Jacob


Deixei Bree na sala antes que ela encontrasse outra maneira de testar minha paciência. O segurança aguardava do lado de fora e apenas confirmou que havia levado Renesmee até o jardim, como eu havia ordenado. Fiz um gesto dispensando-o e segui sozinho.


Renesmee Cullen na minha casa.


De todas as possibilidades que poderiam ter surgido naquela noite, aquela certamente não estava na lista.


Atravessei o caminho de pedras sem pressa até avistá-la perto do gazebo, parada diante das roseiras, de costas para mim. E foi ali que diminuí o passo.


Eu estava acostumado a uma Renesmee diferente.


Nas poucas vezes em que nossos caminhos haviam se cruzado, ela estava de jeans, blusas simples, tênis ou ocupada atrás do balcão da doceria. Nunca parecia preocupada em chamar atenção. Na verdade, fazia exatamente o contrário. Havia nela uma simplicidade que eu já tinha percebido antes, embora jamais tivesse parado para pensar a respeito.


Naquela noite, no entanto, ela parecia outra mulher.


O vestido floral terminava pouco acima dos joelhos, as sandálias deixavam os pés à mostra e uma pequena bolsa estava presa entre suas mãos. O cabelo ruivo estava recolhido em um coque, deixando o pescoço exposto.


Meus olhos demoraram ali mais do que deveriam.


Não havia nada de vulgar nela. Esse era justamente o problema.


Renesmee estava bonita de uma maneira irritantemente fácil.


Passei a língua discretamente pelo canto dos dentes e continuei andando.


Eu sabia reconhecer desejo. Já tinha sentido por mulheres suficientes para não confundi-lo com outra coisa. E era exatamente isso que vinha acontecendo desde que Renesmee Cullen atravessara meu caminho.


Desejo.


Nada além disso.


O fato de ela estar no meu jardim àquela hora apenas tornava mais difícil ignorá-lo.


Ela observava as rosas vermelhas e não percebeu minha aproximação. Parei a alguns passos, coloquei uma das mãos no bolso e deixei meus olhos percorrerem sua figura mais uma vez antes de falar.


– As vermelhas são as mais bonitas. Embora eu tenha que admitir que hoje elas estão enfrentando uma concorrência desleal.


Renesmee se virou depressa.


O susto apareceu primeiro. Depois veio o nervosismo.


– Senhor Black.


Sorri de lado.


– Depois de aparecer na minha casa a essa hora da noite, acho que já podemos abandonar o senhor Black.


Ela ajeitou a bolsa entre as mãos.


– Desculpe ter vindo sem avisar. Eu sei que está tarde e provavelmente deveria ter ligado antes.


– Não estou reclamando.


Me aproximei mais um pouco e percebi quando seus olhos acompanharam meu movimento.


– Estou surpreso, isso sim. De todas as pessoas que eu poderia imaginar aparecendo na minha casa, você seria provavelmente a última.


Renesmee franziu levemente a testa.


– Isso é uma forma educada de dizer que eu não sou bem-vinda?


– Se você não fosse bem-vinda, Renesmee, não estaria no meu jardim.


Deixei os olhos passarem pelo vestido novamente. Dessa vez, não me preocupei tanto em esconder.


Ela percebeu.


A maneira como puxou discretamente a barra do vestido denunciou isso.


– Além do mais, seria uma falta de educação mandar embora uma mulher que teve todo esse trabalho para aparecer na minha porta.


– Eu não me arrumei para vir aqui.


Ergui uma sobrancelha.


– Que pena. Por alguns segundos meu ego ficou bastante satisfeito.


Ela me lançou um olhar que misturava irritação e constrangimento.


– Seu ego parece sobreviver muito bem sem a minha ajuda.


– Sobrevive. Mas não vejo motivo para recusar contribuições.


Dessa vez ela sorriu, apesar de tentar esconder e eu gostei de conseguir arrancar aquilo dela.

Gostei mais do que deveria.

Aproximei-me das roseiras e parei ao seu lado. – E pare de me chamar de senhor Black. Você faz parecer que eu tenho setenta anos.

– Como prefere que eu chame você?

Virei o rosto em sua direção.– Jake.

Ela pareceu genuinamente surpresa.

– Jake?

– Não faça essa cara. Não estou propondo casamento. Só estou permitindo uma pequena intimidade.

Renesmee soltou uma risada baixa e balançou a cabeça.

– Você consegue transformar qualquer conversa em alguma coisa indecente?

– Acredite, se eu estivesse sendo indecente, você saberia.

O sorriso desapareceu dos lábios dela, mas não por irritação. Por um segundo, ela simplesmente me encarou.

E eu sustentei seu olhar.

Aquilo era perigoso? Sim. Não para mim. Eu sabia perfeitamente o que estava fazendo.

– Jake – ela repetiu, finalmente.

Ouvir meu nome daquele jeito foi muito mais agradável do que deveria.

Afastei os olhos primeiro e observei novamente as rosas.

– Agora me diga o que está fazendo em Seattle.

Renesmee pareceu estranhar a pergunta.

– Eu achei que você soubesse que eu estava aqui.

Olhei para ela. – Por que eu saberia?

– Porque você sabia praticamente tudo sobre mim.

Aquilo me fez sorri– Sabia. No passado.

Ela ficou em silêncio por um instante. – E não sabe mais?

– Você me mandou parar, lembra.

– E você simplesmente obedeceu?

Soltei uma risada baixa. – Não pareça tão decepcionada.

– Não estou decepcionada. Estou surpresa.

– Eu sei respeitar limites quando eles são colocados de maneira convincente.

– Não foi essa impressão que você me deu.

Inclinei um pouco o rosto na direção dela. – Talvez você ainda não tenha me dado motivos suficientes para mostrar meu melhor comportamento.

Ela abriu a boca para responder, mas desistiu.

Foi nesse momento que percebi que havia alguma coisa errada.

Por trás do vestido bonito, do cabelo arrumado e das respostas que tentavam acompanhar minhas provocações, Renesmee estava inquieta. Apertava a bolsa contra o corpo e olhava ocasionalmente para o caminho que levava até a saída da propriedade.

Meu sorriso desapareceu. – O que aconteceu?

– Não aconteceu nada. Eu só precisava de um lugar para ficar um pouco e acabei vindo para cá.


Observei seu rosto e percebi que ela estava mentindo. Ou, no mínimo, escondendo metade da verdade.

– Você mora em Forks, está em Seattle no meio da noite, aparece na casa de um homem que algumas semanas atrás queria manter longe da sua vida e espera que eu acredite que não aconteceu nada?

Ela respirou fundo.

– Quando você coloca dessa forma, parece pior.

– Não. Quando eu coloco dessa forma, parece interessante.

Renesmee desviou os olhos. – Eu não sabia para onde ir.

A frase saiu diferente das outras. Sem defesa. Sem ironia.

Aquilo me fez abandonar a provocação. Olhei para ela por alguns segundos e percebi que não era apenas desconforto. Havia desespero escondido ali. – Então fique aqui, comigo.

Ela tornou a me encarar. – O quê?

– Você disse que não sabia para onde ir. Agora sabe.

Renesmee ficou em silêncio, apontei com a cabeça para o gazebo. – Venha. Vou oferecer uma bebida antes que você resolva fugir da minha propriedade e estrague completamente a história de uma mulher bonita aparecendo misteriosamente na minha casa no meio da noite.


Ela balançou a cabeça, mas havia um pequeno sorriso em seus lábios. – Você é impossível.

– Já me chamaram de coisas piores.

Começamos a andar, mas não chegamos nem perto do gazebo. – Jacob?

Parei e fechei os olhos por um instante.

Bree.

Renesmee olhou para trás ao mesmo tempo que eu me virava. Bree vinha pelo caminho de pedras, e bastou um olhar para perceber que ela tinha entendido a cena da pior maneira possível.

Seus olhos passaram pelo vestido de Renesmee, depois por mim.

– Bree, não comece.

Ela ignorou o aviso e se aproximou com um sorriso que eu conhecia muito bem.

– Eu estava me perguntando por que você tinha tanta pressa para sair da sala. Agora ficou bem mais interessante.

Renesmee imediatamente recuou meio passo. – Acho que cheguei em uma hora ruim.

Olhei para ela. – Você chegou em boa hora.

Bree cruzou os braços.

– Claro que não. Pelo visto, quem chegou na hora errada fui eu.

– Você já estava indo embora, Bree. Não transforme isso em algo mais constrangedor do que precisa ser.

Ela riu e voltou a atenção para Renesmee, analisando-a sem qualquer discrição.

Eu vi Renesmee ficar desconfortável e aquilo começou a me irritar.

Bree inclinou a cabeça e me lançou um olhar carregado de provocação.

– Pelo menos vai me apresentar sua nova diversão?


A expressão de Bree não mudou quando terminou a frase, mas a minha mudou.


Dei um passo à frente, ficando discretamente entre as duas. – Ela não é uma diversão.


Minha voz saiu baixa. Não precisei aumentá-la. Bree me conhecia o suficiente para saber quando eu estava avisando e quando estava disposto a discutir.

Ela ergueu as sobrancelhas. – Jacob, eu só...

– Eu sei exatamente o que você quis dizer. E estou dizendo para se conter.

O sorriso desapareceu de seu rosto. Bree olhou para Renesmee outra vez, mas dessa vez não havia provocação. Havia curiosidade. Talvez até surpresa pela maneira como eu tinha reagido.


Eu mesmo poderia pensar nisso depois.

– Renesmee é minha convidada – continuei. – Ela veio até a minha casa porque precisava falar comigo e será tratada com respeito enquanto estiver aqui. Não vou repetir isso.


Bree sustentou meu olhar por alguns segundos. Eu conhecia aquela mulher. Conhecia seu orgulho e sabia que ela odiava ser colocada no lugar, principalmente na frente de outra mulher.

– Entendi.

– Ótimo.

Ela respirou fundo, pegou a bolsa que carregava e voltou os olhos para mim.

– Foi um erro vir atrás de você.

– Essa é a coisa mais sensata que ja disse até agora.

Vi a mágoa atravessar seu rosto, mas Bree recuperou a postura rapidamente.

– Não precisa se preocupar. Não vou cometer o mesmo erro duas vezes.

Ela se virou e começou a caminhar em direção à casa.

– Bree.

Ela parou, mas não olhou para trás.

– Peça ao segurança para acompanhá-la até o carro.

Bree soltou uma risada sem humor.

– Ainda cavalheiro. Que bom saber.

Continuou andando e desapareceu pelo caminho.

Fiquei observando até ter certeza de que ela realmente iria embora. Quando me virei novamente, encontrei Renesmee olhando para o chão.

A mudança nela era evidente.

Toda a pequena resistência que havia demonstrado minutos antes tinha desaparecido.

– Não dê importância ao que ela disse.

Renesmee balançou a cabeça. – Ela estava aqui por sua causa.

– Bree estar aqui não é problema seu.

– Mas eu apareci e atrapalhei...

– Na minha casa. Não no meu casamento.

Ela ergueu os olhos imediatamente.

– Não faça piada, Jake. Eu já estou suficientemente envergonhada.

A maneira como disse meu nome me fez abandonar qualquer tentativa de aliviar a situação.

Renesmee passou a mão pela testaz tirou a franja do rosto e respirou fundo.

– Eu não deveria ter vindo.

– Você já disse isso.

– Porque é verdade.

Ela começou a andar na direção do caminho, mas segurei delicadamente seu braço.

– Renesmee.

Ela parou.

– Eu preciso ir embora.

– Não enquanto estiver desse jeito.

– Eu estou bem.

– Não está.

Ela puxou o braço, não com força, apenas o suficiente para que eu a soltasse.

– Você não entende. Eu não posso fazer isso. Não posso simplesmente aparecer na casa de alguém porque fiquei desesperada e não consegui pensar em outro lugar. Eu nem sei por que pensei em você.

Aquilo me atingiu de uma maneira estranha.

Ela também pareceu perceber o que tinha acabado de admitir, porque desviou os olhos imediatamente.

– Mesmo sendo pela Belinha, eu não deveria ter vindo.

Belinha.

Toda a provocação desapareceu da minha cabeça.

– O que aconteceu com ela?

Renesmee apertou os lábios.

– Nada.

– Renesmee.

– Ela está bem.

– Então olhe para mim e diga isso.

Ela levantou o rosto e eu percebi. Não sabia o que tinha acontecido, mas alguma coisa estava muito errada.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

– Ela está bem – repetiu, com a voz falhando. – Está comigo. Está segura. Eu só... eu achei que conseguiria resolver sozinha.

Uma lágrima escapou antes que ela pudesse impedir.

Renesmee limpou depressa.

– Droga.

– Ei.

– Não.

Ela virou o rosto.

– Não seja gentil comigo agora. Por favor.

Franzi a testa.

– Por quê?

– Porque eu vou chorar.

A resposta saiu acompanhada de uma risada fraca, quebrada no meio.

Então ela chorou.

Não foi bonito ou discreto. Renesmee levou a mão à boca numa tentativa inútil de controlar o primeiro soluço e abaixou a cabeça, como se estivesse com vergonha até daquilo.

Eu não pensei.

Apenas a puxei para mim.

Seu corpo ficou rígido por um segundo quando a envolvi com os braços, mas depois alguma coisa nela simplesmente cedeu.

Renesmee agarrou a frente da minha camisa e desabou.

Enterrou o rosto contra meu peito e chorou como se tivesse passado horas segurando aquilo.

Fiquei imóvel por alguns segundos. Eu não era bom naquela merda.

Nunca tinha sido.

Sabia resolver problemas. Sabia intimidar pessoas, fazer ligações, movimentar dinheiro, colocar advogados em uma sala e acabar com a vida de alguém antes do almoço se fosse necessário.

Mas uma mulher chorando contra o meu peito? Aquilo era território desconhecido.

Mesmo assim, meus braços se fecharam mais firmes ao redor dela.

Passei uma das mãos por suas costas e a outra subiu até sua nuca, protegendo-a contra mim.

– Pode chorar.

Ela apertou minha camisa com mais força.

– Eu não sei o que fazer, Jake.

Aquela frase me acertou em cheio.

Baixei o rosto na direção de seus cabelos.

– Então você fez a coisa certa.

Renesmee balançou a cabeça contra meu peito.

– Eu fiz?

– Veio até mim.

Ela ficou quieta.

Apertei-a um pouco mais. Não sabia o que tinha acontecido. Não sabia onde Belinha estava, quem tinha feito Renesmee sair de algum lugar vestida daquele jeito ou por que ela tinha atravessado Seattle até chegar à minha porta.


Mas descobriria.


E naquele momento, enquanto sentia as lágrimas dela molharem minha camisa, uma certeza se instalou em mim com uma força que não tinha nada a ver com desejo.


Eu não gostei disso.

Não gostei nem um pouco.

Ainda assim, passei a mão lentamente por seus cabelos e falei perto de seu ouvido.

– Seja lá o que aconteceu, acabou.

Renesmee ergueu o rosto, os olhos molhados encontrando os meus.

– Você nem sabe o que aconteceu.

Passei o polegar por uma lágrima que escorria por sua bochecha.

– Não preciso saber ainda.

Ela me olhou sem entender.

Mantive meus olhos nos dela.

– Porque seja lá quem fez você chegar aqui desse jeito, Renesmee, não vai fazer de novo.

Sua respiração falhou.

Minha mão permaneceu em seu rosto.

– Eu não vou deixar.