Amor e Ódio - sob o fio da espada
14 Surpresa
Notas iniciais
CAPÍTULO I
O casal estava no canto mais escuro do beco estreito, dois corpos tão unidos, e movendo-se em suaves ondas, que dariam a falsa impressão, a qualquer pessoa, que uma das muitas prostitutas da área ganhava seu pão.
A figura num canto oposto, escondida em sombras ainda mais escuras, sabia que a prostituta estava sendo violada.
Mas não sexualmente.
Naquele momento, seus olhos brilharam na escuridão em expectativa.
Tudo era o momento... Perfeito. Pensou.
A noite era calma e ia alta e, apesar de o bairro formigar entre viciados, meretrizes, cafetões e os consumidores de toda a devassidão que ali poderia ser encontrada, no beco, o silêncio só era cortado pelo leve arfar do casal.
Ela em transe; ele em êxtase.
Foi tão simples se aproximar dos dois, tão fácil, que quase não houve prazer naquela vitória.
Quase!
Quando a figura de negro deu dois golpes certeiros com sua espada wakizashi, rompendo os tendões de Aquiles do homem, este se quedou, emitindo um grito lancinante.
Grito não: uivo.
A mulher, com seus pequenos e maquiados olhos azuis vidrados, deslizou de encontro à parede até o chão. E ali ficou, como uma boneca de cera, o pescoço dilacerado jorrando seu precioso sangue carmesim pelo vestido brilhante.
A figura negra não lhe deu mais que um segundo de sua atenção. Não poderia fazer nada pela mulher. Talvez morresse, talvez não. Um brilho fugaz demonstrou que aquilo possivelmente lhe interessasse, se exterminar o ser aos seus pés não fosse sua missão de vida, seu propósito.
Não levou mais que dez segundos para que sua pequena espada fizesse um belo trabalho no corpo do vampiro. Foram golpes milimétricos em seus braços, pernas, peito e pescoço. Não o estava apenas retalhando... Estava deixando, naquele ser asqueroso, a sua assinatura, seu toque pessoal.
Enquanto o vampiro ainda respirava, agachou-se, todo o corpo em posição de combate, alerta a qualquer eventualidade. Com a mão em riste manteve a pequena espada preparada para o golpe fatal no coração dele.
Os olhos aterrorizados do vampiro civil fixavam sua figura negra, seus cabelos brancos, seu olhar assassino. Não havia piedade naquele olhar, só ódio... De repente, um sorriso fugaz e o vampiro sentiu o coração ser atravessado pela lâmina japonesa.
A figura em negro manteve os olhos fixos nos dele até que as pupilas deste dilatassem e um breve suspiro exalasse de seus lábios. Quando teve certeza de que o corpo sob o seu não era mais que uma casca vazia, ergueu-se.
Uma brisa fresca e suave fez as mechas soltas do cabelo branco ondular sobre seu rosto igualmente pálido. Alerta, sentiu a presença cada vez mais próxima do vampiro membro da Irmandade. Sabia que ele já lhe tinha farejado e ao sangue do vampiro civil. Era seu propósito o tempo inteiro. A vítima a seus pés era um pobre aperitivo em comparação com o prato principal.
Lentamente, embainhou a sua espada japonesa, fixando-se em posição de ataque: pernas afastadas, joelhos flexionados, uma mão sobre o punho da espada, que pedia de seu lado esquerdo.
Tinha sido um golpe de sorte para o que tinha em mente que o vampiro civil tivesse escolhido aquele beco. Os prédios, que o limitava, tinham cerca de oito andares e, a não ser pelas janelas do seu lado direito e a pequena porta da parede ao fundo firmemente trancada, não havia nenhuma saída. Sendo assim, não havia necessidade de deslocar a isca para outro local.
O cenário ideal para uma emboscada.
Seus olhos se mantiveram fixos na entrada do beco. Não porque imaginasse que aquela seria a única forma do vampiro ter acesso a si — os desgraçados poderiam se desmaterializar, malditos fossem todos! — mas, sim, por uma questão de estratégia e comodidade. Afinal, tinha que estar atenta a eventuais humanos e manter os olhos num ponto específico.
Sabia que estava para encarar seu maior desafio em poucos segundos. Nunca lutara contra os vampiros da Irmandade da Adaga Negra, mas já tinha se batido com alguns vampiros civis realmente preparados, que lutaram com garra até último momento.
E, bem... Pensava quase feliz... Havia o elemento surpresa que sempre lhe dava uma pequena e muito bem-vinda vantagem: a arrogância de seu inimigo. A maioria lhe subestimava. Alguns lutaram consigo com desdém até perceberem suas habilidades e serem derrotados.
Sentiu o gigante loiro antes mesmo que ele aparecesse dois metros à sua frente. Aprendera, com a experiência, que antes que os vampiros se materializassem, em um determinado ponto, a área parecia expelir o ar para dar lugar ao corpo.
Física básica afinal.
Foi assim que seus olhos estavam fixos no local exato em que o vampiro apareceu e seu corpo executou com coordenada graça e precisão as correções necessárias para manter-se em certeira posição de defesa.
O vampiro foi uma visão. A roupa de couro preta moldava-se a todos os seus músculos; as adagas cruzadas sobre o peito forte eram mais uma prova de que esse era seu almejado adversário; a frieza e determinação dos olhos azuis só deram lugar, por um momento, à surpresa diante da figura do inimigo; apesar do aroma doce inconfundível, um pouco mais suave que o normal.
Apesar de preparado para a luta, houve um pequeno relaxamento dos músculos fortes de seu adversário, que fizeram o sorriso fugaz voltar ao rosto da figura com a espada.
— Não sabia que a Irmandade Lessening estava admitindo... — Com a destreza que lhe era peculiar, Raghe retirou as adagas do peito e amparou o golpe da espada.
A força do inimigo o surpreendeu quando não deveria, pois todo o lesser adquiria uma força sobre-humana após a conversação. Os golpes e contragolpes se tornaram cada vez mais duros. Rhage era o melhor lutador no corpo a corpo da Irmandade, mas teve que utilizar toda a sua habilidade contra o feroz e preciso ataque inimigo.
Virgem, que formidável agilidade com a pequena espada japonesa. Pensou o vampiro. Já havia sido atingido no braço duas vezes e nenhum de seus golpes havia tocado a pele adversária.
O vampiro ergueu uma das adagas com a mão direita para amparar um golpe dirigido a seu pescoço e, com a outra, procurou atingir o flanco adversário.
Golpeou o ar.
Num instante, sentiu a ponta de um pequeno sabre invadir seu corpo e ser retirado com velocidade impressionante. Arfando, executou três pequenos e ferozes ataques com a adaga, empurrando o inimigo longe apenas um metro de si. Usou toda a sua força, no entanto, a figura realizou um elegante giro no ar sobre o próprio corpo e caiu de frente para o vampiro em posição de ataque.
— Merda! — Rhage murmurou apoiando um dos joelhos no chão, sentindo a dor aguda do lado esquerdo do corpo, a mão direita segurando a adaga à sua frente. O golpe era profundo e... puta que pariu... tinha atingido seu pulmão. Estava com dificuldades para tragar o ar.
Maldita hora em que tinha se separado de Butch. Pensou.
Nunca tinha sentindo receio de lutar contra os lesseres, mas sabia que havia encontrado alguém a sua altura. Pela Virgem, estava em desvantagem. E isso ocorrera poucas vezes durante uma luta corpo a corpo em seus séculos pós-transição. E nunca, nunca contra...
Sendo atacado novamente, concentrou todo o seu pensamento na batalha.
Poderia vencer. Sim, poderia... Mas teria que libertar a fera... Não, não queria perder o controle. Não podia só confiar na força bruta e nas garras do seu dragão. Precisava estar com a mente alerta.
Com rapidez, e girando sobre o próprio corpo para fugir de mais um ataque do vampiro, seu adversário executou um golpe perfeito com a espada, digno de um samurai dos filmes de Kurosawa, atingido-lhe as costas. Mas o vampiro também era um exímio lutador e havia lhe atingido também.
A visão de seu sangue lesser negro, escorrendo pelo braço direito, lhe repugnou como sempre.
Por um momento, nenhuma das duas figuras fez qualquer gesto. O vampiro observava-lhe com os olhos quase brancos e arfava fortemente. Parecia se controlar, mas estava no limite. Foi nesse momento que soube quem ele era: o vampiro que podia se transmutar em uma fera.
Apesar de evitar os companheiros lesseres o máximo que podia, sempre havia os encontros e a troca de informações. Foi nesse átimo de instante, quando Raghe percebeu que nem mesmo liberar a seu dragão lhe daria a certeza da vitória, que o ar as suas costas sofreu um leve deslocamento e sentiu a presença de seu parceiro de patrulha nesta noite.
Butch.
— Que porra... — exclamou o policial ante a visão de Rhage apoiado em um dos joelhos, com sangue escorrendo de várias feridas pelo corpo e, no outro extremo, a visão mais improvável que poderia se esperar de um lesser.
Mas pior que tudo foi o reconhecimento. Butch duvidou dos seus olhos e não pode acreditar; o mesmo aconteceu com o inimigo.
— O’Neal?! — murmurou a lesser.
— Nagisa?! — sufocou o policial.
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