Notas iniciais
Elizabeth sentia sua cabeça doer como se estivesse ficado dias na sala do gongo dentro do templo Shaolin. Lentamente ela abriu os olhos e viu o teto pintado com anjos e nuvens.
Tentou se levantar e foi impedida por mãos firmes porem gentis. Ela ergueu a cabeça e junto dela estava seu marido. Seu rosto refletia toda a preocupação que sentia.
— Não tente se mover... você bateu a cabeça com muita força.
— Eu desmaiei? — a incredulidade permeava sua voz.
— Sim. Suas irmãs estavam muito preocupadas. — ele se sentou na beirada da cama. Elisabeth sentiu as faces arderem diante da intimidade da cena. Nunca havia se sentido tão vulnerável.
— E Wickham?
— Ele escapou.
— Escapou?! — suas faces ficaram vermelhas, mas agora de raiva. — Como ele conseguiu?
Ela levantou em um ímpeto e sentiu o quarto girar. Apoiou-se em uma das colunas e rapidamente Darcy estava ao seu lado para ampara-la.
— Como deixaram ele escapar. Minhas irmãs... Você... A guarda?
— Ele fez um refém. Ameaçou infecta-la. — Darcy disse sem maiores detalhes.
— Um refém?! Quem, em nome de Deus, valeria tanto sacrifício? Apenas uma morte para poupar tantas outras. Um único tiro, Sr. Darcy, e o senhor teria dado cabo dele. Quem era o refém? Lady Catherine, eu presumo.
— Minha tia está morta. Morreu junto ao seu pai.
A essa notícia Elisabeth sentou-se em uma cadeira. Lady Catherine, morta? A mulher era uma rocha. Indestrutível, como ela mesma pudera comprovar no embate que as duas travaram.
— Sinto por sua tia... mas se não era ela...
— Você, Elisabeth. Você era a refém. — Darcy revelou de costas para ela.
— Eu?! — Elisabeth ficou em silencio por alguns minutos digerindo a ideia de que ficara tão vulnerável a ponto de ser feita refém. — Então por que o senhor não atirou? De bom grado eu teria dado a minha vida para acabar com aquele odioso maldito.
— Mas eu não! — Darcy virou-se abruptamente, caminhou até ela e a ergueu da cadeira. — Wickham disse que o amor seria a minha ruína e estou prestes a concordar com ele. Mil vidas eu daria se as tivesse para acabar com ele, contanto que você estivesse a salvo. — ele baixou seus lábios contra os dela acariciando-os levemente. — Posso conviver com a ideia da morte. Da minha morte. Mas não da sua, Elisabeth.
— Oh, Darcy... então o que faremos? Pois a minha vida eu deposito pela Inglaterra. Mas que mil espinhos me perfurem a carne se tiver que perdê-lo também. — ela pressionou o rosto contra o ombro dele deixando-se envolver pelos braços fortes.
Uma batida na porta nos fizeram separar-se e Elisabeth passou a mão no rosto limpando-o das lagrimas.
— Entre.
A cabeça loura de Jane apareceu pela porta entreaberta.
— Oh, Lizzie! Já está de pé. Graças a Deus. — correu indo abraça-la. — Sr. Darcy, o clérigo Collins manda dizer que já está tudo pronto para os funerais
— Então devemos fazê-los sem demora. Está bem para descer, Elisabeth? — Darcy perguntou olhando para Elisabeth com preocupação.
— Sim. Quero prestar homenagens a eles.
Ele a cingiu pela cintura e os três desceram em direção ao pátio. Todos já estavam prontos e bastou apenas Darcy acenar com a cabeça para que os soldados colocassem as tochas sobre as piras do Sr Bennet e de Lady Catherine. O crepitar da madeira só era interrompido pelo soluçar da Sra. Bennet.
— Oh Sr. Bennet... — dizia ela entre os soluços. — O que será de mim e de nossas filhas...
Apesar do amor imenso que tinha por seu pai e mentor, Elisabeth mantinha uma postura estoica e silenciosa, o que deixava seu marido orgulhoso da mulher que escolhera. Mas, devido a sua índole séria e o treinamento intensivo que recebera, ele era incapaz de demonstrar sentimentos. Com exceção da pequena explosão no quarto há alguns instantes, nunca exprimia o que sentia.
E Elisabeth, com o temperamento já conhecido, somente daria vazão aos seus sentimentos da única forma que sabia. Por isso, assim que as exéquias terminaram, ela se dirigiu para o dojo de Lady Catherine. Pegou uma espada da parede e a testou. Satisfeita, começou a se aquecer e deu início ao seu treinamento.
A cada golpe que dava uma lembrança sobre o pai passava por seu pensamento. Cada conversa, cada lição. Sua garganta foi se fechando e nada tinha a ver com o esforço desprendido para treinar. A espada caiu no chão retinindo quando ela se ajoelhou e deu vazão às lagrimas e aos soluços.
O barulho da porta se abrindo fez com que ela tentasse se recompor.
— Achei mesmo que estaria aqui. — disse Darcy entrando e fechando as portas.
— E mesmo? E porquê? — ela o saudou com um sorriso cândido e triste enquanto rodopiava a espada com a mão.
— Um guerreiro sempre reconhece as mesmas ideias em outro. Você não demonstra seus sentimentos. É sempre tão silenciosa. E é uma das coisas que eu admirei em você.
— Por que reconheceu que era a mesma coisa em você.
— Exato. — Darcy concordou com um meio sorriso.
— Entendo... — Elisabeth rodou a espada em sua mão mais uma vez. Ele entendeu a mensagem.
— Quer companhia, Sra. Darcy?
— Seria um prazer, Sr Darcy.
Calmamente, ele tirou o sobretudo de batalha, o paletó e o colete. Voltou para o centro da sala sacando sua espada.
— Quando a senhora quiser, Sra. Darcy.
Elisabeth sorriu no momento em que avançava para ele. Os dois cruzaram as espadas. O som metálico soando como música celestial aos seus ouvidos. Os dois bailavam como se estivessem em um salão. Nenhum dos dois poupava o outro pois sabiam da destreza um do outro com as espadas.
Até que em um momento, Darcy conseguiu desarmar Elisabeth. A espada dela foi se prender no teto. Um sorriso de masculina superioridade brincou nos lábios do marido enquanto ele continuava a ataca-la. Um sorriso de fria determinação surgiu nos lábios da esposa quando ela deu três piruetas para trás escapando das investidas e pegou outra espada.
— Impressionante, Sra. Darcy.
Ela inclinou a cabeça em resposta ao cumprimento.
— Obrigada. Podemos continuar?
— Naturalmente...
Os dois brandiam as espadas retomando o combate.
— Tenho a certeza que não era assim que imaginava suas núpcias. — ele disse entre um golpe e outro
— Fala de festas e cumprimentos? Talvez se não vivemos numa guerra.
— Sim. O momento atual não nos permite bailes e festas. E com a ascensão de Wickham... — Darcy baixou a espada com a expressão sombria.
— Ainda não posso crer que ele me derrotou em combate. E que eu fui sua refém. — Elisabeth cortou o ar com sua espada numa tentativa de aliviar sua frustração. — Desonrei o meu mestre.
Darcy se aproximou dela e segurou sua mão.
— Wickham é movido pelo ódio. Sua força é superior à de qualquer criatura. Humano ou não mensurável. Eu mesmo pude comprovar. Não se cobre tanto. Venha, está na hora de nos recolhermos. — ele estendeu a mão para ela.
A jovem sentiu um rubor subir-lhe pelas faces ao pegar a mão de seu marido. A experiente guerreira era agora uma tímida noiva em frente a sua noite de núpcias.
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