Amor e Ódio - sob o fio da espada
6 Solitária
Notas iniciais
Capítulo VI
A escuridão era profunda. Tão negra e densa que não podia ver nada. E estava frio. Podia sentir a frieza da parede e do ar a sua volta, mesmo a temperatura de seu corpo sendo abaixo de zero. Nos pulsos sentia grossas e compridas correntes. Ao seu redor silêncio, solidão.
Sem saber onde estava ou o que existia a sua volta evitou se mexer muito. Pelo que podia notar o ferimento em suas costas estava em processo de cicatrização o que lhe dava pelo menos mais de doze horas desde a luta e onde quer que estivesse agora.
Tentou recordar alguma coisa e só pode lembrar frases soltas, sem muita ordem: “eles nunca...”/ “afaste-se Zsadist ou...”/”deixe que Warth...”/ “Butch sua lealdade...somos irmão agora...”.
As frases cortadas e confusas não esclareciam muito, nem mesmo quem dissera o quê. O pouco que podia entender é que Butch não deixou que os outros a exterminassem e também não se propusera a fazê-lo. Warth era o rei, então a decisão parecia ter sido dada a ele. Estranhou, pois geralmente os vampiros não postergavam a destruição de um inimigo lesser.
Devagar girou a cabeça procurando em vão por alguma tênue réstia de luz. Suspirando resignada fechou os olhos e recordou toda a noite anterior, desde o momento em que encontrara as crianças até ver o moreno, até sentir seu cheiro, saber seu nome...
Tohr!
Surpreendia-se de como era doce pensar nele e desejá-lo, quando só deveria sentir repulsa e ódio do vampiro e indignação consigo mesma diante desses sentimentos. Mas, com crescente admiração, via-se imaginando se ele estaria por perto, quase até podia senti-lo.
"Será que ele irá me matar?"Pensou ."Não, eu já estou morta. Será que me mandara de volta para o Omega? Ou Butch irá usar seu poder e me destruir tão completamente que nada restará de mim, nem meu amor pelo David, nem essa atual loucura que se apoderou da minha mente?"
Tinha que ser honesta consigo mesma. Tinha que ser! Principalmente agora que seus sentimentos pareciam estar sofrendo tantas mudanças bruscas.
Olhou para dentro de si, e envolta pela escuridão vingativa de sua alma podia sentir pulsando o amor pelo seu marido. Ali naquele envoltório, estava o que de bom e puro ainda lhe restava. Brotando e crescendo assustadoramente do seu centro estava algo que não conseguia denominar por enquanto. Todavia era suave e potente ao mesmo tempo. Tão arrebatador que lhe sufocava e desnorteava.
Repassou com delicioso vagar à imagem do vampiro, as linhas másculas do rosto, o braços fortes, o cabelo escuro caindo sobre sua testa larga, seu profundo e incisivo olhar. Ele e David eram como dia e noite, luz e sombras. Mas assim como sentira uma intensa atração pelo marido, também se sentia loucamente fascinada pelo vampiro.
— Tohr. — O nome escapou dos seus lábios como uma carícia.
— Você fede, sabia? — A voz varonil cortou as sombras e o silêncio como uma flecha. E de repente um pequena chama brilhou logo acima de suas cabeças iluminando precariamente o local.
Só podia estar mesmo fora do seu normal para não ter sentido o cheiro dele, o leve som de sua respiração.
A voz provinha do canto no outro extremo do recinto. Pelo visto estavam em algum tipo de masmorra, um local bem abaixo da superfície onde o sol não poderia lhe preocupar, já que deveria ser pelo meio da manhã.
— Todos vocês fedem. — Ele continuou. — Deve ser um dos motivos para que se evitem a maior parte do tempo. O ar é insuportável de se respirar quando vocês estão juntos, até para vocês.
Tohr deixou o olhar passear pela figura recostada na parede em frente a sua. Estavam na pequena solitária de uma das casas seguras da Irmandade nos arredores de Caldwell. Ela abraçava os joelhos de encontro ao peito. Contudo, a posição não denotava medo. Mesmo com tão pouca luz podia ver com clareza o rosto da lesser e o olhar firme dela para a sua figura em pé envolta pelas sombras. Não demonstrava fraqueza.
Na quase escuridão a visão da fêmea podia se confundir com a imagem normal de qualquer outra. Os cabelos muito compridos, que iam além da cintura, numa trança agora muito desfeita, cobriam parte de seu rosto; O corpo curvilíneo de músculos firmes estava alerta; O rosto era singelo mais possuía força e determinação. Ela era linda. Mas foram os olhos que mais lhe chamaram atenção. Diferentes dos aguados e maliciosos, que aqueles seres asquerosos possuíam, um profundo e vibrante verde fazia de seu olhar algo cativante e prazeroso de se admirar.
Que a Virgem Escriba o ajudasse, quando tivera aquele corpo sedoso sob o seu, o joelho esmagando um seio macio, sentira um desejo incontrolável de possuí-la. Esquecera o que ela era, até mesmo o leve cheiro adocicado que emanava de´seu corpo havia sido apagado de seu olfato.
Deus, ela não fedia, não mesmo!
A lesser era diferente de todos os outros que havia conhecido. E a maneira como ela abraçou a garotinha e a protegeu... Não, todos eram iguais! Aqueles miseráveis! Todos eles, eram parte do Mal. Não possuíam alma ou coração. Saber que o Butch a conhecia, lembrar do que ele relatou sobre a parceira de polícia e perceber a maneira como o poli a mantinha viva, quando eles já teriam que ter acabado com aquele circo, estava mexendo com a sua cabeça.
Merda! Agora mesmo seus irmãos estavam discutindo o destino da garota. Sabia que Warth mandaria exterminá-la, ou o faria pessoalmente. Não queria estar na pele do Butch nesse momento, pois com certeza o rei estaria furioso.
— O’Neal é um tolo, sabia? — Nagisa falou como se tivesse lendo os pensamentos do vampiro, mas ele sabia que não poderia. — Eu o teria matado sem pensar duas vezes e ele com certeza conseguiu induzi-los a me manter viva.
— Se fosse por mim, você já estaria fazendo uma linda viagem de volta ao seu desgraçado criador.
— E por que não o faz agora vampiro? — Tohr viu o sorriso mordaz. — O que o impede? Está aí com suas temíveis adagas tenho certeza... Ou não?
Ela se ergueu colada a parede cruzando os braços sobre o peito. O tilintar das correntes no chão e na parede ecoou no recinto.
— Quem sabe tenha deixado as lâminas do lado de fora, talvez minhas habilidades como esgrimista tenha assustado você e seus amigos. Sou melhor com uma espada nas mãos do que qualquer um de vocês vampiros e não estou desprotegida mesmo com as mãos nuas e acorrentadas. Se aproxime e sentirá.
— As cobras também devem se orgulhar das suas peçonhas.
— E os escorpiões de seus ferrões. Por isso, a menos que tenha a firme intenção de acabar com minha pobre existência, não se aproxime muito, Tohr.
A voz dela era decidida, suave e articulada. A maneira lenta e sussurrante como dissera seu nome fez seu sexo ficar rijo por baixo do couro, agora apertado e incômodo da calça. E fosse qualquer outra mulher, a teria agarrado, seduzido e penetrado em uma só investida lenta e funda, até que ela gritasse seu nome várias vezes a cada estocada.
Chocou-se diante daquele desejo obsceno e anormal.
Sua libido, que só se manifestara após o assassinato de sua shellan como um reflexo quando se alimentava de uma das escolhidas, se tornara tão rígido como um bastão de beisebol desde que pusera os olhos na lesser.
Tinha sido um tolo ao escolher ficar de vigia ali com ela, alimentando aquele desejo insano, ao invés de estar descansando para mais uma noite de patrulha. Apenas... Que não conseguia ficar longe dela... Pela virgem queria estar com ela... Dentro dela...
Droga fudida de desejo insano.
Seu olhar se fixou na porta de aço reforçado a poucos centímetros à sua direita. A qualquer momento seus irmãos entrariam e Butch...
— Ainda está aí vampiro?
— Sim. — Sua voz saiu tensa pela expectativa do inevitável.
— Sim, onde mais estaria você. O espetáculo por vir deve ser bem de seu agrado, não.
— Mas do que imagina! — Mentiu o vampiro.
Ela emitiu um som estrangulado num arremedo de riso.
— Não tenho medo da morte vampiro. Não irá me ver implorar.
— Confesso que isso estragará um pouco a diversão, mais agüentarei. — Mentira de novo, não queria estar presente, não queria ver aqueles olhos tão vivos deixarem de existir num clarão de luz.
— Não estou aqui para divertir nenhum de vocês. Eu mesma me apunhalaria se pudesse só para estragar qualquer prazer que vocês possam querer tirar dessa situação.
Tohr se afastou da parede indo a sua direção, estacando no meio do recinto sob a luz.
— Acha a situação engraçada lesser? Daqui a pouco você será enviada sem bilhete de volta para o Ômega. Ou se nosso rei for piedoso, coisa que nenhum de vocês merece, despachada para o vazio da não existência.
— Se engana se acredita que qualquer uma dessas opções me assusta. Eu já estava morta antes de vender minha alma. O acordo com o meu senhor o Omega, só me forneceu um pouco mais de tempo e poder para levar comigo tantos quantos eu pudesse de sua maldita raça.
— Sim eu sei como vocês agem. Criaturas sem honra ou moral. Matando inocentes... — A linda imagem de sua esposa fez a dor voltar novamente.
— E vocês são anjos de pureza, santos e imaculados? — Falou mordaz dando dois passos em direção a ele. — Eu conheço sua raça e o que ela pode fazer. Agora vem você me falar de matar inocentes e de honra? Não saberiam o que é honra mesmo que ela batesse em vocês como um caminhão de carga. Vocês são animais...
O corpo largo e poderoso do vampiro a prensou contra a parede. Uma mão forte agarrou seus braços imobilizando-lhes. Com o quadril e uma perna musculosa manteve as suas sem ação. A outra mão apertando seu pescoço com força.
Estava presa entre ele e a parede fria e podia sentir boa parte do corpo dele junto ao seu. A respiração forte junto ao seu rosto e o cheiro arrebatador de seu hálito encheram os seus pulmões. O rosto dele estava a centímetros do seu inebriando-a com o poder daqueles olhos azuis novamente. Seu corpo frio começou a sentir o calor do dele. Chegava a lhe doer fisicamente tanto era seu desejo de tocar o macho vampiro.
Ali no escuro quase podia esquecer o que ele era e no que ela mesma havia se tornado. E pela primeira vez nesses três longos anos se arrependeu do acordo que fizera.
— Acha que nos conhece?... Que me conhece?... Vocês funestos invólucros de podridão... Sacos cheios de sangue negro e contaminados que são e serão sempre a escória da humanidade. Pensa que só por que um maldito vampiro matou seu marido possui uma desculpa para caçar toda uma raça que só quer poder viver? Pensa que há algum mérito em ter sacrificado a sua essência ao mal maior pela ínfima parcela de prazer que há na vingança?
Nagisa sentiu todo o impacto de suas palavras sussurradas com uma inconfundível nota de asco. Não desejava ouvi-lo, não desejava tê-lo tão perto do seu corpo, não desejava o prazer que sentia com ele tão colado, tão masculino ali a prensando contra ela.
Sentiu a fragrância dele, misteriosa e envolvente. Podia quase sentir o sabor de vinho seco e aquela nota afrodisíaca de açafrão estava deixando sua mente alucinada. Seu único desejo era de se aproximar mais dele, colar-se ainda mais ao vampiro... Droga aquele cheiro estava lhe deixando louca.
David perdão... Perdão... Perdão. Pensou Nagisa deixando sua mente inundar com pensamentos de seu marido. Não foi suficiente. O vampiro ainda estava ali, tão perto, tão presente e David não passava de uma lembrança ainda forte, porém distante.
Welsie perdão... Pediu o vampiro aproximando devagar o rosto da lesser.
— O que está querendo lesser? Pensa que pode me irritar o bastante para que eu antecipe sua execução? — Mumurou com a voz rouca.
Estavam tão próximos agora que bastou se aproximar um centímetro para encostar a boca na do vampiro, depositando um beijo delicado nos lábios quentes. Sua surpresa com a própria ousadia só não foi maior que o fato dele não fugir ao contato. Ele simplesmente ficou ali, entorpecido, sem esboçar reação.
Lentamente aproximou-se novamente roçando os lábios nos dele... Ele deveria tê-la empurrado mais não o fez, e parecia tão estranhamente imóvel que não poderia sequer imaginar o que estaria achando daquilo.
"Que vá tudo à merda." Nagisa refletiu. "Daqui a pouco acabarão comigo mesmo."
Diante do pensamento de fatalidade iminente e de certa forma libertador colou os lábios nos dele beijando com atrevimento. Foi então que o impensável ocorreu.
Ele correspondeu.
Não foi voraz, não no começo. Foi simplesmente o beijo mais longo, molhado e doce que um homem já lhe dera. Os lábios sugavam o seu e a língua lhe invadia passeando pelo seu céu interior, lambendo seus dentes, procurando a língua feminina para se abraçarem e se amarem, ora no interior de sua boca, ora no interior da dele.
Nagisa sentiu o sabor de açafrão impregnar seu paladar como um afrodisíaco. Sentiu um puxão percorrer toda a sua pele. O corpo dele ainda lhe imobilizava e tão somente podia mexer um pouco a cabeça com aquela grande mão ainda ali apertando seu pescoço.
Quando o vampiro sugou seu lábio inferior ela arfou e estremeceu sentindo o inconfundível sinal de excitação na fenda adormecida entre suas pernas..
"Estava louca mesmo." Pensou enquanto ele sugava alternadamente seus lábios e sua língua. Ele inteiro relaxando encostado a lesser. Afrouxando o aperto nos braços. A mão no pescoço deslizando suavemente em direção à nuca e enroscando os dedos em seus cabelos para apertá-la mais e mais perto.
Tohr agora praticamente a abraçava, os dois se buscando em beijos mais e mais gulosos.
"Droga, se algum dos irmãos entrasse ali agora seria açoitado pelo cheiro delator de sua excitação." Pensou ele clareando a mente e tentando se afastar.
— Não... Eu quero você... —Ela sussurrou puxando o corpo masculino para si, completamente dominada pela excitação, quando ele tentou se apartar.
O som rouco e sensual que deveria tê-lo estimulado a continuar aceso, atuou como um banho de água fria para despertá-lo daquela loucura.
Afastou-se bruscamente. E ali, apartados em lados opostos da cela, fitaram-se ofegantes, estimulados, confusos e desgraçadamente conscientes da enormidade do que fizeram e queriam continuar fazendo.
Em silêncio ele desapareceu.
Nagisa fechou os olhos levando uma mão aos lábios inchados e úmidos.
"Agora estava real e completamente ferrada."
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