Amor dos Deuses

2 Lembranças


Se passaram três meses desde aquele dia, e eu o lembro como se fosse ontem, eu não vi muitas vezes aquele sorriso, mas ter ela ao meu lado já compensava tudo, nós tinhamos virado melhores amigas. Poucas coisas mudaram nesses meses, a Luba pintou o cabelo de preto e platinou um pouco a franja, para mim ela ficou mais deusa ainda, e para os meninos também, o que talvez não seja tão bom assim. O sinal toca mostrando que é hora do intervalo e a maior parte sai da sala em poucos segundos, como se tivesse um pedaço de picanha no corredor e todo mundo morasse embaixo do viaduto, eu e Luba criavamos vários exemplos com isso e ficavamos rindo até a barriga doer, como na vez que um menino que senta na mesma fileira que eu correu para a porta e em vez de alcançar a maravilhosa picanha imaginária dele, tropeçou no próprio pé e caiu de boca no chão na frente de toda a sala, eu até senti um pouco de dó dele encondido no fundo da minha risada vendo a cena da sala toda desesperada e o menino caido duro no chão, até eu ver a Luba na porta com um olhar frio que fazia você ficar com medo até de olhar para ela, ela deu um suspiro e entrou na sala, chegando no meu lugar ela disse algo como "acho que até moradores de rua tem seu limite ás vezes", e pronto, foi a bomba certa para eu entrar em uma crise de risos na pior hora que eu poderia ter uma, a sala toda ficou olhando pra mim e depois que o menino acordou ficou com uma certa raiva de mim também, mas ele nunca mais correu para a porta quando o sinal bateu. Vou para a porta e vejo a multidão de camarote porque a minha sala é a última do corredor, odeio sair em multidões, então sempre espero todo mundo descer para o pátio, e agora não vai ser diferente. Para a minha ilustre sorte, a Luba pensa da mesma forma. Ela aparece na porta da sala dela — que no caso fica de frente com a minha — olhando para a direção da multidão que já não está tão grande assim e se encosta na parede me fitando. Ela não usou mais a benção de Afrodite em mim desde aquele dia na biblioteca, mas toda vez que estou com ela ou ela me olha com aqueles dois mares eu me sinto no mesmo efeito, ou seja, sempre. Eu me sinto estranha com isso, mas com o tempo aprendi a me acostumar, amenizar o tamanho efeito que ela tem sobre mim, não gaguejo mais, me sinto confortável perto dela, mas no fundo ainda sinto essa sensação, eu querendo ou não. Eu suspirei e voltei para a sala, quando estava quase chegando na minha carteira senti a presença de alguém entrando. Antes de sentar no meu lugar, — que é o último da fileira do meio — ainda de costas puxei uma cadeira para o lado da minha carteira e sentei tendo visão de quem vinha atrás de mim. A Luba sentou na cadeira que eu acabara de puxar e colocou o pé na cadeira da frente. Eu puxei uma cadeira para o meu lado direito e deitei nela com minha cabeça nas coxas da Luba tendo uma visão super privilegiada do teto branco.

— O que aconteceu? — ela disse ocupando suas mãos; uma em minha cintura e a outra mexendo em meus cabelos.

Eu arrepiei com a mão dela na minha cintura e esperei que ela não percebesse, mas ela percebeu e me olhou com surpresa. Eu corei e tentei pensar em outra coisa, mas a situação não cooperava. Ela desceu a mão lentamente para a minha coxa me arranhando ao mesmo tempo, eu virei para o lado cobrindo meu rosto com as mãos sem ter tempo de ver a reação dela ou saber se ela tinha ouvido, eu acabara de gemer. Foi um ato tão discreto a ponto de eu duvidar se foi intencional ou não, parte de mim queria acreditar que não foi inocentemente, mas parecia bom de mais pra ser verdade, meu gemido foi abafado e baixo mas corei violentamente só na hipótese dela ter ouvido. Ouvi os lábios dela formarem um sorriso, um sim para a minha pergunta mental, talvez, e eu estremeço novamente com essa hipótese.

— Você ainda não me disse o que aconteceu.. — Luba diz voltando com a mão em minha cintura como se nada tivesse acontecido.

Eu me viro ainda corada e escondo meu rosto no moletom dela. Fico assim por alguns minutos e volto a ter a visão privilegiada do teto.

— Não subestime uma filha de Atena. — falo fazendo uma imitação horrível da voz dela.

— Só estou sendo educada sua ingrata. — responde.

Eu dou risada e por alguns segundos esqueço que acabei de gemer pelas mãos da minha melhor amiga.

— Eu queria conseguir fazer algo para sumir com as saudades que você tem do seu pai, mas não sou Hera pra apagar suas memórias dele. — Luba diz desapontada.

— Como você suporta? — pergunto, me referindo aos pais dela.

— Ir empurrando a dor pra dentro de si não é suportar, Liz. — ela responde olhando para a lata de lixo que fica do lado da porta.

— Você é incrível. — falo me aninhando em seu moletom.

— Claro que sou, garotas orfãs depressivas de 17 anos são a última moda. — ela diz em tom sarcástico.

Dou uma longa risada e a fito, que logo sou correspondida por aquele par de azuis que tanto me tiram suspiros. E foi nessa cena, nós duas se fitando com tamanha serenidade, sem pressa ou desconforto, com ela afagando meus cabelos e me dando tesão pelo simples toque na minha cintura que eu percebi o que se passava comigo, eu a amo, um amor longe de ser fraternal.

— Luba? — digo.

— Liz. — ela responde.

Um silêncio sereno se forma.

— Eu te amo. — digo com dor, sabendo que essa frase tem outras intenções que nunca vão ser correspondidas.

Notas finais
Liz - http://24.media.tumblr.com/tumblr_mbay17g7tS1rwynneo1_500.jpg Luba - http://24.media.tumblr.com/38a4a58a9dd2bb5ff465b5769172d155/tumblr_mnl9udA4aB1rprwa3o1_1280.jpg