Amor Sublime
2 Capítulo 2 — Heranças de Madeira e Papel de Parede
Notas iniciais
— Ela se trancou de novo? — A voz abafada do meu avô Charlie atravessou a madeira pesada da porta, carregada com aquele tom de preocupação que ele tentava, sem sucesso, esconder.
— Desde ontem à noite. Desde que eu falei sobre ele — minha mãe respondeu. Eu conseguia sentir a exaustão na voz dela, aquela vibração de quem passou a noite em claro medindo palavras que nunca seriam suficientes.
— Você explicou a situação real para ela, Isabella? — Charlie questionou. Houve um silêncio pesado. Eu imaginei os dois parados no corredor estreito, cercados por paredes que guardavam segredos demais.
— Não tive tempo, pai. Ela desmoronou. Ficou nervosa e subiu antes que eu pudesse terminar uma frase.
Pressionei o travesseiro contra o rosto, tentando abafar o som das vozes deles. Eles falavam de "situações" e "motivos" como se fossem peças de um quebra-cabeça, mas para mim, eram apenas ruídos sem sentido. Na minha mente, um carrossel de memórias distorcidas girava sem parar: as apresentações de escola onde só havia uma cadeira ocupada, os domingos em que eu via outros pais carregando suas filhas nos ombros enquanto eu segurava a mão firme da minha mãe.
Eu já tinha uma família. Charlie e Bella eram o meu mundo. Eu não precisava que um estranho surgisse das sombras de Forks reivindicando um espaço que ele nunca se deu ao trabalho de cultivar. Tentei forçar minha memória a buscar um rosto, um cheiro, um toque dele, mas tudo era um borrão cinzento. Quinze anos de silêncio absoluto. Por que agora? O que ele fez de tão terrível para que o nome dele fosse um tabu em nossa casa? Minha mãe sempre desviava o assunto, e Charlie fingia demência toda vez que eu tocava na ferida. Esse silêncio deles foi o que alimentou meus piores pesadelos sobre quem Edward Cullen realmente era.
— Nessie, abre a porta! — minha mãe exclamou, batendo de leve.
— Não! Vão embora! — gritei contra as penas do travesseiro. Minha voz saiu abafada, mas o recado foi dado.
Ouvi passos descendo a escada — minha mãe desistindo, como sempre fazia quando o confronto ficava pessoal demais. Mas outro par de passos permaneceu. Dois toques secos, ritmados. O jeito de policial do vovô.
— Abre a porta, querida. Vamos conversar — Charlie pediu. Não era uma ordem, era um apelo.
Suspirei, sentindo o peso do corpo subitamente dobrar. Joguei o travesseiro de lado e destranquei a fechadura. Quando abri, dei de cara com o olhar azul e cansado do meu avô. Ele não disse nada de imediato, apenas entrou e começou a caminhar pelo ambiente, observando os cantos como se estivesse revendo um filme antigo.
Esta casa era o refúgio dele, o lugar onde ele escolheu ficar depois da aposentadoria, antes de se mudar para perto dos amigos em La Push. E este quarto... este quarto tinha sido da minha mãe. Parte da decoração de décadas atrás ainda estava lá, como um museu de uma Bella que eu nunca conheci.
— Sua mãe costumava passar o dia inteiro trancada aqui — ele comentou, parando diante da janela que dava para a floresta densa e sombria.
— É? — respondi com pouco caso, sentando na beira da cama. — Pelo menos ela tinha motivos melhores que os meus.
— Na verdade — ele se virou, os olhos fixos nos meus —, ela começou a fazer isso principalmente depois que conheceu seu pai. Foi uma época difícil, Nessie. Para todos nós.
Cruzei os braços, sentindo uma barreira invisível se erguer entre nós.
— Onde você quer chegar com isso, vô? Se for para me convencer a ser a "boa filha" e aceitar um encontro de família, pode parar agora.
Charlie caminhou até a janela e suspirou, as mãos nos bolsos da calça. A silhueta dele contra a luz cinza de Forks parecia mais encurvada do que o normal.
— Eu sei que existem lacunas que você não consegue preencher, e tudo bem estar zangada. Eu também ficaria. Quinze anos é tempo demais para se manter um segredo. Mas a verdade é que você só vai ter as respostas que procura se for buscá-las na fonte. A oportunidade está batendo na porta, por mais que você queira fingir que não ouve.
Senti meus olhos marejarem. Aquela sensação de sufocamento que tive na cozinha voltou com força total. Uma lágrima teimosa escapou, traçando um caminho quente pelo meu rosto frio.
— Eu só quero entender por que ele foi embora — confessei, minha voz quebrando. — Por que ele me deixou? Eu era um bebê, vô. O que eu poderia ter feito de tão errado para ele nunca querer voltar?
Charlie se aproximou rapidamente, sentando-se ao meu lado e passando o braço pesado pelos meus ombros. O cheiro de café e de casa de avô me envolveu, mas não foi o suficiente para estancar a dor.
— Eu sei, minha querida. Eu sei — ele sussurrou, afagando meu braço. — Mas essa é uma pergunta que só ele pode responder. Nenhum de nós tem esse direito.
— Por que a mãe não me conta? O que aconteceu de tão grave? — insisti, limpando o rosto com a manga da blusa.
Charlie olhou para o nada, como se estivesse escolhendo as palavras em um campo minado.
— Existem traumas que ninguém supera totalmente, Nessie. Para a sua mãe, reviver Forks é como caminhar sobre brasas. Ela está tentando fazer o que acha certo agora, mesmo que pareça tarde demais.
— Eu só quero saber... por que agora? Por que depois de quinze anos ele decidiu que eu existo?
Charlie continuou afagando minhas costas, o silêncio dele sendo a resposta mais honesta que eu teria naquele momento.
— Você vai entender, Nessie. No tempo certo, você vai entender tudo.
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