Amor e Ódio - sob o fio da espada
13 Sagração
Notas iniciais
Capítulo XIII
Não acreditou. Sua mente não conseguia conceber tamanho horror.
O emparelhamento era a forma mais pura e pessoal de um vampiro demonstrar a todos de sua espécie sua ligação, sua paixão e seu amor pela sua fêmea. Era o indicador indelével e permanente de um pacto firmado que só a morte poderia desfazer. O cheiro que emanava do macho e impregnava a fêmea era uma marca única, pessoal.
Sentir o seu odor no Ômega, mesmo que leve e tênue, era uma afronta e inconcebível.
— Acredite vampiro, isso é muito mais incômodo para mim. — O ente do mal sussurrou aproximando-se mais. — E o pior é sentir... É possuir e não conseguir controlar essa insuportável necessidade de procurar por você, e me preocupar com você... Ter esses agonizantes sentimentos agarrados ao meu núcleo me impelindo... Foi há apenas poucos minutos, mas para mim é muito mais... São séculos.
— Então irmão, o que fará a respeito?
Atrás do Ômega uma luz cintilante brilhava se aproximando. E uma mulher totalmente vestida de negro entrou no seu raio de visão.
A Virgem Escriba flamejava e sua energia afastou a escuridão, a opressão e a barreira que o Ômega erguera ao redor dos dois.
Os vampiros se aproximaram, permanecendo porém, a uma distância razoável dos três sob um olhar da mulher.
— Conhecendo a sua natureza, acredito que pensou que matando o vampiro resolveria o problema. Estou certa?
— Sua perspicácia sempre foi um de seus piores atributos querida irmã.
— No entanto, estou correta nas minhas deduções. — Ela respondeu. — Contudo, acredito que tem tentado, mas não consegue. Não meu irmão, nunca conseguirá levantar um dedo contra este vampiro, enquanto possuir a alma de sua fêmea. E o que é pior, ela o está consumindo. Posso sentir... Está se tornando profundo, tomando você, se tornando parte irremediável de seu cerne.
Desta vez o Ômega não refutou, ou falou, ou se moveu. Estava totalmente concentrado no vampiro. Quando discorreu sua voz possuía o timbre mais atroz que se poderia conceber.
— Sugestões irmã?
— Você sabe qual a única atitude a tomar.
— Certamente não há precedentes. Jamais renunciei a uma alma antes.
— Não será o bastante!
Desta vez as palavras da Virgem Escriba o atingiram. O Ômega voltou-se num relâmpago em direção a irmã, aproximando-se até quase se tocarem.
— Nunca!
— Sua veemência é tocante caro irmão, e seu orgulho a razão para o impasse em que se encontra agora.
A mulher ergueu a mão num gesto de desdém, afastando-se como se o simples pensamento que algo dele pudesse tocá-la a repugnasse.
— Por séculos você se alegrou em infringir a mim a mortificação profunda da perseguição e destruição de meus filhos. Alimentou-se de minha dor. Sinto-me feliz em vê-lo nesse momento.
— Não o farei!
— Você perderá irmão. Sabe que sua renúncia não será o bastante. O contrato que faz com seus servos é de duas vias. Eles se oferecem e tomam. Você toma e dá. Está ligado a cada um deles, preso a cada um deles, assim como estão cativos a você. Reciprocidade. Nem você pode fugir a isso. O que esqueceste ao recrutar a esta humana, é que nenhum de seus selecionados jamais possuiu amor em seus corações.
— Amor? — O tom repugnante e incrédulo ecoou na noite.
Em resposta a mulher se virou erguendo a mão num gesto amplo, criando uma imagem no ar, como uma fina camada que pôde ser visualizada em ambos os lados.
Esta mostrava a lesser na cela, o braço esquerdo acorrentado e o lesser, Sr. T, bem a sua frente.
— Ha!- O riso do lesser brotou da imagem e a sua voz depois soou como se falasse de muito longe. — Mas quando eu vi como lutou pelo vampiro, como uma tigresa, soube que não é como nós. Nunca foi. E por isso tenho certeza que vai sofrer muito em saber que o vão sangrar, humilhar e machucar. Farão tanto mal ao corpo e a alma daquele vampiro, que ele vai chorar e implorar para morrer. E no final, será retalhado como um animal no abatedouro e seus restos mutilados jogados ao sol para que nada reste dele.
A imagem fez um zoom em direção a figura da mulher assim que o lesser se foi e seu desespero atingiu a todos. Suas inúteis tentativas de se livrar da corrente, seus gritos, suas lágrimas, a tornaram tão humana, que até Zsadist lhe devotou um pouco de benevolência.
Mas a sensação de verdadeiro atordoamento os golpeou quando viram a primeira de muitas mordidas que deu para arrancar a mão e se livrar da corrente.
— Vê? Isso é amor. E está em você agora. Para se livrar deste tormento terá que não só renunciar. Terá de devolver. Por que esses sãos meus termos. Eu a quero viva.
Uma exclamação de incredulidade foi lançada em uníssono pelos vampiros na clareira. A lesser havia cravado a lâmina no peito, seu corpo se desintegrara, era a única maneira de destruir um lesser para sempre. Irremediavelmente.
Pelo poderoso não existia forma de que voltasse a vida.
O ódio do Ômega fez um redemoinho ao redor deste, com os flocos de neve do chão tornando o ar mais denso.
De repente sua figura piscou e numa fração de segundo uma jarra em porcelana japonesa, branca com lindos desenhos verde em relevo, surgiu no chão a sua frente.
Não houve explicações, por que todos sabiam o que era e o que continha. A única posse real e verdadeira de um escravo do Ômega, sem exceção, era guardada em potes, e seu antigo dono recebia a incumbência de zelar pelo coração extraído de seu peito,que fora ofertado pelo dom da quase imortalidade.
No pote elegante aos pés do Ômega e de Tohr, jazia o coração de Nagisa.
Lentamente as duas figuras do reino atemporal se aproximaram. A certeza de que se tocariam era tão real como a de que odiariam fazê-lo.
A mão do Ômega erguida e escondida sob a capa branca se tocou com a mão alva e pura da Virgem Escriba, produzindo o som de um estalar de chicote e trovões. A luz cegante fez com que todos virassem ou abaixassem a cabeça.
Não durou mais que um segundo. E quando terminou, o ser do mal tinha sumido e a Virgem Escriba permaneceu.
Todos os olhos foram atraídos para o lugar onde antes estava o pequeno pote, e no qual jazia agora uma mulher nua, com longos cabelos negros que cobriam seu corpo como uma manta.
Estava encolhida como uma bola, tremendo dos pés a cabeça e em seus olhos duas contas do mais profundo verde encaravam a Tohr com incredulidade e emoção.
Tohr se lançou em direção a fêmea, puxando seu corpo para o seu peito incapaz de falar, raciocinar. Beijou-a com paixão quase não acreditando naquele milagre, em sua sorte, em toda a sua felicidade. Ela cheirava a ele e a rosas, estava quente e o retumbar de um coração metralhava seu peito.
— Deus, pensei que nunca mais... — Ela falou antes de sentir os lábios do vampiro tomando os seus novamente.
Os olhos de Tohr procuraram a deusa e esta, sem sorrir, respondeu contrariada sua muda pergunta.
— Há muito que não sabem sobre mim e meu irmão. Não irei contar entretanto. Basta saberem que nunca estamos em acordo, e certas atitudes necessitam de que ambos nos entendamos. Enfim, Tohr, a lei da reciprocidade não foi quebrada. Você perdeu muito meu filho, é justo que tenha alguma felicidade.
Olhou a todos os outros vampiros.
— Não deixem que seus corações se endureçam. Eu aprovo esta união.
Mirou à antiga lesser bem fundo em seus olhos da cor do jade, tão vivos e cheios de paixão pelo macho que a apertava entre os braços fortes, e sorriu.
— Os olhos meus filhos são o espelho da alma.
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