Amor não era o plano
37 Família
Jacob
Eu ainda poderia ter voltado.
Esse pensamento me acompanhou durante boa parte do caminho até Forks. Não porque tivesse medo de Billy, eu já tinha enfrentado homens muito mais perigosos do que meu pai e situações que envolviam muito mais do que uma discussão familiar mal resolvida. O problema era justamente esse. Nada daquilo podia ser resolvido como eu costumava resolver as coisas. Não havia contrato para negociar, advogado para colocar no meio ou dinheiro suficiente para comprar quatro anos de volta. Existiam apenas dois homens teimosos que tinham dito coisas demais numa noite ruim e passado tempo demais esperando que o outro fosse o primeiro a ceder.
Dirigi sozinho. Poderia ter pedido ao motorista que me levasse, mas não queria ninguém por perto. Precisava da estrada, do silêncio e talvez de algumas horas para entender por que diabos eu tinha concordado em fazer aquilo depois de passar quatro anos convencido de que não precisava. Quando saí de Seattle, ainda conseguia encontrar uma dúzia de motivos razoáveis para desistir. Tinha trabalho acumulado, problemas na empresa, a situação de Claire e Ethan, além da audiência de Belinha se aproximando. Qualquer um serviria como desculpa. O problema era que, toda vez que pensava em voltar, ouvia a voz de Renesmee pelo telefone dizendo que algumas oportunidades não ficavam esperando até que estivéssemos prontos.
Maldita mulher.
Apertei as mãos ao redor do volante e continuei dirigindo.
Quando me aproximei de Forks, porém, alguma coisa começou a mudar. A estrada ficou familiar de um jeito que Seattle jamais seria, e meus olhos reconheceram curvas que meu corpo parecia lembrar antes mesmo da minha cabeça. As árvores altas se fechavam dos dois lados, o céu cinzento aparecia entre as copas e a umidade deixava aquele cheiro de terra e floresta que eu não encontrava em nenhum outro lugar. Eu tinha passado anos construindo uma vida muito distante dali. Mansões, hotéis, salas de reunião, viagens, jantares onde uma garrafa de vinho custava mais do que algumas pessoas ganhavam em um mês. Gostava daquela vida. Tinha trabalhado como um condenado para construí-la e não sentia vergonha alguma disso.
Mas La Push era diferente.
La Push não precisava me impressionar.
Quando criança, eu conhecia cada canto daquele lugar. Tinha corrido por aquelas estradas, voltado para casa coberto de lama, passado tardes inteiras perto da praia e ouvido histórias de Billy até ter idade suficiente para fingir que já não me interessava por elas. Foi ali que aprendi a andar de bicicleta, a consertar coisas que eu mesmo quebrava e a descobrir que meu pai tinha uma resposta para praticamente qualquer problema, mesmo quando eu não queria ouvi-la. Eu tinha amado aquele lugar antes de saber que existia um mundo muito maior fora dele.
Talvez ainda amasse.
A placa indicando La Push apareceu à frente e senti minhas mãos apertarem um pouco mais o volante.
– Você está ficando sentimental, Black – murmurei, irritado comigo mesmo.
Reduzi a velocidade quando entrei no vilarejo. Algumas coisas tinham mudado, outras pareciam exatamente como eu lembrava. Reconheci casas, caminhos e rostos, embora alguns precisassem de alguns segundos para despertar alguma lembrança. Duas pessoas olharam para o carro quando passei e tive certeza de que, antes que eu chegasse à casa de Billy, metade de La Push já saberia que Jacob Black estava ali. A velocidade com que notícias circulavam naquele lugar continuava sendo uma das poucas coisas capazes de competir com a internet.
Quando entrei na rua da casa dos meus pais, minha vontade de fazer uma curva e ir embora voltou.
Havia carros estacionados dos dois lados, dminui a velocidade até reconhecer o carro de Paul, depois o de Sam e outro que provavelmente pertencia a Embry. Mais adiante havia veículos que eu não conhecia. Estacionei um pouco afastado e permaneci dentro do carro por alguns segundos, com o motor ainda ligado.
Quatro anos.
Eu estivera tão perto daquela casa poucas semanas antes. Tinha dirigido até La Push, passado por aquela mesma rua e ido embora sem procurar meu pai. Depois proibi Rachel de contar que eu estivera ali.
Covardia não era uma palavra que eu costumava associar a mim mesmo, mas naquele dia, não encontrei outra melhor.
Desliguei o motor e sussurrei- Chega dessa merda.
Saí do carro e fechei a porta.
Conforme me aproximava da propriedade, as vozes ficaram mais claras. Havia música baixa, crianças correndo e gente conversando no quintal. Vi algumas mesas, enfeites simples e restos do que provavelmente tinha sido o bolo de aniversário. Então entendi que tinha chegado tarde.
Ótimo.
Além de passar quatro anos sem ver meu pai, eu ainda conseguira perder os parabéns.
Caminhei alguns metros e reconheci pessoas que não via havia tempo demais. Sam foi o primeiro rosto familiar que encontrei entre os homens próximos à varanda. Embry estava ao lado dele e Paul um pouco mais afastado. Solomon conversava com alguém perto de uma das mesas. Nenhum deles tinha me visto ainda, então vi minha mãe.
Sarah estava próxima de Rachel e Rebecca, e bastou vê-la para sentir alguma coisa desagradavelmente apertada no peito. Minha mãe parecia praticamente igual à imagem que eu guardava dela, embora os anos tivessem deixado marcas que eu não lembrava. Fiquei parado por um segundo, percebendo o quanto quatro anos podiam mudar uma pessoa quando não estávamos olhando.
Finalmente minha presença foi notada e uma conversa simplesmente morreu. Depois outra.
Paul virou o rosto. Sam acompanhou o movimento. Embry olhou na minha direção e abriu um sorriso que desapareceu rapidamente quando percebeu que aquele provavelmente não era o momento para alguma piada.
Rachel me viu e sua reação foi imediata. Os olhos se arregalaram e um sorriso tomou seu rosto antes que ela conseguisse controlar. Rebecca levou a mão à boca. Minha mãe permaneceu imóvel por alguns segundos, como se precisasse ter certeza de que eu estava realmente ali.
Não gostei daquilo, não da felicidade delas, mas do que ela significava.
Eu tinha feito minha própria família se acostumar com minha ausência a ponto de minha presença provocar surpresa.
Continuei caminhando antes que aquele pensamento produzisse alguma coisa que eu não estava disposto a analisar.
Foi então que encontrei Billy.
Meu pai estava no centro de um pequeno grupo, sentado em sua cadeira de rodas com uma caixa de presente sobre as pernas. Alguém dizia alguma coisa enquanto ele tentava abrir a embalagem sem destruir o papel, provavelmente por ordem de minha mãe. Por alguns segundos ele não percebeu o silêncio que começava a se espalhar.
Então ele ergueu o olhar e me viu.
Aquele foi provavelmente um dos poucos momentos da minha vida adulta em que não tive a menor ideia do que fazer.
Eu era Jacob Black.
Homens entravam na minha sala preparados para negociar milhões e saíam dela sabendo que eu poderia acabar com empresas inteiras se decidisse. Funcionários mudavam de postura quando eu atravessava um corredor. Eu tinha construído um império, criado uma reputação e aprendido muito cedo que demonstrar insegurança diante de alguém era entregar uma vantagem que poderia ser usada contra você.
O poderoso Jacob Black.
O homem que, segundo o próprio pai, talvez não tivesse coração.
Naquele instante, nada disso serviu para porra nenhuma.
Eu só conseguia olhar para Billy e tentar descobrir o que existia na expressão dele.
Surpresa veio primeiro.
Depois alguma coisa que eu não consegui interpretar.
A mão dele permaneceu sobre a caixa enquanto seus olhos percorriam meu rosto. Ninguém falou. Nem mesmo Rachel teve coragem de quebrar o silêncio.
Talvez ele me mandasse embora.
Eu não o culparia.
Talvez simplesmente dissesse boa tarde e continuasse abrindo os presentes, deixando claro que quatro anos não desapareceriam porque finalmente resolvi aparecer.
Também seria justo.
Preparei-me para qualquer uma das duas coisas.
Billy fez algo completamente diferente.
A caixa escorregou de suas mãos e caiu sobre o colo.
Então meu pai abriu os braços.
Simplesmente isso.
Nenhuma cobrança.
Nenhuma pergunta.
Nenhum orgulho.
Abriu os braços para mim exatamente como fazia quando eu era criança.
Por alguns segundos fiquei parado, incapaz de reagir. A imagem diante de mim se misturou a lembranças antigas demais. Eu pequeno, correndo para ele depois de cair e ralar os joelhos. Billy me recebendo quando eu voltava de algum lugar assustado demais para admitir que estava com medo. Meu pai abrindo os braços quando eu ainda não tinha aprendido que homens adultos podiam transformar saudade em raiva apenas para não admitir que sentiam falta um do outro.
Minha garganta apertou e dei o primeiro passo, sem me importar com quem estava olhando.
Quando cheguei diante dele, abaixei o corpo e me ajoelhei ao lado da cadeira. Billy não esperou que eu dissesse nada. Seus braços se fecharam ao meu redor e eu o abracei com uma força que provavelmente teria rendido uma reclamação em qualquer outro momento.
Mas ele não reclamou.
A mão do meu pai subiu até minha nuca e me apertou contra ele.
Fechei os olhos. Porra. Quatro anos.
Quatro anos jogados fora porque nenhum de nós tinha sido capaz de fazer aquilo.
– Senti sua falta, filho – Billy disse perto do meu ouvido, com a voz mais baixa e carregada do que eu lembrava.
Engoli em seco, não existia resposta inteligente para aquilo, também não precisava.
Apertei meus braços ao redor dele e finalmente deixei sair aquilo que deveria ter dito muito antes.
– Também senti sua falta, pai.
Billy soltou uma respiração pesada e sua mão bateu duas vezes nas minhas costas antes de voltar a me abraçar. Continuei ajoelhado diante dele, sem qualquer pressa de me afastar. Não pedi desculpas. Ele também não. Aquilo provavelmente viria depois, quando estivéssemos sozinhos e inevitavelmente começássemos a discutir sobre qual dos dois tinha sido mais idiota.
Naquele momento, não importava.
Quando finalmente afastei um pouco o rosto, encontrei os olhos do meu pai úmidos.
– Quatro anos, Jacob – ele murmurou, segurando meu ombro. Não havia acusação na voz, apenas um cansaço que doeu mais do que qualquer bronca. – Quatro malditos anos.
Assenti devagar. – Eu sei.
Billy me analisou por alguns segundos.
– Continua teimoso?
Soltei uma risada baixa, ainda com uma das mãos apoiada em seu braço. – Olha quem está perguntando.
Meu pai riu.
Aquele som acabou comigo mais do que o abraço.
Balancei a cabeça e abaixei os olhos por um instante, recuperando algum controle antes que minhas irmãs tivessem material suficiente para me infernizar pelo restante da vida.
Quando tornei a olhar ao redor, percebi quantas pessoas estavam assistindo.
Minha mãe chorava sem a menor preocupação em esconder. Rachel estava agarrada ao braço de Paul, Rebecca enxugava o rosto e Sam tinha aquele sorriso discreto de quem provavelmente diria depois que já sabia que eu apareceria.
Então meus olhos passaram pelas pessoas ao redor.
E encontraram Renesmee.
Ela estava um pouco afastada, com Belinha nos braços, ela deu um sorriso mas não havia triunfo em sua expressão. Nenhum sinal de quem esperava receber crédito por eu estar ali. Apenas um sorriso bonito, tranquilo, como se estivesse genuinamente feliz por mim.
Sustentei seu olhar por alguns segundos.
Maldita mulher.
Eu tinha vindo por Billy.
Sabia disso.
Mas se Renesmee Cullen não tivesse me ligado, provavelmente eu ainda estaria em Seattle inventando motivos para continuar longe do meu pai.
Deixei um pequeno sorriso escapar em resposta.
Depois voltei a olhar para Billy.
Talvez Rachel estivesse certa sobre algumas coisas.
Mas eu preferia morrer antes de admitir isso.
Meu momento com Billy não durou muito, o que provavelmente foi melhor para nós dois. Se continuássemos abraçados por mais alguns minutos, Rachel teria material suficiente para passar os próximos vinte anos dizendo que eu era um homem sensível escondido atrás de ternos caros e mau humor, e eu não estava disposto a permitir que aquela reputação se espalhasse. Ainda estava ajoelhado diante da cadeira do meu pai quando ouvi passos pequenos e apressados atravessando a sala, seguidos por uma voz que reconheceria no meio de qualquer multidão.
– Vovô!
Não tive tempo sequer de me virar direito. Ephraim surgiu entre as pessoas e praticamente se jogou sobre nós. Billy riu quando o menino passou os braços pelo meu pescoço e quase me desequilibrou.
– Ei, moleque. – Segurei-o antes que acabássemos os três no chão e me levantei com ele nos braços. Ephraim imediatamente apertou o rosto contra meu pescoço, e alguma coisa dentro de mim cedeu pela segunda vez naquela tarde. – Você pretende me derrubar no aniversário do seu bisavô?
– Você demorou!
Aquilo doeu mais do que deveria, eu não via meu neto havia quase dois meses. Desde que Claire saiu da minha casa com Ethan e levou Ephraim, minhas oportunidades de vê-lo tinham praticamente desaparecido. Minha filha sabia exatamente onde me atingir e, conscientemente ou não, tinha conseguido. Eu podia cortar cartões, bloquear contas, tirar Ethan da empresa, colocar advogados atrás dele e fechar todas as portas que aquele desgraçado tentasse abrir. Mas não podia simplesmente arrancar meu neto dos braços da mãe porque estava com saudade.
E eu tinha sentido falta daquele moleque para caralho.
Passei a mão pelos cabelos dele e o apertei contra mim. – Também senti sua falta.
Ephraim afastou o rosto e segurou minhas bochechas com as duas mãos, examinando-me com uma seriedade que não combinava com seus três anos.
– Você não foi lá em casa.
Minha mandíbula se contraiu discretamente. Não era uma conversa para ter com uma criança.
– Eu estava trabalhando.
– Muito?
– Mais do que deveria.
Ele pareceu considerar a resposta antes de decretar: – Tem que trabalhar menos.
Soltei uma risada. – Vou levar sua recomendação para o conselho da empresa.
– Tá.
Claro. Como se ele tivesse entendido alguma coisa.
Billy ria diante de nós, e foi Paul quem resolveu quebrar o restante da emoção.
– Excelente. O filho pródigo voltou, abraçou o pai, recuperou o neto e ninguém saiu no soco. Podemos continuar a festa agora?
Olhei para ele. – Você quer ser o primeiro?
Paul abriu um sorriso e ergueu as mãos.
– Aí está. Por um momento fiquei preocupado que quatro anos longe tivessem deixado você agradável.
Rachel deu um tapa no braço do marido.
– Deixa meu irmão em paz.
– Eu estou deixando. Só precisava confirmar que ainda era ele.
– Infelizmente sou – respondi, ajeitando Ephraim no meu braço. – E continuo pagando seu salário, então escolheria melhor as próximas palavras.
Paul riu.
– Agora tenho certeza.
Algumas pessoas ao redor acompanharam a brincadeira e a tensão finalmente se desfez. As conversas começaram a retornar, alguém aumentou a música e Billy voltou a receber a atenção de quem ainda queria entregar presentes. Eu estava prestes a colocar Ephraim no chão quando minha mãe se aproximou.
Sarah não disse nada penas me abraçou.
Mantive Ephraim em um dos braços e envolvi minha mãe com o outro. Ela me apertou com força, e tive a impressão de que aquela mulher pretendia descontar quatro anos de ausência em um único abraço.
– Oi, mãe – murmurei perto de seus cabelos.
– Oi, meu filho.
Ela se afastou apenas o suficiente para olhar para mim e, antes que eu pudesse evitar, segurou meu rosto entre as duas mãos.
– Deixe eu olhar para você.
– Mãe...
– Fique quieto.
Obedeci. Havia coisas contra as quais nem Jacob Black tinha qualquer autoridade, e Sarah Black definitivamente estava nessa lista.
Minha mãe analisou meu rosto como se procurasse alguma coisa diferente e então sorriu.
– Está ainda mais bonito.
Sorri de lado. – Finalmente alguém dizendo uma coisa sensata nesta casa.
Rachel soltou um gemido atrás de nós. – Meu Deus, mãe. Não alimenta o ego dele.
– Inveja envelhece, Rachel.
– E arrogância também deveria, mas aparentemente não funcionou com você.
Minha mãe riu e voltou a passar a mão pela lateral do meu rosto.
– Continua convencido.
– Tenho motivos.
– Claro que tem – respondeu ela com aquele tom indulgente que apenas uma mãe conseguia usar com um homem de quarenta e nove anos sem correr riscos. Então sua expressão ficou mais séria. – Você vai ficar?
Entendi o que realmente estava perguntando não era sobre a festa.
Olhei para Billy, que conversava com Embry alguns metros adiante, e depois voltei para minha mãe.
– Hoje eu fico.
Sarah assentiu. Não pediu mais. Não naquele momento.
Ephraim começou a se mexer nos meus braços ao avistar Belinha e pediu para descer. Coloquei-o no chão e ele saiu correndo na direção da menina, como se aqueles quase dois meses sem mim já tivessem sido devidamente resolvidos com cinco minutos de abraço. Observei-o por alguns segundos e então percebi outra ausência.
Claire.
Eu sabia que ela provavelmente não viria, mas alguma parte estúpida de mim ainda esperava encontrar minha filha ali. Leah tinha trazido Ephraim, o que significava que Claire pelo menos permitira que o menino participasse da festa do bisavô. Já era alguma coisa.
Não perguntei por ela, minha atenção acabou sendo desviada para outro ponto da casa.
Renesmee.
Ela conversava com um casal próximo à varanda. Reconheci a mulher vagamente, era Isabella Cullen. O homem ao lado dela tinha uma postura séria, cabelos acobreados e mantinha a atenção dividida entre a conversa e Belinha, que brincava alguns metros adiante com Ephraim deveriq ser Edward Cullen
Então aqueles eram os pais dela, mas que ótimo.
Por algum motivo que me irritou imediatamente, ajeitei a manga da camisa antes de caminhar até eles.
Percebi o gesto no mesmo instante e quase parei.
Que porra eu estava fazendo?
Eu negociava com investidores que administravam fortunas, enfrentava conselhos inteiros sem preparar uma única frase e tinha acabado de entrar na casa do meu pai depois de quatro anos sem saber se seria recebido com um abraço ou mandado para o inferno.
E estava ajeitando a roupa para conhecer os pais de Renesmee Cullen.
Ridículo.
Continuei andando antes que pudesse me irritar ainda mais comigo mesmo.
Nessie me viu primeiro. O sorriso que surgiu em seu rosto foi imediato e, para meu desgosto, teve sobre mim um efeito igualmente imediato.
– Então, você realmente veio.
Parei diante dela e coloquei uma das mãos no bolso.
– Eu disse que viria.
– Também disse que chegaria antes dos parabéns.
– Não abuse da vitória, Nessie. – Inclinei ligeiramente o rosto em sua direção. – Conseguir que eu aparecesse já foi um feito considerável.
Ela sorriu. – Então admite que eu consegui?
– Não coloque palavras na minha boca. Ainda posso dizer que estava passando pela região.
– Claro. Você costuma passar por La Push por acaso durante o aniversário do seu pai.
– Com frequência.
A mulher ao lado dela sorriu, claramente acompanhando nossa conversa com interesse. Renesmee pareceu se lembrar naquele momento de que não estávamos sozinhos.
– Jake, esses são meus pais. Minha mãe, Isabella e meu pai, Edward Cullen.
Endireitei a postura quase involuntariamente e aquilo me irritou novamente.
– Senhora Cullen. – Cumprimentei Isabella com um aperto de mão. – Prazer em conhecê-la.
– Bella, por favor. – Ela sorriu enquanto apertava minha mão. – Depois de tudo que ouvi nas últimas semanas, senhora Cullen parece formal demais.
Tudo que ouvi.
Lancei um olhar rápido para Renesmee.
Ela percebeu.
– Não olhe para mim. Minha mãe consegue informações sem qualquer dificuldade.
Bella riu. – Ela está exagerando.
– Não estou.
Voltei minha atenção para Edward e estendi a mão.
– Senhor Cullen.
Ele apertou minha mão com firmeza.
– Edward.
Havia alguma coisa no olhar dele que me fez entender imediatamente que aquele homem sabia muito bem quem eu era e, principalmente, sabia do envolvimento que eu vinha tendo nos problemas da filha.
– Agradeço pelo que sua equipe jurídica está fazendo pela Renesmee – disse ele, mantendo o aperto por alguns segundos antes de soltar minha mão. – J. Jenks falou muito bem dos seus advogados.
– Eles são bons no que fazem.
– Pelo que ouvi, você colocou praticamente todo o departamento à disposição dela.
Olhei brevemente para Nessie.
– O necessário.
Ela me lançou aquele olhar que eu já conhecia. O mesmo que aparecia toda vez que achava que eu estava fazendo mais do que deveria.
Edward percebeu.
Claro que percebeu.
– De qualquer maneira, agradeço – continuou ele. – Minha filha e minha neta são o que existe de mais importante para nossa família.
– Entendo perfeitamente.
Minha resposta saiu mais séria do que pretendia.
Porque eu realmente entendia.
Edward me observou por um momento, e alguma coisa naquela conversa começou a me incomodar. Não por causa dele. Cullen estava sendo educado, direto e perfeitamente razoável.
O problema era comigo.
Eu estava prestando atenção demais à maneira como ele me avaliava. Como se a opinião do pai de Renesmee sobre mim tivesse alguma importância.
Não tinha e nem deveria ter.
Bella olhou para o marido e depois para mim antes de sorrir.
– Renesmee comentou que você não vinha a La Push havia algum tempo. Imagino que Billy tenha ficado feliz.
– Ficou.
Minha resposta veio curta, e Nessie percebeu imediatamente a mudança.
– Foi bonito ver vocês dois – comentou ela num tom mais baixo. – Fiquei feliz que tenha vindo.
Encontrei seus olhos.
Por alguns segundos, esqueci completamente que os pais dela estavam diante de nós.
– Você teve participação nisso.
Ela balançou a cabeça.
– Eu só liguei. Você decidiu vir.
– Não seja modesta. Não combina com você.
– E desde quando você me conhece o suficiente para saber o que combina comigo?
A pergunta tinha espaço demais para uma resposta que eu definitivamente não deveria dar na frente dos pais dela.
Aproximei um pouco o rosto. – Estou trabalhando nisso.
Renesmee ficou em silêncio e Bella disfarçou um sorriso.
Edward não.
Foi aí que percebi exatamente o que estava acontecendo e me endireitei.
Porra.
Eu estava flertando com a filha do homem na frente dele e o pior não era isso, o pior era estar nervoso.
Eu, nervoso.
Aquilo estava começando a me irritar profundamente.
Renesmee tinha entrado na minha vida havia poucas semanas e já estava provocando comportamentos que não reconhecia em mim. Eu pensava nela quando não deveria. Atendia suas ligações antes do segundo toque. Tinha atravessado Seattle para descobrir quem estava ameaçando a guarda da filha dela. Agora estava em La Push depois de quatro anos, conversando educadamente com Edward e Bella Cullen e me preocupando, ainda que minimamente, com a impressão que causaria.
Aquilo precisava parar.
Ou pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo enquanto Renesmee sorria diante de mim e tornava cada vez mais difícil acreditar nessa merda.
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