Amor não era o plano

12 Parabéns pra você ( parte 2)


Renesmee


Belinha continuava abraçada às pernas de Ethan enquanto eu olhava para a aliança em sua mão e tentava obrigar minha cabeça a encontrar alguma explicação que não fosse aquela que estava diante dos meus olhos. Não encontrei. Meu corpo parecia ter entendido antes de mim, porque minhas mãos estavam geladas e meu coração batia tão forte que chegava a doer. A mulher ao lado dele também usava uma aliança, e não era preciso ser especialmente inteligente para perceber a intimidade entre os dois, a proximidade com Jacob Black e a maneira como todos naquele pequeno grupo pareciam conhecer Ethan muito melhor do que eu. O mesmo homem que saíra da nossa casa dizendo que precisava viajar a trabalho agora estava diante de mim vestido para aquela festa, usando uma aliança que eu nunca tinha visto e me olhando como alguém que acabara de ser pego fazendo exatamente aquilo que não deveria. Belinha, porém, não entendia nada. Minha filha levantou o rosto para ele e esperou alguns segundos por um abraço que não veio, até que sua expressão começou a mudar.

– Papai, por que você não abraçou a mamãe?

A pergunta dela me atingiu com mais força do que qualquer coisa que eu pudesse ter ouvido de Ethan. Olhei para minha filha e vi apenas a confusão de uma criança de cinco anos que conhecia uma realidade muito simples. Mamãe e papai moravam juntos. Papai viajava muito porque trabalhava. Quando papai voltava para casa, abraçava mamãe, beijava mamãe e dormia na mesma cama que mamãe. Belinha não sabia que havia alguma coisa errada naquele salão, não conhecia a mulher ao lado dele e não entendia por que tantas pessoas nos observavam. Ela só queria que o pai agisse da maneira como costumava agir em casa.

Ethan finalmente se abaixou e tocou nos braços dela.

– Belinha, meu amor, espera um pouquinho.

– Eu falei pra mamãe que tinha visto você.

– Eu sei.

– Você não falou que tava aqui.

Ethan fechou os olhos por um instante antes de se levantar. Quando voltou a me encarar, reconheci o mesmo desespero que havia visto em seu rosto quando encontrei aquele celular dentro da bolsa.

– Nessie, isso é um mal-entendido.

Eu quase ri.

– Um mal-entendido?

– Me deixa explicar.

Meu olhar desceu novamente para a aliança.

– Então começa por isso.

Apontei para a mão dele.

Ethan imediatamente fechou os dedos, como se esconder a aliança naquele momento pudesse mudar alguma coisa.

– Não é o que você está pensando.

Dessa vez eu ri, mas não havia qualquer humor.

– Eu nem falei o que estou pensando.

– Renesmee...

– Quem é ela?

A mulher ao lado dele se mexeu. Olhei diretamente para ela e percebi que estava tão confusa quanto eu. Seus olhos alternavam entre Ethan e Belinha, e então pararam em mim. Foi Jacob quem respondeu, ainda com aquela expressão dura.

– Essa é minha filha, Claire.

Senti alguma coisa afundar dentro de mim.

Claire.

O nome da aniversariante.

A filha de Jacob Black.

Olhei para Ethan.

– E por que você está usando uma aliança ao lado da filha dele?

– Nessie, por favor.

– Responde.

Ele passou a mão pelo rosto e olhou ao redor. Algumas pessoas já tinham percebido que alguma coisa estava acontecendo e começavam a prestar atenção. Aquilo parecia incomodá-lo. A exposição. Os convidados. Talvez o emprego. Talvez aquela vida inteira que ele havia construído e que minha presença ameaçava destruir em poucos minutos.

– Belinha é minha filha – Ethan disse finalmente.

Claire virou o rosto para ele.

– O quê?

Ethan respirou fundo.

– Ela é minha filha.

Meu estômago embrulhou quando percebi o caminho que ele estava escolhendo.

– E a Renesmee? – Claire perguntou.

Ethan olhou para mim.

Eu soube antes que ele respondesse.

– Minha ex-namorada.

Por alguns segundos, não senti tristeza.

Senti raiva.

Uma raiva tão violenta que precisei apertar as mãos para não atravessar a pequena distância entre nós e acertá-lo. Depois de todos aqueles anos, depois de dividir uma casa comigo, dormir ao meu lado, criar nossa filha debaixo do mesmo teto e me deixar acreditar que éramos uma família, Ethan conseguia ficar diante de mim e me reduzir a uma ex-namorada porque aquela era a mentira que melhor protegia a vida que realmente importava para ele.

– Sua ex-namorada? – repeti.

– Nessie, eu posso explicar isso em particular.

– Você mora comigo.

Claire empalideceu.

Ethan olhou imediatamente para ela.

– Claire...

– Você mora comigo! – repeti, incapaz de controlar o volume da voz. – Suas roupas estão na minha casa. Suas coisas estão no meu quarto. Você dormiu na minha cama dois dias atrás e está dizendo para essas pessoas que eu sou sua ex-namorada?

– Abaixa a voz.

Aquelas três palavras quase me fizeram perder completamente o controle.

– Não manda eu abaixar a voz.

Belinha se assustou.

Percebi no mesmo instante.

Minha filha soltou as pernas de Ethan e olhou para mim com os olhos arregalados. Toda a raiva que eu estava sentindo encontrou um limite naquele rosto. Eu poderia gritar com Ethan até não ter mais voz, poderia perguntar quem era Claire, há quanto tempo estavam casados, onde ele realmente trabalhava e quantas vezes tinha saído da nossa cama para voltar para a dela, mas não faria aquilo na frente de Belinha. Não permitiria que minha filha descobrisse daquela forma que o pai em quem confiava tinha construído a vida dela sobre uma mentira.

– O que está acontecendo aqui?

Reconheci a voz de Quil e olhei rapidamente para ele. Ele vinha em nossa direção com uma expressão confusa, provavelmente atraído pela movimentação. Seus olhos passaram por Jacob, Claire, Ethan e finalmente chegaram até mim e Belinha.

– Renesmee?

Balancei a cabeça.

Não conseguia explicar.

Não ali.

Abaixei-me e peguei Belinha no colo. Ela passou os braços pelo meu pescoço imediatamente.

– Mamãe, o que aconteceu?

– Nada, meu amor. Vamos voltar para a tia Alice.

– Mas o papai...

– Agora não.

Ethan deu um passo na minha direção.

– Nessie, espera.

Afastei-me.

– Não encosta em mim.

Ele parou.

Não olhei para Claire, para Jacob ou para qualquer outra pessoa. Apenas segurei minha filha com força e comecei a caminhar. Algumas pessoas abriram espaço quando perceberam que eu tentava passar, outras me observaram com aquela curiosidade desagradável de quem sabia que tinha acabado de presenciar alguma coisa que seria assunto pelo restante da noite. Eu não me importava. Naquele momento só queria sair dali. Queria pegar Belinha, Alice e Jessica, entrar no carro e dirigir até Forks sem olhar para trás.

Enquanto atravessava o salão, tudo começou a fazer sentido com uma clareza que machucava.

As viagens.

Os dias em Seattle.

O telefone que nunca funcionava quando eu precisava dele.

O segundo celular.

Amor.

A ligação que ele não podia atender perto de mim.

A pressa para voltar a Seattle.

Eu tinha procurado respostas nas coisas de Ethan quando elas estavam diante de mim havia anos. Ele não tinha um trabalho que exigia viagens constantes. Tinha outra vida. Outra casa. Outra história.

Outra família.

Entrei na cozinha tão depressa que Alice levantou a cabeça imediatamente.

– Nessie?

Não consegui responder.

Ela largou o que estava fazendo e veio até mim.

– O que aconteceu?

Balancei a cabeça, tentando falar, mas minha garganta fechou. As lágrimas que eu havia conseguido segurar diante de Ethan finalmente vieram, e quando Alice segurou meu braço eu desabei.

– Ei, ei. O que aconteceu?

Belinha tocou meu rosto.

– Mamãe, por que você tá chorando?

Aquilo me fez tentar me controlar.

– Eu estou bem, meu amor.

– Não tá.

Jessica se aproximou e entendeu rapidamente que eu precisava de alguns minutos.

– Vem comigo, Belinha. Preciso de uma especialista.

Minha filha olhou para ela.

– Em quê?

– Doces. Tenho um problema muito sério ali e só alguém de cinco anos pode resolver.

Belinha ainda me olhou preocupada.

– Vai com a tia Jessica – pedi, beijando sua testa. – A mamãe só precisa conversar com a tia Alice.

Jessica a pegou dos meus braços.

– Vamos descobrir qual desses doces é o melhor.

– O de chocolate.

– Você nem provou todos.

– Não precisa.

Jessica conseguiu fazê-la sorrir e se afastou para o outro lado da cozinha. Assim que Belinha ficou longe, abracei Alice.

Minha irmã me segurou imediatamente.

– Nessie, você está me assustando.

Enterrei o rosto em seu ombro.

– Eu encontrei as respostas.

Senti Alice ficar imóvel.

Ela sabia exatamente do que eu estava falando.

– Ethan?

Assenti.

– Ele está aqui.

Alice me afastou apenas o suficiente para olhar meu rosto.

– Aqui no hotel?

– Na festa.

– Como assim?

Passei as mãos pelo rosto, tentando limpar as lágrimas.

– Ele trabalha para eles, Alice. Para a Black Enterprises. Ele estava lá no salão, vestido para a festa, perto do Jacob Black e de uma mulher.

Alice franziu o cenho.

– Que mulher?

Olhei para ela.

– Claire Black.

Demorou apenas um instante para minha irmã entender.

– A aniversariante?

Assenti. – Ela é esposa dele.

Alice ficou pálida. – Não.

– Ele estava usando aliança.

– Nessie...

– E quando perguntaram quem eu era, ele disse que Belinha é filha dele e que eu sou a ex-namorada.

A expressão de Alice mudou completamente.

– Aquele filho da...

– Alice.

Olhei na direção de Belinha.

Minha irmã respirou fundo e baixou a voz.

– Eu vou matar ele.

– Entra na fila.

Alice me abraçou novamente e dessa vez eu não tentei conter o choro. Não sabia o que faria quando saísse dali, não sabia como explicaria aquilo para minha filha e muito menos como voltaria para a casa que havia dividido com Ethan sabendo que cada canto guardava alguma mentira.

– Renesmee.

Afastei-me de Alice ao reconhecer a voz.

Quil estava parado na entrada da cozinha.

Sua expressão não tinha mais nada da simpatia que mostrara durante os últimos dias.

– Preciso que venha comigo.

Limpei o rosto.

– Não posso.

– Pode, sim.

– Quil, eu preciso terminar meu trabalho e depois vou embora com minha filha.

– Outra pessoa assume a cozinha.

Balancei a cabeça.

– Não vou deixar tudo agora.

– Renesmee, escuta. A cozinha está funcionando, sua equipe sabe o que fazer e o hotel tem funcionários suficientes para terminar o serviço. Neste momento existe uma situação lá fora que precisa ser esclarecida, e você faz parte dela.

Soltei uma risada amarga.

– Eu não quero fazer parte de nada disso.

A expressão dele suavizou.

– Eu entendo. Mas você precisa vir.

Olhei para Alice. Minha irmã não parecia gostar nem um pouco da ideia.

– Eu vou com ela.

Quil negou.

– Não precisa. É melhor alguém ficar com a menina.

Olhei para Belinha. Jessica mostrava alguns doces para ela e conseguia mantê-la distraída, embora minha filha ainda olhasse na minha direção de tempos em tempos.

Respirei fundo.

– Alice, fica com ela.

– Nessie...

– Por favor.

Minha irmã apertou minha mão.

– Está bem.

Olhei para Jessica.

– Cuida da Belinha para mim?

Ela assentiu imediatamente.

– Vai. Ela fica comigo.

Aproximei-me da minha filha e beijei seus cabelos.

– A mamãe já volta.

– Você vai ver o papai?

A pergunta apertou meu peito.

– Eu só vou conversar um pouquinho.

Ela assentiu e voltou a olhar os doces.

Endireitei o corpo, limpei as últimas lágrimas do rosto e caminhei até Quil.

– Vamos.

Ele se afastou para que eu passasse e saiu comigo da cozinha. Eu não sabia para onde estava sendo levada nem o que ainda havia para esclarecer. Para mim, tudo já estava claro o suficiente.

Ethan tinha duas vidas.

E eu acabara de descobrir qual delas ele tinha escolhido esconder.


Segui Quil sem fazer perguntas, embora cada passo para longe da cozinha aumentasse minha vontade de voltar, pegar Belinha e desaparecer daquele hotel. Tivemos que atravessar parte do salão novamente, e dessa vez senti os olhares de algumas pessoas sobre mim. Talvez tivessem presenciado o que acontecera perto do palco, talvez já estivessem comentando, ou talvez fosse apenas impressão minha porque eu me sentia exposta de uma maneira que nunca havia experimentado. Mantive os olhos nas costas de Quil e continuei andando enquanto ele abria caminho entre os convidados até alcançarmos o corredor dos elevadores. Quando as portas se fecharam atrás de nós, o silêncio pareceu ainda pior. Quil pressionou o botão de um dos andares mais altos e guardou as mãos nos bolsos, olhando para os números que se acendiam sobre a porta, enquanto eu tentava controlar a respiração e pensar em Belinha lá embaixo com Alice e Jessica. Eu precisava terminar aquela conversa, entender o que fosse necessário e ir embora. Não queria dinheiro, explicações elaboradas ou desculpas. Naquele momento, eu sequer sabia se queria olhar novamente para Ethan.

– Para onde estamos indo? – perguntei finalmente.

Quil olhou para mim.

– Para uma das suítes da família. Jacob tirou todo mundo do salão antes que aquilo virasse um espetáculo ainda maior.

– Não sei o que esperam que eu diga.

– A verdade já ajuda bastante.

Soltei uma risada amarga.

– Eu também gostaria de saber qual é.

Quil não respondeu. Quando o elevador parou, ele esperou que eu saísse primeiro e indicou a direção. Caminhamos por um corredor silencioso, completamente diferente do movimento no andar da festa, até pararmos diante de uma porta dupla. Quil passou o cartão, abriu e fez sinal para que eu entrasse. Bastou cruzar a porta para perceber que o clima naquela suíte era muito pior do que qualquer coisa que eu havia deixado lá embaixo.

Ethan estava próximo a uma das poltronas com um lenço pressionado contra o nariz. Havia sangue no tecido e uma pequena mancha vermelha no colarinho impecável da camisa que, menos de meia hora antes, tinha me feito perceber o quanto eu desconhecia aquela versão dele. Do outro lado da sala, Jacob Black estava sendo segurado por dois homens que eu reconheci vagamente da festa. Um deles mantinha a mão em seu braço enquanto o outro permanecia entre Jacob e Ethan. Pela expressão de Jacob, ficou bastante claro que o sangue no rosto de Ethan tinha uma explicação simples. Próximo às janelas, Claire estava cercada por três mulheres. Reconheci uma delas como a mulher que estivera ao lado de Jacob no salão, mas não sabia quem eram as outras. Uma segurava a mão de Claire enquanto outra falava alguma coisa em voz baixa, tentando acalmá-la.

Claire foi a primeira a perceber minha presença.

Seus olhos encontraram os meus e imediatamente se encheram de raiva.

– O que ela está fazendo aqui?

Parei perto da porta.

– Eu também gostaria de saber.

Quil entrou atrás de mim e fechou a porta.

– Eu pedi que ela viesse.

Claire se afastou das mulheres.

– Por quê? Isso é entre mim e meu marido.

A palavra marido ainda conseguiu me atingir.

Jacob parou de tentar se livrar dos homens que o seguravam e olhou para a filha.

– Não, Claire. Isso deixou de ser apenas entre vocês quando uma criança chamou seu marido de pai no meio da sua festa.

– Pai...

– E Renesmee é tão vítima desse filho da puta quanto você.

Claire olhou para mim novamente.

– Você não sabe disso.

Jacob soltou o braço com força.

– Então deixa de ser idiota por cinco minutos e olha para ela.

A expressão de Claire mudou.

– Não fala assim comigo.

– Falo quando você está escolhendo atacar a pessoa errada porque é mais fácil do que olhar para o homem com quem se casou.

Uma das mulheres tocou o ombro dela.

– Claire, seu pai tem razão.

– Rachel, não.

– Tem, sim.

Eu não queria estar no meio daquela família e muito menos assistir à destruição de um casamento que, até poucos minutos antes, eu sequer sabia que existia.

– Eu não vim causar mais problemas – falei. – Se preferirem, eu vou embora.

Jacob olhou para mim.

– Você não vai a lugar nenhum ainda.

A maneira como falou me irritou imediatamente.

– Eu não trabalho para você, senhor Black.

Por um instante, alguma coisa passou pelo rosto dele. Talvez surpresa por eu ter respondido daquela maneira mesmo naquela situação.

– Não quis dizer isso.

Ele olhou para os homens ao lado.

– Podem me soltar. Estou calmo.

Um deles soltou uma risada sem humor.

– Seu conceito de calmo acabou de fazer o nariz do cara sangrar.

– Sam.

– Estou só dizendo.

Jacob olhou para Ethan e depois voltou para o homem.

– Não vou bater nele.

– De novo – o outro acrescentou.

Jacob respirou fundo.

– Quil.

– Ele está calmo – Quil disse atrás de mim, embora não parecesse acreditar muito na própria afirmação. – Por enquanto.

Os dois finalmente se afastaram. Jacob ajeitou a camisa, passou a mão pelos cabelos e caminhou alguns passos pela sala antes de parar diante de mim. Não havia mais nenhum traço do homem galanteador que entrara na cozinha naquela tarde para elogiar meus doces. O pai de Claire estava diante de mim agora, e eu conseguia compreender perfeitamente a fúria em seus olhos.

– Quem é Ethan Hale?

A pergunta me confundiu.

– Como?

– Quero saber quem ele é. O que ele faz quando está com você, onde diz que trabalha, há quanto tempo vocês estão juntos. Quero saber qual história ele contou para conseguir manter isso.

Olhei para Ethan.

Ele ainda pressionava o lenço contra o nariz e evitava meu olhar.

Balancei a cabeça.

– Eu não sei.

Jacob franziu o cenho.

– Você não sabe o quê?

– Quem ele é.

Minha voz falhou, mas continuei.

– Até hoje eu achava que sabia. Achava que conhecia o homem com quem moro, o pai da minha filha, a pessoa que entra na minha casa e reclama que eu deixei café esfriar na cafeteira. Eu conheço um Ethan que deixa a toalha em cima da cama mesmo sabendo que isso me irrita, que faz panquecas horríveis para Belinha e diz que são especiais, que reclama quando eu trabalho até tarde e dorme do lado direito da cama porque sabe que eu gosto do esquerdo. Conheço o homem que segurou minha mão quando nossa filha nasceu e chorou mais do que eu. Ou achava que conhecia.

Engoli em seco.

– Esse homem aqui...

Apontei para Ethan.

– Eu nunca vi.

Claire me observava em silêncio.

– O Ethan que eu conheço não usa essas roupas, não tem esse relógio, não usa aliança e nunca me disse que trabalha para a Black Enterprises. Quando viaja, diz que está encontrando clientes. Quando fica uma semana longe, diz que está trabalhando. Eu nem sabia exatamente onde ficava o escritório dele em Seattle porque nunca pensei que precisasse perguntar.

Olhei diretamente para Ethan.

– O pai da minha filha que eu conheci nunca existiu. Esse aí é rico, ocupa um cargo importante e é casado.

O silêncio que veio depois foi sufocante.

Ethan retirou lentamente o lenço do rosto. O sangramento parecia ter diminuído. Para minha surpresa, ele sorriu.

Não era um sorriso de felicidade. Era aquela expressão arrogante de alguém que tinha acabado de decidir qual mentira contaria em seguida.

– Isso é ridículo.

Olhei para ele.

– O quê?

– Tudo isso.

Ele apontou para mim.

– Renesmee é minha ex-namorada.

Senti meu corpo inteiro ficar tenso.

– Para de mentir.

– Nós tivemos um relacionamento anos atrás e tivemos uma filha. Eu deveria ter contado isso para Claire, reconheço. Foi meu erro.

Claire olhou para ele.

– Seu erro?

– Eu tive medo de como você reagiria.

– Você está dizendo que escondeu uma filha de mim por cinco anos?

– Eu ia contar.

Soltei uma risada incrédula.

– Quando? Na formatura dela?

Ethan ignorou.

– Renesmee nunca aceitou bem o fim do nosso relacionamento. Eu ajudo financeiramente, visito Belinha quando posso e tento manter uma convivência civil por causa da nossa filha, mas ela continua interpretando isso como se ainda estivéssemos juntos.

Fiquei olhando para ele sem conseguir acreditar no que ouvia.

– Você dormiu comigo três noites atrás.

A sala inteira ficou em silêncio.

Ethan apertou o maxilar.

– Não aconteceu.

Meu estômago virou.

– Você estava na minha casa.

– Fui ver minha filha.

– Você dormiu na minha cama.

– Renesmee, chega. Você está desesperada porque eu segui em frente e está usando nossa filha para destruir meu casamento.

Dei um passo em sua direção antes mesmo de perceber.

– Seu desgraçado.

Jacob se moveu mais rápido.

– Cala a boca, Ethan.

A voz dele atravessou a sala.

Ethan olhou para o sogro.

– Jacob, você precisa ouvir...

– Eu mandei calar a boca.

Jacob caminhou na direção dele e os mesmos dois homens imediatamente ficaram atentos.

– Você vai ficar quieto enquanto ela fala. Se abrir essa boca outra vez para chamar a mãe da sua filha de desesperada depois da merda que acabou de aparecer diante de todo mundo, eu termino o que comecei e dessa vez não vai ser seu nariz que vai sangrar.

– Pai – Claire chamou.

Jacob nem olhou para ela.

– Mais uma palavra, Ethan, e eu arrebento seus dentes.

Ethan fechou a boca.

Eu deveria ter sentido algum alívio por alguém finalmente fazê-lo parar de mentir, mas não senti. Só conseguia pensar em Belinha lá embaixo, desenhando famílias com forminhas de doces e acreditando que o pai estava viajando porque precisava trabalhar.

Naquele momento percebi que havia uma coisa muito pior do que descobrir que Ethan tinha mentido para mim.

Eu teria que descobrir como proteger minha filha quando todas aquelas mentiras chegassem até ela.