sentindo o corpo pesar. Não demorou para que ele caísse exausto no chão, anunciando indiretamente a vitória do oponente.

— Droga... Pikachu! — O Ketchum gritou e correu na direção de seu companheiro Pokémon.

— Eu te falei, Mula de Pallet, você ainda é moleque demais pra essas coisas. Mais sorte na próxima vez.

Gary chamou Umbreon de volta para sua poké-bola e foi embora, deixou o oponente para trás sem nem querer saber do estado de Pikachu. Ash pegou seu Pokémon no colo, levantou com cuidado e caminhou rumo ao Centro Pokémon, sentia uma pontada em seu coração, uma dor que fazia ele questionar sobre sua atitude impensada. O moreno não imaginou que estaria despreparado dessa forma, sempre se viu como alguém que estaria à postos para uma jornada e saberia se virar muito bem. Porém, a luta daquele dia provou o contrário.

Ash chegou no Centro Pokémon em poucos minutos, a Enfermeira Joy o encarou e voltou os olhos para um Pikachu com alguns ferimentos e fraco. A mulher o pegou, levou para a sala de tratamento junto de suas Chanseys e pediu para que o garoto a aguardasse.

Ele se sentou nas cadeiras, a cara fechou enquanto repassava cada decisão que tomou. Não poderia ser tão duro com seu rato amarelo, se ele próprio não sabia o que deveria ter feito de diferente. No fundo, sua cara fechada era uma birra pela perda, e tinha consciência disso.

— Com licença, Ash! — Chamou a Enfermeira após cerca de quinze minutos. — O Pikachu já está melhor.

— Ah, obrigado... — Ele murmurou e abriu um sorriso tranquilo ao ver seu companheiro mais alegre.

— Olha, sei que não é da minha conta o que vocês estavam aprontando, mas acho bom não ficar arrumando batalhas por aí por enquanto. Não esquece: estamos em guerra, devemos evitar situações piores.

— Eu sei, Enfermeira Joy, mas se eu não treinar, não vou conseguir começar a minha jornada bem!

— Sinto muito, mas a jornada talvez ainda demore um pouco pra acontecer... Até lá, cuide bem de seus Pokémons, certo?

Com um suspiro pesado, Ash concordou com ela. Agradeceu pela atenção e foi embora com Pikachu no ombro. Antes de chegar em casa, parou e comprou um KitKat como prometido para Misty, e assim que pisou em sua residência, jogou o chocolate no colo da garota, que estava plena no sofá lendo um livro.

— Valeu! — Ela agradeceu, abrindo o KitKat e comendo. Durante as mordidas, olhou de soslaio para Ash e percebeu a braveza dele. — Não acredito que tá assim por ter perdido.

— E como você acha que eu deveria ficar? Perdi pro Gary Carvalho! Ga-ry Car-va-lho! O cara mais chato e metido à besta que existe no planeta!

— Infelizmente, batalhas Pokémon não se tratam de mocinhos e bandidos. Se dependessemos disso, não estaríamos assim, em guerra. Se dependessemos de mocinhos e bandidos, as equipes sempre perderiam, mas a vida não é assim... — Misty comentou, sentindo uma pontada de tristeza. — E sabe o que você tem que fazer daqui pra frente?

— Não.

— Treinar.

— Como? A Enfermeira disse pra "evitar batalhas por enquanto". — Ele comentou em tom de ironia.

— Não precisa só lutar. Um Pokémon pode usar seus poderes de outras formas, treinar nas árvores, na grama, no campo, de outros jeitos! Você precisa ser menos ansioso pras batalhas, sabia?

— Até parece que sou ansioso, só queria fazer a minha jornada! Você também não tem vontade de treinar pra ser a líder do ginásio de Cerulean?

— Claro que tenho, mas não posso por enquanto! Você não entende isso?

— Quer saber? Não, não entendo, o que pode me impedir de treinar com batalhas? Só por quê uns babacas decidiram brigar eu preciso pagar por isso?!

— Você precisa ficar quieto pra não ser pego, não ser levado por equipes, não ser perseguido!

— Eu não tenho medo, não vou ser perseguido, porque não sou alvo deles igual você! — Ash gritou, subindo as escadas e fechando a porta do quarto.

Misty ficou no andar de baixo, por um momento catatônica com a confusão, e depois enfurecida. Não merecia ouvir aquelas palavras, também não tinha culpa alguma de ter uma guerra acontecendo, também queria seguir sua vida normalmente. Ela subiu as escadas correndo, abriu a porta e o encarou irritada, caminhou na direção do garoto que estava deitado de costas para ela e começou a reclamar.

— Você parece um moleque perdido na vida, fora dessa realidade!

— Como se você fosse mais madura que eu!

— E eu devo ser mesmo, porque não fico por aí choramingando porque perdi uma lutinha!

— Retira o que disse!

— Não retiro coisíssima nenhuma!

— Retira!

— Não retiro!

A confusão começava a estressar os Pokémons, Pikachu não hesitou, e ao notar o problema, lançou um Choque do Trovão nas duas crianças. Tanto Ash quanto Misty pararam com os gritos, sentiram as dores do golpe e primeiro optaram por apenas gemer de dor. Depois, permaneceram em silêncio, sem se encararem. A Waterflower desceu da cama e foi para a sala, onde pegou seu livro novamente e voltou a ler, enquanto o Ketchum ficou olhando para o teto, já mais calmo.

Durante a tarde, o garoto saiu da toca, caminhou rumo à cozinha e decidiu fazer uma pipoca no microondas. Ele procurou nas gavetas embaixo, mas nada, em seguida notou que a comida estaria nos armários altos, pegou uma cadeira, subiu, e tentou não se desequilibrar, em vão, já que escorregou e caiu de costas no chão.

A garota olhou para a cozinha, arregalou os olhos e foi ajudá-lo a se levantar. Ela o direcionou ao sofá, e foi buscar gelo no congelador para a cabeça dele, colocou um pano em volta dos cubos e o entregou.

— Obrigado... — Ash murmurou. — Olha, desculpa por mais cedo, eu não deveria ter sido tão duro contigo...

— Me desculpa também, a situação não é fácil para mim, mas também não deve ser fácil pra você... — Misty sentou-se ao lado de Ash no sofá. — Quer saber a verdade? Ontem fiquei super empolgada de batalhar com você, quero muito treinar também!

— É, eu também fiquei feliz ontem! Só que a Enfermeira tem razão, a gente vai precisar maneirar um pouco nas nossas batalhas.

— Com certeza. — A ruiva respondeu. — Olha, vou pegar a pipoca e fazer, tá bem? Não precisa se matar assim.

— Ei, eu não me matei, só levei um tombinho!

Ash se impressionou ao ver Misty subir com tranquilidade na bancada, pegar a comida, e descer com graciosidade em direção ao chão. Era como se não tivesse medo de se machucar.

— Como você fez isso? Nem parece que a bancada da pia sentiu seu peso!

— Ah, é que eu fazia um show lá em Cerulean com as minhas irmãs, então eu sei bastante de ginástica! Um dia eu te ensino a dar estrelinha e abrir espacate, vai ser engraçado.

— Tá bem.

Passaram a tarde animados, deixando a briga de lado e comendo pipoca como bons amigos que estavam se tornando.