Amor e Ódio - sob o fio da espada
4 Sentimentos
Notas iniciais
Capítulo IV
— Miss N temos uma missão. — a voz levemente fanhosa era irritante. — Hoje, nove horas, no beco atrás do Sky Night.
O recado na caixa postal de seu celular era do Sr. T.
Por tradição, ao ser introduzido na Sociedade Lessening, você passava a ser conhecido pela primeira letra de seu nome. Apesar disso Nagisa nunca acostumara-se a ser Miss N. Seguia sendo Nagisa para si mesma e para a maioria dos lessers com os quais trabalhou.
Sua volta a Caldwell, Nova York, foi recebida com algumas mudanças. A principal fora a descoberta do filho do Ômega, Lash. Meio vampiro, Lash era uma das personificações do mal maior que era seu pai.
Durante seu primeiro encontro com Nagisa, Lash se surpreendera ante a visão de uma fêmea lesser, e depois tentara usar seu poder e domínio sobre ela. Tentara e não conseguira, assim como todos os fore-lessers antes dele.
Sabia que possuia algo diferente dentro de si, algo que o Ômega não pudera retirar e que a tornava imune aos controles mentais. Podia senti-los, às vezes quase podiam dominá-la, mas no final não conseguiam.
Muitas vezes se perguntava se aquele tipo de resistência já não existia antes, visto que os vampiros também podiam exercer certos controles mentais e apagar memórias recentes, mas durante a sua primeira luta com um deles, e ainda humana, resistira quando David não pudera.
Nada de lembrar... Chega!
Apesar de odiar trabalhar com os outros escravos do Ômega, os esperava no horário combinado atrás do Clube Sky Night.
Minutos depois eles apareceram em uma van antiga. Três lessers ainda nos primeiros estágios da despigmentação e o Sr. T, com seus cabelos brancos, pele pálida e o insuportável cheiro doce de talco para bebê.
Nagisa vestia sua roupa de couro preta colada que moldava todas as suas curvas em um corpo de um metro e setenta. O cabelo branco preso em sua inconfundível trança e a espada wakizashi pendendo de seu flano esquerdo. Não levava armas de fogo, apenas um pequeno sabre fazendo conjunto com a espada.
Entrou no veículo sem nada dizer e os outros permaneceram em silêncio. Assim como muitos antes se surpreenderam ao ver uma mulher como eles.
O Sr. T, que a conhecia e odiava, lhe olhou por um breve momento com um sorriso dissimulado nos lábios.
— Soubemos que teve o seu primeiro encontro com a Irmandade na noite passada. — murmurou carregando a sua arma enquanto o carro punha-se em movimento. — E de sua derrota.
Nagisa o olhou fixamente por um momento. Seus olhos verdes duas chamas de puro ódio e desdém. Sem responder colocou a mão sobre o punho da espada e continuou a mirar o rosto pálido do Sr. T.
— Bem... — pigarreou o lesser segurando mais firmemente a automática. — Não importa... Foi... Foi um aprendizado não? Basicamente um reconhecimento do terreno pode-se afirmar.
Nagisa virou o rosto para a escuridão que se divisava pela janela sem tirar a mão da espada e com a mente alerta para o bastardinho ao seu lado. Seus companheiros lesseres não eram e nunca seriam de confiança. Todos eram recrutados entre o pior do pior da escória da humanidade. Eram maus antes do Ômega e só tendiam a se tornar ainda piores, se é que isso poderia ser possível.
O Sr. T esperou que a vadia lhe perguntasse algo sobre a missão, mas como ela permaneceu calada, e ele não era um bom exemplo de paciência, falou:
— Lash nos deu um grande honra. Incumbiu-nos da destruição de uma importante família vampira. Uma das poucas casas seguras que ele tem conhecimento que ficam em Caldwell. Neste mesmo momento estão ocorrendo mais dois ataques semelhantes.
O Sr. T olhou para a fêmea para ter certeza de que ela o ouvia.
— Nos bateremos com possivelmente oito vampiros civis e estejam todos preparados. Parece que dois dos machos foram treinados pela Irmandade.
Todos na van assentiram.
Cinco minutos depois chegaram aos arredores da velha mansão. Não era uma fortaleza, mas tinha inúmeros sistemas de defesa, que pouco a pouco foram destruídos pelo grupo. Em perfeita sincronia cada um dos lesseres entrou na mansão e começou a exterminar os vampiros.
Nagisa viu um dos jovens lesseres ser atacado por um gigante moreno que com um bastão de beisebol o arremessou para o outro lado da sala. Antes que ela desse dois passos e já com a espada preparada foi atacada por outro macho moreno e mais velho.
O golpe a desequilibrou por um momento, mas no seguinte já lutava com a graça e precisão de sempre. Venceu o inimigo em pouco tempo, sendo que com um último golpe separou a cabeça de seu corpo.
Seguiu em frente observando como o macho vampiro mais jovem era dominado por dois lesseres para que o Sr. T o exterminasse. Mais à frente, na direção dos quartos, viu o outro lesser novato retalhar uma jovem vampira loira.
Continuou em frente ouvindo os gritos a suas costas. Os outros tinham terminado com o vampiro jovem e provavelmente tinham encontrado mais alguns. Deviam ser oito naquela casa, quatro ou cinco já encontrados, ficavam faltando três.
Vasculhou todo o térreo e o primeiro andar com urgência. Tinham pouco tempo. Em minutos os vampiros da Irmandade apareceriam. Afinal, todas aquelas casas seguras tinham um sistema de aviso ligado ao quartel general dos irmãos.
O problema não era ter que lutar com um deles, era isso o que todos da Sociedade esperavam afinal, mas o produto da pilhagem deveria ser retirado antes que eles chegassem. As ordens de Lash deveriam ser obedecidas. O dinheiro era importante para manter os membros da Sociedade abastecidos e munidos para a guerra.
Os companheiros guiados pelo Sr. T já tinham retirado tudo de valor do térreo e agora terminavam com o segundo. Nagisa estava a postos na sala onde uma janela lhe dava uma visão privilegiada da entrada da mansão, quando ouviu o barulho.
Muito baixo a princípio, mas forte o bastante para os seus aguçados sentidos.
Silenciosamente seguiu o som que vinha da cozinha. Pé ante pé aproximou-se de uma pequena despensa de apenas uma porta no canto mais afastado e escuro do lugar. Desembainhou a espada novamente e no movimento ágil abriu a porta pronta a atacar, para logo em seguida abaixar o braço. A visão das três crianças a deixou paralisada por um momento.
Sentados naquele pequeno vão escuro duas delas a olhavam com profundo horror. Uma menina de pouco mais de cinco anos, um menininho moreno de não mais que dez anos que carregava nos braços um bebê. O bebê por sinal era a fonte do barulho que lhe chamara atenção.
Por alguns segundos ficou olhando aquelas três criaturinhas indefesas encolhidas no canto da despensa, tremendo de terror e esqueceu que eram vampiros, esqueceu seu ódio, seu rancor, sua vingança. O primeiro pensamento que teve foi de protegê-las dos monstros que mataram seus pais e saqueavam sua casa. Deu-se conta no segundo seguinte de que ela mesma era um dos monstros e que aquelas não eram crianças normais. Elas cresceriam, se tornariam vampiros e matariam, machucariam as pessoas.
Ergueu a espada preparando o golpe, mas a visão das lágrimas deslizando abundante dos olhos verdes da garotinha foi mais forte que toda a maldade acumulada dentro de si.
Nunca matara uma criança vampira. Nunca. Não começaria agora.
Com rapidez embainhou a espada e se abaixou colocando um dedo nos lábios pedindo silêncio. Não tinham muito tempo, os outros poderiam aparecer a qualquer momento. Em silêncio afastou-se, fechou novamente a porta da despensa e voltou ao seu posto na sala.
— Terminamos Miss N. — chamou o Sr. T. — Vamos!
Os lesseres entraram rápido na van, o Sr. T com um isqueiro nas mãos afastou-se da casa. Nagisa sentiu o cheiro de gasolina e viu o rastro molhado que se afastava da entrada até os pés do lesser mais velho. Sem demonstrar nenhuma emoção viu o Sr. T acender o isqueiro e o fogo correr em direção a mansão. As labaredas se tornaram altas em pouco tempo.
Bastaria se virar, entra no veículo e ir embora. Toda a sua essência lhe dizia para fazê-lo. Eram apenas vampiros. Crianças vampiras... Crianças... Eram crianças. Todos os seus instintos de lesser gritavam e lutavam dento de seu corpo com aquela ínfima parcela humana, feminina e maternal que ainda possuía.
Seria tão mais fácil apenas ir...
— Vamos Miss N – Chamou o lesser antes de entrar na van.
— Vão na frente, tenho algo a resolver aqui. — Ouviu-se dizendo.
Sr. T se regozijou intimamente. Os irmãos chegariam ali em pouco tempo e sabia que numa situação como aquela nenhum deles viria sozinho. Nagisa poderia lutar de igual para igual com um deles, mas certamente não com dois.
Sem questionar deu a ordem e a van partiu.
A lesser ficou parada a entrada até que teve a certeza que eles tinham realmente partido. Olhou o incêndio e não se permitindo pensar entrou na mansão e correu em direção à cozinha.
Como imaginou as crianças ainda estavam escondidas ali.
— Venham comigo, rápido! — Nenhuma das duas se mexeu. — Droga! Venham, vocês querem morrer? — gritou diante dos olhares arregalados.
— Melhor morrer aqui do que sermos feitos prisioneiros! — A voz do menino soara forte e decidida apesar do medo.
— Não temos tempo. — gritara ela agarrando a menina e o bebê, apesar dos esforços do garotinho em lhe impedir.
Quando Nagisa começou a se deslocar com cuidado para a saída, evitando os móveis e as paredes em chamas, o garoto sem opção resolveu arriscar e a seguiu. Com sua habilidade saíram sem problemas e, há uma boa distância da casa em chamas, colocou a garotinha no chão, no que, relutante, entregou o bebê ao menino.
Com as luzes emitidas pelas labaredas a banhar seus corpos, criando lindos tons alaranjados sobre as suas peles, ficou observando as pequenas criaturinhas que se erguiam a pouco mais de um metro do chão.
— Se escondam nas árvores até os vampiros chegarem. — ordenou dando um passo relutante para trás.
Foi muito rápido.
Num momento olhava as crianças, ainda não acreditando no que fizera, e no que estava fazendo, no seguinte, com a espada, amparava o golpe de uma adaga.
Os golpes se seguiam velozes, sem dar a oportunidade de encarar seu atacante. Só percebia que era um moreno, quase tão alto como o vampiro do beco de duas noites atrás, porém não tão forte. Mas ele lutava com ferocidade impressionante, em golpes sucessivos e elegantes.
As lâminas soltavam faíscas a cada encontro. Os músculos dos braços do vampiro brilhantes de suor. De repente ampararam um golpe frente a frente. Seus rostos a vinte centímetros de distância, medindo forças. Logo seus olhares se encontraram.
Choque... Incompreensão.
Nagisa nunca vira olhos claros tão profundos e cheios de tanto ódio, Talvez, só os seus. Era como olhar-se no espelho e ver todos os seus sentimentos refletidos, lhe mirando de volta, num rosto que apesar de visivelmente maltratado, era sem dúvida o homem mais másculo que já vira.
Ante o estupor, com as defesas baixas, viu-se derrubada e o corpo do vampiro ajoelhado sobre o seu peito a mantendo segura no chão. Seu braço da espada, ainda segura firmemente, estava preso pelo punho por uma enorme mão.
Esse é o fim. pensara estranhamente resignada. A lâmina da adaga pressionava bem sobre o local do seu peito onde abaixo da carne e músculos deveria estar o coração.
Seus olhos passearam pelas feições do vampiro e buscaram seus olhos.
David, perdão.
Pediu movida pela vergonha do profundo e súbito desejo que este vampiro lhe despertou. Desejo que, certamente como lesser, não deveria estar sentindo.
Os olhos dele também pareceram brevemente confusos e um leve cheiro de especiarias e vinho, do nada, a golpeou.
— Tohr! — gritara uma voz perto, mas estranhamente longínqua, refreando a mão do vampiro no momento exato em que ele decidira mandá-la de volta ao Ômega.
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