Amor dos Deuses
1 Memórias
Estávamos de aula vaga no pátio interior da escola, quando tudo começou.
—Olha o diretor gostoso vindo!
— Safada. — respondo entre risadas.
— Com um homem daqueles quem não seria?
Ignoro o comentário dela e me ajeito na cadeira dando total atenção ao meu celular.
— Nossa! — ela abre um pouco a boca e arregala os olhos.
— Que foi? Ele está com gola V? — respondo ainda com os olhos no celular.
— Não, olha! — ela olha para mim e logo em seguida fixa seus olhos para a frente novamente. — Filha de Afrodite!
Olho para trás e vejo o diretor acompanhando uma garota provavelmente para a direção. O diretor com o mesmo estilo de sempre, camiseta colada mostrando os músculos e tudo mais, o que incrivelmente sempre tirava suspiro das meninas da escola inteira, inclusive da Juliana. Os cabelos negros dele formavam um topete bem feito, como de costume. Para mim ele parecia um Gusttavo Lima versão 2.0, mas para a Juliana; minha melhor amiga e vizinha, e o resto da escola, ele era um deus grego. A garota do lado dele, ual. Ela tinha o mesmo estilo que eu, mas só isso que era igual entre nós. Uma touca preta tampava metade da franja, cabelos lisos como o vento e avermelhados, eu poderia dizer que ela era ruiva, mas na verdade essa cor não era ruivo, e sim vermelho. Um estilo emo jogado pro scene. E eu não sei se ficava com inveja daquele cabelo perfeito ou se ficava babando nela, até eu prestar atenção no resto, ai não foi só o cabelo que eu estava babando, era nela toda. Ela estava quase toda de preto, em exceção do moletom que era cinza com uma coruja estampada, e dos detalhes brancos do vans preto que ela estava calçando. O diretor fala algo, em seguida ela olha justamente para a janela que estava atrás de mim e eu percebo que estou literalmente babando por ela. Recomponha-se, Luiza. O sol a iluminou no rosto. Ela é mais branca do que eu tinha percebido e tem duas piscinas no lugar dos olhos. Nossa, eu esqueci como se respira. Ela é muito linda, santa Afrodite. Eu já estava quase conseguindo me recuperar quando percebo que ela não estava mais olhando para fora e sim para mim, diretamente pra mim, nos meus olhos, e eu esqueci como se respira de novo. Meus batimentos pararam, estava quase tendo um infarte, um ataque cardíaco, desmaiando, morrendo, tudo ao mesmo tempo. Eu me afoguei naquelas duas piscinas e me afogaria todas as vezes que ela me olhasse. Ela olha para frente novamente com um tipo de.. sorriso? Talvez. E desaparece no corredor. Se passou um minuto e minha mesa ainda estava em silêncio, as pessoas da minha sala que estavam sentadas nas mesas espalhadas pelo pátio estavam conversando normalmente como se uma deusa não tivesse passado ali há minutos atrás, mas eu simplesmente não conseguia sair do transe, e aposto que a Juliana estava na mesma situação.
— Acho que estão fazendo uma dupla de gostosos.
— Aquela garota está sendo perfeita sozinha, o Gusttavo Lima 2.0 não está nessa lista. Ela olhou pra mim mesmo ou foi impressão minha? — pergunto.
— Você fala como se fosse super difícil não olhar para você, uma emo loirinha de olhos verdes, ual. — ela me lança um olhar irônico.
— Não sou emo, só tenho franja, você que é emo.
— Não sou uma garota, só tenho peitos e uma vagina no meio das pernas. — ela coloca as mãos nas bochechas e faz cara de surpresa.
— Não sei porque ainda tento falar com você.
Nós duas rimos.
— Será que ela vai estudar aqui? — pergunto.
— Se ela não fosse estudar aqui não estaria conhecendo a escola ou coisa do tipo.
— Ela pode ser parente do diretor e estar só visitando..
— Mais pessimista impossível.
O sinal toca.
— É duas aulas pra você? — pergunto.
— Não, e pra você?
— Sim, sua sala já está entrando, é melhor ir logo.
— Nem precisava falar, agora é duas aulas de história.. — ela se levanta e começa a se arrumar — Se eu atrasar um segundo aquele velho me dá uma suspensão.
— Boa sorte. Todos os átomos daquele cara tem chatice.
— Bom sono, você quis dizer..
— Isso se ele não ir te acordar batendo a mão com tudo na mesa. — nós rimos — Te vejo na saída, vinhada.
— Se eu sobreviver com aquele professor na mesma sala que eu por quase duas horas, até lá, Liz. — ela aperta um pouco os lábios e segue em direção para a sala dela.
Ainda era a penúltima aula e eu estava no pátio morgando, é legal ficar de aula vaga no pátio, quando você tem amigos pra ficar jogando a conversa fora, mas a Juliana só tinha uma aula vaga e eu tenho duas, se eu não quisesse criar teia era melhor ir procurar algo para fazer logo. Atravessei metade do pátio e entrei no corredor, subi as escadas e andei um pouco, finalmente chego na minha sala, a última do corredor do último andar da escola. Entro na minha sala até então vazia, pego um livro na minha bolsa e começo a ler.
O tempo passou voando e eu só percebi que era hora de ir embora quando as pessoas da minha sala começaram a entrar para pegar as bolsas, coloquei o marcador na página em que eu parei no livro e o fechei. Meus materiais já estavam todos dentro da bolsa então não tive esse trabalho. O sinal toca e a Juliana entra na minha sala quase na mesma hora.
— Estou com fome.. — ela senta na minha mesa. — Que livro é esse?
— O Herói Perdido. — respondo.
— Terminou O Último Olimpiano quando?
— Ante-ontem. — me levanto, coloco a bolsa nas costas e saio andando. — Estou enrolando o máximo que eu posso para terminar Os Heróis do Olimpo, minha vida sem Percy Jackson não funciona.
Ela dá uma corridinha para me alcançar e começa a andar do meu lado.
— Você não vai guardar o livro?
— Preguiça, vou levar na mão mesmo.
Descemos as escadas e atravessamos o pátio chegando no portão de saída que, inclusive, estava fechado. Tínhamos demorado de mais. Nossa única escolha era ir para a diretoria sair pela porta de lá. De brinde ganhei os resmungos da Juliana o caminho todo, do pátio até a diretoria, mas não liguei pois estava com a cara no celular. Quando chegamos ela ficou quieta na hora, até estranhei, por isso olhei e bom, entendi perfeitamente o seu silêncio.
— Oi, Luiza! — ele olha pra Juliana e transparece um olhar de dúvida — E..?
— Juliana.
— Ah sim, Juliana, oi pra você também! Em que eu posso ajudar vocês duas?
A Juliana começa a conversar com o diretor e eu não presto atenção alguma no que eles estavam falando, porque infelizmente ou não, eu estava vidrada na garota que mais cedo estava no pátio com o diretor. Ela estava encostada no pilar mexendo no celular, que inclusive era um iPhone 5 branco, tinha sido lançado semana passada e essa garota já tinha, deveria ser metida, certeza. Não iria demorar muito para ela perceber que eu estava a encarando, eu sabia, mas simplesmente não conseguia parar de olha-la. Até que ela percebe. A garota levanta o olhar e me fita. Ficamos nos olhando até que ela desce o olhar para a minha mão, onde o livro estava. Ela pareceu reconhecer, porque deu um sorriso de canto quando viu. Ela encarou o anel em seu polegar que até então eu não tinha percebido e o tirou o segurando na minha frente, deu uma leve inclinada nele me mostrando o lado de dentro e eu não precisei forçar minha visão para ver, eu conhecia aquele símbolo. Uma coruja e um “Cabin 6” estavam gravados na parte de dentro do anel. Ela também era fã de Percy Jackson, e ainda por cima, filha de Atena, isso explicava o moletom. A coruja era o símbolo de sua mãe. Ela recolocou o anel e eu não consegui deixar de sorrir para ela, que me respondeu com outro sorriso de canto e um arqueio de sobrancelhas. Pelo jeito ela não sorri muito. Ela olha novamente para os meus olhos e ia falar algo, se não fosse pelo imbecil do diretor atrapalhar:
— Então vocês podem sair pela porta da diretoria! Deveriam ter me falado antes que o portão fechou e vocês ficaram aqui..
Por que logo agora ele teve que interromper? Que vontade de arrastar a cara desse homem no asfalto quente.
— Vamos, vamos. Eu tenho muito o que fazer ainda! Simone, abre a porta da diretoria pra essas duas aqui, por favor.
— C-Claro diretor, podem vir por aqui, meninas. — a funcionária foi dentro da sala da recepção e abriu a porta para nós por meio de um controle e foi nos escoltando até a porta como se não tivéssemos pernas.
Consigo dar uma última olhada para a garota e ela estava olhando para mim. Suspiro e ela me responde com um olhar travesso.
Eu e a Juliana fomos o caminho de casa inteiro em um silêncio constrangedor, talvez porque nós duas estávamos tendo os mesmos pensamentos só que com pessoas diferentes. A curta conversa que ela teve com o diretor resultaria em ela falando o caminho todo de como os músculos dele são bem melhores de perto, mas isso não ocorreu, ao invés disso ela estava quieta e eu prefiro que continue assim o resto do caminho, mas isso é um tanto quanto egoísta.
— A garota falou comigo. — começo.
— Quando?
— Na hora que você estava explicando para o diretor o que aconteceu, ela viu o livro na minha mão e me mostrou que também é fã da saga.
— Mostrou? — ela olha pra mim com dúvida.
— Dentro do anel que ela usa tem uma coruja e o chalé dela, ela tirou e me mostrou.
Ela consente.
— O que você estava falando com o diretor?
— Mas você estava do meu lado...
— Pois é, mas eu não ouvi.
— Porque estava namorando.
— Juliana! — falo a repreendendo.
— Sobre a escola que ele dá aula. — ela bufa.
— E desde quando você se interessa sobre isso?
— Desde quando é sobre ele. — ela fala como se fosse algo óbvio.
— Juliana, ele tem 20 anos.
— E eu tenho 16, quatro aninhos de diferença. — ela faz uma cara sonhadora.
— Nesse caso quatro anos é muito, o cara já é diretor de uma escola e você ainda estuda.
— E qual o problema? — ela pergunta e eu suspiro.
Já estávamos na rua da minha casa.
— Tem planos pra hoje? — ela pergunta mudando de assunto.
— Dormir e comer.
— E para o final de semana?
— Dormir, comer e fazer a lição.
— É, não esperava muita coisa de você mesmo.. Te encontro no Twitter?
— Uhum, até lá.
Entro na minha casa e a Juliana vai para a dela. Tomo um banho demorado e almoço, era sexta e não tinha necessidade de fazer a lição, então eu deito na cama e em alguns minutos eu já estava no terceiro sono.
Acordo com o barulho tranquilizador da chuva. Decido me levantar e ir comer algo, pela janela da sala vi que já estava de noite, apalpei o bolso do meu pijama procurando meu celular mas não o achei, peguei um bolinho na cozinha e voltei para o quarto para procurar meu celular, o encontrei na cama e vi as horas, eram oito da noite, eu dormi mais ou menos por seis horas e ainda estava com sono, fiquei um pouco no Twitter e cai no sono novamente. Quando acordei de novo já era quatro da manhã, nada melhor do que estar acordada as quatro da manhã em pleno sábado. E foi assim o final de semana inteiro, dormir, comer, mexer no computador, fazer a lição e os trabalhos, assim como eu falei que iria fazer para a Juliana, talvez até mais tedioso, encontrei meu irmão algumas vezes pela casa nas horas que eu não estava dormindo ou trancada no quarto, o que foram muito poucas. O final de semana tinha passado e era segunda, estava a caminho da escola com a Juliana como sempre faço. Chegamos na escola e ela só não estava vazia por alguns funcionários e os poucos alunos que já tinham chego.
— Biblioteca? — perguntei.
— Preciso falar com o professor de história, você pode ir sozinha?
—Tudo bem, eu vou, mas o que você precisa com o professor de história? — perguntei.
— Nota. — ela respondeu.
— Só tenta não transar com ele, por favor. — falei dando risada.
— Só de pensar nisso me dá um enjoo. — ela disse e fez cara de nojo.
— Pois é, boa sorte. — dei um sorriso sorrateiro e subi as escadas para a biblioteca.
Eu entrei na biblioteca e parei na mesa da bibliotecária, olhei em volta e congelei com o que eu encontrei. Ela estava ali, sentada em um dos vários conjuntos de mesas e cadeiras do lado de uma estante de livros mexendo no celular, ela não me olhou ou pareceu perceber minha presença, só continuou a mexer no celular. Tentei fingir que ela não estava lá, mas era e ainda é uma missão falha, eu sempre dava alguma olhada em direção a ela. A bibliotecária, que chamamos carinhosamente de senhora Barbosa, uma velhinha muito simpática que está trabalhando na escola há algumas décadas me deu um sorriso simpático como sempre fazia e então começou:
— Mas o que devo essa incrível presença?
— Deve a livros de astronomia. — falei dando uma pequena risada e olhando para a garota.
— Hum, a minha divida não está muito boa, chegaram novos livros hoje mas não tive tempo de arruma-los na estante..
— Tudo bem, eu me viro. — respondi dando uma rápida olhada para a garota de novo e a bibliotecária pareceu perceber.
— Nada disso, eu te devo uma, a garota ali vai te ajudar. — ela olhou para a garota e eu segui os olhos dela, meus olhos se encontraram com aqueles azuis que tanto me tiram o ar.
A garota se levantou guardando o iPhone e andando calmamente para mais adentro da biblioteca, o que eu supus que era para os livros. Eu olhei para a bibliotecária e ela sorriu. Eu alcancei a garota e nós chegamos em uma mesa com muitos livros empilhados e bagunçados.
— Que assunto de astronomia? — a garota se virou para mim e perguntou em tom baixo.
A voz dela era linda, calma e doce, um pouco rouca, fazendo ser sexy também. Me peguei pensando em como essa voz deve levar ao delírio quando escutada ao pé do ouvido, que merda eu estava pensando?
— Em geral. — respondi sem muita confiança.
Ela deu uma olhada na pilha e retirou um livro o colocando na parte vazia da mesa que estava ao meu lado. Eu olhei para o livro e ele me chamou a atenção, o título era simples, "Astronomia", mas a capa era bonita e colorida, com galáxias, planetas e estrelas desenhadas.
— Você trabalha aqui? — perguntei.
— Não, só estou de passagem. — ela respondeu.
— Então por que a bibliotecária te pediu para me ajudar? — perguntei novamente.
— Ela deve ter pedido porque você não parava de me olhar. — ela falou e eu corei violentamente.
— Ahn.. Não percebi que você tinha percebido — falei fitando o chão.
Ela se aproximou mais e pegou no meu queixo com o polegar e o indicador e o levantou calmamente fazendo nossos olhos se encontrarem, ela é uns cinco centímetros mais alta que eu, e eu mergulhei naqueles dois mares. Uma mistura de sentimentos, era a única coisa que descrevia essa sensação, eu não conseguia me mexer, eu só conseguia me perder naqueles olhos, eu estava totalmente vulnerável a qualquer coisa que ela queira fazer, desejo, amor, êxtase, tudo causado por um olhar. Ela desviou o olhar e tirou os dedos do meu queixo, logo me fitou de novo mas por sua vez normalmente. Foi como se fosse um feitiço, e eu só conseguia pensar em uma coisa.
— Benção de Afrodite, por isso não consegui parar de te olhar. — falei suspirando.
— Sim, a culpa não é sua por não conseguir desviar o olhar, filha de Hipnos — ela respondeu.
— Di immortales, como? — perguntei surpresa.
— Subestimar uma filha de Atena não é sua melhor opção.
E realmente não era, a maioria nem lembra quem é o deus Hipnos, mas ela simplesmente descobriu que sou filha do deus do sono na primeira conversa que tivemos. O sinal tocou. Nós voltamos para o começo da biblioteca e eu fui para a mesa da bibliotecária registrar o livro de Astronomia em meu nome. A garota pegou a bolsa dela que até então estava escondida na cadeira e então começou a andar em direção a porta.
— Hey, eu vou te ver de nov.. — então eu percebi que eu ainda não sabia o nome dela e parei no meio da pergunta corando um pouco.
— Pode me chamar de Luba. — ela respondeu ainda andando em direção a porta.
— Luba.. — eu falei para mim mesma.
Ela parou na porta e então me fitou.
— Eu sou da sala que fica ao lado da sua, Liz. — ela disse serenamente, deu um sorriso e então foi embora.
A Juliana entrou alguns segundos depois e se deparou comigo de boca aberta e olhos arregalados olhando para a porta, ela pediu mais explicações do que eu poderia dar naquele momento. Eu fui o caminho da biblioteca até a minha sala inteiro sorrindo e fitando o chão parecendo uma retardada, eu soube naquele dia que era aquele sorriso que iluminaria os meus dias dali em diante, e estava certa.
Fale com o autor