Amor não era o plano

44 Audiência ( parte III)


Renesmee


Os trinta minutos de recesso passaram devagar demais. Eu permaneci sentada entre J. Jenks e Embry enquanto Paul e Sam discutiam em voz baixa alguns pontos da documentação apresentada. Ninguém parecia disposto a fazer previsões sobre o que Alec Volturi faria quando retornasse, e talvez aquilo fosse o mais angustiante. Eu sabia que tínhamos abalado a versão de Ethan. Sabia também que Alec tinha saído daquela sala claramente insatisfeito com o próprio cliente, mas nenhuma dessas coisas significava que ele desistiria do processo. Pelo contrário. J. Jenks havia sido direto ao dizer que um advogado como Volturi não construiria uma reputação daquela dimensão sem saber mudar de estratégia quando uma tese deixasse de funcionar.

Quando a porta finalmente se abriu, meus olhos foram imediatamente para Ethan.

Ele entrou primeiro e bastou observar seu rosto para entender que a conversa com Alec não tinha sido agradável. A segurança com que chegara naquela manhã tinha desaparecido. A mandíbula permanecia rígida, o semblante fechado e ele evitava olhar diretamente para o advogado que caminhava alguns passos atrás. Alec, ao contrário, parecia perfeitamente recomposto. Trazia a mesma pasta em uma das mãos e uma expressão profissional que não revelava o que tinha acontecido durante o intervalo, embora alguma coisa tivesse mudado. Ele já não caminhava ao lado de Ethan como se os dois estivessem completamente alinhados. Havia uma distância discreta entre advogado e cliente que não existia antes.

Embry percebeu também e se inclinou levemente na minha direção.

– A conversa não foi amistosa.

– Dá para perceber.

– Não se anime ainda. Alec não voltou para perder.

Antes que eu respondesse, a juíza retornou e todos se levantaram. Depois das formalidades, fomos autorizados a nos sentar novamente e o silêncio tomou conta da sala. Meu coração batia com tanta força que eu conseguia senti-lo no peito quando a magistrada consultou algumas anotações e dirigiu a palavra à parte requerente.

– Doutor Volturi, foi concedido o período solicitado para que pudesse analisar os novos documentos e conversar com seu cliente. Está em condições de prosseguir?

Alec se levantou e ajeitou o paletó antes de responder. – Sim, Excelência. Agradeço pelo recesso. Algumas das informações apresentadas pela defesa exigiram esclarecimentos adicionais e, considerando o que foi discutido, entendo que é necessário delimitar de maneira mais precisa aquilo que efetivamente deve ser decidido nesta audiência.

Aquilo chamou imediatamente minha atenção.

Alec caminhou alguns passos para a frente e continuou, mantendo a voz firme, mas sem repetir a agressividade da argumentação inicial. – Foram apresentadas alegações graves relacionadas à aquisição e posterior transferência de patrimônio, eventual abuso de confiança entre as partes e circunstâncias da relação afetiva mantida pelo meu cliente com a senhora Cullen. Se houver irregularidade documental, fraude patrimonial, apropriação indevida ou qualquer outra conduta civil ou penalmente relevante, evidentemente caberá aos órgãos competentes e às vias processuais adequadas analisá-la. Se comprovada responsabilidade do senhor Hale, ele deverá responder por seus atos como qualquer cidadão.

Olhei imediatamente para Ethan.

Ele permaneceu imóvel, mas a expressão que lançou ao próprio advogado deixou claro que não tinha gostado daquela frase.

Alec não pareceu se importar.

– Contudo, Excelência, esta não é uma ação patrimonial e tampouco um processo destinado a julgar moralmente o relacionamento entre os genitores. Estamos diante de uma criança. E, por mais graves que possam ser os erros cometidos pelo pai ou pela mãe na esfera privada, a decisão aqui precisa permanecer orientada pelo interesse de Isabella, pela preservação de seus vínculos afetivos e por uma estrutura que reduza os efeitos do conflito entre os adultos.

J. Jenks cruzou as mãos diante de si e passou a ouvi-lo com atenção redobrada.

Alec voltou brevemente os olhos para Ethan antes de prosseguir. – Meu cliente ama a filha. Existe vínculo afetivo entre eles, convivência desde o nascimento e reconhecimento da figura paterna pela própria criança. A defesa demonstrou, de forma convincente, que a senhora Cullen também é uma referência central e que exerceu os cuidados cotidianos durante grande parte da vida de Isabella. Diante desse contexto, insistir numa solução que concentre integralmente a guarda em apenas um dos genitores pode deixar de atender ao que realmente importa.

Meu cenho se franziu.

Aquilo não era o que ele tinha defendido antes do recesso.

Olhei para Embry.

– O que ele está fazendo? – sussurrei.

Embry não desviou os olhos de Alec. – Mudando de terreno. Escute.

Voltei minha atenção para a frente.

Alec continuou. – Não se pode ignorar que um afastamento substancial de Isabella de qualquer um dos genitores, seja da mãe ou do pai, pode produzir impacto emocional relevante. A criança já reconhece ambos como referências afetivas. Meu cliente não pretende eliminar os direitos maternos, e após a análise dos elementos trazidos hoje, entendemos que uma solução excessivamente adversarial apenas prolongaria um conflito do qual Isabella deveria ser preservada.

A juíza fez uma anotação e levantou os olhos. – Doutor Volturi, o senhor está modificando o pedido originário de guarda integral?

Alec não hesitou. – Estou propondo uma composição diversa, Excelência. Não porque meu cliente tenha deixado de desejar participação ampla na vida da filha, mas porque os elementos discutidos nesta audiência demonstram que talvez seja possível alcançar esse objetivo sem afastar a figura materna.

Ethan virou levemente o rosto na direção dele.

Alec ignorou.

– O senhor pode especificar a proposta? – perguntou a juíza.

– Certamente. A parte requerente propõe a instituição de guarda compartilhada, com regime de convivência claramente definido pelo juízo e obrigações recíprocas que deverão ser observadas pelos dois genitores. Isabella manteria contato contínuo com ambos, evitando-se que o conflito afetivo entre os adultos interfira na relação da criança com qualquer um deles.

Meu coração começou a acelerar.

Guarda compartilhada.

Eu tinha entrado naquela sala acreditando que poderia perder minha filha.

Agora Alec Volturi falava em compartilhar a guarda.

Ainda assim, alguma coisa na proposta me deixava inquieta.

Alec prosseguiu. – Também reconhecemos que a senhora Cullen atravessa um período de reorganização profissional e residencial. Isso, por si só, não significa incapacidade materna, mas é uma circunstância objetiva que pode ser melhorada em benefício da própria criança. Meu cliente está disposto a contribuir financeiramente para essa reorganização, inclusive com despesas relacionadas à moradia de Isabella, educação, assistência médica e demais necessidades.

Minha expressão endureceu.

Aquilo eu conhecia.

Era a mesma lógica da casa.

A mesma oferta de Ethan disfarçada de cuidado.

Inclinei-me imediatamente para J. Jenks.

– Eu não quero nada dele.

Jenks ergueu uma das mãos discretamente, pedindo que eu esperasse.

A juíza também percebeu a mudança na proposta. – Quando o senhor menciona contribuição para a reorganização financeira da genitora, está condicionando a guarda compartilhada à aceitação de assistência financeira fornecida pelo pai?

– Não, Excelência. – Alec respondeu imediatamente. – São questões independentes. O dever de contribuir para o sustento da filha decorre da própria parentalidade e deverá ser fixado de forma proporcional às possibilidades de cada genitor. Não estamos propondo que a senhora Cullen aceite patrimônio, residência ou qualquer benefício pessoal oferecido pelo senhor Hale como condição para exercer a guarda. A ideia é que as necessidades da criança sejam divididas adequadamente, inclusive enquanto a mãe reconstrói sua estrutura profissional.

A resposta foi tão cuidadosa que compreendi imediatamente o que tinha acontecido durante o recesso.

Alec tinha separado Ethan da própria estratégia.

Ele já não estava defendendo a proposta da casa, os imóveis ou a versão de que eu era financeiramente incapaz. Estava construindo uma saída que preservasse o vínculo de Ethan com Belinha sem precisar sustentar as partes mais frágeis da história do cliente.

Alec voltou-se para a juíza. – Dessa forma, a proposta seria uma guarda compartilhada efetiva, com residência de referência a ser definida por Vossa Excelência conforme os elementos constantes dos autos e um calendário objetivo de convivência. Dias, períodos de férias, feriados, responsabilidades escolares e decisões médicas poderiam ser regulamentados de maneira expressa, evitando que qualquer uma das partes altere unilateralmente a rotina da criança. O senhor Hale se comprometeria a cumprir integralmente essas determinações e espera-se o mesmo da senhora Cullen.

A juíza permaneceu alguns segundos examinando suas anotações.

– Doutor Volturi, preciso esclarecer um ponto. A guarda compartilhada exige um mínimo de cooperação entre os genitores. O que ouvi hoje demonstra uma relação profundamente deteriorada. Por qual motivo o senhor entende que esse modelo seria viável?

Alec respondeu com a mesma calma. – Porque cooperação parental não exige reconciliação afetiva, Excelência. Exige limites objetivos. Em situações de alto conflito, quanto mais detalhada for a regulamentação, menor o espaço para decisões arbitrárias ou utilização da criança como instrumento de disputa. Se as partes não conseguem estabelecer espontaneamente esses limites, o juízo pode fazê-lo.

A juíza assentiu discretamente.

– E a parte requerente desistiria do pedido de guarda unilateral?

Alec olhou para Ethan pela primeira vez desde que começara aquela nova manifestação.

O olhar entre os dois durou pouco, mas foi suficiente para eu perceber a resistência no rosto de Ethan.

– Sim, Excelência – respondeu Alec. – Diante da composição proposta, meu cliente concorda em substituir o pedido originário por guarda compartilhada, desde que haja regulamentação formal e garantia de convivência paterna.

Ethan apertou os lábios.

Aquilo definitivamente não tinha sido ideia dele.

Meu estômago se contraiu quando percebi outra coisa. Alec estava tentando salvar o melhor resultado possível para Ethan, mas também estava protegendo a própria credibilidade. Depois de descobrir que seu cliente havia escondido informações, ele não estava disposto a continuar defendendo uma história que poderia desmoronar completamente diante da juíza.

A magistrada tomou mais algumas notas antes de erguer o rosto para nossa mesa.

– Doutor Jenks, a parte requerente apresentou uma proposta substancialmente diferente do pedido inicial. Gostaria de ouvir a posição da defesa.

J. Jenks levantou-se, mas não respondeu imediatamente.

– Excelência, considerando a alteração significativa da proposta e o fato de estarmos discutindo uma decisão que afetará diretamente a rotina de uma criança, não considero responsável manifestar aceitação ou rejeição sem antes conversar reservadamente com minha cliente e com a equipe que a assessora.

A juíza assentiu. – Quanto tempo necessita?

Jenks olhou rapidamente para mim antes de responder. – Trinta minutos serão suficientes.

– Está concedido. – A juíza fechou a pasta diante dela. – A audiência fica suspensa por trinta minutos. Ao retornarmos, a defesa deverá informar se existe possibilidade de composição ou se prosseguiremos com a instrução e posterior decisão judicial.

Ela se levantou e todos fizemos o mesmo.

Assim que saiu, virei imediatamente para Jenks.

– O que exatamente acabou de acontecer?

Ele juntou os documentos com calma antes de me responder. – A primeira estratégia deles fracassou. Alec percebeu isso e trouxe uma proposta que pode impedir uma derrota completa do cliente.

Paul já se levantava ao nosso lado. – E também evita que a juíza precise decidir agora se entrega guarda integral para um homem que acabou de ser pego em várias contradições.

Olhei para Ethan. Ele discutia com Alec em voz baixa no outro lado da sala.

– Ele não quer guarda compartilhada.

Sam acompanhou meu olhar. – Não parece.

Embry fechou a pasta e se aproximou de mim. – Mas neste momento isso importa menos do que parece. Alec está tentando colocar uma solução juridicamente defensável na mesa. O que Ethan queria quando entrou aqui e o que ele consegue obter agora são duas coisas muito diferentes.

Voltei os olhos para Jenks.

– E o que nós fazemos?

Ele respirou fundo e indicou a porta da sala reservada que nos tinha sido disponibilizada.

– Agora nós discutimos se essa proposta protege você e, principalmente, Belinha. Não aceite por medo e não rejeite por raiva. Vamos olhar cada consequência antes de responder.

Assenti, ainda tentando entender a dimensão da mudança.

Pouco mais de duas horas antes, eu tinha entrado naquele tribunal com setenta por cento de chance de perder minha filha.

Agora o advogado de Ethan tinha acabado de retirar da mesa o pedido de guarda integral.

Aquilo deveria ter me deixado aliviada.

E deixou.

Mas, enquanto seguia Jenks e os outros para a sala reservada, percebi que meu medo ainda não tinha desaparecido.

Porque guarda compartilhada significava que Ethan continuaria fazendo parte da vida de Belinha.

E depois de tudo que eu tinha descoberto sobre ele, eu já não sabia exatamente até onde aquele homem seria capaz de ir para continuar fazendo parte da minha.


Renesmee

Assim que entramos na sala reservada, senti toda a tensão que tinha conseguido controlar durante a audiência voltar de uma vez. J. Jenks fechou a porta atrás de nós, Paul deixou a pasta sobre a mesa e Sam puxou uma cadeira para perto, enquanto Embry permaneceu em pé por alguns segundos antes de se aproximar. Eu não queria sentar. Tinha a sensação de que, se ficasse parada, conseguiria pensar melhor, mas a verdade era que minha cabeça estava cheia demais para qualquer raciocínio claro. Guarda compartilhada. A expressão parecia menos assustadora do que guarda integral, mas ainda significava Ethan com espaço garantido na vida da minha filha, com dias definidos, decisões divididas e uma presença que eu já não sabia se conseguiria tolerar sem sentir medo.

– Eu não quero aceitar isso – falei antes que qualquer um começasse. Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia por dentro. – Não depois de tudo que ele fez. Não depois de tirar minha casa, minha loja e usar exatamente isso para tentar me arrancar Belinha. Agora ele recua porque percebeu que a versão dele começou a desmoronar e eu tenho que aceitar como se fosse uma solução razoável?

Jenks não reagiu com irritação. Sentou diante de mim e abriu a pasta com calma, como se já esperasse aquela resposta.

– Você não tem obrigação de gostar da proposta, Renesmee. Mas precisa separar aquilo que deseja daquilo que juridicamente é mais seguro neste momento. Mesmo que recusássemos a composição e conseguíssemos uma decisão favorável de guarda unilateral, a juíza não afastaria Ethan da filha sem uma razão muito mais grave e devidamente comprovada. Ele continuaria tendo direito de convivência.

Cruzei os braços e senti meu peito apertar.

– Então qual é a diferença? Se ele continuar tendo acesso à Belinha de qualquer forma, eu continuo exposta ao mesmo problema.

Paul se aproximou da mesa e respondeu com objetividade.

– A diferença é que agora conseguimos tirar da mesa o pedido de guarda integral. Isso não é pequeno. Ethan entrou naquela sala querendo trazer Belinha para Seattle e deixar você numa posição secundária. Depois das provas, das contradições e da mudança de postura de Alec, essa possibilidade deixou de ser a estratégia principal. Aceitar uma guarda compartilhada regulamentada evita que ele saia daqui com uma vitória maior e nos dá tempo para trabalhar os outros processos.

Olhei para Sam.

– E se ele usar essa guarda para continuar me pressionando?

Sam assentiu devagar, reconhecendo a preocupação.

– Ele pode tentar. A diferença é que, com regras claras, qualquer descumprimento dele passa a ser documentado. Horários, decisões médicas, escola, períodos de convivência e qualquer tentativa de usar Belinha fora do que for determinado poderão ser levados ao processo. Hoje nós ainda estamos reagindo ao que Ethan fez. Depois dessa audiência, podemos começar a construir um histórico formal do comportamento dele.

Embry completou, num tom sério.

– E não vamos ficar apenas nisso. A questão dos imóveis não termina hoje. Se os documentos confirmarem fraude ou abuso de confiança, haverá medidas civis e possivelmente outras consequências. Se Ethan for responsabilizado por isso, essa informação também terá peso numa futura reavaliação da guarda.

Senti um arrepio subir pelos braços.

– Vocês acham que ele pode ser condenado?

Jenks respondeu com cautela.

– Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa. O que temos são indícios relevantes e documentação suficiente para justificar investigação e ação própria. Mas, se ficar comprovado que ele manipulou patrimônio, criou artificialmente sua instabilidade financeira e depois tentou usar essa mesma instabilidade para obter vantagem na guarda, isso será muito grave. Não apenas patrimonialmente, mas também na avaliação da capacidade dele de agir no melhor interesse da filha.

Olhei para ele sem desviar.

– E a juíza pode mudar a guarda depois?

– Pode reavaliar. Guarda não é uma decisão imutável. Se surgirem fatos novos relevantes, se houver descumprimento das regras, manipulação da criança, risco emocional ou qualquer conduta que demonstre prejuízo ao bem-estar de Isabella, podemos pedir revisão.

Passei a mão pela testa e caminhei até a pequena janela da sala. Eu sabia que eles estavam sendo racionais. Era justamente isso que me irritava. Eu queria uma resposta que resolvesse tudo de uma vez. Queria sair dali com Belinha inteiramente protegida de Ethan e com uma ordem dizendo que ele nunca mais poderia usar minha filha para chegar até mim. Só que aquela solução simplesmente não existia.

– Eu tenho medo de estar entregando uma arma para ele – falei ainda de costas. – Ethan conhece Belinha. Sabe o quanto ela o ama. Se a guarda for compartilhada, ele vai usar cada oportunidade para entrar de novo na minha vida.

Sam respondeu sem elevar a voz.

– Então nós fazemos o oposto do que ele espera. Em vez de reagir emocionalmente, transformamos cada contato em algo regulamentado. Nada de acordo informal, nada de mudanças de última hora porque ele decidiu, nada de condições pessoais para você. Tudo passa a ter regra e prova. Se ele cruzar a linha, teremos como demonstrar.

Voltei a encará-los.

– Isso parece muito simples quando vocês falam.

Paul soltou uma respiração curta.

– Não é simples. Só é mais seguro do que sair daqui apostando numa decisão que pode nos devolver aos setenta por cento.

Aquilo me atingiu.

Setenta por cento.

Jenks percebeu e se inclinou um pouco para a frente.

– Quando você entrou naquela sala esta manhã, Renesmee, nós estimávamos aproximadamente trinta por cento de chance de manter a situação como você queria. Depois da primeira hora de audiência, esse número mudou substancialmente. Não porque tivemos sorte, mas porque você respondeu bem, Ethan se contradisse e as provas enfraqueceram a narrativa dele. Neste momento, temos uma posição muito mais equilibrada. Talvez cinquenta por cento, talvez um pouco melhor. Mas continuar a instrução significa aceitar o risco de a juíza decidir sozinha.

– E aceitar a proposta significa o quê?

– Significa garantir que você não perde a filha hoje e preservar espaço jurídico para revisar a situação depois, com mais provas. Não é a solução ideal. É uma solução estratégica.

Fechei os olhos por alguns segundos.

Eu odiava aquela palavra.

Estratégia.

Ethan tinha usado estratégia para entrar na minha vida, controlar meu patrimônio e depois tentar me recuperar pela força. Agora eu precisava aprender a pensar da mesma maneira para proteger Belinha.

– Eu não quero dinheiro dele – falei quando abri os olhos. – Nem casa, nem ajuda para a loja, nem qualquer outra coisa que ele possa tentar usar como argumento depois.

Jenks assentiu imediatamente.

– Isso pode ser expressamente separado do acordo. As obrigações dele serão apenas aquelas relacionadas à filha e definidas judicialmente. Nada de benefício pessoal para você, nada de residência oferecida por ele e nenhuma condição fora do que for fixado.

– E quero que a residência principal continue sendo comigo.

Paul olhou para Jenks.

– Isso precisa estar na contraproposta.

Jenks assentiu.

– Concordo. Guarda compartilhada não significa necessariamente alternância igual de residência. Podemos defender que a referência principal permaneça com você, considerando a rotina escolar, o vínculo cotidiano e o fato de que Belinha sempre viveu sob seus cuidados.

Meu peito relaxou um pouco.

– Então eu aceito se isso ficar claro.

Sam foi direto.

– Também vamos exigir comunicação formal sobre qualquer mudança de rotina, proibição de retirada da criança para outra cidade sem aviso e regras claras sobre escola, saúde e períodos de convivência.

– Quero tudo por escrito.

– Vai estar.

Olhei para os quatro homens e senti uma mistura estranha de alívio e frustração. Eu não tinha vencido. Também não tinha perdido. Talvez aquilo fosse o mais difícil de aceitar. Depois de semanas vivendo entre extremos, eu queria sair dali com uma resposta definitiva.

Não teria.

Respirei fundo.

– Certo. Aceitamos.

Jenks observou meu rosto.

– Tem certeza?

– Não. – Soltei uma pequena risada amarga. – Mas acho que é a primeira vez em semanas que posso escolher entre duas opções e nenhuma significa perder minha filha hoje. Então vamos com a menos ruim.

Paul assentiu, satisfeito.

– Essa é uma decisão sensata.

– Não se acostume.

Embry soltou um sorriso discreto, e a tensão na sala diminuiu apenas o suficiente para que eu conseguisse respirar melhor.

Quando os trinta minutos terminaram, retornamos à sala de audiência. Ethan e Alec já estavam em seus lugares. Ethan me olhou imediatamente, tentando descobrir pela minha expressão qual decisão havíamos tomado, mas eu não lhe dei nada. Sentei ao lado de Jenks, organizei as mãos sobre o colo e mantive os olhos na frente.

A juíza entrou pouco depois e retomou a audiência. Após confirmar que ambas as partes estavam presentes, voltou-se para nossa mesa.

– Doutor Jenks, a defesa teve oportunidade de analisar a proposta apresentada?

Jenks se levantou.

Meu coração bateu mais forte.

– Sim, Excelência. Após conversar com minha cliente e considerar os termos apresentados, a defesa aceita a proposta de guarda compartilhada, desde que alguns pontos relacionados à residência de referência, calendário de convivência e obrigações parentais sejam formalmente definidos por este juízo.

Do outro lado da sala, Ethan permaneceu imóvel.

Eu também.