Amor Sublime
1 Capítulo 1 — O Fantasma de Forks
Notas iniciais
Eu estava debruçada sobre o balcão de granito da cozinha, sentindo o frio da pedra atravessar o tecido da minha blusa. Meus olhos seguiam as luzes do celular, mas meus ouvidos estavam atentos ao som da chuva de Forks batendo no telhado. Um ritmo monótono que parecia zombar da nossa situação. Deixamos o sol e a estabilidade para trás por causa de números vermelhos em uma conta bancária e um passado que eu ainda não compreendia.
Quando minha mãe entrou na cozinha, o silêncio mudou. Não era apenas o cansaço de um dia de trabalho; Isabella parecia estar carregando o peso de cada tijolo desta casa nova e úmida.
— Tem certeza que quer preparar o jantar? — perguntei, largando o celular — Podemos pedir uma pizza. Se o seu cartão ainda tiver algum com limite, claro.
Ela forçou um sorriso, mas a palidez do seu rosto me deu um soco no estômago.
— Pizza de novo não, Nessie. Meu estômago está dando voltas. Acho que é o café forte do escritório.
Vi sua mão subir à barriga de forma instintiva. Isabella nunca foi boa em esconder dor de mim; passamos tempo demais sozinhas para eu não conhecer cada sinal de desmoronamento dela.
— Mãe? — pulei do banco e segurei seu braço. A pele dela estava fria, apesar do clima abafado da cozinha — Você está bem?
— Eu estou bem, querida. É só... um ajuste de rota — ela disse, respirando fundo e tentando desvencilhar-se do meu aperto com uma gentileza que me irritava — Não se preocupe comigo. Pegue o pão, vou montar algo rápido para você.
— Nada disso. Eu faço — eu disse, firme, bloqueando o caminho dela. — Vai para o sofá. Agora. Ou eu ligo para o vovô Charlie e digo que você está prestes a desmaiar.
Ela me olhou por um segundo, medindo minha determinação. Isabella sabia que eu não estava brincando. Com um suspiro de derrota, ela caminhou até a sala e se deixou cair no sofá, ligando a TV em um canal de notícias qualquer.
Preparei os sanduíches mecanicamente. Presunto, queijo, alface... comida de quem não tem tempo para sentir o sabor. Enquanto eu cortava o pão, observava-a pelo vão da porta. Ela estava de olhos fechados, a testa franzida como se estivesse tentando resolver uma equação impossível na mente.
Levei a bandeja e fiz com que ela comesse, ignorando seus protestos silenciosos. Quando terminamos, sentei-me no chão, encostada no sofá, sentindo a proximidade dela.
— O que está acontecendo, mãe? — perguntei, sem olhar para ela — E não tente me distrair com as caixas do meu quarto. Eu te conheço.
Isabella soltou o ar de uma vez, um som que pareceu o esvaziamento de toda a sua resistência.
— Você sempre foi perspicaz demais para o seu próprio bem, Renesmee.
— É o que acontece quando se cresce em uma equipe de duas — devolvi.
Ela ficou em silêncio por um longo tempo. O som do noticiário era apenas um ruído de fundo antes da bomba ser lançada.
— Lembra daquela conversa que tivemos quando você tinha oito anos? Sobre o porquê de estarmos sozinhas?
Meu corpo inteiro ficou rígido. O ar parecia ter se transformado em chumbo nos meus pulmões. O "Pai" era uma lacuna negra na minha história. Um espaço vazio onde deveria haver memórias, mas onde só existia indiferença. Uma indiferença que eu cultivei para não deixar a mágoa dela me contaminar.
— O que tem ele? — minha voz saiu gélida, quase irreconhecível.
— Existem camadas no passado que eu ocultei de você, Nessie. Eu queria te proteger de uma verdade que nem eu mesma conseguia aceitar totalmente — ela começou, a voz agora madura, carregada de uma autoridade triste. — Eu também tive minha parcela de culpa em como as pontes foram queimadas. Fui orgulhosa, fui impulsiva... e nós duas pagamos o preço.
— Culpa? — Eu me virei para encará-la, a raiva começando a aquecer meu sangue — Ele nos abandonou antes de eu ter dentes, mãe. Você nos manteve de pé. Que tipo de culpa pode superar o fato de ele nunca ter enviado sequer um cartão de aniversário em quinze anos?
— Não é tão simples quanto um cartão, Nessie — Bella disse, segurando meu olhar com uma firmeza que me calou por um momento — O ponto é que ele mora aqui em Forks. Ele soube da nossa volta no momento em que pisamos na cidade. E ele quer falar com você.
O mundo pareceu girar. A cidade pequena, a chuva, o cheiro de mofo... tudo se transformou em uma armadilha.
— Isso é ridículo — eu disse, levantando-me em um salto — Ele sumiu por uma vida inteira! E agora, porque estamos vulneráveis e voltamos para este lugar, ele acha que pode reivindicar algo? Ele não tem direitos sobre mim, mãe. Nenhum!
— Eu sei que dói — Bella disse, mantendo a voz calma, o que só me irritava mais — Mas fugir desse encontro não vai apagar o fato de que ele faz parte de quem você é. Os Cullen... eles são uma família complexa, e eles querem essa aproximação.
Eu olhei para ela e vi o cansaço real. Não era apenas financeiro. Era o cansaço de carregar um segredo que estava prestes a explodir.
A tristeza nos olhos dela destruiu o resto da minha agressividade, transformando-a em uma angústia seca.
Caminhei de volta e me ajoelhei diante dela, pegando suas mãos pequenas nas minhas.
— Eu não quero saber de nada sobre eles, mãe. Eu sei o quanto você sangrou por mim. Sozinha. Eu não preciso de um pai agora que a conta da vida ficou difícil. Eu não quero conhecer o Edward. Para mim, ele continua sendo apenas um nome em um papel que você nunca quis assinar.
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