Amor de Ontem, Hoje e… Sempre⏳⌛⏳
71 Kelly Wilker
Notas iniciais
NO CAPÍTULO ANTERIOR KATE É CONVIDADA PARA A SALA DA EMPRESÁRIA....
A Secretária a encaminhou até a porta da sala de sua chefe, abriu-a e deu passagem à Kate, retirando-se em seguida.
Se Kate já ficara impressionada com os relatórios, os números, a documentação e, por fim, a aparência e a apresentação dos ambientes e dos funcionários da “NICE CLOTHES”, ficara ainda mais abismada ao se deparar com Kelly Wilker.
Com olhar neutro e sendo o mais discreta que podia, Kate pensa... Nos mais de dez anos do exercício da advocacia, ela estava acostumada a lidar com todo tipo de pessoa, homem, mulher, homossexuais, de todas as raças, crenças, classes sociais e intelectuais... com ou sem deficiência física aparente, jovem ou idosa, gorda ou magra, alta ou baixa, feia ou bonita, mas esta, mulher, particularmente, a deixou boquiaberta...
A mulher, com certeza, era mais nova que Kate. Seus traços fortes e marcantes, tudo na sua aparência, enfim, indicava que era indiana, e a vestimenta tradicional, só confirmava sua nacionalidade, e, como não podia deixar de ser, por trabalhar no ramo de moda, estava impecavelmente vestida. Trajava um sari branco com um véu de seda, igualmente branco, ambos com ricas rendas e bordados da cor do tecido, cobrindo parcialmente seu rosto e seus longos cabelos negros. Usava um belíssimo conjunto de argola e colar de diamantes com uma enorme pedra central azul turquesa. E Como se não bastasse, seu porte, cabelos e maquiagem impecáveis faziam dela uma mulher simplesmente linda. A única semelhança entre Kate e Kelly era a cor dos olhos. Ambas possuíam os olhos verdes, que a depender da luminosidade do ambiente ou do estado emocional do momento, vão do castanho ao verde, passando pelo dourado.

Kate estava preparada para negociar com uma desconhecida, contudo, a imagem daquela mulher a pegou desprevenida, não só pela beleza, mas também e talvez, principalmente, pelo traje típico totalmente inesperado.
Por mais que Kate tentasse disfarçar o impacto que tivera ao se deparar com aquela beldade, sua reação não passou despercebida pela empresária que ao ver Kate entrar, olhar para ela e ficar imóvel, levantou-se e foi ao encontro da advogada e, com um sorriso no rosto estendeu a mão em cumprimento cordial.
— Bom dia. Seja bem vinda. Então você é a Dra. Katherine Beckett. – a empresária a encaminhou para um lado da sala onde havia um rico e belíssimo conjunto de sofás e poltronas e sinalizou o local onde Kate poderia se sentar. – Este lado da sala é mais informal. Fique à vontade, Dra. Beckett. — Ambas sentaram-se ao mesmo momento, parcialmente de frente uma à outra.
Ainda pasma e sem emitir nenhuma palavra, Kate sorriu e apenas devolveu o cumprimento.
De forma cordial, porém distante e sem rodeios, Kelly iniciou o diálogo — Então, o que a trouxe aqui, Dra. Beckett? Minha secretária, a Sra. Guadalupe Ramires, me informou que você tinha interesse em fazer uma visita à fábrica e que gostaria de conversar comigo, no entanto, você não sinalizou o motivo deste seu interesse. – sorriu amigável e deixou a pergunta no ar.
Não foi somente Beckett que não soube disfarçar seu olhar. Enquanto Kate olhara a empresária com um misto de admiração e espanto por nunca pensar que encontraria aquele tipo de mulher naquela fábrica, Kally também não conseguia esconder sua curiosidade pelo motivo da Kate estar ali, aliás, nem fez questão de ocultar sua intenção.
Como Kate era muito prática, admirou a forma direta com que Kelly iniciou a conversa. A propósito, não era prá menos, visto que não tinham nenhum grau de intimidade para falarem de amenidades antes de iniciarem o assunto que a trouxera ali. Como tinha interesse na compra de ações, não iria fazer qualquer tipo de elogio. Kate se manteria fria e distante e também iria direto ao assunto.
Também sorrindo de forma amigável, Kate se apresentou – Sim, sou Katherine Beckett. Prazer em conhecê-la, Sra. Kelly Wilker. Sou advogada. Eu moro em Washington, D.C., onde tenho um escritório de advocacia. – Neste momento, a curiosidade bateu mais forte e, acidentalmente, teceu um comentário que, assim que o fez, deu vontade de morder a língua, de tanta raiva que tivera de si mesma, por ter fugido do assunto principal. – Interessante, Sra. Wilker... Você me parece indiana, tanto na sua aparência quanto no seu modo de vestir, aliás, muito bonita, tanto você quanto sua roupa... Contudo, se não estou enganada, seu nome e sobrenome não são de origem indiana...
Neste momento é que Kate queria morder a língua. Ela não tinha nada que falar de assuntos íntimos, até porque não era da conta dela. Que petulância a sua... E, assim, com uma fisionomia embaraçada, tentou corrigir seu erro – Desculpe-me, Sra. Wilker, não queria ser indiscreta e invadir sua privacidade.
Sorrindo de forma amável, Kelly se manifestou – Oh, não! — sorriu com sinceridade e simpatia — Não se preocupe, Dra. Beckett. Não fico chateada, nem mesmo constrangida, até porque já estou acostumada com este tipo de comentário. – sorriu – Só que nunca ou quase nunca eu relato esta fase da minha vida. Contudo, mal te conheci e já te achei simpática — seu tom de voz era sincero — e como você demonstrou interesse vou fazer um breve relato. – ela sorriu — Bem, eu nasci na Índia e cresci sob os costumes da minha terra. Toda minha família é de lá e, como você deve saber, a Índia é muito rigorosa com relação às classes sociais... Até nos dias de hoje... Pois é, então, obedecendo a tradição milenar, a minha família pertence a uma casta superior; comerciante do ramo do vestuário e todos ainda vivem na Índia. Quando eu ainda era adolescente, meus pais me arranjaram um casamento com um homem muito mais velho do que eu, aproximadamente da idade do meu pai... Imagina... — ela fez um trejeito de quem achava um absurdo aquela tradição e continuou a explicar a Kate — e este homem que estava destinado a casar comigo também pertencia a mesma casta da minha família; ele era comerciante, só que do ramo de pedras preciosas. Era um homem bilionário. Eu fiquei morrendo de medo de me casar com ele, não só porque ele era muito velho para mim... também tinha o fato de que eu não o conhecia pessoalmente, somente por meio de fotografia que meu pai me mostrou. Eu estava assustada, pois ele não tinha nada a ver comigo. Contudo, na Índia, não é a moça quem escolhe o marido. É a família da noiva quem faz um acerto financeiro com a família do noivo e a moça apenas obedece. São contratos apalavrados que envolvem muito dinheiro. A noiva sai do jugo do pai e vai para o do marido, em total submissão. Só que eu sempre fui vanguardista e assim que eu soube deste acerto do meu pai com o amigo dele, eu me rebelei, causando um alvoroço na família. De um lado minha mãe ficou arrasada com a minha objeção e teimosia e meu pai, irado não só comigo, mas também com a minha mãe e a culpava por não ter me educado direito... Uma confusão total. Mas apesar de eu não me conformar com a situação, não teve jeito... Meus pais me trancaram em casa, como se diz, a sete chaves, até o dia do meu casamento. Todos os rituais pre-nupciais da nossa cultura, seriam realizados sob os olhos de meu pai, minha mãe, meus avós, tios, tias, primos... todo mundo. Contudo, nesta época, sem a minha família saber, eu e um jovem rapaz que não pertencia a nossa casta, já estávamos apaixonados um pelo outro e já estávamos namorando... Um namoro singelo e puro. Só que tinha outro grande problema... Além de eu já estar prometida a outro homem com acordo financeiro entre meu pai e o tal amigo dele, Omar, o rapaz por quem eu estava apaixonada, fazia parte de um povo que vive à margem desta estrutura de castas. Eles não pertenciam a nenhuma casta. São os dalit ou intocáveis. E isto era inaceitável para nossa cultura, pois dalit não pode, em hipótese nenhuma nem olhar, muito menos cumprimentar pessoas pertencentes a qualquer casta, quanto mais namorar e casar... Nem pensar. Impossível. Inaceitável. Na Índia, todos se referem aos dálitis como pessoas que vivem na poeira, ou seja, bem distante de qualquer casta. Em outras palavras, totalmente fora de cogitação eu pedir ao meu pai para me casar com este rapaz. Ele nunca permitira. Ele, com certeza, preferiria me ver morta. Então, com ajuda de uma moça da minha idade que era serviçal na minha casa, e que era minha amiga e possuía os mesmos tipos de sonhos românticos que eu tinha, eu consegui fugir de casa durante a madrugada. Para eu poder fazer isto, essa moça, a Zahra, como era livre para sair e entrar em casa, ela vendeu todas as minhas jóias e coisas de valores que eu entreguei a ela e ainda peguei coisas valiosas que minha família não iria dar falta. Digamos que foi um roubo para uma boa cousa... Assim, quando tudo foi vendido eu consegui muito dinheiro. Mas foi muito dinheiro mesmo, porque eu tinha dezenas de joias e todas com diamantes e outras pedras preciosas de alto valor financeiro. Foi tanto dinheiro que não só dava para eu fugir da Índia com o meu namorado, o Omar, como também deu para subornar pessoas para nos deixar entrar aqui nos Estados Unidos e ainda deu para abrirmos uma pequena fábrica de roupas aqui em Nova York. Não foi fácil. Muito pelo contrário, foi muito difícil, mas depois de muito esforço se transformou nesta fábrica que você vê hoje. E quanto aos nomes e sobrenomes... Bem, é uma longa história... — ela deu um sorriso divertido — Mas vou encurtar... Como nossos nomes eram estranhos e difíceis de serem soletrados pelos americanos, eu e o Omar tivemos de nos adaptar com a nossa nova terra. Com ajuda de pessoas que nos colocaram para dentro dos Estados Unidos, trocamos nossos nomes. Meu nome original era Kallol, então o mais próximo que encontramos foi Kelly. O Omar permaneceu com o mesmo nome, apenas substituiu o sobrenome dele para Wilker. Nós nos casamos imediatamente e eu adotei o sobrenome dele. Foi difícil e dolorido eu abandonar minha família, mas valeu a pena. Muito rapidamente nós encontramos uma comunidade de indianos que deixaram a Índia pelos mesmos motivos que nós. Fomos muito felizes, até que há três anos ele faleceu por conta de um acidente de carro. Ele me deixou uma filha, Jasmine, hoje com dez anos.
Kate ouviu a emocionante história de Kally com muita atenção e simpatizou com a moça, pois, por amor, enfrentara a tradição milenar e conseguira se erguer com muita dificuldade, sem ajuda da família nem de ninguém e ainda criara uma filha sozinha. Pelo menos estava terminando de criar, já que perdera o marido. A simpatia com Kally se deu não só pelo modo simples dela relatar sua história, mas também porque se assemelhava muito com a sua própria história, pois, igual a ela, Kate se erguera do nada e sem ajuda de família. Só que no seu caso, foi um pouco pior, pois não teve nenhuma ajuda do pai das meninas e não tinha qualquer reserva financeira. Mas ambas eram vencedoras.
Sensibilizada com a narrativa de Kally, Kate comentou – Muito interessante e emocionante a história da sua vida, Sra. Wilker. Impressionante a sua garra e sua vontade de lutar pelo amor. Até parece enredo de filme.
Com a fisionomia serena, Kelly, com a voz embargada de emoção, informou – É, mas só que nos filmes, as mocinhas são felizes para sempre... – Levantou-se e se dirigiu a uma bancada com muitas fotografias e chamou Kate – venha ver fotos minhas com meu marido. – Kate foi até à bancada e examinou as fotografias.
— Este era o Omar... Lindo... — ela acariciava o rosto do marido sob o vidro.
— Aqui eu estava com ele numa festa da nossa comunidade... — ela sorria ao lembrar do momento.
Pegando outra foto ela explicou — Aqui foi um ensaio fotográfico que fizemos com um fotógrafo daqui da fábrica, especialista em moda. Foi divertido, pois ele nos preparou parecendo que iriamos fazer uma campanha de moda para uma revista. — ela sorriu.
— Realmente, um trabalho belíssimo. — Kate sorriu e confessou — Mas também fica fácil, né, vocês faziam um casal bonito.
Ambas riram diante dos comentários.
— E esta é a minha princesa, Jasmine. Ela é a alegria da minha vida – Kelly falou sem disfarçar a emoção e a alegria ao pegar o porta retrato da filha e mostrar à Kate. – este foi mais um ensaio fotográfico. Ela estava tímida, mas as fotos saíram lindas.
— Não tinha como não sair linda, Sra. Wilker – Kate sorriu – Sua família é toda linda, a começar de você. Sua filha, então, é uma boneca. E estas roupas tradicionais dão um charme todo especial em vocês.
— Ah, nós não nos vestimos assim diariamente. — Kelly sorriu ao esclarecer o fato — Eu, por exemplo só me visto assim em dias especiais ou quando quero recordar minha gente, como foi o caso de hoje... Me bateu uma saudade de minha mãe... Mas eu não posso jamais falar com ela e ela jamais pode falar comigo... Essa tradição maldita! Já a Jasmine, ela raramente usa tais vestimentas, somente, como eu falei, em algumas datas especiais na nossa comunidade e nestes ensaios fotográficos. Embora Jasmine seja filha de indianos, e, por sangue, seja 100% indiana, ela nasceu em solo americano e vive como uma criança americana normal. – Kelly sorriu feliz.
Kate e Kelly retornavam aos seus lugares de origem. Kate, sempre reservada, inclusive devido a combinação que fizera com Richard e com Antonella, de não revelar nada sobre sua vida pessoal e não tinha nenhuma intenção de fazê-lo. Resolveu iniciar a conversa sobre negócios – Bem, Sra. Wilker, já tomei muito do seu tempo... — sorriram — Vamos conversar sobre o assunto que me trouxe aqui em Nova York, mas precisamente na sua fábrica. — Contudo, naquele momento, Kate não resistiu e, mais uma vez curiosa, perguntou sobre a vida da empresária que, por sinal, achara muito simpática – Mais uma coisinha, Sra. Wilker... Me perdoe... Mas vai ser rapidinho... – Kate sorriu amável — Antes de começarmos, eu queria te perguntar uma coisinha....
— Ah, fica à vontade, Dra. Beckett. Pode perguntar... — sorriu, indicando que estava sendo franca.
Kate arriscou — Esclareça uma coisinha... Com toda esta beleza e simpatia, você casou novamente, não foi?
Sem pensar muito, ela falou – Bem, meu marido morreu há três anos e eu o amava loucamente e, vou te confessar uma coisa, eu não tinha pensado sequer em namorar, tanto que não vou a nenhum evento social, nem recebo jornalistas, tampouco aceito convites de programas de entrevistas sobre moda. Quando estávamos juntos, ele não gostava de frequentar festas nem estas coisas de revistas e TV. Ele era simples e não era de badalação, então, quando fiquei viúva, não sentia falta do que nunca tive na vida adulta, ou seja, festas e eventos de moda. Continuei reclusa. Vivo somente para minha fábrica e para minha filha. – Dando um risinho malicioso, ela falou à Kate usando um tom de voz como quem conta uma fofoca – Mas agora eu mudei de ideia. Olha, eu casei muito cedo e também enviuvei muito cedo... Ainda sou jovem. Dra. Beckett, você mencionou que mora em Washington, D.C., então não deve saber das coisas daqui de Nova York e não deve conhecer muita gente... – deu um sorrisinho ainda com um tom malicioso – Pois é, agora eu resolvi me socializar e vou procurar eventos de moda para frequentar. Só que não vou querer ir a qualquer evento... — sorrindo, ela fez um sinal com as mãos indicando desprezo por coisas ruins... — Não! Vou ficar antenada... — Kelly piscou os olhos — Vou casar novamente. Vou encontrar um jeito de frequentar todas as festas que meu futuro marido for convidado...
— Aaahh!!... – Kate indagou porque estava realmente em entender... – Então você tem um namorado?
Com o mesmo riso travesso de quem estava planejando algo fora do comum, ela comentou – Não! – sorriu – Ainda não.... Mas vou me casar em breve... Eu gostei de você, então eu te mandarei um convite de casamento. — Kelly sorriu divertida — Só que ele ainda não sabe, mas quando me conhecer eu vou fazer de tudo para ele se apaixonar por mim... Eu não sou boba nem cega... Além de beleza e charme, eu tenho meus truques... Estou de olho num dos homens mais lindos de Nova York... – E com uma velocidade fora do normal, ela desandou a falar igual a uma metralhadora – Ele também é do ramo de vestuário masculino... Vamos unir nossas fortunas... Ultimamente ele andou me dando muita dor de cabeça e ate ficou interessado na minha fábrica... Então, nada melhor do que nós nos aproximarmos de todos os jeitos... Corpos e empresas... – sorriu — Ele será meu marido, ou então não me chamo Kelly Wilker.... Aliás, — ela sorriu — em breve eu vou trocar meu nome mesmo... O nome do meu futuro marido é Richard Rodgers... Então, meu nome será Kelly Rodgers...
Ao ouvir tal declaração com tanto entusiasmo e convicção, Kate se sentiu tonta e uma nuvem turva surgiu diante dos seus olhos...
Continua...
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