Notas iniciais
A luta se resumia ao ataque frontal, ao mano a mano. Os golpes vinham de todas as direções. Três lesseres munidos de espadas se batiam com Nagisa enquanto os outros se concentravam no vampiro moreno.

Capítulo XI

Estacionou o carro a uma distância razoável do alvo. A casa, como todas as demais pertencentes à Sociedade Lessening com o objetivo de interrogar e conservar os prisioneiros, sempre ficava localizada em sítios ermos como aquele.

No local onde estava não poderia ver a casa, nem ser vista. No entanto, teve que se aproximar com o carro o máximo possível, pois não sabia como o encontraria. Numa situação comum teria buscado mais distância.

Respirou fundo antes de descer do veículo para a escuridão da noite. O sabre e a adagas assentadas em seu corpo, à espada já desembainhada em sua mão direita. O celular no bolso de sua calça.

— Preciso de calma. — Murmurou como uma prece para, não saberia dizer quem.

Há pouco ligara para Warth novamente e lhe dera a localização em que se encontrava. Dali a alguns momentos eles chegariam.

O tom do rei não fora dos mais amigáveis, e certamente não acreditou em nada do que dissera. Os vampiros aportariam no local com todo o seu poder de fogo, preparados para uma armadilha.

Afastou-se do automóvel em direção noroeste, se embrenhando entre as árvores, os pés afundando na neve alta que cobria o chão, o vento frio em nada lhe incomodando, apesar de levar no corpo apenas uma camisa sem mangas e calças rasgadas, de couro.

Há quase dois metros da casa agachou-se perto do tronco grosso de uma árvore, no local mais escuro da mata. Avistou um lesser na entrada e um virando em direção aos fundos em ronda. Esperou dois minutos e não avistou nenhum outro. Estacionados viu apenas uma van e um wolks antigo, verde. Não distinguiu nenhuma câmera de segurança.

Os outros, e esperava que não fossem muitos, deveriam estar no interior.

Suas suspeitas de que o Sr. T mentira parecia estar se tornando mais real a cada momento. Para uma aquisição daquelas, um membro da Irmandade, deveriam ter sido colocados mais vigias, chamado mais reforços. Ela pelo menos teria feito isso. De certa forma rezou para que ele estivesse ali vigiado por lesseres incompetentes.

A despeito de confiar em si mesma e em suas habilidades, mesmo estando em desvantagem com aquele ferimento no braço, receou em dar um primeiro movimento sem reforços.

"E se fosse derrotada? E se Tohr não estivesse ali e fosse abatida?" Pensou aflita.

Devagar retirou o celular do bolso e o mais rápido que conseguiu, digitou uma mensagem ao rei vampiro, onde colocou todos os locais que conhecia e eram usados pelos lesseres.

Quando uma mensagem silenciosa foi devolvida e umas duas letras apareceram na tela – OK – se dirigiu em silêncio ao lesser que rondava a casa.

O golpe foi limpo e rápido, e em um poff, ele desapareceu. Com maior determinação abordou o guarda na entrada e tão ou mais rápido quanto ao outro, este também partiu em direção ao inferno.

Devagar entrou.

A escuridão na parte superior somente quebrada pelos raios de luz que entravam pela janela. Sem hesitação caminhou em direção as escadas que a levariam ao porão, onde implorava a tudo de bom que existisse no mundo, que ele ainda estivesse vivo.

***

Acordou e estava atado, lesseres ao seu redor, uma forte luz sobre o seu rosto, e um cheiro doce insuportável pairava no ar. Seu organismo acelerado já se curando quase totalmente dos efeitos do sedativo. A mente já lúcida dirigiu seu primeiro pensamento a Nagisa.

Cheirou novamente o ar procurando pelo aroma dela e não encontrou. Meneando levemente a cabeça contou três lesseres no seu raio de visão, provavelmente deveriam existir outros.

— Vejam o sanguessuga acordou. — Ironizou um dos presentes. Um recém ingresso de cabelo castanho e pele levemente pálida. – Preparado para uma sessão de carinhos belo-adormecido?

— Onde está a mulher?

O tom de voz do macho teria tornado precavido um lesser mais ajuizado. No entanto, o novato apenas sorriu e com a faca que tinha a mão fez um gesto de degola no próprio pescoço, sorrindo obscenamente.

Com os olhos escuros o vampiro emitiu um rugido alto e forte, sacudindo o corpo, afrouxando os ferros que o prendiam.

— Sr. J deixe-o, recebemos ordem do Sr. O de aguardar.

— Quando o chefe chegar suplicarei pela oportunidade de tirar uma lasquinha quando te fatiarem.

— Porque não tenta agora bastardinho de merda. Ou está com medo que esfole essa sua cara de cera com meus dentes.

Virgem, Tohr não achou que daria certo, mas bastaram umas poucas palavras e o novato se empertigara todo, e vinha em sua direção com a faca em punho.

— Sr. J?! — Tentou detê-lo o mais prudente.

O lesser esquentadinho ficou pairando sobre o seu corpo, o cabelo castanho claro e comprido caindo ao redor de seu rosto num leve balanço, os olhos agudos e frios sorrindo pela expectativa de maltratar o inimigo atado, o cheiro doce e irritante impregnado o ar ao redor dos dois.

— Vou ter o prazer de usar suas presas como pingentes na minha... — Gorgolejou, cuspindo o sangue negro não podendo falar ou respirar.

O vampiro cravara fundo as presas em sua garganta arrancando boa parte da carne do lado esquerdo, deixando a jugular exposta, o sangue como petróleo esguichando forte para todo o lado.

O lesser elevou as mãos ao pescoço se afastando e caindo ao chão. Os outros dois ao observarem a forma do companheiro debatendo-se, não perceberam que a faca agora de posse do vampiro estava sendo usada para livra-se das cordas e ataduras.

Anos de prática e exaustivas batalhas dentro e fora da Irmandade tornavam Torh um perfeito guerreiro. Estar preso, atado, cercado e aprisionado por um inimigo tolo e despreparado, parecia até um insulto.

Quando os lesseres perceberam que ele estava quase completamente livre, voaram em sua direção.

O mais velho o atingiu no peito com uma faca de caça que tirara de lá se sabe onde. O outro recebeu dois golpes antes de ter a faca do Sr. J ferrada no lugar do coração e em um estalo desapareceu.

Ágil, Tohrment conseguiu livrar-se completamente, enquanto o lesser-prudente-filho-de-uma-puta corria em direção à porta tentando buscar reforços.

Antes que o vampiro pudesse sair em seu encalço, viu o inimigo ser transpassado por uma espada e desaparecer no ar em frente a Nagisa.

Por um momento se encararam atônitos, surpresos e felizes. No outro estavam grudados, aferrados em um abraço.

— Está bem? — Perguntaram ao mesmo tempo e sorriram um para o outro pela primeira vez.

Tohr passeou as mãos por todo o rosto dela o olhar brilhante de alegria.

— Vamos é hora de sair daqui. — Chamou com urgência puxando-a pelo braço em busca de sua mão. — Virgem Escriba! — Murmurou atônito.

O olhar alcançou a mão da espada onde à algema com três elos da corrente pendia, depois fixou-se na esquerda onde uma feia e vermelha queimadura fechava o pulso sem a mão, por fim fitou o rosto sério e decidido da fêmea.

— Não há tempo para explicações precisamos sair daqui. Você poderia se desmaterializar agora?

— Sim!

— Então...

— Mas não vou. Não vou te deixar. — Com determinação agarrou a mão da espada e começaram a fuga. — Tem um veículo?

— Sim. Está a duzentos metros em direção aos carvalhos do lado direito. — Respirou fundo feliz, aliviada em vê-lo a salvo. — Pega as adagas. — Pediu sem parar a carreira, sentindo quando ele, sem hesitar, as tomou.

Correram com urgência na direção apontada, a lesser tomando à dianteira. Rápidos, não levaram mais que cinco minutos para chegar ao local.

— Que porra fudida! — Tohr exclamou entre os dentes à visão de quase uma dezena de lesseres armados na clareira entre eles e o carro.

Roupas pretas, apenas as mãos e as cabeças brancas visíveis na luz escassa da noite. Espadas e facas à mão, nada de armas de fogo.

Lado a lado o casal se preparou para a peleja. Os lesseres em formação começaram o ataque.

A luta se resumia ao ataque frontal, ao mano a mano. Os golpes vinham de todas as direções. Três lesseres munidos de espadas se batiam com Nagisa enquanto os outros se concentravam no vampiro moreno.

O choque de metais lançava faíscas a cada encontro. Um lesser tentou acertar seu pescoço fazendo-a se esquivar num movimento leve e gracioso, girando sobre o próprio corpo, sob a lâmina inimiga e acertar um os lesseres no peito enquanto seu pé acertava o tórax de um maldito jogando o corpo dele para longe. O terceiro procurou acertar-lhe as costas, mas ela estava preparada e conseguiu vencê-lo, deslizando a espada em seu peito, explodindo o fudido num pequeno clarão.

O desgraçado que levara o chute estava de volta em poucos segundos. Com força amparavam o golpe um do outro, e teve de admitir que de todos, esse com certeza se batia como um maravilhoso esgrimista.

As espadas se rechaçavam, ora perto da fêmea, atingindo seu corpo algumas vezes; ora no lesser, fazendo pequenos cortes em seus braços e rosto.

A suas costas, Tormenth se perguntava onde estariam os seus desgraçados irmãos. A desvantagem era grande demais, os lesseres um inimigo poderoso e seu corpo ainda não estava na plenitude de suas forças.

Grunhiu, e numa primeira investida, se atirara contra um dos lesseres com tanta força que o arremessou ao chão, indo junto e cravando as adagas entre as costelas frontais. Ergueu-se rápido atacando a outro inimigo, a lâmina rasgando a pele anêmica por cima da roupa preta.

A dor de um profundo corte em suas costas o desequilibrou por um momento. Respirando virou-se agarrando o lesser pelo braço, torcendo-o para trás e quebrando em três lugares. Contornando amparou o golpe de um lesser mais jovem, atingindo-lhe no pescoço, arremessando o corpo flácido ao chão, para despachá-lo ao Ômega. Voltou à atenção para o qual quebrara o braço, enfiando a adaga várias vezes em suas costas e jugular.

Tragando o ar volveu o olhar para a sua fêmea que lutava com um lesser tão grande quanto um irmão vampiro. Antes que conseguisse se erguer para ajudá-la, um braço o agarrou pelo pescoço, pernas entrelaçaram nas suas o derrubando de cara na neve, agora escura de sangue.

Não conseguia respirar, mas esse não era o problema, a faca que penetrou em suas costas duas vezes sim. A visão de Nagisa lutando bravamente a poucos metros lhe deu forças para arremessar o corpo para o lado com força prensando o lesser contra o chão uma, duas, três vezes até que ele o soltasse.

Rolando para o lado, respirou fundo, porém antes que conseguisse se erguer, o lesser, que mais parecia uma criança de tão pequeno, sumiu na escuridão da noite.

Todavia, não poderia segui-lo e deixar Nagisa sozinha lutando.

Olhou ao redor registrando as marcas na neve onde manchas escuras marcavam cada lesser destruído e se admirou com a perícia e força da mulher que amava.

Lutando contra o gigante lesser Nagisa perdeu o foco quando percebeu de relance o Sr. O atacando Tohr. O miserável não chegara a fore-lesser à toa e embora pequeno, seguia sendo letal. Por essa distração levou um desgraçado golpe que lhe desnorteou por um momento. Tonta, golpeou a esmo para manter o lesser afastado enquanto se recuperava.

A bala que atingiu seu ombro arremessando-a dois metros para trás foi inesperada. Tonta pelo choque da dor levou alguns segundos para focar novamente a visão e encarar o inimigo, O lesser com quem lutava ainda apontava a Glock em sua direção, mas ao perceber o vampiro chegando à disparada, girou a automática rapidamente apertando o gatilho duas vezes, derrubando o guerreiro.

Antes que o assassino pudesse atirar novamente Nagisa erguer-se e o atingiu na perna, desequilibrando-o por um breve instante, criando a oportunidade para atacá-lo novamente.

Contudo, antes que conseguisse, um novo disparo cortou o silêncio e o maldito caiu com um buraco na cabeça do tamanho de um punho.

Girando o corpo ela avistou sete vampiros para os quais o termo “armados e perigosos” parecia ser um fútil eufemismo.

Cinco deles conhecia, os outros dois, que pareciam ser mais jovens, não.

Tentou se levantar, mas foi em vão. Só possuía o apoio de uma mão, que no momento mantinha a espada preparada para se defender dos machos recém-chegados.

— Deveria ser mais precisa em suas coordenadas fada sininho! — Ironizou o de cavanhaque, caminhando em direção ao Tohrmenth para examinar seus ferimentos, seguido pelo de cabelo colorido e dos mais jovens.

Os outros três, Zsadist, Rhage e Butch permaneceram lhe observando, até que o poli deu um passo à frente. O gesto desencadeando uma reação de defesa de sua parte. Arrastou-se para trás, tomando distância dos dois grupos, a espada erguida, pronta para lutar.

Os olhos negros do da cicatriz a fitavam de uma forma tão cruel e intensa que podia sentir como golpes. Com exceção do Butch, sentiu o mesmo ódio em cada um dos irmãos.

Todavia, sua preocupação estava no vampiro baleado.

Girou a cabeça na sua direção no momento em que o de cavanhaque o erguendo pelo torso, e analisando os ferimentos, sorriu brandamente e proferiu algo tão baixo, que só pode escutar parcialmente. —... Desgraçado sortudo.

O olhar aliviado do vampiro desviou de Vishous para o mais jovem de cabelos curtos e escuros, abraçando a este com força e inconfundível afeição, antes de se fixar nela emanando uma felicidade desprendida e pura.

Seus olhos sorridentes foram pouco a pouco se tornando sérios, e apesar de divisar neles o amor que lhe dirigia, e alívio por terem escapado daquele massacre com vida, a alegria não estava mais ali.

O amor que possuíam não era alegre e nunca seria.

Olhando para Tohr lembrou-se do momento que o encontrara, no modo como o vento agitou seu cabelo, no tom claro do azul de seus olhos, da forma como seu corpo retesou e tremeu investindo contra o seu quando fizeram amor.

O suor, a pele quente, seu cheiro, seu gosto. Sabendo agora, com toda certeza, que seus sentimentos não eram unilaterais, que ele a amava também. Amava a ponto de ir contra sua própria gente, mas não de maneira que pudesse ser verdadeiramente feliz.

Amar e ser amada por ele o estava destruindo.

A concepção de que a história entre os dois consistia em uma horrível anomalia, uma inversão da natureza, uma afronta a Deus e a tudo de bom que existia, foi determinante para sua decisão.

Trôpega se ajoelhou e sentou sobre as pernas, esticando o braço e mantendo a espada horizontalmente a sua frente, em direção a ele, inclinando levemente a cabeça sem deixar de fitá-lo num gesto humilde de rendição.

Devagar depositou a espada na neve alva.

Sem pressa buscou o sabre que pendia de sua cintura, empunhando a pequena lâmina com a mão um pouco trêmula.

O vento balançou seu cabelo solto, afagando seu rosto como uma leve carícia. Por um breve momento as imagens de sua vida, de seu pai, David, Butch e Tohr bailaram em sua mente, e todo o amor que sentia por eles a acalmou.

Quando a intenção da lesser o atingiu, Tohr se atirou para frente, praticamente se arrastando em sua direção, esquecido das feridas, movido tão somente pelo desespero.

— Não... Nagisa... Não! — Gritou se aproximando, mas não em tempo.

— Eu te amo demais! — Ela murmurou.

E foi o último que lhe disse, antes de enterrar a lâmina no peito e sumir num clarão, por entre seus dedos.