Amor e Ódio - sob o fio da espada
7 Sentença
Notas iniciais
Capítulo VII
— Que droga fudida é esta que você fez Butch? — A voz de Warth retumbou na sala de conferências, as palavras atingindo o poli como adagas de gelo afiadas.
No centro do aposento, sob o olhar acusador da maioria dos irmãos distribuídos ao seu redor, Butch se sentia incapaz de encará-los. Até mesmos V não lhe devotou uma ponta de apoio ou complacência.
Odiava sentir que tinha decepcionado aos irmãos, odiava sentir que estava fazendo tão triste figura ao lutar contra o inevitável destino de Nagisa.
"Droga, maldita. Por que diabos tinha que encontrá-la logo agora? Por que tinha que se importar?" Pensou.
Tentava mas não conseguia... não conseguia vê-la como o inimigo.
Era a Nagisa, droga! — gritava seu coração e sua mente — A maldita foi a única pessoa parecida com um parente de verdade, uma irmã de verdade, que algum dia teve.
Reviu a cena da luta em frente à mansão em chamas e o modo como ela protegeu a menina expondo-se completamente ao ataque de Zsadist. Ela inconsciente no chão e o irmão alto e selvagem pairando sobe o seu corpo com a adaga na mão pronto para desferir o golpe que a destruiria por completo. A maneira como, sem nem mesmo pensar, atacara ao Z afastando-o. O olhar feroz do vampiro, o ódio tornando sua cicatriz lívida.
— Você faz parte da Irmandade agora Butch, sua lealdade é para com o seu povo. — Z lhe dissera com gravidade. — Ela é o maldito inimigo.
— Sei que é... Sei que.. Que são maus Zsadist... Eu sei irmão. Mas sinto que ela é algo diferente, um pouco diferente.
— Vá à merda Butch, seus sentimentos por ela e todo o seu passado estão fazendo em sua cabeça uma grande confusão. — Tohr gritara.
Novamente Zsadist teve intenção de investir contra a lesser, mas ele se postou a sua frente.
— Afaste-se Zsadist ou teremos que lutar. — A convicção na voz do poli era inegável. — Por favor, irmão, só deixe-me ter certeza.
— Olhe para aquela porra de pira funerária atrás de mim Butch e pense nos vampiros que ela matou aqui pouco antes de chegarmos. Acha que ela teve remorso ao matar cada um deles? Se isso não lhe dá certeza lembre-se do Raghe. — Zsadist lhe encarava com olhos de um profundo negrume.
— Deixe que Warth decida então. Podemos mantê-la como prisioneira e assim não fará mal a ninguém.
Zsadist se aproximou de Butch lentamente, fazendo com que o vampiro retesa-se, preparando todos os músculos para uma inevitável peleja.
— Somos irmãos agora, e tão somente por isso a deixarei viver até que o rei decida pelo certo. — Cuspira se afastando em direção as crianças. — Você está enganado se acha que Warth lhe dará ouvidos.
Butch se aproximara do corpo da lesser desmaiada a erguendo nos braços com carinho. Assim relaxada, as pálpebras fechadas, parecia tão inocente como se lembrava. Sentindo Tohr às suas costas murmurou:
— Nunca vi um deles fazer o que ela fez... Eles nunca deixam de pensar na própria segurança.
O olhar de Tohr lhe indicou que ali também não encontraria um aliado.
Agora estava aqui em pé diante da Irmandade sem conseguir realmente explicar em palavras uma certeza interior... um desejo interior.
— Explique-se Destroyer! — Ordenou o rei, impaciente.
— Deus eu... Só sei que ela não é como os outros. Sim sei que o mal está nela. — Butch encarou o rei mesmo sabendo que ele não poderia ler o seu olhar. — Assim como sei que o mal também está em mim e mesmo assim... Sei que não... Que não estou com o mal. — Sussurrou baixando a cabeça novamente.
Os irmãos se moveram como uma onda indignada.
— Butch, homem, é um de nós. Nada que aquele bastardo, filho da mãe do Omega tenha posto em você poderá mudar isso. — A mão pesada do rei estava fortemente aferrada ao seu ombro. — Contudo irmão, aquela fêmea não é mais humana. O porquê da decisão que tomou não importa. É o inimigo. Você não pode salvá-la do destino que escolheu, das decisões que tomou.
Butch sentiu seus olhos marejarem e pediu a Deus forças para não chorar ou implorar que Warth mudasse de idéia diante dos vampiros presentes como um maricas.
— A minha decisão é e sempre foi a mesma, você sabe. — Os dedos do vampiro cego apertaram ainda mais a sua carne. — Agradeça ao poderoso no Fade por você possuir o poder para livrá-la da existência de tormento junto ao Omega.
Butch encarou ao Vishous procurando consolo no amigo. Cristo, não tinha como escapar, teria que destruir uma das poucas pessoas que amou na vida e que lhe retribuiu.
***
Estava no primeiro piso andando de um lado para o outro impaciente. De dois em dois minutos parava mirando a porta no oposto da sala.
"Ela está lá embaixo." Pensava excitado, desejoso de se materializar na cela, lhe arrancar a roupa e tê-la, apenas uma vez, só uma vez. Sentir novamente os lábios macios, a língua duelando com a sua. Desgraçada e ardentemente desejava arremeter contra sua abertura, ou, droga santa, em todas as suas aberturas e se perder.
— Que loucura!
Por certo sua abstinência de quase um ano tinha que ser responsável por esta insanidade. Estava completamente demente. Era o inimigo, um corpo morto, carregando uma maldade que não devia ser tocada, só destruída.
Entretanto ali estava ele grosso e duro como uma pedra, latejando e úmido contra a calça, indecentemente excitado como a um cão visualizando um suculento pedaço de carne.
A esmo, tentando distrair a mente e sua libido, se acercou da mesa onde antes de seguir para a mansão Butch despejou os pertences da lesser. Um sabre, uma espada e uma carteira de motorista, nada mais. Devagar deslizou o indicador pelas letras na lâmina da espada se admirando com a elegância da arma e pela certeza de sua antiguidade.
Logo a sua mão se dirigiu incerta na direção do documento, hesitando antes de pegá-lo.
A foto fora tirada antes que ela se juntasse aos lessers, teve certeza. Com os olhos verdes brilhantes e um leve sorriso no canto da boca, ela parecia saber algo engraçado que desejava compartilhar com o mundo. Os cabelos negros brilhavam... Não, ela toda parecia brilhar.
Ao admirar a mulher, a humana que um dia ela fora, sentiu novamente aquela pontada estranha, não só na virilha, como também no coração.
Deslocamento de ar.
O primeiro irmão que registrou foi Zsadist surgindo bem no centro da sala e logo depois cada um dos membros da Irmandade se materializou no local: Phury, Vishous. Não estranhou a ausência de Warth.
Do lado de fora um carro parou e logo Butch e Raghe estavam na sala.
— Como se comportou? — Perguntou Raghe às costas de Tohr.
— Malditamente bem sendo o que é! — Tohr respondeu.
— Butch, vamos acabar logo com isso. — Chamou Zsadist em voz baixa.
O vampiro de cabelos castanhos oscilou encarando o de cabelos raspados como se carregasse um peso enorme nos ombros.
Tohr sentiu-se igual.
"Virgem não havia jeito." Pensou. "Aqui estavam eles e iam matá-la como uma qualquer. Como um fudido bastardo de sangue negro qualquer. E não havia nada que pudesse fazer, ou dizer... Apenas ir lá e sentir... E perder."
Um por um se desmaterializaram seguindo para a cela. Butch desceu as escadas acompanhado pelo Z. Todos estavam ali pelo Butch, para dar-lhe ânimo, pois sabiam e sentiam que ter de destruí-la o machucaria muito.
Tohr foi o último.
Quando chegou Butch estava a um metro em frente a Nagisa. A Lesser o fitava nos olhos, a cabeça erguida para o macho que lhe ultrapassava em altura mais de trinta centímetros.
Ela parecia menor agora com todos eles na cela tomando todo o espaço com seus grandes e musculosos corpos. Parecia desprotegida e mesmo assim não emanava medo. Não mesmo. Todo o corpo dela demonstrava afronta e uma insultante coragem diante de um inimigo superior em número e força.
Com exceção de Vishous, sentiu em cada macho da sala um quê de vergonha diante de uma mulher a ferros e aparentemente indefesa. Até mesmo Zsadist, e talvez mais a este, visto que a triste imagem das correntes lhe despertava lembranças ruins.
— Butch, faz. — O leve sussurro de Phury a esquerda do tira fez o sangue correr mais rápido nas veias de Tohr.
Sua promessa a Irmandade o mantinha preso ao chão, apesar da tamanha vontade de se atirar ao Butch e afastá-lo dela.
***
Quando Butch apareceu na cela ela soube que o tempo esgotara. Parado à sua frente, cheio de dor, raiva e mágoa o antigo parceiro se tornara seu carrasco. Como num passe de mágica cada um dos vampiros apareceu num semi-círculo da cela em volta deles dois, menos Tohr.
O vampiro de cabelos raspados a sua esquerda. O gigante loiro, Raghe, logo ao seu lado, a direita um vampiro de cabelos coloridos e ao seu lado um de cavanhaque com tatuagens ao redor de um olho.
"Ele não vem." Passou pela sua mente antes que o macho desejado surgisse logo atrás de Butch, quase colado a porta.
Fixou seu olhar nele registrando pela última vez seu rosto, sua boca, seus olhos.
— Butch faz. — Sussurrou o do cabelo exótico, fazendo O’Neal se aproximar um pouco mais dela.
— Me sinto realmente importante. — Murmurou ainda com o olhar fixo em Tohr. — Quase toda a Irmandade da Adaga Negra como testemunha de minha execução. Que honra! E você como está grandão? — Falou desviando o olhar para Raghe.
Zsadist apertou mais forte a arma na cartucheira de sua coxa. O movimento atraiu a atenção de Nagisa.
— Sim... Você também! Parece que nunca está sozinho não é mesmo? Melhor que agora não há crianças ao redor.
— Nagisa, por favor, pare. Dessa forma será mais fácil.
— Para quem? — Perguntou sorrindo. — O que quer Butch? Que o absolva por vir aqui acompanhado com seus novos amigos para me destruir? Quer que eu morra sem honra, sugada como se você estivesse usando um maldito aspirador de pó em mim? Perdão, mas declinarei. Pelo maldito, não irei sem lutar.
Foi quando Butch se aproximou, segurando sua face como se a fosse beijar, abrindo a boca para sugar-lhe a essência. Mas nada ocorreu. Pelo menos não o que esperavam. Como um fore-lesser ela parecia ser imune ao seu poder de Destruidor.
Aproveitando-se da posição exposta de O’Neal, Nagisa, como uma serpente, se enroscou no grande corpo do vampiro. Segurando as correntes de seus pulsos com firmeza, rodeou com elas o pescoço dele, puxando-lhe para trás até se firmar na parede. Ela agora estava com as costas do vampiro no seu peito, as pernas enganchadas em sua cintura cruzadas fortemente sob seu estômago, apertando com força a corrente nele quase o sufocando.
— Eu avisei. — Sussurrou-lhe bem próxima ao ouvido. — Poderia te matar agora. — O vampiro sacudiu-se tentando se liberar do peso as suas costas, as mãos procurando a carne, para se livrar do aperto. — Quieto, ou quebro o seu pescoço O’Neal, antes que qualquer um nessa cela se aproxime de mim.
Vishous deu dois passos em sua direção, Zsadist também, parando à ameaça. Mas foi a visão de Tohr parado, com o semblante pétreo que a abalou.
Foi como despertar de repente sem saber o porquê de estar ali e fazendo aquilo. Lembrou-se que aquele, ao qual sufocava, fora quase seu irmão. Demônios só agira por impulso. O sangue que corria em suas veias, frio como gelo a levando a atacar o vampiro que a ameaçava.
O cheiro familiar do amigo impregnou suas narinas e as pequenas e cotidianas lembranças de quando trabalhavam juntos tornaram-se quase palpáveis.
Afrouxou o aperto das correntes sem o livrar totalmente, encostando o rosto ao dele numa carícia fraternal. Seu corpo e sua mente a mandavam lutar, lutar, lutar até o fim. Machucá-los o quanto pudesse. Matá-los se a oportunidade surgisse.
Entretanto, não desejava, pois sabia que ao lutar contra eles também teria que lutar contra Tohr. E machucar o vampiro seria pior que ser enviada para os sofrimentos do Omega.
Será que algo de bom pode brotar de um solo habilmente cultivado pelo mal? Por todos os demônios, só conhecia o vampiro há menos de um dia e o amava com a intensidade de mil sóis. Ansiava ter mais tempo, estar com ele, mas era algo impossível.
— Droga não queria... Não quero lhe machucar. — Sussurrou. — Já que essa merda de Destruidor não funcionou Brian, acho que terá que ser da maneira tradicional. Se puder usar minha espada... Pelos velhos tempos!
Com um movimento gracioso desenroscou-se de O’Neal empurrando-o levemente para frente.
Plantou os pés no chão, os braços ao longo do corpo, fitando o tira com determinação.
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