Amor não era o plano
63 Conversa de homens
Jacob
Quando a porta se fechou atrás de Renesmee e o restante da família se afastou, a sala ficou silenciosa de um jeito diferente. Não era constrangimento. Era expectativa. Edward permaneceu perto do sofá por alguns segundos, olhando na direção por onde a filha tinha saído, e eu entendi imediatamente que aquela conversa não seria sobre me aprovar ou não como namorado. Era sobre paternidade. Sobre o tipo de medo que homem nenhum admite com facilidade quando percebe que a filha cresceu e começou a tomar decisões que já não passam por ele.
Caminhei alguns passos até o aparador e apoiei uma das mãos sobre a madeira antes de olhar para Edward. – Nós precisamos ter essa conversa, Cullen. Não para você gostar de mim. Isso seria pedir demais e, sinceramente, eu não tenho interesse em ser aprovado como se tivesse dezessete anos. Mas você é pai dela e eu sei exatamente o que está passando pela sua cabeça.
Edward cruzou os braços. A raiva inicial tinha diminuído, mas a preocupação continuava inteira. – Sabe mesmo? Porque, do ponto de vista de quem está vendo de fora, tudo aconteceu rápido demais. Minha filha saiu de uma relação de seis anos destruída, passou por uma disputa pela guarda da própria filha, mudou de cidade, foi ameaçada, levou um tiro e, no meio de tudo isso, começou uma relação com um homem quase vinte e quatro anos mais velho. Você entende por que isso me preocupa?
– Entendo.
Ele franziu a testa, provavelmente esperando que eu contestasse.
– Só isso?
– O que quer que eu diga? Que idade não importa? Importa. Que você está exagerando? Não está. Se fosse Claire no lugar dela, eu estaria pensando exatamente a mesma merda que você.
Edward me observou com mais atenção.
– Então me responde como pai. Se sua filha aparecesse grávida de um homem da sua idade, depois de poucos meses de relacionamento, o que você faria?
Soltei o ar lentamente e passei a mão pelo queixo.
– Provavelmente teria uma conversa muito desagradável com ele.
– Exatamente.
– E depois perceberia que não adiantaria porra nenhuma se minha filha tivesse escolhido ficar com ele.
Edward descruzou os braços.
– Você fala como se fosse simples.
– Não é simples. É uma das partes mais difíceis dessa merda de ser pai.
Ele ficou quieto.
Continuei, porque aquela era talvez a única coisa sobre a qual eu podia falar com ele sem precisar medir palavras.
– Nós criamos uma filha acreditando que vai conseguir protegê-la de tudo. Quando é pequena, funciona. Você escolhe a escola, segura a mão para atravessar a rua, decide quem entra em casa, quem chega perto. Se alguém faz ela chorar, você resolve. Aí um dia você acorda e ela não é mais aquela garotinha.
Edward baixou os olhos por um instante.
Eu sabia que tinha acertado.
– Claire cresceu e eu não percebi quando aconteceu – continuei. – Não de verdade. Na minha cabeça, ainda existia uma parte dela que era aquela menina que corria para mim quando alguma coisa dava errado. Só que ela virou mulher. Começou a escolher sem me consultar e, pior, começou a escolher coisas que eu achava erradas.
Edward assentiu devagar.
– Renesmee também.
– Eu sei.
Aproximei-me um pouco mais.
– E isso irrita porque nós dois estamos acostumados a resolver problemas. Você é médico. Eu administro uma empresa. Se alguma coisa está errada, você encontra uma solução. Só que filha não é problema para resolver. É uma pessoa que pode olhar para tudo que você ensinou, ouvir seu conselho e ainda fazer exatamente o contrário.
Edward soltou uma risada curta, quase cansada. – Você está descrevendo Renesmee desde que aprendeu a falar.
– Claire também.
Por alguns segundos, aquilo diminuiu a tensão.
Edward caminhou até a janela e ficou olhando para fora.
– Ethan foi uma dessas escolhas.
– Foi.
– Eu nunca gostei de algumas coisas nele. Não o suficiente para entender o que estava acontecendo, mas havia sinais. Nessie estava apaixonada e eu não quis ser o pai que transformava cada dúvida em proibição.
– E mesmo se tivesse proibido, ela provavelmente teria ficado com ele.
Edward virou o rosto.
– Provavelmente.
– Claire ficou.
A expressão dele mudou.
– Você tentou impedir?
– Tentei do meu jeito. Cortei cartão, fechei algumas portas, deixei claro que não apoiava. No fim, ela foi mesmo assim.
Edward ficou em silêncio.
– E você se arrepende?
Pensei antes de responder.
– Me arrependo de achar que pressão ia fazer ela enxergar mais rápido. Não fez. Só criou distância entre nós.
Ele assentiu lentamente.
– Eu estive com Nessie quando Ethan destruiu tudo.
– Eu sei.
– Vi minha filha perceber que seis anos da vida dela tinham sido construídos em cima de uma mentira. Vi ela perder a casa, a loja, quase perder a filha. E agora você aparece.
Não havia agressividade na frase. Só medo.
Olhei direto para ele.
– E você acha que eu posso ser a próxima escolha errada.
Edward não desviou.
– Acho que é possível.
Assenti.
– É justo.
Aquilo pareceu surpreendê-lo.
– Você não vai discutir?
– Não tenho como provar hoje que você está errado. Posso falar que amo sua filha, que não pretendo machucar ela, que quero esse filho e que não estou brincando de relacionamento. Mas Ethan provavelmente disse coisas bonitas também.
Edward apertou os lábios.
– Disse.
– Então palavra não serve para muita coisa agora.
Ele voltou a me olhar.
– O que serve?
– Tempo.
A resposta saiu simples.
– E atitude. Eu não preciso que você confie em mim hoje. Só precisa olhar o que eu faço daqui para frente.
Edward respirou fundo.
– A diferença de idade continua me incomodando.
– Vai continuar.
– Vinte e quatro anos não são pouca coisa.
– Não são.
– Você já viveu coisas que ela ainda nem começou a viver.
– Também sei disso.
– E isso cria uma diferença de poder, Jacob.
Aquilo eu respeitei.
– Pode criar.
Edward ergueu as sobrancelhas.
– Você está concordando comigo demais. Isso está me deixando desconfiado.
Quase sorri.
– Não se acostume. Só não vou fingir que você está errado quando não está. Eu tenho dinheiro, idade, experiência e uma vida muito mais estabelecida que a dela. Se eu usar qualquer uma dessas coisas para controlar Renesmee, então você vai ter razão sobre mim.
– E não usa?
– Tento não usar.
– Tenta?
– Sou controlador pra caralho, Cullen. Não vou ficar aqui vendendo uma versão falsa de mim. A diferença é que eu sei que Nessie não é minha propriedade. Posso aconselhar, pressionar, ficar puto, tentar convencer. No fim, a decisão é dela.
Edward me encarou por alguns segundos.
– Ela enfrenta você.
Soltei uma risada.
– Todo santo dia.
– Isso é bom.
– Às vezes é um inferno.
– Continua sendo bom.
– Eu sei.
O silêncio voltou, mas já não parecia hostil.
Edward passou a mão pelo rosto e falou num tom mais baixo.
– Eu não quero ver minha filha quebrada outra vez.
– Nem eu.
– Se você machucar ela, eu vou estar aqui.
Olhei para ele.
– Eu sei.
– Não estou brincando.
– Nem eu.
Dei um passo mais perto.
– E agradeço.
Edward franziu a testa.
– Agradece?
– Sim. Porque se algum dia eu for idiota o suficiente para machucar aquela mulher, espero que tenha gente suficiente ao redor dela para não deixar que fique sozinha.
Ele ficou quieto.
– Mas não se anima – acrescentei. – Não vou dar esse gostinho para você.
Um sorriso finalmente apareceu no rosto de Edward.
– Convencido.
– Realista.
– Você realmente acredita que consegue nunca magoá-la?
– Não. Isso seria arrogância até para mim.
Edward pareceu surpreso.
– Eu posso irritar Nessie, posso errar, posso falar coisa que não devia e provavelmente vou fazer ela chorar alguma vez. Relacionamento não é contrato com cláusula contra dor. O que eu não vou fazer é trair a confiança dela, brincar com o que sente ou fugir quando ficar difícil.
Edward ficou sério novamente.
– Ethan fugiu.
– Ethan viveu uma mentira.
– E você?
– Eu sou um monte de coisa ruim, Cullen, mas mentiroso com mulher que está comigo não é uma delas.
Ele assentiu devagar.
– Talvez esse seja o ponto que mais me preocupa. Nós dois sabemos o que acontece quando nossos filhos escolhem errado.
– Sabemos.
– E não conseguimos impedir.
– Não.
Fiquei alguns segundos olhando para ele antes de continuar.
– Essa é a parte que mais fode com a cabeça. A gente passa a vida achando que proteger significa impedir queda. Não significa. Tem queda que não dá para evitar.
Edward olhou para a porta por onde Renesmee tinha saído.
– Então o que fazemos?
– Ficamos perto.
Ele voltou os olhos para mim.
– Só isso?
– Não é pouco.
Apoiei uma das mãos no bolso.
– Nós não podemos impedir nossas filhas de quebrar a cara. Claire quebrou. Nessie quebrou. Provavelmente vão quebrar de novo por outras coisas. O que dá para fazer é garantir que, quando a escolha errada cobrar o preço, elas saibam onde encontrar a gente.
Edward ficou em silêncio por alguns segundos.
– Eu estava aqui quando Ethan machucou Nessie e vou estar se você machucar.
Sorri de lado. – Obrigado pela oferta. Mas não vou dar esse prazer a você.
Edward soltou uma risada baixa e caminhou na minha direção. Por um instante pensei que fosse estender a mão. Em vez disso, ele segurou meu ombro com firmeza. – Talvez eu esteja errado sobre você.
Assenti.
– Talvez.
– Não vai aproveitar para dizer eu avisei?
– Ainda não. Quero guardar para quando tiver certeza.
Edward balançou a cabeça. – Você é difícil de gostar, Black.
– Também ouvi isso antes.
Ele apertou meu ombro uma última vez. e caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou para mim mais uma vez.
– Eu estou feliz por ganhar mais um neto.
Dessa vez eu apenas assenti.
– Obrigado, Cullen.
Ele abriu a porta e saiu, me deixando sozinho na sala.
Fiquei alguns segundos olhando para o lugar vazio, não tínhamos feito as pazes.
Nem precisávamos.
Para dois pais teimosos tentando aceitar que as filhas tinham crescido, aquilo já tinha sido avanço suficiente.
Depois da conversa com Edward, eu precisava de alguns minutos longe daquela sala cheia. Não porque a conversa tivesse terminado mal. Pelo contrário. Cullen e eu provavelmente tínhamos chegado o mais perto possível de um entendimento sem precisar fingir que éramos dois grandes amigos. Mas havia coisas demais acontecendo dentro daquela casa e, principalmente, dentro da minha cabeça. Saí pela porta dos fundos e fui para a varanda, onde o ar frio de Forks bateu no meu rosto assim que me aproximei do corrimão. A noite estava tranquila, com poucas luzes além das que vinham das casas próximas, e por alguns minutos fiquei apenas olhando para a escuridão entre as árvores. Havia passado anos evitando aquele lugar porque voltar significava lidar com Billy, com minha família e com uma parte da minha vida que eu preferia manter enterrada em trabalho. Agora estava ali, no aniversário de Edward Cullen, depois de anunciar que teria outro filho e discutir paternidade com o pai da mulher que eu amava. Minha vida tinha desenvolvido um senso de humor particularmente filho da puta.
Ouvi a porta abrir atrás de mim, mas não precisei olhar para saber quem era. Reconheci os passos antes de sentir dois braços passarem pela minha cintura e o corpo de Renesmee encostar nas minhas costas. Ela apoiou o rosto entre minhas omoplatas e permaneceu abraçada a mim por alguns segundos.
– Veio chorar escondido depois da bronca do tio Edward?
Soltei uma risada e coloquei uma das mãos sobre as dela.
– Vim. Estou destruído. Mais cinco minutos daquela conversa e eu ia ligar para minha mãe pedindo para me buscar.
Ela riu contra minhas costas.
– Tadinho. O poderoso Jacob Black levou uma bronca do meu pai e precisou fugir para a varanda.
– Seu pai não me deu uma bronca.
– Não?
– Tivemos uma conversa entre dois homens adultos.
– Isso é uma maneira muito elegante de dizer que ele mandou você tomar cuidado com a filhinha dele.
Virei lentamente dentro dos braços dela.
– Princesa, se seu pai tivesse tentado me dar uma bronca, você estaria ouvindo dois homens discutindo daqui até Seattle.
– Prometeu que ia se comportar.
– E me comportei. Estou começando a achar que mereço algum tipo de recompensa por isso.
Renesmee ergueu as sobrancelhas.
– Você passou meia hora sem ameaçar meu pai. Quer uma medalha?
– Estava pensando em uma recompensa que envolvesse menos roupa.
Ela abriu a boca, indignada, embora o sorriso já estivesse aparecendo.
– Estamos na casa dos meus pais.
– Eu sei onde estamos. Ainda não fiquei senil.
– E minha filha está lá dentro.
– Também sei.
– Minha família inteira está lá dentro.
– Continua piorando minha proposta.
Ela me deu um tapa leve no peito.
– Você não presta.
Segurei sua cintura antes que pudesse se afastar e a trouxe contra mim.
– E você acabou de anunciar para sua família que está grávida de um homem que não presta. Agora vai ter que conviver com as consequências.
– Acho que meu pai tentou me avisar exatamente disso.
– Seu pai está começando a gostar de mim. Não estraga.
– Não exagera.
Inclinei o rosto e selei nossos lábios. O beijo começou devagar, muito diferente daqueles que normalmente trocávamos quando estávamos sozinhos. Passei uma das mãos pelas costas dela enquanto a outra permaneceu em sua cintura, tomando cuidado para não apertá-la. Desde o hospital, aquele cuidado tinha se tornado automático. Renesmee percebebia e reclamava que eu a tratava como se pudesse quebrar. Eu dizia que ela tinha levado um tiro havia quinze dias e que poderia reclamar quanto quisesse, porque eu continuaria fazendo exatamente a mesma coisa.
Quando me afastei, ela manteve os braços ao redor do meu pescoço.
– Meu pai falou comigo.
– Imaginei que falaria.
– Ele disse que vocês conversaram.
– Essa parte também era previsível.
– Disse que talvez tenha julgado você rápido demais.
Sorri.
– Sabia que ele estava começando a gostar de mim.
– Não foi isso que ele disse.
– Foi o suficiente.
Renesmee riu e passou os dedos pela gola da minha camisa.
– O que você disse para ele?
– Algumas coisas.
– Que coisas?
– Coisas de pai.
– Isso esclareceu bastante.
– Não vou contar nossa conversa inteira. Existe um código.
– Desde quando você e meu pai têm um código?
– Desde aproximadamente vinte minutos atrás.
Ela balançou a cabeça, divertida, e depois me observou por alguns segundos.
– Obrigada.
Franzi a testa.
– Pelo quê?
– Por conversar com ele em vez de simplesmente ficar com raiva. Eu sei que algumas coisas que ele falou me magoaram, mas também sei de onde vieram. Meu pai ficou assustado depois do Ethan. Acho que uma parte dele acredita que falhou comigo porque não percebeu antes.
– Ele não falhou.
– Eu sei.
– E você também não.
Renesmee ficou quieta.
Passei o polegar pelo rosto dela.
– Fitzgerald enganou todo mundo durante anos. A culpa é dele. Não carrega a merda que aquele homem fez como se fosse uma consequência de você ter escolhido errado.
Ela assentiu e se aproximou novamente, apoiando a cabeça no meu peito. Permanecemos daquele jeito por algum tempo. Minha mão deslizava lentamente pelos cabelos dela enquanto eu voltava a olhar para a noite.
Foi Renesmee quem quebrou o silêncio.
– Então era isso que você estava fazendo aqui?
– Isso o quê?
Ela levantou o rosto.
– Olhando para a noite.
– Sim.
Um sorriso apareceu lentamente em seus lábios.
– Que romântico.
Olhei para ela.
– Não começa.
– Jacob Black sozinho numa varanda, olhando as árvores, refletindo sobre a vida depois de uma conversa profunda com o pai da mulher que ama. Isso está muito romântico.
– Você conseguiu estragar completamente o momento.
– Eu estou gostando desse novo Jacob.
– Não existe novo Jacob.
– Existe, sim. Ele dá vinho caro para sogro, conversa sobre sentimentos, beija testa, olha para estrelas...
– Eu não estava olhando para estrela nenhuma.
– Estava contemplando a noite.
– Eu estava pensando.
– Pior ainda.
Revirei os olhos, mas ela continuava sorrindo. Eu poderia ter respondido com outra provocação. Normalmente faria isso. Só que naquele instante lembrei da decisão que tinha tomado horas antes, ainda em Seattle. Uma decisão que começara a se formar muito antes, embora eu tivesse levado tempo demais para admitir.
Olhei para Renesmee e fiquei sério.
Ela percebeu imediatamente.
– O que foi?
Passei os dedos pelo rosto dela e afastei uma mecha de cabelo.
– Ultimamente tenho sido um monte de coisas que nunca fui.
– Isso parece perigoso.
– É culpa sua.
– Minha?
– Sua. Alguma merda você fez comigo.
Ela começou a rir.
– Eu fiz um feitiço?
– Só pode. Antes de você aparecer eu tinha uma vida perfeitamente organizada.
– Você tinha uma vida perfeitamente mal-humorada.
– Funcionava.
– E agora?
– Agora eu tenho você invadindo minha casa, minha cama, minha agenda, minha cabeça, minha família e até minhas reuniões quando resolve mandar mensagem.
Ela riu mais alto.
– Que declaração linda.
– Ainda não terminei.
Renesmee ficou quieta.
Olhei para ela durante alguns segundos e senti aquela estranha tensão que eu normalmente associava a negociações de centenas de milhões de dólares. Aquilo me irritou. Eu tinha enfrentado homens que tentaram destruir minha empresa sem sentir metade daquele nervosismo, mas estava numa varanda em Forks diante de uma mulher de vinte e seis anos e precisava controlar a porra da respiração.
– Apesar desse feitiço que você jogou, acho que não vou me arrepender do que pretendo fazer agora.
O sorriso dela diminuiu. – O que você pretende fazer?
Afastei minhas mãos de sua cintura. Renesmee franziu a testa quando dei um passo para trás.
– Jake?
– Espera.
– Você está me assustando.
– Eu estou tentando fazer uma coisa direito uma vez na vida. Colabora.
Ela ficou em silêncio.
Enfiei a mão no bolso interno do paletó e toquei a pequena caixa que carregava desde que saíra de Seattle.
Quando aquelas palavras saíram da minha boca, não tinham sido uma provocação inventada para atingir Fitzgerald. Eu já sabia. Só ainda não tinha contado a ela.
– Eu passei boa parte da minha vida acreditando que sabia exatamente o que queria – comecei, mantendo os olhos nos dela. – Construí uma empresa, ganhei dinheiro demais, perdi pessoas, briguei com meu pai, vi minha filha crescer e consegui convencer a mim mesmo de que tinha chegado numa idade em que não precisava de mais ninguém bagunçando minha vida.
Renesmee não disse nada.
– Aí apareceu você.
Ela sorriu discretamente.
– Uma ruiva teimosa, falida, furiosa com o mundo, mãe de uma menina que conseguiu me enrolar em menos tempo do que alguns executivos levam para conseguir uma reunião comigo.
– Jacob...
– Não interrompe. Essa merda já está difícil.
Ela levou a mão à boca para conter uma risada. – Desculpa.
– Você entrou na minha vida numa situação completamente errada. Eu olhei para você e achei que era desejo. Era simples. Eu queria você na minha cama e acreditava que, depois disso, passaria.
Inclinei a cabeça. – Claramente fiz um cálculo de merda.
Os olhos dela começaram a brilhar.
– Porque passou uma noite, depois outra, e quanto mais eu tinha você, mais queria. Só que deixou de ser sobre cama antes que eu percebesse. Comecei a querer saber se tinha comido, se estava segura, se tinha dormido. Comecei a me importar com sua filha, com sua loja, com seus problemas. Quando alguém ameaçava você, eu queria destruir. Quando você sorria para mim, meu dia ficava menos insuportável. Quando quase perdi você naquela doceria, eu entendi uma coisa que passei meses tentando não admitir.
Minha voz ficou mais baixa.
– Eu não sei mais construir uma vida em que você não esteja.
As lágrimas apareceram nos olhos dela.
– Jake...
– Eu amo você, Renesmee. Amo sua teimosia, sua boca que não fecha nem quando deveria, o jeito como enfrenta todo mundo, inclusive eu. Amo você como mãe. Amo a mulher que construiu tudo de novo depois de um filho da puta tentar tirar tudo dela. Amo até quando você me irrita, o que acontece numa frequência preocupante.
Ela riu entre as lágrimas.
– Isso continua parecendo reclamação.
– É o máximo de romantismo que você vai conseguir de mim. Aproveita.
Passei a mão pelo bolso e retirei a pequena caixa.
O sorriso desapareceu do rosto dela.
Seus olhos desceram imediatamente para minha mão.
– Jacob...
– Eu tenho quase cinquenta anos, princesa. Não estou interessado em namoro sem destino, não quero brincar de ver no que vai dar e definitivamente não quero passar os próximos anos fingindo que preciso de mais tempo para descobrir uma coisa que já sei.
Abri a caixa.
A aliança brilhou sob a luz fraca da varanda.
Renesmee levou as duas mãos à boca.
E então fiz uma coisa que pouquíssimas pessoas naquele mundo acreditariam se alguém contasse.
Ajoelhei diante dela.
Olhei para cima e encontrei aqueles olhos completamente arregalados, já cheios de lágrimas.
– Eu não prometo ser fácil. Você me conhece bem demais para acreditar nessa mentira. Vou continuar sendo mandão, ciumento, complicado e provavelmente vou te deixar puta muitas vezes. Mas prometo que você nunca vai precisar duvidar de onde eu estou, de quem eu escolhi ou de onde é minha casa.
Peguei a aliança entre os dedos.
– Minha casa é onde você estiver.
Respirei fundo e deixei escapar um sorriso.
– Então vamos terminar logo com essa humilhação antes que alguém lá dentro apareça e tire uma foto de Jacob Black de joelhos.
Ela começou a rir enquanto as lágrimas desciam por seu rosto.
Ergui a aliança.
– Renesmee Cullen, aceita casar comigo?
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