Notas iniciais
Boa leitura, pessoal! ❤️

O dia anterior fora longo. Misty e Ash passaram o tempo pós almoço e pós arrumação jogando Donkey Kong Country, por volta das três e meia ligaram para todas as irmãs da ruiva, que pôde ver também o primo e a tia. Por volta das oito da noite, todos na casa Ketchum jantaram, e às dez e meia a cama estava arrumada para ela dormir. Não era uma cama em si, na verdade um colchão no chão do quarto de Ash, como fazia quando montavam festas do pijama no ginásio na época em que era menor.

Estava exausta para conversar com o colega de quarto, capotou e só acordou no dia seguinte, quando o sol raiou e passou pelo quarto, iluminando o rosto deles. A primeira a despertar foi Misty, a garota sentou em seu colchão, esfregou os olhos e observou ao seu redor. Não, não era um sonho, realmente estava tendo uma guerra, realmente estava longe de sua casa, refugiando-se em Pallet.

Olhou para o lado, onde o menino roncava e se mostrava completamente torto, provavelmente se mexia bastante durante o sono. Pikachu, por outro lado, parecia um pomponzinho enquanto dormia aos pés de Ash. Togepi, o Pokémon que acompanhava a Waterflower, ainda estava fechado, significando que permanecia dormindo.

O silêncio a machucava de certa forma, mesmo que em Cerulean também não acordasse com barulho. Sentia falta de acordar e pensar que logo cairia na piscina, a saudade do barulho de seu encontro com a água era tamanha, e talvez ficasse um tempo sem nadar.

Ela se colocou de pé, se espreguiçou e saiu do quarto. Desceu os degraus da escada e logo sentiu o cheiro do café coado passar por suas narinas, aquecendo-a de certa forma. Delia já tinha a mesa posta com pães, manteiga, geleia, uma caixa de leite e açúcar.

- Bom dia! — Falou a dona da casa, colocando café em sua xícara enquanto se virava para cumprimentar sua convidada. — Dormiu bem?

- Sim, pra ser sincera nem lembro que horas eu dormi.

- Acho que isso é um bom sinal. — Delia riu. — Bem, pode ir comendo, logo mais vamos para a floricultura. Só falta o preguiçoso do meu filho acordar...

Misty riu com o comentário da Sr.ª Ketchum. Ela era uma mulher jovem apesar de ser mãe, e tinha um senso de humor agradável, o que às vezes a fazia esquecer do fato de Ash ser o "menino de ouro" dela.

Mr. Mime também estava à mesa, comendo algo junto das duas moças. Pallet tinha uma calma típica do interior, e a menina ruiva sentia certo alívio durante o dia quando escutava os Pidgeys cantando no quintal, apesar de ainda sentir falta da agitação não tão barulhenta de Cerulean.

Talvez, tudo o que precisasse naquele momento de guerra era um lugar pacífico.

- Bom dia... — A voz sonolenta do menino se fez presente na cozinha, com o garoto se arrastando até o café.

- Finalmente, dorminhoco! — Disse Delia, rindo baixo e beijando a testa do filho, em seguida passou pelas crianças e foi até a cozinha. — Não esqueça de se trocar antes de a gente sair.

- A senhora fala como se eu andasse por aí de pijama sempre...

- Lembra como você saiu ontem pra ir até o mercado?

O rosto de Ash tomou um tom ruborizado, a leve vergonha o fez olhar para o lado e rir baixo de forma sem graça. Misty, por outro lado, viu graça na situação, desatando a rir educadamente com a mão na frente da boca.

- Você saiu andando por aí de pijama?

- Ah, acontece nas melhores famílias... — Ele brincou, ainda envergonhado.

Enquanto o menino comia, a menina terminou seu café, subiu para o quarto e pegou uma roupa limpa para usar.

As crianças se vestiram adequadamente, roupas de calor que as refrescariam no dia ensolarado. Assim que todos estavam prontos, saíram de casa e seguiram rumo à floricultura. Foram andando mesmo, Pallet era pequena e não havia necessidade de ficar gastando gasolina, principalmente em tempos de guerra.

Era a primeira vez que Misty observava a cidade mais atentamente. As casas não costumavam ser enormes naquela região, entretanto os terrenos eram espaçosos, alguns até mesmo contendo piscinas e brinquedos. O centro da cidade realmente era mais cheio de construções, pois era onde ficavam os comércios. Mais ao fundo, havia um pequeno morro com a casa e o laboratório do Prof. Carvalho.

A floricultura de Delia, também conhecida como Perfume In Natura, tinha uma loja simpática na frente, mas com uma enorme estufa ao fundo onde as mais belas plantas e flores da cidade se encontravam.

- Podem olhar à vontade, vou abrindo a loja. — A mulher falou sorrindo, vendo a dupla correr pelo lugar.

A menina foi direto para as hortências, os olhos brilharam ao ver cada tom possível de cor da flor, evitava encostar nas mesmas com medo de machucá-las. O menino, por outro lado, correu para as que mais amava sentir o cheiro: as peônias.

- Aqui é tão colorido, tão lindo... — Ela murmurou sorrindo.

- A mamãe tenta cuidar de todas com carinho, ela envia pra outras cidades também.

- Jura?

- Sim! — Ash disse enquanto se aproximava. — Principalmente pra festas e casamentos aqui perto, é mais fácil do que se pedirem de Celadon.

- Faz sentido... — Misty comentou pensativa.

O Ketchum a olhou de canto, um sorriso travesso surgiu em seus lábios e logo cutucou a menina.

- Te peguei! — Ele exclamou, correndo para longe. — Duvido me pegar!

- Ei! — Ela resmungou, logo indo atrás do garoto.

Na lojinha, Delia anotava um pedido via telefonema, enquanto Mr. Mime entregava um vaso de begônias para uma cliente. Ao olharem para fora, pessoas queridas e conhecidas chegavam para cumprimentá-los.

- Bom dia, Sam!

- 'Dia, Delia. Muito corrido?

- Calmo, como quase sempre... — Ela suspirou, encarando o menino ao lado dele. — Oi, Gary! Saiu da toca, foi?

- Meu vô acha que preciso sair um pouco do laboratório... — O garoto comentou.

Gary Carvalho era o neto de onze anos do Prof. Samuel Carvalho. Um garoto de cabelos ruivo-acastanhados e espetados, olhos castanhos e pele branca. Era criado pelo avô desde os cinco anos, somente eles e os Pokémons em casa.

- Quem está no fundo? Contratou funcionários novos?

- É o Ash e a Misty, só rezo pelas coitadas das minhas plantinhas estarem bem... — A fala dela veio em tom de sarcasmo, observando de relance para as crianças. — Não quer ir lá dar um oi, Gary?

- Pode ser... — O mais novo deu de ombros e saiu rumo à estufa.

Assim que o menino saiu, o professor sentiu-se mais à vontade para falar com a mulher.

- Como ela está?

- Indo bem, ligamos para as irmãs dela ontem, jogaram videogame... Mas tento ficar alerta caso ela fique mal.

- Estou tendo notícias dos Soldados, as coisas não andam fáceis. — Ele começou. — Pallet ainda não sofreu com invasões, mas estão tendo batalhas em Lavender e Saffron, por ora é vitória para as Equipes.

A notícia fez com que a mulher engolisse seco, preocupação estampando seu rosto.

- Mas Sabrina saiu de lá?

- Ninguém a encontrou ainda, sabe como ela é ligeira. — Um sorriso triste pegou os lábios de Samuel. — Só espero que isso acabe logo...

Na estufa, Misty fugia de Ash, vendo o menino correr desengonçado atrás dela. Ambos davam uma sonora risada, e não perceberam a presença de um terceiro humano lá, esbarrando em Gary sem querer.

- Ai! — A menina reclamou ao cair de bumbum no chão. — Ah, desculpa...

- Tá tudo bem. — Ele respondeu seco, sorrindo de canto. — Fugindo da Mula de Pallet? Eu também faria isso se ele viesse até mim.

- Cala a boca, Gary! — Exclamou Ash, indignado e se aproximando. — Misty, esse é o Gary, o cara mais metido do pedaço. Gary, esta é a Misty, ela...

- Faz parte das líderes de Cerulean, sei disso. Lutei contra as suas irmãs no ano passado, lembro de você nos pôsteres dos shows.

- Então você fez uma jornada?

- Sim. — O Carvalho respondeu sorrindo exibido. — Cheguei a lutar no campeonato, mas saí nas oitavas de final.

- Isso só mostra que não é tão bom quanto pensa. — Retrucou o Ketchum, um sorriso maldoso e satisfatório ao mesmo tempo.

Gary fechou o rosto, revirou os olhos e se aproximou do garoto mais novo com intimidação, sabia como desestabilizar Ash.

- Já que acha que é melhor que eu, por que não marcamos uma luta?

- Tá bem, mas saiba que não estou com meus Pokémons aqui...

- Não precisa ser agora Mula de Pallet, pode ser amanhã, depois do almoço, perto do lago.

O moreno engoliu em seco, mas sem perder a pose apertou a mão do rival, querendo demonstrar coragem. Ou talvez, burrice por ser tão impulsivo.

- Vai ser combate de um contra um, entendido?

- Claro como água. — Resmungou o mais novo, se soltando do aperto de mão.

Gary se virou, saindo pela entrada da floricultura e indo de encontro ao avô. Misty olhava incrédula para Ash, tentando entender o que se passava na cabeça do garoto para aceitar uma aposta daquelas.

- Se bem me lembro, ele tinha um Squirtle quando lutou contra as minhas irmãs.

- E daí?

- Daí que provavelmente já evolui para Blastoise, e você só tem o Pikachu!

- Bateu a cabeça na pia hoje? Tipos elétricos são fortes contra tipo água! — O Ketchum dizia gesticulando. — Essa luta tá no papo!

- Ash, nunca conte apenas com os tipos, lutas Pokémon requerem estratégias, treinos e muitas outras coisas!

O garoto revirou os olhos, para ele a menina apenas tentava desencorajá-lo com o intuito de evitar brigas. Ash sabia se virar, precisava praticar para ser um treinador Pokémon após o fim da guerra, que em sua ingênua cabeça não passaria de seis meses.

Não tocaram mais no assunto pelo resto da manhã, e quando o relógio marcou meio-dia Delia fechou a floricultura para o almoço. Todos foram andando de volta para a residência dos Ketchum, e assim que chegaram Delia foi logo para a cozinha, não percebendo que Ash e Misty subiram para o quarto em disparada junto de Pikachu.

- E então, algum plano?

- Vou treinar com o Pikachu hoje, depois do almoço. E você vem com a gente!

- Eu?! — A ruiva indagou, indo até seu Pokémon Ovo que ficou dormindo e o pegando no colo. — O Togepi é só um bebê, não vou fazer ele lutar coisa nenhuma!

- Não com o Togepi, com seus outros Pokémons! — O moreno retrucou, incrédulo com a falta de raciocínio dela. — Você não disse que trouxe outros? O Staryu e o Psyduck?

- Hã, sim...

- Perfeito! Eles são do tipo Água, podem ajudar.

- Eu não sei Ash, acho que não vai dar certo.

- E por que não? Qual é Misty, vamos tentar!

- Bem... Eu não sei se estou pronta pra lutar, ia começar meus treinos esse ano...

- Então treinar comigo não é má ideia, assim nós dois treinamos! — O menino falou sorrindo animado, querendo pular de tamanha alegria. — Depois do almoço vamos pro quintal, e problema resolvido.

A garota revirou os olhos, mas se deu por vencida. De certa forma, ele tinha bons argumentos para poderem batalhar, e querendo ou não Psyduck e Staryu necessitavam esticar um pouco o corpo, sair da poké-bola e tomarem um ar.

Enquanto Delia terminava de preparar o almoço, as crianças lavavam as mãos e tratavam de descer as escadas para comerem. Quando a mesa já estava posta e todos sentados, podiam sentir o cheiro delicioso da comida e saboreá-la, além de uma conversa tranquila que acalentava os ouvidos.

- O que achou da floricultura?

- Uma gracinha, Delia! E tem tantos perfumes... — A Waterflower respondeu em tom encantado.

- Essa semana está tranquila, mas têm dias que são tão corriqueiros... — A mulher suspirou, recordando dos meses de maio em que aconteciam os casamentos. — Alguns dos arranjos eu tiro fotos e deixo expostos na lojinha, te mostro com calma depois.

- Er, mãe, sobre ir pra loja, podemos passar a tarde aqui? — Ash questionou sem graça.

- Claro! Aconteceu alguma coisa na floricultura?

- N-não! É só que... Eu queria uma revanche da Misty no Donkey Kong! É, é isso...

A menina ruiva o encarou desconfiada. Realmente, havia vencido as últimas partidas do videogame, mas por que mentir para Delia? Não seria mais fácil contar a verdade para a mulher?

- Tudo bem então. — A Sr.ª Ketchum se colocou de pé, pegou os pratos e sorriu travessa para as crianças. — A louça é por conta de vocês.

- Droga! — As crianças exclamaram, fazendo caretas.

Não demorou para a mulher sair, ria sozinha com a reação dos mais novos e sentia um alívio ao ver a cumplicidade dos dois. Saía andando com Mr. Mime ao seu lado prontos para continuar as tarefas na floricultura, acreditava que tudo estava nos conformes em sua casa.

Por ora, realmente estava tudo bem na residência Ketchum. Misty lavava a louça, enquanto Ash enxugava e guardava com a ajuda de Pikachu. Tentavam acelerar o processo, ele mal esperava para poder batalhar com a menina, poder treinar antes da luta contra Gary Carvalho.

- Acabou?

- Aqui sim. — Ela respondeu. — E você?

- Também. — Ele disse sorrindo de orelha a orelha. — Vambora!

Ash foi para o quintal, enquanto Misty subia e buscava a poké-bola de Staryu em sua mochila. Ao encontrar, sorriu de lado e desceu, sentindo um formigamento percorrer seu corpo, de certa forma treinaria como o previsto para aquele ano, talvez a ideia não fosse tão ruim.

- Tá pronta?

- Claro! — A garota ruiva exclamou, jogando a poké-bola para o alto e vendo um feixe de luz sair de seu centro. — Staryu, conto com você!

- Vamos lá, Pikachu!

- Você começa.

- Pikachu, use o Soco de Trovão!

- Evasiva, Staryu!

O Pokémon em forma de estrela saltou para longe ao ver a proximidade do rato elétrico, que deu de cara com o chão e acabou por eletrocutar a terra.

- Ótimo, agora use um Jato D'água!

Staryu lançou de uma de suas pontas um gratificante jato de água que acabou por acertar as costas de Pikachu. O Pokémon elétrico tentava se levantar a todo custo, entretanto a força da água o empurrava de volta para a terra.

- Pikachu vamos lá, gire para o lado e use o Soco de Trovão mais uma vez!

E assim ele fez, se esquivando momentaneamente da água e saltando em direção à Staryu, que aos poucos caía de volta para a terra. Ambos se encontraram no ar, o impacto fez faíscas voarem e a estrela cair dura no chão, notoriamente paralisada.

- Droga... — Misty murmurou, apreensiva.

- Vai Pikachu, Choque do Trovão agora!

- Staryu, Hidro Bomba!

Para o azar da menina ruiva, seu Pokémon sequer mexeu, recebendo todo o impacto do ataque de Pikachu. Estáticas percorriam o corpo de Staryu, deixando-o eletrocutado e fazendo-o ir ao chão sem nem hesitar.

- E eu ganhei! — Cantarolava Ash animado, chamando seu pequeno Pokémon para comemorar consigo.

- Staryu, volte. — Misty apontou a poké-bola, e a luz vermelha puxou o Pokémon de volta para seu esconderijo. — Bem, precisamos ir pro Centro Pokémon. Vamos, Ash!

O Ketchum a encarou confuso.

- Mas por que eu preciso ir?

- Bom, porque eu posso me perder e eu não deveria sair por aí sozinha, sendo que tem uma guerra à solta.

O menino sacudiu os ombros, apenas seguiu sua amiga e tomou a frente. O sol baixava um pouco e já não ardia tanto em suas cabeças, andavam pela pequena cidade com calma, tendo Ash como um guia. Para que Delia não soubesse que tinham saído, pegavam alguns atalhos para escaparem da visão da floricultura.

O Centro Pokémon não ficava tão longe como Misty achava, era próximo à saída da cidade e ao laboratório e casa dos Carvalho. Ao chegarem, encontraram uma das gentis enfermeira Joy que eram espalhadas pelo mundo, junto de sua inseparável Chansey. Entregaram a poké-bola, e foi preciso esperar a melhora de Staryu.

- Acha que a sua mãe não vai estranhar quando chegar em casa e a gente não estar lá?

- Relaxa, ela não vai chegar tão cedo. — O menino moreno respondeu, olhava ao redor do espaço com curiosidade. — Todos os Centros Pokémons são iguais?

- Hã?

- É, que nem: O de Cerulean e o de Pallet são iguais por dentro?

- Não, em Cerulean tem outra pintura e decoração, como somos uma cidade que guarda uma insígnia tem vários quadros contando a história do ginásio e dos seus líderes. — A Waterflower disse em tom de nostalgia, lembrando de cada detalhe de sua cidade. Sem que percebesse, os olhos começaram a marejar.

- Quando essa guerra acabar, eu vou até lá pra conhecer, mesmo que eu não precise, porque vou derrotar você. — Ash falava orgulhoso, porém logo mudou sua expressão ao ver a menina chorando. — Misty, você tá bem?

As lágrimas escorriam pelo rosto da menina de forma descontrolada, seu soluço silencioso a tirou do ambiente por um tempo. A saudade começou a bater cedo, lembrar de sua cidade e que não poderia voltar para lá doía muito, e se pensasse no assunto a dor aumentava.

- O que aconteceu? E-eu disse alguma coisa que...?

- D-desculpa... — A ruiva gemeu, segurando a voz para não soluçar alto. — Não é culpa sua, tá? É que tá doendo...

Ash arregalou seus olhos, não lembrava de nada que pudesse tê-la machucado. Ao escutar aquilo, correu para a bancada do Centro Pokémon e chamou pela enfermeira desesperado, se sua mãe descobrisse que o garoto não tinha tomado conta da menina (mesmo que fosse meses mais novo) tinha certeza que ouviria um sermão.

- Ei, ei! O que foi, garoto? — A enfermeira Joy falou ao sair da sala de enfermagem. Seu tom de voz ríspido sinalizava que não estava com paciência para traquinagens.

- É a minha amiga, ela disse que tem alguma coisa doendo.

A mulher estranhou, todavia ao olhar para a expressão de choro de Misty começou a se preocupar também. Joy caminhou até a menina, se ajoelhou de frente para ela e tentou limpar as lágrimas delicadamente, passando tranquilidade, ou ao menos queria fazer isso.

- Aconteceu alguma coisa? Onde está doendo?

- Aqui...

Os soluços ficaram maiores, Misty apontou para seu peito, onde ficava o coração. A enfermeira torceu o rosto, já imaginando qual era o problema. Não estava gostando daquela ideia de guerra, e por mais que entendesse cada lado rival, não entendia a necessidade de civis sofrerem. Aquela disputa apenas separava famílias, amigos e casais, e tudo estava só no começo para sentirem tais dores.

A mulher se colocou de pé, pediu para Ash ficar ali do lado da Waterflower, saiu rumo à cozinha e preparou com carinho um chocolate quente, mesmo que o calor da primavera estivesse ali uma bebida quente sempre aliviava as pessoas, foi isto que aprendeu com sua mãe e avó na infância. Ao retornar, ficou admirando o cuidado que o Ketchum tinha com a garota, mesmo que não tivesse entendido o tipo de dor dela.

- Aqui meu bem, bebe o quanto quiser.

- Obrigada... — Devagar, Misty bebericava o chocolate, que aos poucos acalmava seus nervos e seu coração. — Desculpa...

- Não precisa se desculpar, chorar faz bem, sabia?

Ela negou com a cabeça, e logo Joy encarou Ash novamente.

- O que ela tem é um sentimento que aperta a gente de vez em quando, se chama "saudade". Às vezes não passa rápido, então a gente tenta outras coisas quando a saudade fica grande, entendeu?

O moreno tinha uma expressão de surpresa, e alívio ao perceber que a ruiva não estava doente. A enfermeira saiu para cuidar de Staryu novamente, deixando as crianças sozinhas e prontas para um diálogo particular.

- Desculpa o susto...

- Não sabia que a saudade estava tão grande. — Ele respondeu, um olhar que visava tranquilizar a nova amiga.

- Eu também achei que não ia ser tão grande, eu tô me sentindo bem na sua casa, não tem o porquê de eu ficar assim...

- Na verdade, até tem. — Ash respondeu. — Mas sempre que sentir saudades, pode me falar, tá legal?

Misty assentiu com a cabeça, continuou bebendo e até mesmo oferecia a bebida para o Ketchum, que vez ou outra dava uma bicada no chocolate quente. Eles ficaram sentados por um bom tempo até Joy retornar com Staryu recuperado e completamente agitado como costumava ser, agradeceram pelos cuidados e logo devolveram a xícara para a enfermeira, prontos para irem embora.

Voltaram pelo mesmo caminho de antes, a ruiva ainda tinha uma expressão chorosa no rosto, entretanto estava visivelmente mais calma que antes. Ash tagarelava sem parar na intenção de fazê-la esquecer das dores da distância, falava do quão animado estava para a batalha no dia seguinte contra Gary, e do quanto sentia-se pronto para derrotá-lo. Ao chegarem na residência dos Ketchum, Misty subiu até o quarto e disse que tomaria um banho, o moreno, por outro lado, permaneceu na sala com Pikachu e Togepi, onde decidiram ligar a TV e assistir a algum filme ou programa.

A Waterflower demorou em seu banho, permaneceu sentada na banheira, enquanto a água caía do chuveiro em direção às suas costas. Ela abraçava suas pernas, em sinal claro de necessidade de conforto, as lágrimas se misturaram com a água por um tempo, e apenas saiu de lá quando sentiu-se pronta. Desligou o chuveiro, colocou outra roupa e seguiu rumo à sala, onde percebeu que todos assistiam à um filme de comédia.

— Tá melhor?

— Sim, valeu por tudo... — A ruiva agradeceu com um pequeno sorriso, se acomodando no sofá e abraçando seu Togepi.

Riam juntos do filme, fossem os humanos ou os Pokémons. Quando o relógio bateu seis e meia da tarde, a matriarca da família chegou segurando algumas sacolas do mercado junto de Mr. Mime, cumprimentou as crianças com um beijo na testa e seguiu rumo à cozinha, pronta para cozinhar o jantar. Faria alguns bolinhos de arroz para comer com macarrão, e viu a oportunidade de ocupar a mente dos menores.

— Ash, Misty, podem me ajudar?

— Claro, mãe!

— Vão montando os bolinhos que eu vou fritando, ok?

— Ok! — Respondeu a dupla.

— O que fizeram hoje?

O Ketchum e a Waterflower se encararam em um olhar cúmplice, ao mesmo tempo que travesso.

- Jogamos um pouco de Donkey Kong, e a Misty ganhou de novo... — Ash começou, moldando os bolinhos. — E depois a gente jogou Jogo da Vida.

— Que bom...

Aquele pequeno momento representava muita coisa na vida deles, era o primeiro passo para uma relação de cumplicidade que mal sabiam que teriam por um bom tempo.