Notas iniciais
Isso talvez fique maior que a sinopse, e maior que muitos recados que costumo dar. Escrevi essa fanfic há muitos anos, e muita, mas muita coisa mesmo, mudou desde então. Cresci, saí da escola e fui pra faculdade, comecei a trabalhar, ganhei um cachorro e novos amigos que me alegram muito. As coisas novas me trazem muita felicidade, não vou mentir. Mas às vezes certas nostalgias nos dão uma dose a mais de serotonina que nos inspiram. E foi o que aconteceu nessas férias. Fui reassistir Pokémon de novo, como fiz há oito anos atrás. E meu Deus, não sei dizer o quão animada fiquei, mas foi o suficiente pra eu voltar a reler minhas antigas histórias, a ir atrás de algumas coisas que tinha, e trouxe algumas novidades na minha vida que eu não estaria vivenciando se não fosse por esse site. Reescrevo essa fanfic com carinho, com amor e com dedicação às novas emoções que minha vida traz, sem esquecer minhas inspirações e sem prometer que vou terminá-la porque como diriam Os Melhores do Mundo: "A vida é uma caixinha de surpresas". Boa leitura! Com amor, Sadie

O dia na cidade de Cerulean parecia normal, céu claro com poucas nuvens à vista, Pidgeys sobrevoando e cantando, uma brisa fresca indicando o fim da primavera e o sol aquecendo as plantas da praça central. Seria um dia perfeito para aproveitar e passear com os Pokémons ou brincar, se não fosse uma guerra iniciada há poucas semanas.

O clima não era um dos mais agradáveis. Com a união das Equipes de cada região, os Soldados do Governo procuravam combater o avanço dos ideais dos grupos, que visavam um mundo militarizado e destratando os monstros de bolso, usando-os para experiências e serviços militares.

O grande problema no momento era a captura daqueles que promoviam as ligas Pokémon, principalmente líderes de ginásio, campeões, membros da Elite Quatro, já que de acordo com as Equipes: "a liga é quem atrapalha a economia e o avanço do mundo".

E Cerulean era uma das cidades-alvo, seu ginásio costumava ser o segundo procurado pelos viajantes, que iam em busca da Insígnia de Cascata. Com o anúncio da guerra, o local estava fechado, com Soldados do Governo passando pela cidade e fazendo uma ronda em torno do prédio enquanto a família responsável pelo ginásio ainda estava lá.

Eram quatro irmãs que compunham a família Waterflower: Daisy, Lily e Violet de dezesseis anos, que cuidavam não apenas das batalhas para as insígnias, mas também dos shows aquáticos que preparavam para os finais de semana. E tinha também Misty, a irmã mais nova de dez anos, que ajudava as irmãs com o espetáculo e treinava para ser a nova líder de ginásio.

Naquele momento, a menor olhava com cuidado pela janela, avistando alguns Soldados do Governo marchando em volta do ginásio. Suspirou de forma triste, sentindo uma dor profunda ao pensar que seus sonhos foram interrompidos por uma guerra. Malditos, ainda pagariam por isto.

— Misty, terminou? — Escutou a voz de Daisy soar por detrás da porta.

— Estou acabando!

— Vai logo, a Sr.ª Ketchum vai chegar em alguns minutos!

Ela pegou duas poké-bolas que estavam na cabeceira de cama, olhou pelo espelho novamente, procurando ver se estava apresentável: sapatos pretos, meia branca baixa, o cabelo liso, curto e ruivo-alaranjado amarrado em um rabo de cavalo lateral, saia azul reta e uma camisa social branca. Perfeito, uma boa imagem para passar.

Olhou uma última vez para seu quarto de paredes salmão, a cama encostada a parede da janela, as cortinas amarelas tampando o sol, a cabeceira de cama, a cômoda e o guarda-roupa no mesmo tom de madeira claro, e principalmente para os quadros que mostravam seu amor por Pokémons aquáticos, alguns até mesmo pintados por seu falecido pai.

— Misty, anda! O carro já vai chegar! — Mais uma vez sua irmã bateu na porta, ficando levemente irritada.

E assim a menina ruiva saiu do cômodo, carregando seu Togepi no colo e outras duas malas grandes. Olhou Daisy fixamente, tentando marcar em sua memória a irmã de cabelos loiros, medianos e ondulados olhos verdes como os dela, a pele com um bronzeamento artificial que conseguia ser quase igual à um real, diferente da pele branca como porcelana da mais nova.

— Pegou tudo?

— Sim... — Murmurou a menina. — Por que não podemos...?

— Já te explicamos: separadas nós vamos proteger umas às outras, pois se encontram uma as outras estão salvas. — Ela disse, acariciando a bochecha da irmãzinha, a qual cuidava desde os seis anos. — Vamos, você vai precisar ir por trás, ela vai usar uma rota alternativa.

Só restavam as duas na casa, Lily estava em Undella, em Unova, refugiada sozinha em uma pequena casa de praia, Violet fora para LaRousse, uma cidade pequena onde moravam a tia e o primo por parte de mãe das meninas, Mary e Drew. Misty iria para Pallet, ficar com uma velha amiga da mãe das meninas, Delia Ketchum. A última a deixar o ginásio era Daisy, que iria embora no dia seguinte para a Ilha Tangelo, no Arquipélago das Ilhas Laranja, para ficar com o namorado Tracey.

As irmãs saíram de dentro do ginásio, Misty não conseguia evitar olhar para trás e sentir uma forte dor no peito por deixar seu lar, seu espaço, tudo o que conhecia. Ficava surpresa com a frieza com a qual as irmãs estavam lidando com a situação, entretanto no fundo sabia que as mesmas devem ter passado noites chorando só de pensarem na despedida.

Um carro quadrado e vermelho chegou, na frente pilotava um senhor de idade que possuía um sorriso simpático, e atrás estava a Sr.ª Ketchum. A última vez que tinham se encontrado, Misty tinha pouco mais de três anos, mas a foto que tinha visto dela mostrou o quanto ela estava conservada. As rugas eram mínimas, o cabelo castanho-avermelhado era comprido, liso e amarrado em um rabo de cavalo baixo, os olhos amendoados eram grandes e acolhedores, sua pele era um pouco mais queimada, provavelmente por conta do seu trabalho como florista.

— Oi meninas. — Disse a mulher adulta, sorrindo. — Vamos entrando.

As irmãs deram um caloroso abraço de despedida, puderam sentir as lágrimas uma da outra molhando suas roupas, não soluçaram e sequer disseram algo, o importante agora era aproveitarem um último contato por aquela hora.

— Ligamos assim que chegarmos em Pallet, fique tranquila!

— Certo, amanhã vou começar minha viagem, assim que chegar na ilha aviso. Não esquece de avisar a Violet e a Lily, ok?

Misty assentiu positivamente com a cabeça, adentrando o carro e ficando ao lado de Delia. Ela olhava o ginásio pelo parabrisa traseiro, vendo-o diminuir conforme viajavam, sentindo parte de si ficar para trás e tentando enxugar as lágrimas que insistiam em escorrer de forma silenciosa pelas bochechas.

— Elas vão ficar bem querida, você vai ver... — A mulher sorriu, passando a mão pela nuca dela. — Estou surpresa em te ver assim, está tão crescida.

— A última vez em que vimos vocês foi no aniversário de trinta e cinco anos da Lucy, não? — Questionou o homem, que assim que se virou a garota pôde perceber que era o Prof. Samuel Carvalho, responsável por entregar os iniciais para os treinadores de Kanto.

— Sim, eu era pequenininha, não lembro de quase nada. — A ruiva sorriu tímida.

— Tenho algumas fotos na minha casa, podemos ver qualquer dia desses.

Lucy era a mãe das meninas Waterflower, ela havia falecido há quatro anos, em um acidente de carro junto do marido Michael. Misty acabou não tendo forças para se despedir dos pais, por isto passou o dia todo do velório e do enterro junto do primo Drew em sua casa.

Foi uma viagem longa, cerca de duas horas e meia. A menina acabou cochilando enquanto o carro passava por uma estrada pouco conhecida, afinal as vias principais estavam aos poucos sendo tomadas por Soldados do Governo ou por Membros de Equipe, não poderiam correr riscos. O professor e Delia tratavam de conversar, com a mulher dizendo para que ele fosse para a casa dela, evitando riscos de ele ser pego. Mas a resposta era a mesma: "Me rendi ao dizer que não vou distribuir Pokémons para início de jornadas, não vão me pegar".

Ao chegarem em Pallet, Misty acordou, encontrando um pequeno sobrado branco com um enorme jardim. Havia um Mr. Mime regando algumas flores no cercado branco, o mesmo usava um avental rosa com um coração amarelo no centro, e acenava freneticamente para eles animados.

— Bem, chegaram! — Falou o homem, destravando as portas e olhando para as duas. — Já sabe, qualquer coisa me ligue.

— Fica tranquilo Sam, vamos nos virar... — Delia respondeu enquanto retirava as malas do carro.

O professor saiu dirigindo assim que as duas estavam do lado de fora. A menina, em uma mão, segurava seu Togepi, e na outra estava a mala. Já a mulher carregava a mala maior para dentro da casa, a qual foi aberta com ajuda do Pokémon Psíquico.

— Seja bem-vinda à casa dos Ketchum. Não é grande, mas o amor é maior, pode apostar.

— Obrigada Sr.ª Ketchum. — A garota disse timidamente, deixando a mala no chão e olhando ao redor.

— Ora não precisa ser tão formal, pode me chamar de Delia.

Uma sala na frente com um sofá bege de quatro lugares tendo vista para a televisão e o hack de madeira, atrás do sofá uma mesa de jantar com seis lugares que tinha vista para a janela. Depois vinha a escada à direita, que levava ao andar de cima, e para trás ficava a cozinha com uma ilha e uma porta para o quintal atrás. Esta era a pequena casa Ketchum.

E falando na escada, uma sonora risada repercutiu pelo ar. Ao olhar para o alto, Misty viu uma figura peculiar correndo até o topo da mesma e descendo pelo corrimão junto de seu Pikachu. Ele tinha pele morena, cabelos pretos e totalmente desgrenhados, os olhos castanhos brilhavam de emoção e tinha raios nas bochechas, uma marca de nascença. Ele vestia uma camiseta preta, uma calça jeans clara e estava descalço.

Assim que terminou de escorregar sua risada cessou, a face indignada da mãe traduzia muito bem o que ela queria dizer.

— O que disse pra você assim que saí?

— Pra me comportar e não quebrar nada.

— Ótimo. — Delia respondeu seca, mas mudando para um tom calmo ao lembrar que ainda não o tinha apresentado. — Misty, esse é o Ash, meu filho. Ash, esta é Misty, uma das líderes de ginásio de Cerulean. Ela vai ficar com a gente a partir de hoje, seja educado.

— A senhora me ofende falando desse jeito. — O menino inflou o peito, fingindo indignação.

Aquele drama fez surgir uma risada na boca da ruiva, que comprimiu os lábios para que o som não escapasse. Os olhos esmeralda logo cruzaram com os olhos âmbar, e um sorriso simpático com fundo de travessura surgiu na face de Ash, que não demorou a pegar na mão de Misty e levá-la para o andar de cima, mais especificamente no quarto dele.

As paredes eram brancas, havia um guarda-roupa branco à direita da porta, uma cômoda com uma televisão em cima na parede esquerda, uma cama na parede direita, onde embaixo estava uma escrivaninha com alguns papéis e uma gaveta que guardava alguns cadernos. As paredes eram enfeitadas com pôsteres da liga Pokémon, que davam alguma cor ao ambiente.

— E aí? Que tal guardar suas coisas e a gente jogar?

— Ah, tá bem... Que jogos você tem?

— Tenho um videogame, e tem uns jogos de tabuleiro se você quiser.

Delia trazia as malas que ficaram e ouvia os dois conversando, um pouco escondida na parede do corredor, sentindo um alívio por eles estarem se dando bem. Ela deixou as malas no batente e desceu de volta para o andar debaixo, onde procurou começar o almoço. No fundo, sentia um alívio por ajudar a filha de sua amiga, principalmente por saber que, mesmo depois de anos sem se verem, a relação Ketchum-Waterflower não estava tão desestabilizada.

As crianças permaneceram jogando Banco Imobiliário no quarto, esquecendo-se temporariamente de desfazer as malas da menina. Os dois davam risadas com algumas das jogadas e decisões que tomavam durante a partida, ainda sem muita conversa. Em contrapartida, o Pikachu do garoto conhecia o pequeno Togepi que ainda era praticamente um filhotinho, e parecia exigir maiores cuidados.

— Você trouxe outros Pokémons além do Togepi? — Aquela foi a primeira pergunta que Ash fez que estava fora do contexto da partida de Banco Imobiliário.

— Não, eu trouxe o Staryu e o Psyduck comigo, minhas irmãs e eu dividimos nossos Pokémons.

— Como assim?

— É que se um dia acontecer alguma coisa enquanto estamos longe, os Pokémons podem nos defender, entende?

— Ah, sim... Até que faz sentido. — Ele respondeu. — Acho que se eu tivesse que sair de casa assim também faria isso.

— Assim como?

— Você sabe, fugido.

Misty baixou o olhar, triste ao precisar pensar naquilo. Talvez a ficha ainda não tivesse caído totalmente, ainda não tinha pensado por completo que teria de ficar longe de sua terra natal por um tempo. Bem, ao menos acreditava que aquilo passaria em seis meses, e logo seria a Líder do Ginásio de Cerulean.

— Eu ia ser treinador Pokémon, ia começar minha jornada na semana passada.

— E quem você ia escolher?

— Pensei muito, muito mesmo, e iria pegar o Bulbassauro.

— Sério? O Squirtle tem evoluções melhores, sabia?

— Pra mim não, os poderes do Bulbassauro são superiores, e...

— Crianças, tá na mesa! — Delia exclamou, encerrando a discussão sem saber.

Os dois se entreolharam e desceram, trocando farpas somente com o olhar. A mesa não era farta, mas sim suficiente para todos comerem, panelas com arroz, feijão, bifes e uma travessa de salada montavam o almoço daquele dia.

— Bem, podem se servir! — A mulher disse, pegando seu prato.

Os mais novos a imitaram, e logo se sentaram para comer. Havia um silêncio incômodo em torno da mesa, a intimidade ainda não se fazia presente, e só surgiria com um pouco mais de conversa.

— Não sei se suas irmãs comentaram, mas sou florista.

— É, a minha mãe tem a maior floricultura daqui de Pallet.

— Bem, sim... — O rosto de Delia ruborizou, não costumava comentar esse fato. — O Mr. Mime me ajuda lá, e nos fins de semana cuidamos da casa.

— Posso visitar sua floricultura?

— Claro! Podemos ir amanhã se quiser.

Um brilho surgiu nos olhos da menina, era apaixonada por flores, principalmente hortênsias, já que achava engraçado o fato de lembrarem um buquê de casamento. Para a Sr.ª Ketchum, as flores eram como uma forma de esquecer da crueldade do mundo, e também dos problemas que teve no passado. Foram as flores que a fizeram se reerguer e mostrar sua versatilidade entre trabalhadora e mãe solteira.

— Gosta de flores, Ash?

— Não ligo muito, mas as minhas favoritas são peônias, elas lembram um buquê.

— Igual as hortênsias... — Misty murmurou, riu baixo ao pensar que tinham um pensamento em comum. — E as suas flores preferidas, Delia?

— São copos de leite, gosto tanto que pego algumas da floricultura e trago pra cá.

Seguiram conversando por mais algum tempo sobre flores, e assim que terminaram o almoço a mulher tirou a louça e pediu para o filho a ajudar, enquanto a menina subia até o quarto e tratava de arrumar seus pertences direito.

— Querido, me escuta. — A Sr.ª Ketchum chamou a atenção do menino, fazendo com que ele a encarasse enquanto enxugava a louça. — Sei que essa situação deve ser estranha pra você, mas para a Misty é pior ainda. Eu e você precisamos fazer ela se sentir em casa, entendeu?

— Sim mãe, entendi desde que me contou sobre ela. — Ash sorriu de canto, tentando confortar a mulher.

Ao terminar de guardar a louça, viu seu menino correr escada acima, chamando pela nova amiga para jogarem videogame. Delia suspirou, era uma nova vida na qual todos teriam de se acostumar, na qual todos criariam novos laços e novos meios de se entenderem.