Amor não programado
2 Capítulo 2 - Stela
Notas iniciais
A música está tão alta que sinto a batida vibrar no peito. Se existe um lugar no mundo onde uma programadora introvertida não deveria estar numa sexta-feira à noite, esse lugar provavelmente é uma boate. Meu habitat natural envolve uma cadeira confortável, dois gatos e um computador com brilho reduzido. Isso aqui tem luzes piscando, fumaça, gente demais e um DJ aparentemente empenhado em romper meus tímpanos.
— Vai ser divertido, Stela! Você vai ver! — diz Nina, puxando meu braço.
Ela sorri com a confiança de quem acredita estar prestes a mudar a vida de alguém. Nesse caso, a minha. Só não decidi ainda se para melhor.
Suspiro e deixo que ela me arraste até a pista. Não é que eu tenha medo de dançar. Só nunca precisei fazer isso diante de dezenas de desconhecidos. Na sala de casa eu danço muito bem. Pelo menos Luke e Link nunca demonstraram qualquer crítica ao meu desempenho.
Embora, pensando melhor, talvez gatos não sejam exatamente os jurados mais confiáveis.
Encontramos Tici poucos minutos depois.
Ela está acompanhada de uma mulher que chama minha atenção imediatamente. Os olhos inchados e o sorriso inexistente, compõem a expressão de que uma guerra acontecia por dentro.
Mas, estranhamente, tenho a impressão de já ter visto traços semelhantes antes. Só não consigo lembrar onde.
— Ei... você está bem? — pergunta Nina.
A moça solta um suspiro longo.
— O Magno terminou comigo. — Ela funga de um jeito nada delicado. — E eu ainda estou tentando descobrir em que momento tudo deu errado.
Entrei, oficialmente, em território desconhecido.
Nunca fui boa em consolar pessoas. Na verdade, nunca precisei. Meu relacionamento mais duradouro foi com um software desenvolvido na faculdade. E, convenhamos, ele nunca terminou comigo. Só travava de vez em quando.
Olho discretamente para Nina.
Ela devolve um olhar que traduz perfeitamente: "Faz alguma coisa."
Excelente.
Só existe um pequeno problema. Eu não faço ideia do que fazer. Abro a boca para dizer qualquer coisa. Nada sai.
A mulher enxuga os olhos com as costas da mão.
— Vou beber até esquecer.
Antes que alguém consiga responder, ela desaparece em direção ao bar. Acompanho a cena com o olhar.
— Isso costuma funcionar?
As gêmeas olham para mim. Dou de ombros.
— Pergunta sincera.
Tici suspira.
— Ela estava bem quando conversamos mais cedo.
Sigo a direção do olhar dela. A mulher já trocava uma dose de tequila por um drink azul, depois por um rosa e depois por outro verde. Parece determinada a experimentar todas as cores disponíveis antes de resolver os próprios problemas.
— Acho que vocês deviam levá-la para casa — digo. — Ela não parece muito… — Procuro uma palavra diplomática. — operacional.
Tici solta um "droga" quase inaudível. Logo em seguida, puxa Nina para um canto. As duas cochicham durante alguns segundos. Não gosto da expressão delas. Principalmente quando voltam olhando diretamente para mim.
— Steeeeela… — cantarola Nina.
Conheço esse tom. Sempre sobra para mim.
— Você pode ficar com a Léa só por alguns minutos? A gente precisa resolver uma coisa urgente.
Olho para a mulher, que agora já conversa animadamente com um copo vermelho. Depois olho para Nina.
— Urgente tipo... agora? — O leve tom de desespero na voz.
Nina apenas sorri.
Nunca confie em alguém que sorri numa hora dessas.
As duas simplesmente dão os braços e desaparecem no meio da multidão antes que eu consiga protestar.
Cruzo os braços.
Maravilha.
Cinco minutos dentro da boate e já fui promovida a babá de uma desconhecida. Se isso é diversão, prefiro voltar para os meus códigos. Abro caminho até o bar desviando de cotovelos, ombros e pelo menos três pessoas que claramente confundiram dança com luta livre. Quando finalmente me sento ao lado dela, Léa encara um copo vermelho como se estivesse esperando que ele resolvesse sua vida.
Ela vira o rosto lentamente.
— Vermelho é minha cor favorita.
Olho para o copo. Depois para ela.
— Pela quantidade de álcool aí dentro, acho que daqui a pouco ela vai ser a sua personalidade também.
Ela ri. É a primeira reação genuína desde que cheguei. Talvez isso seja um bom sinal. Ou talvez seja exatamente o contrário.
— Você é engraçada…
Ela apoia o queixo na mão. Não sei exatamente o que responder. Então respondo do jeito que sei.
— Não posso ajudar muito com términos. Minha experiência amorosa é praticamente um arquivo vazio.
Ela ri outra vez. Mas dura pouco. O sorriso desaparece quase tão rápido quanto surgiu.
— Eu só queria entender onde foi que eu errei.
Olho para o copo. Depois para qualquer outro lugar que não fossem aqueles olhos verdes em prantos. Queria muito saber qual era a resposta certa. Infelizmente, meu manual de instruções nunca veio com um capítulo sobre corações partidos.
— Você quer que eu ligue para alguém?
Ela nem parece ouvir. Mexe no bolso da calça, tira uma chave e a coloca na minha mão.
— Você pode me levar para casa?
Fecho a mão em volta da chave. Suspiro. Mentalmente, prometo cobrar essa conta de Nina e Tici com juros.
Olho outra vez para Léa. Ela realmente não tem condições de dirigir.
Nem de ficar sozinha.
— Tudo bem. — Guardo a chave no bolso. — Eu levo.
Após repetir o endereço algumas vezes para gravá-lo na memória, acomodo Léa no banco do carona e deixo a boate para trás. Ela passa o trajeto inteiro olhando pela janela, completamente silenciosa. Em alguns momentos acho até que dormiu, mas, vez ou outra, um suspiro mais pesado me lembra de que ela continua ali, afundada em pensamentos que provavelmente preferia não ter.
Depois de alguns minutos dirigindo, começo a desconfiar que ela me passou o endereço errado. Até que, do nada…
— Para!
Ela grita. Piso no freio com força. Levanto os olhos e fico alguns segundos encarando o lugar à minha frente. Uma mansão. Não uma casa grande. Uma mansão!
Muros altos, jardins impecavelmente aparados e um portão que, muito provavelmente, vale mais do que o meu apartamento. Viro devagar para Léa.
— Você mora... aqui?
Ela apenas faz um som que pode significar "sim", "não" ou "é". Resolvo interpretar como um "sim". Léa aperta um botão no painel e os portões abrem. Avanço alguns metros e paro diante da escadaria da porta de entrada. Dou a volta no carro, ajudo-a a descer escorando-a pelos degraus. Descubro, nesse momento, que pessoas elegantes também ficam pesadas quando resolvem beber até esquecer a própria existência.
Entramos. A casa está completamente silenciosa. Nem sinal de empregados, familiares ou qualquer outra alma viva. Léa aponta vagamente para a escada e seguimos até o segundo andar. O quarto dela consegue ser ainda maior do que meu apartamento inteiro. Tudo parece impecavelmente organizado, como se ninguém realmente morasse ali. Sobre a cabeceira da cama, um enorme retrato em preto e branco da própria Léa elimina qualquer dúvida de que aquele quarto realmente lhe pertence.
— Certo... banho frio.
Ela faz uma careta.
— Você fala igual à minha mãe.
— Espero que isso seja um elogio.
Ela não responde. Apenas deixa que eu a ajude. Alguns minutos depois, a água parece fazer algum efeito. Ela continua triste, mas pelo menos consegue ficar em pé sem parecer que vai desabar a qualquer instante.
— Eu não queria que terminasse…
A voz sai tão baixa que quase se perde no barulho do chuveiro. Penso em dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas todas as frases de conforto que passam pela minha cabeça parecem aquelas mensagens automáticas que aparecem quando um programa trava. Bonitas na teoria. Completamente inúteis na prática.
Entrego a toalha para ela.
— Hoje você só precisa dormir.
Ela assente, cansada demais para discutir. Ajudo-a a vestir uma roupa limpa e a deito na cama. Quando estou saindo do quarto, percebo que ela provavelmente vai acordar morrendo de sede e com uma tremenda dor de cabeça. Resolvo buscar um copo d’água.
Cinco minutos depois, continuo procurando um copo.
Casas desse tamanho deveriam vir com GPS. E quando finalmente encontro a cozinha, fico parada alguns segundos admirando o lugar. A ilha de mármore é quase um cômodo extra. E os armários? Aquela quantidade era mesmo necessária? Abro o primeiro. Taças. Abro outro. Mais taças. Um terceiro. Taças de novo. Gente rica bebe água em quê? Em cristal lapidado por monges tibetanos?
Estou quase desistindo quando me viro e levo um susto.
Há um garotinho parado na porta. Ele não deve ter mais que sete ou oito anos. E olha para mim com os olhos escuros, como duas jabuticabas, arregalados e espantados.
Levo a mão ao peito.
— Nossa... você me assustou!
Ele continua me encarando por mais dois segundos. Depois sai correndo corredor afora.
Ótimo. Acabo de perder minha única chance de descobrir onde essa família guarda os copos!
Depois de abrir mais alguns armários sem sucesso, encontro um vidro de azeitonas.
Olho para o vidro e, sem muitas opções…
— Hoje você será promovido.
Despejo as azeitonas no lixo, lavo o recipiente e o encho de água. Não é elegante. Mas o que está dentro hidrata.
Quando volto ao quarto, encontro Léa tentando levantar sozinha. Corro para ampará-la antes que ela descubra da pior maneira possível que a gravidade continua funcionando perfeitamente. Faço com que ela se sente novamente na cama, pego um analgésico no banheiro e volto com o copo de água improvisado.
Ela faz um gesto para que eu me aproxime.
Inclino o corpo.
— O que foi? — Pergunto.
E descubro, um segundo depois, assim que ela vomita. Diretamente em cima de mim.
Fico completamente imóvel. Olho para ela. Depois para minha camisa. Meu cérebro simplesmente desiste de processar a situação. Respiro fundo.
Grande erro.
O cheiro invade minhas narinas como um ataque químico. Fecho os olhos por um instante.
— Certo…
Olho para a camisa completamente destruída. Tiro a calça, jogando-a sobre uma poltrona. Em seguida, tiro a camisa a caminho do banheiro e a jogo no lixo sem o menor remorso antes de entrar no chuveiro. Nunca tomei um banho tão rápido. A água ainda escorre pelos meus cabelos quando volto ao quarto vestindo apenas minhas roupas íntimas e enrolada na toalha. Léa finalmente dorme. Solto um suspiro aliviado. Só preciso vestir minha calça, ir embora e fingir que esta noite nunca aconteceu.
Dou dois passos em direção à poltrona e a porta se abre de repente.
O susto é tão grande que a toalha escorrega das minhas mãos. Sem os óculos, tudo o que consigo distinguir é um vulto enorme parado na porta. Meu cérebro entra em curto. Pego a toalha ou os óculos? Os óculos. Sempre os óculos.
Tateio a mesa de cabeceira, encontro a armação e a coloco no rosto. A imagem ganha nitidez.
E eu gostaria sinceramente que continuasse embaçada.
Rômulo Matarazzo está imóvel na porta. Os olhos vão da toalha caída para mim. Depois de mim para Léa.
Eu me abaixo, puxando a toalha rapidamente para me cobrir, mas o estrago já estava feito. Pelo menos a lingerie era de uma mulher madura, sofisticada, que sabia exatamente o que queria da vida. Ou, pelo menos, era isso que a vitrine prometia quando comprei.
Ele alternou o olhar entre mim e Léa algumas vezes, como se estivesse tentando encaixar aquela cena em alguma explicação minimamente lógica. O mesmo cara que praticamente me chamou de menina na primeira reunião agora estava parado ali, encarando a prova definitiva de que, surpresa!, eu não comprava minhas roupas na sessão infanto juvenil.
Ele não diz absolutamente nada durante alguns segundos. E a impressão que tenho é que está reorganizando mentalmente todas as informações que acabou de receber.
Só então pergunta, com aquela calma irritante de sempre:
— O que está acontecendo aqui?
Aperto a toalha contra o corpo com tanta força que meus dedos chegam a doer.
— Eu também queria algumas explicações, para ser sincera.
Ele franze levemente a testa.
— Por que a minha irmã está desacordada?
Olho para Léa.
Espera? Irmã? Foi isso mesmo o que ele disse?
— Ela… — aponto por cima do ombro, sentindo que estou corando da ponta do dedão à raiz do cabelo. — A Léa é sua… irmã?
— Foi o que eu disse. E você está no quarto dela.
— E-estou.
— Enrolada numa toalha.
Respiro fundo.
— Infelizmente, essa parte eu não consigo negar.
Ele fica em silêncio.
Droga. Já aprendi que, quando Rômulo fica em silêncio, é porque está pensando. E quando ele pensa... normalmente encontra algum problema.
— Começa do começo.
Ótimo. Pelo menos ele resolveu me dar a chance de falar antes de chamar a polícia.
— Sua irmã terminou um relacionamento hoje. Eu a encontrei completamente bêbada na boate. Minhas amigas desapareceram, Léa me entregou a chave do carro e pediu que eu a trouxesse para casa.
Ele não interrompe.
— Eu dei banho nela…
Vejo uma sobrancelha subir. Fecho os olhos por um instante.
— Essa frase realmente ficou pior do que aconteceu.
Pela primeira vez desde que entrou no quarto, o canto da boca dele ameaça se mover. Só um milímetro. Quase uma miragem.
Continuo.
— Ela vomitou em mim. — Aponto para a lixeira. — Minha camiseta prestou um último serviço à sociedade e foi aposentada ali dentro.
Agora ele finalmente olha para o lixo e depois para o vidro de azeitonas sobre a mesa de cabeceira.
— E... isso?
Olho para o vidro.
— Água. — Dou de ombros. — Não achei os copos.
Silêncio. Mais um daqueles silêncios enormes.
Até que ele pergunta:
— Você deu água para minha irmã... num vidro de azeitonas?
Cruzo os braços. A toalha ameaça cair de novo. Desisto de cruzar os braços.
— Depois de abrir sete armários cheios de taças, considerei aquilo uma solução bastante criativa.
Ele esfrega discretamente a testa com o polegar, como se tentasse aceitar que aquilo realmente está acontecendo.
— Os copos ficam na primeira gaveta.
Primeira gaveta. Olho para a cozinha imaginária que acabei de reconstruir na cabeça. Nem pensei em abrir uma gaveta. Quem guarda copos na gaveta? Francamente!
Sinto vontade de pedir demissão da vida.
— Anotado.
Rômulo balança a cabeça bem devagar.
— Minha governanta vai ficar profundamente confusa quando encontrar um vidro de azeitonas cheio de água.
— Pode dizer que foi arte contemporânea.
Ele solta o ar pelo nariz. Quase imperceptivelmente. Não chega a ser uma risada. Mas passa perto.
Pego minha calça sobre a poltrona.
— De qualquer forma, acho que meu trabalho aqui terminou.
Começo a me vestir o mais rápido possível. Quando termino, coloco discretamente uma nota de dez reais debaixo do vidro. Rômulo acompanha o movimento.
— O que é isso?
— Um reembolso pelas azeitonas.
Ele olha para a nota. Depois para mim. O canto da boca ameaça subir outra vez.
— Você está me pagando dez reais porque usou um vidro de azeitonas?
Dou de ombros.
— Achei justo.
— Não é necessário.
— Talvez não. — Sigo para a porta. — Mas eu vou dormir muito melhor sabendo que não causei prejuízo financeiro à família Matarazzo.
Dou um passo para o corredor. A voz dele me faz parar.
— Srta. Garcia.
Olho por cima do ombro. Ele apenas fica me encarando. Não faço ideia do que está passando pela cabeça dele. Se está tentando decidir como me expulsar da casa, se está arrependido por não ter chamado a polícia ou se simplesmente concluiu que eu sou completamente maluca. Sem dizer uma palavra, ele passa por mim e desaparece pelo corredor.
Franzo a testa.
— Ótimo… — Murmuro para mim mesma. — Agora ele foi buscar a segurança.
Alguns segundos depois, ele volta. Nas mãos, uma camiseta preta dobrada. Estende a peça na minha direção.
— Vista.
Pisco.
— Não precisa — respondo orgulhosa, com toda a petulância que meu um metro e sessenta me permite.
— Precisa.
A resposta vem no mesmo tom calmo de sempre.
— Você não vai embora assim.
Baixo os olhos. Só então percebo que, para sair dali, eu teria que atravessar metade da cidade usando apenas uma calça jeans e uma toalha.
O pior de tudo? Ele tinha razão.
Meu orgulho continua fazendo um discurso inflamado sobre independência feminina.
— Eu moro a quinze minutos daqui.
— E continua sendo uma péssima ideia. — Ele faz uma pausa. — É o mínimo que eu posso fazer depois do que você fez pela minha irmã.
Mas é o meu bom senso quem pede demissão da discussão.
— Vou devolver.
Ele apenas assente.
— Eu imaginei.
Seguro a camiseta por alguns segundos.
— Pode... virar?
Ele simplesmente gira o corpo. Sem aquele constrangimento exagerado que provavelmente faria eu morrer de vergonha. Visto a camiseta rapidamente e ela fica enorme em mim.
— Pode olhar.
Ele se vira. Confere apenas o suficiente para perceber que agora estou vestida. Depois abre espaço para que eu passe. Enquanto caminhamos pelo corredor, nenhum dos dois diz uma palavra.
Curiosamente, é o silêncio menos desconfortável que tivemos desde que nos conhecemos.
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