Notas iniciais
Desta vez, não tinha forças, nem vontade. Padecia. Estava vazio. Fechou-se em dor e tristeza. Recolheu e guardou tudo lá dentro, bem fundo, onde só ele poderia tocar e sentir.

Capítulo XII

Sentiu como se milhões de facas fossem enterradas em seu corpo ao mesmo tempo, e depois novamente, e de novo, ali tremendo, ajoelhado, com a face pregada na neve negra, às mãos enterradas fundo no chão onde a pouco ela estivera lhe fitando.

Num arranque, seu corpo se retesou e um profundo urro de dor e desalento explodiu de sua garganta, fruto da mais profunda agonia em seu coração.

Quando sua voz já não conseguia exprimir o tamanho de sua angústia, seu corpo começou a liberar grandes ondas de sofrimento atingindo todos os vampiros que, respeitosamente, se mantinham à distância.

Abraçando a si mesmo ele permaneceu por um longo tempo se embalando, o olhar perdido no contraste entre o negro e o branco do chão, a pequena espada ao seu lado. A lâmina brilhando levemente.

Como eles, uma testemunha silenciosa do suícidio de sua dona.

Diferente do assassinato de sua esposa, perder Nagisa parecia mais cruel e definitivo. Porque mesmo tendo se apaixonado por Welsie, sua primeira shellan lhe fora destinada. A Nagisa, seu coração escolheu. Contra tudo, amá-la tinha sido sua opção, seu desejo e tão mais por isso perdê-la sagrava e doía, doía muito.

A certeza de que Welsie estava no Fade, livre e em paz, um consolo do qual tirara forças para voltar a se erguer. Mas a Nagisa não. Seu destino pela eternidade seria sofrer os horrores do mal no Dhund.

Padecer e sofrer... Padecer e sofrer em eterna tortura... Sem escolhas, sem redenção, sem salvação. Reconhecer que ela escolhera se entregar aquela existência para libertá-lo, e nada poder perpetrar para salvá-la, fazia com que as feridas ainda a pouco cicatrizadas se rompessem em chagas ainda maiores e mais dolorosas.

Com o olhar confuso, não percebia a triste figura alquebrada que fazia rente ao chão. As feridas sangrando, as roupas sujas, as adagas esquecidas. Não percebia o silêncio, nem nada ou alguém a sua volta.

Desta vez, não tinha forças, nem vontade. Padecia. Estava vazio. Fechou-se em dor e tristeza. Recolheu e guardou tudo lá dentro, bem fundo, onde só ele poderia tocar e sentir.

Quando John escolheu dar o primeiro movimento em sua direção, todos notaram o vento mudar, o ar se tornar pesado e opressivo, e poucos metros à frente do vampiro prostrado, as sombras convergirem em uma mesma direção, se unindo para criar uma forma humana repleta de uma maldade que lhes fez gelar o sangue.

O mal, o asqueroso ser que surgiu e imóvel ficou a observar Tohr, alheio a todos eles, era um velho conhecido da Irmandade e seu maior inimigo.

Butch foi o primeiro a reconhecer o Ômega.

Quando este avançou deslizando em direção a Tohr, todos já estavam com as armas em punho, e V retirou sua luva, a mão brilhando poderosa. Entretanto, quando tentaram se aproximar, algo como uma parede invisível lhes barrou o caminho.

Atônitos perceberam que o amigo estava no centro de algo como o Mhis, porém sólido e intransponível.

Só podiam ouvir e observar.

Ao se dar conta do Ômega a sua frente, a mão do vampiro se fechou na espada de Nagisa. Procurou reunir forças para se erguer do chão e lutar, mas estava fraco demais.

Permaneceu então esperando, sentindo a angústia dos irmãos que, de alguma forma, não conseguiam se aproximar para auxiliá-lo.

O ser sob o capuz, escondendo suas formas na escuridão das dobras do tecido alvo, o olhava sem encará-lo, deslizando de um lado para o outro, numa atitude que parecia tão ansiosa, que mesmo sem conhecer seus hábitos, Tohr poderia afirmar que estava testemunhando algo pouco natural nele.

— Qual atitude tomar? — Murmurou em uma voz fria, gelando a alma do vampiro. — Um ser tão insignificante... Não esperava realmente.

O chão frio queimava como brasas perto da atmosfera gelada ao redor do Ômega. O cheiro que este exalava não era realmente de algo morto, findo. Remetia mais a uma eterna putrefação... Corrupção... E algo além, tão tênue que o vampiro reconheceu, mas não soube definir.

De repente o ser parou e vagarosamente fixou sua atenção no vampiro o olhando de frente.

Tohr poderia jurar ter visto um leve estremecimento no Ômega, tão fugaz, que teria passado despercebido se ele não estivesse tão perto.

Devagar a criatura estendeu o braço em sua direção de modo a tocá-lo. Repugnado o vampiro jogou o corpo para trás fugindo ao contato, fazendo com que o Ômega se recolhesse e se afastasse.

— Sabe o que me trouxe aqui vampiro? — Perguntou com sua voz sibilante, sem esperar que Tohr realmente lhe respondesse.

— Há pouco, algo que ofertei retornou ao meu poder. E como todo o pagamento aos empréstimos que proporciono, este veio repleto com meus lucros.

Ergueu a cabeça e olhou em torno, para o campo da batalha com todo aquele sangue negro fresco ainda aviltando o solo.

— Sim, muitos débitos foram saldados hoje. Contudo, um em especial deve lhe interessar, pois foi a única de seu gênero a quem ofereci meu irresistível acordo.

— Nagisa!

— Sim. Um belo espécime da raça humana, mesmo sendo uma fêmea. Intensa, não? E forte. Uma das mais fortes que criei até hoje. Até demais, devo reconhecer.

— Maldito!

— Certamente. — Tremeluziu. — O fato, vampiro. É que está humana, cuja alma é e faz parte de mim agora, trouxe inesperadamente consigo algo que não quero... Mas do qual, lamentavelmente, não consegui me desfazer.

Tohr encarou o Ômega sem compreender realmente.

Porque ele estava ali? Poucas foram as vezes que O Mal se apresentou em carne e osso, ou seja lá do que quer que fosse feito, perante os membros da Irmandade. E porque sentia a estranha sensação de que ele estava aqui contra a própria vontade, como se estivesse compelido por algo mais poderoso que seus próprios desejos?

O Ômega aproximou-se um pouco mais ficando à distância de meio metro. O vampiro, a despeito de toda a repugnância natural que o compelia a se afastar o máximo possível, desta vez permaneceu parado encarando o inimigo.

Foi nesse momento que algo emanou do ser a sua frente, sendo atirado com força em sua direção, atingindo o macho como uma lufada cruel, desnorteando os seus sentidos, impregnando suas narinas, sua mente e seu coração

Atônito, reconheceu a sua própria essência de emparelhamento.