Amor não era o plano
30 Jacob Black
Renesmee
Eu me virei depressa ao ouvir a voz atrás de mim, e o susto foi apenas a primeira coisa que senti. Logo depois veio o nervosismo, acompanhado daquela sensação constrangedora de finalmente perceber onde eu estava e o que tinha feito. Algumas horas antes eu tinha entrado na casa de Ethan convencida de que conseguiria ouvi-lo sem me deixar abalar, depois tinha saído de lá correndo após ele tentar me beijar à força e, agora, estava no jardim de Jacob Black no meio da noite, usando um vestido que definitivamente não combinava com uma visita desesperada. Por mais que eu tentasse manter a postura, minhas mãos apertaram a bolsa contra o corpo assim que o vi se aproximar.
– Senhor Black.
Jacob sorriu de lado.
– Depois de aparecer na minha casa a essa hora da noite, acho que já podemos abandonar o senhor Black.
– Desculpe ter vindo sem avisar. Eu sei que está tarde e provavelmente deveria ter ligado antes.
– Não estou reclamando.
Ele se aproximou um pouco mais e acompanhei seu movimento sem conseguir evitar. Jacob estava diferente das outras vezes em que o vira. Não havia o terno impecável da empresa nem a postura formal da festa. Estava em casa, mais à vontade, e ainda assim continuava carregando aquela presença que parecia ocupar todo o espaço ao redor. Eu tinha acabado de fugir de Ethan, deveria estar pensando apenas na confusão em que minha vida havia se transformado, mas percebi o olhar de Jacob passar pelo meu vestido e imediatamente puxei a barra com uma das mãos.
– Estou surpreso, isso sim – continuou. – De todas as pessoas que eu poderia imaginar aparecendo na minha casa, você seria provavelmente a última.
Franzi a testa.
– Isso é uma forma educada de dizer que eu não sou bem-vinda?
– Se você não fosse bem-vinda, Renesmee, não estaria no meu jardim.
O olhar dele percorreu meu vestido novamente, dessa vez sem qualquer preocupação em esconder, e senti meu rosto esquentar.
– Além do mais, seria uma falta de educação mandar embora uma mulher que teve todo esse trabalho para aparecer na minha porta.
– Eu não me arrumei para vir aqui.
Ele ergueu uma sobrancelha.
– Que pena. Por alguns segundos meu ego ficou bastante satisfeito.
– Seu ego parece sobreviver muito bem sem a minha ajuda.
– Sobrevive. Mas não vejo motivo para recusar contribuições.
Não consegui evitar o sorriso. Foi pequeno, quase involuntário, mas aconteceu, e aquilo por si só me surpreendeu. Eu não lembrava da última vez em que tinha conseguido sorrir sem esforço. Nas últimas semanas tudo parecia pesado demais, e naquela noite a sensação tinha se tornado ainda pior. Mesmo assim, bastaram alguns minutos perto daquele homem irritantemente convencido para que ele conseguisse arrancar de mim uma reação que não fosse medo, raiva ou vontade de chorar.
Jacob se aproximou das roseiras e parou ao meu lado.
– E pare de me chamar de senhor Black. Você faz parecer que eu tenho setenta anos.
– Como prefere que eu chame você?
Ele virou o rosto na minha direção.
– Jake.
Olhei surpresa.
– Jake?
– Não faça essa cara. Não estou propondo casamento. Só estou permitindo uma pequena intimidade.
Soltei uma risada baixa e balancei a cabeça.
– Você consegue transformar qualquer conversa em alguma coisa indecente?
– Acredite, se eu estivesse sendo indecente, você saberia.
Meu sorriso desapareceu, mas não porque tivesse ficado irritada. Durante alguns segundos apenas o encarei, e Jacob sustentou meu olhar sem o menor constrangimento. Havia alguma coisa naquele homem que me deixava constantemente sem saber se queria discutir com ele ou continuar ouvindo apenas para descobrir qual seria a próxima provocação. O pior era perceber que ele sabia perfeitamente o efeito que causava. Não existia timidez em Jacob Black. Ele não parecia ter dúvidas sobre o que queria dizer ou fazer, e talvez por isso fosse tão difícil ficar indiferente perto dele.
– Jake – repeti.
Foi estranho chamá-lo assim. Íntimo demais para alguém que eu mal conhecia e, ao mesmo tempo, muito mais natural do que senhor Black.
Ele desviou os olhos para as rosas.
– Agora me diga o que está fazendo em Seattle.
– Eu achei que você soubesse que eu estava aqui.
Jacob olhou para mim.
– Por que eu saberia?
– Porque você sabia praticamente tudo sobre mim.
– Sabia. No passado.
Demorei um instante para entender.
– Você parou?
– Você me mandou parar.
– E simplesmente obedeceu?
Ele soltou uma risada baixa.
– Não pareça tão decepcionada.
– Não estou decepcionada. Estou surpresa.
– Eu sei respeitar limites quando eles são colocados de maneira convincente.
– Não foi essa impressão que você me deu.
Jacob inclinou um pouco o rosto.
– Talvez você ainda não tenha me dado motivos suficientes para mostrar meu melhor comportamento.
Eu poderia ter respondido. Em qualquer outra noite teria encontrado alguma coisa para devolver a provocação, mas as palavras não vieram. A conversa estava conseguindo me distrair, porém não o suficiente para apagar o que tinha acontecido poucas horas antes. Apertei novamente a bolsa contra o corpo e olhei por instinto para o caminho por onde tinha entrado. Ethan não sabia onde eu estava. Eu repetia aquilo para mim mesma desde que descera do táxi, mas meu corpo ainda parecia esperar que ele surgisse a qualquer momento.
Quando voltei a olhar para Jacob, seu sorriso tinha desaparecido.
– O que aconteceu?
A pergunta me atingiu de uma maneira diferente.
– Não aconteceu nada. Eu só precisava de um lugar para ficar um pouco e acabei vindo para cá.
Ele ficou me olhando.
Eu soube imediatamente que não tinha acreditado.
– Você mora em Forks, está em Seattle no meio da noite, aparece na casa de um homem que algumas semanas atrás queria manter longe da sua vida e espera que eu acredite que não aconteceu nada?
Respirei fundo.
– Quando você coloca dessa forma, parece pior.
– Não. Quando eu coloco dessa forma, parece interessante.
Desviei os olhos. Queria continuar brincando com aquilo, fingir que tinha aparecido apenas porque estava em Seattle e lembrei do endereço. Seria muito mais fácil do que admitir a verdade.
Mas eu estava cansada.
Cansada de Ethan. Cansada dos advogados. Cansada de acordar assustada pensando que poderia perder Belinha. Cansada de tentar convencer todo mundo de que conseguiria resolver tudo enquanto sentia que minha vida estava escapando das minhas mãos.
– Eu não sabia para onde ir.
Minha própria voz me assustou.
Não havia ironia nela. Não havia defesa.
Só cansaço.
Jacob não respondeu imediatamente, e tive medo de olhar para ele. Eu odiava que alguém me visse daquele jeito. Odiava ainda mais que fosse justamente ele, depois de ter recusado sua ajuda em Forks e praticamente dito que não precisava dele.
– Então fique.
Levantei os olhos.
– O quê?
– Você disse que não sabia para onde ir. Agora sabe.
Fiquei parada.
Era só uma frase.
Mesmo assim, senti alguma coisa apertar meu peito.
Durante semanas, tudo vinha acompanhado de condições. Ethan devolveria minha casa se eu aceitasse o que ele queria. Devolveria minha doceria se eu cedesse. Desistiria de transformar a guarda de Belinha numa guerra se eu aceitasse voltar para a vida que ele tinha escolhido para mim. Até naquela noite ele havia colocado diante dos meus olhos uma casa linda e me dito, de maneira disfarçada, qual seria o preço para morar nela.
Jacob não perguntou o que receberia.
Não pediu explicação antes.
Apenas disse para eu ficar.
Baixei os olhos por um instante porque senti uma vontade absurda de chorar e não queria fazer aquilo na frente dele.
– Você nem sabe por que eu vim.
– Descubro depois.
Olhei novamente para ele.
Jacob apontou com a cabeça para um gazebo mais adiante.
– Venha. Vou oferecer uma bebida antes que você resolva fugir da minha propriedade e estrague completamente a história de uma mulher bonita aparecendo misteriosamente na minha casa no meio da noite.
Balancei a cabeça, e o sorriso voltou sem que eu conseguisse impedir.
– Você é impossível.
– Já me chamaram de coisas piores.
Começamos a caminhar e, pela primeira vez desde que saí da casa de Ethan, percebi que estava respirando normalmente. Eu ainda estava com medo. A audiência continuava marcada, Alec Volturi continuava sendo o advogado de Ethan e eu continuava correndo o risco de entrar em um tribunal e ouvir alguém decidir sobre o futuro da minha filha. Nada tinha mudado.
Mas alguma coisa dentro de mim tinha diminuído o ritmo.
Talvez fosse apenas saber que, naquela noite, eu tinha encontrado um lugar onde Ethan não poderia entrar simplesmente porque queria. Talvez fosse a presença de Jacob caminhando ao meu lado, a segurança irritante que ele carregava até quando fazia uma piada. Eu tinha lutado tanto contra a ideia de precisar de sua ajuda que não percebera o quanto estava cansada de lutar contra tudo ao mesmo tempo.
– Jacob?
Uma voz feminina interrompeu meus pensamentos.
Jacob parou.
Vi seus olhos se fecharem por um breve instante antes de ele se virar.
Eu fiz o mesmo.
Uma mulher muito bonita vinha pelo caminho de pedras em nossa direção. Ela estava bem vestida, perfeitamente arrumada e caminhava com a segurança de quem conhecia aquela casa. Meus olhos foram dela para Jacob e senti imediatamente o constrangimento tomar conta de mim.
Claro.
Eu tinha aparecido sem avisar na casa de um homem quase às onze da noite. Nem sequer considerei que ele pudesse estar acompanhado.
– Bree, não comece – Jacob disse.
A mulher ignorou completamente o aviso e continuou se aproximando. Seus olhos passaram por mim, demoraram alguns segundos no meu vestido e depois foram até Jacob. Não precisei de apresentação para entender que existia intimidade entre os dois.
– Eu estava me perguntando por que você tinha tanta pressa para sair da sala. Agora ficou bem mais interessante.
Dei um pequeno passo para trás.
O pouco de segurança que tinha começado a sentir desapareceu sob uma onda de constrangimento.
– Acho que cheguei em uma hora ruim.
Jacob olhou imediatamente para mim.
– Você não chegou.
Bree cruzou os braços.
– Claro que não. Pelo visto, quem chegou na hora errada fui eu.
– Você já estava indo embora, Bree. Não transforme isso em algo mais constrangedor do que precisa ser.
A maneira como ele falou deixou claro que não estava preocupado em poupar os sentimentos dela. Aquilo deveria ter me tranquilizado, mas só aumentou minha vontade de desaparecer. Bree me analisava sem qualquer discrição, e comecei a me perguntar o que aquela mulher pensava sobre mim. Eu estava no jardim da casa de Jacob, à noite, vestida para um jantar. Não era difícil chegar à conclusão errada.
Ela inclinou a cabeça e olhou para ele.
– Pelo menos vai me apresentar sua nova diversão?
Renesmee
A expressão de Bree não mudou quando terminou a frase.
A minha, sim.
Diversão.
Aquela palavra encontrou exatamente o lugar que já estava machucado. Algumas horas antes eu tinha estado diante de Ethan enquanto ele me oferecia uma casa em troca de aceitar continuar fazendo parte da vida dele da maneira que fosse conveniente para ele. Tinha sentido suas mãos em mim depois de dizer que não queria ser tocada, precisei mordê-lo para conseguir me afastar e saí correndo sem sequer saber para onde iria. Agora estava no jardim de outro homem, no meio da noite, usando o mesmo vestido daquele jantar desastroso, diante de uma mulher que claramente tinha algum tipo de relação com ele e que acabara de me chamar de diversão.
Senti vergonha.
Não de Bree.
De mim mesma.
Antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, Jacob deu um passo à frente e ficou discretamente entre nós duas.
– Ela não é uma diversão.
A voz dele saiu baixa, mas alguma coisa em seu tom fez até Bree perder parte da segurança que demonstrava segundos antes. Eu fiquei imóvel atrás dele, olhando para suas costas enquanto tentava processar aquela reação. Jacob não riu, não tentou diminuir o constrangimento com uma provocação e muito menos deixou que eu me defendesse sozinha de uma situação que, tecnicamente, nem deveria ser problema dele.
– Jacob, eu só...
– Eu sei exatamente o que você quis dizer. E estou dizendo para se conter.
O sorriso desapareceu do rosto dela.
Bree olhou para mim novamente. Dessa vez não encontrei a mesma provocação em seus olhos. Parecia surpresa, talvez tanto quanto eu, e por algum motivo aquilo aumentou meu desconforto. Não precisava conhecer aquela mulher para perceber que a reação de Jacob não era o que ela esperava.
– Renesmee é minha convidada – ele continuou. – Ela veio até a minha casa porque precisava falar comigo e será tratada com respeito enquanto estiver aqui. Não vou repetir isso.
Baixei os olhos.
Minha convidada.
Eu não sabia por que aquelas palavras mexeram comigo. Talvez porque havia semanas que eu me sentia uma intrusa na própria vida. Não tinha mais minha casa. Não podia entrar na doceria que comprei. Estava novamente no quarto onde dormia antes de ter Belinha e precisava usar a cozinha da minha mãe para continuar trabalhando. Ethan tinha conseguido fazer com que tudo aquilo que um dia considerei meu deixasse de ser.
E Jacob, sem sequer saber por que eu tinha aparecido, acabara de deixar claro que naquele lugar eu era bem-vinda.
– Entendi – Bree respondeu.
– Ótimo.
Ela respirou fundo e segurou a bolsa com mais força.
– Foi um erro vir atrás de você.
– Talvez tenha sido.
Vi a expressão dela mudar e imediatamente desviei os olhos. Aquela conversa não era minha e eu não queria estar ali para presenciar o fim de qualquer coisa que existisse entre eles.
– Não precisa se preocupar. Não vou cometer o mesmo erro duas vezes.
Bree se virou e começou a caminhar.
– Bree.
Ela parou.
– Peça ao segurança para acompanhá-la até o carro.
Uma risada amarga escapou dela.
– Ainda cavalheiro. Que bom saber.
Ela seguiu pelo caminho de pedras até desaparecer.
O silêncio que ficou depois foi muito pior.
Olhei para o chão, querendo desaparecer junto com ela. O pouco de tranquilidade que senti minutos antes tinha ido embora, substituído pela consciência de que eu não deveria estar ali.
– Não dê importância ao que ela disse.
Balancei a cabeça.
– Ela estava aqui por sua causa.
– Bree estar aqui não é problema seu.
– Mas eu apareci no meio disso.
– Na minha casa. Não no meu casamento.
Levantei os olhos.
– Não faça piada, Jake. Eu já estou suficientemente envergonhada.
A palavra saiu mais amarga do que pretendia. Passei a mão pela testa e respirei fundo, tentando controlar aquela sensação horrível que crescia dentro de mim.
– Eu não deveria ter vindo.
– Você já disse isso.
– Porque é verdade.
Comecei a andar em direção ao caminho por onde tinha entrado. Precisava sair dali. Não sabia para onde iria, talvez voltasse para o hotel ou procurasse outro, mas naquele momento qualquer lugar parecia melhor do que continuar diante de Jacob sentindo que tinha invadido uma parte da vida dele que não me dizia respeito.
Senti seus dedos envolverem delicadamente meu braço.
– Renesmee.
Parei.
– Eu preciso ir embora.
– Não enquanto estiver desse jeito.
– Eu estou bem.
– Não está.
Puxei o braço apenas o suficiente para que ele entendesse que queria ser solta. Jacob soltou imediatamente.
– Você não entende. Eu não posso fazer isso. Não posso simplesmente aparecer na casa de alguém porque fiquei desesperada e não consegui pensar em outro lugar. Eu nem sei por que pensei em você.
Assim que terminei, me arrependi.
Desviei os olhos.
Porque aquela era a verdade que eu vinha tentando não enxergar desde que encontrei o cartão dentro da bolsa.
Eu tinha pensado nele.
Entre todas as pessoas que conhecia em Seattle, tinha ido atrás de Jacob Black.
– Mesmo sendo pela Belinha, eu não deveria ter vindo.
A expressão dele mudou imediatamente.
– O que aconteceu com ela?
– Nada.
– Renesmee.
– Ela está bem.
– Então olhe para mim e diga isso.
Levantei o rosto.
– Ela está bem.
E estava.
Belinha estava em Forks, cercada pela minha família, provavelmente ouvindo Charlie contar alguma história enquanto Bella reclamava dos doces que ele dava escondido para ela. Minha filha estava segura.
Eu era quem estava desmoronando.
– Ela está comigo. Está segura. Eu só... eu achei que conseguiria resolver sozinha.
Minha voz falhou.
Senti a lágrima antes mesmo que escorresse e limpei rapidamente com os dedos.
– Droga.
– Ei.
– Não.
Virei o rosto.
Eu não queria que ele visse.
Não queria que Jacob enxergasse a mulher desesperada que tinha saído de Forks naquela manhã convencida de que poderia enfrentar Ethan e voltaria para casa com alguma solução. Não queria contar que tinha aceitado jantar com aquele homem porque estava aterrorizada com a possibilidade de perder minha filha. Muito menos admitir que, durante alguns minutos naquela casa, cheguei a olhar para tudo que Ethan oferecia e pensar no quanto seria fácil simplesmente ceder.
– Não seja gentil comigo agora. Por favor.
– Por quê?
Soltei uma risada fraca, mas minha voz quebrou no meio.
– Porque eu vou chorar.
E chorei.
Não consegui impedir.
Levei a mão à boca quando o primeiro soluço escapou, abaixando o rosto enquanto toda a vergonha daquela noite se misturava ao medo que eu vinha carregando havia dias. Chorei pela minha casa, pela doceria, pela mulher idiota que confiou em Ethan durante anos e, principalmente, pela possibilidade de perder Belinha. Eu tinha tentado manter tudo sob controle por tanto tempo que, quando finalmente comecei, simplesmente não consegui parar.
Então senti os braços de Jacob ao meu redor.
Meu corpo ficou rígido.
Por apenas um segundo.
Depois cedi.
Não pensei no fato de mal conhecê-lo. Não pensei em Bree, não pensei na diferença de idade entre nós, não pensei sequer no quanto aquilo parecia contradizer tudo que eu tinha dito a ele em Forks.
Agarrei sua camisa e escondi o rosto contra seu peito.
E desabei.
Jacob não disse que eu precisava me acalmar. Não perguntou imediatamente o que tinha acontecido e nem tentou me afastar para olhar meu rosto. Apenas me segurou. Um dos braços se fechou com firmeza ao redor das minhas costas enquanto sua outra mão subiu até minha nuca, mantendo-me protegida contra ele.
E, pela primeira vez naquela noite, eu me senti segura.
Aquilo me assustou quase tanto quanto todo o resto.
Ethan tinha passado anos dizendo que cuidava de mim. Naquela mesma noite tinha usado a palavra amor enquanto tentava me prender contra o próprio corpo depois que eu disse não. Agora eu estava nos braços de um homem que nunca havia prometido ser gentil, que admitia ser controlador, que tinha investigado minha vida e sequer fingia se arrepender quando acreditava estar certo.
Ainda assim, quando pedi que me soltasse minutos antes, Jacob soltou.
Quando chorei, ele apenas me acolheu.
– Pode chorar.
Apertei sua camisa.
– Eu não sei o que fazer, Jake.
Dizer aquilo em voz alta doeu.
Porque finalmente admitia algo que vinha escondendo até de mim mesma.
Eu não sabia.
Não sabia como recuperar minha casa. Não sabia quando conseguiria reabrir minha doceria. Não sabia como enfrentar Alec Volturi. Não sabia como impedir Ethan de usar dinheiro e poder para tentar arrancar Belinha de mim.
Senti Jacob baixar um pouco o rosto.
– Então você fez a coisa certa.
Balancei a cabeça contra seu peito.
– Não fiz.
– Veio até mim.
Fiquei quieta.
Não sabia por que aquela resposta fez minhas lágrimas aumentarem.
Talvez porque não houvesse cobrança nela.
Jacob não disse eu avisei.
Não lembrou que tinha oferecido ajuda e eu recusei.
Não esfregou na minha cara que tudo aquilo que previra estava acontecendo.
Apenas me abraçou com mais força.
Eu podia ouvir as batidas de seu coração, firmes e tranquilas, enquanto as minhas pareciam completamente descontroladas. Aos poucos, minha respiração começou a acompanhar aquele ritmo. A mão dele passou devagar pelos meus cabelos e fechei os olhos, permitindo-me ficar ali por mais alguns segundos.
– Seja lá o que aconteceu, acabou.
Levantei o rosto.
– Você nem sabe o que aconteceu.
Jacob passou o polegar por uma lágrima que escorria pela minha bochecha.
– Não preciso saber ainda.
Olhei para ele sem entender.
Sua mão continuou em meu rosto.
– Porque seja lá quem fez você chegar aqui desse jeito, Renesmee, não vai fazer de novo.
Minha respiração falhou.
Havia uma segurança assustadora nos olhos dele. Não parecia uma frase dita apenas para confortar uma mulher chorando. Jacob acreditava em cada palavra.
– Jake...
– Eu não vou deixar.
Fiquei olhando para ele enquanto tentava entender o que aquelas palavras provocavam em mim.
Alguns dias antes, eu tinha me irritado quando Jacob disse que estava sob sua proteção. Disse que não precisava de um homem lutando por mim e fui embora de táxi apenas para provar que ainda conseguia escolher o próprio caminho.
Naquela noite eu continuava acreditando nisso.
Eu não queria que Jacob decidisse minha vida. Não queria trocar o controle de Ethan pelo de outro homem. Não queria entregar meus problemas nas mãos de alguém apenas porque ele tinha dinheiro e poder suficientes para resolvê-los.
Mas finalmente entendi que aceitar apoio não precisava significar entregar minha liberdade.
Encostei novamente o rosto no peito dele e senti seus braços se fecharem ao meu redor.
Eu ainda estava com medo.
A audiência continuava marcada.
Ethan continuava tentando tirar Belinha de mim.
Nada estava resolvido.
Mas ali, nos braços de Jacob Black, depois de semanas tentando carregar tudo sozinha, senti que talvez eu pudesse dividir um pouco daquele peso sem deixar de ser dona da minha própria vida.
E, naquela noite, isso era tudo que eu precisava.
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