Meu pai se chama Mike. Para mim, ele é simplesmente o melhor: o ás da aviação em sua companhia. A única desvantagem é que ele parece pertencer mais aos céu do que à terra, vivendo entre nuvens e escalas intermináveis.

Já minha mãe é a Sarah. Ela era secretária de um advogado renomado em Nova York, mas abriu mão da carreira para cuidar de nós. Essa era a minha família, ou pelo menos o que restou das minhas lembranças dela.

Sete anos se passaram e o cenário mudou completamente. Meus pais seguiram caminhos opostos e hoje estão casados com outras pessoas. Minha madrasta é um doce, mas meu problema atende pelo nome de Alexandre, meu padrasto. É por causa dele que minha vida está prestes a virar do avesso.

Hoje, aos 18 anos, moro em Los Angeles com ele e minha mãe. Alexandre também é advogado, mas, ao contrário dos heróis dos tribunais, ele guarda sua arrogância para o ambiente doméstico. As discussões entre ele e minha mãe eram frequentes — nada que me tirasse do quarto, onde eu costumava me refugiar com os fones de ouvido no volume máximo. Mas, naquela noite, o tom de voz deles atravessaram as paredes e me fizeram parar.

— Na próxima semana, Fox faz dezoito anos. Ela vai para Salles Hill! — a voz de Alexandre ecoou, cortante.

Salles Hill. O internato.

— O internato? — minha mãe reagiu, com a voz embargada. — Querido, aquele lugar é horrível. Eu e minha filha nunca nos separamos... Isso seria o fim para nós duas!

Aquela era mais uma das tentativas de Alexandre de me tirar do caminho. Mas o "amor" que ele dizia sentir pela minha mãe sempre o impedira de levar as ameaças adiante, mas algo parecia diferente agora. Eu ia seguir para o meu quarto, mas congelei ao ouvir minha mãe me defender com uma garra que eu ainda não tinha visto.

— Minha filha não vai para internato nenhum. Eu vou falar com o Mike!

— Aquele lá? — Alexandre soltou uma risada debochada que me deu náuseas. — Ele nunca fez e nunca fará nada. A casa é minha, o dinheiro é meu e aqui eu é que mando!

O sangue subiu-me à cabeça. Eu odiava quando ele usava o lado ausente do meu pai para diminuí-lo. Perdi o controle e invadi o recinto gritando:

— Cuidado com o jeito que você fala do meu pai!

— Ah, esqueci que o "Santo Mike" é intocável nesta casa — ele ironizou, sustentando meu olhar furioso.

— Você é um imbecil! — cuspi as palavras, sentindo o tremor da raiva nas mãos.

— E você é uma pirralha mimada que vai aprender a me obedecer, por bem ou por mal!

Alexandre ergueu a mão, o gesto súbito ameaçando um golpe. Eu não recuei; fiquei parada, encarando-o, pronta para que aquilo terminasse ali. Mas minha mãe se jogou entre nós, bloqueando o caminho dele.

— Não! Para! Já chega vocês dois! — ela gritou, as lágrimas escorrendo sem controle. — Eu não aguento mais ser o juiz dessa guerra!

— Mãe, não fica assim... — tentei me aproximar, mas Alexandre me cortou, passando o braço pelos ombros dela em um gesto possessivo.

— Viu só? Está contente agora, garota? Isso tudo é culpa sua!

— Minha culpa? Como assim?

— Chega, Fox! Vá para o seu quarto! — minha mãe ordenou, a voz quebrada pelos soluços.

— Mas, mãe...!

— Agora, Fox!

Alexandre me lançou aquele olhar vitorioso, o mesmo que usava sempre que conseguia me colocar como a vilã da história. Saí dali batendo os pés, o coração martelando no peito. Joguei-me na cama, sentindo o peso da palavra "internato" esmagar meus pensamentos.

Minutos depois, a porta se abriu silenciosamente. Minha mãe entrou e beijou o topo da minha cabeça.

— Boa noite, filha.

— Mãe, desculpa por aquilo...

— Tudo bem — ela suspirou, o cansaço visível em seu rosto.

— Você vai deixar ele me mandar para longe?

— Claro que não — ela me abraçou apertado, como se quisesse me proteger do mundo. — Fica tranquila, eu vou dar um jeito. Agora tente dormir.

Ela saiu, mas o sono era um artigo de luxo. Minha mente girava. Salles Hill parecia um fantasma me espreitando no escuro. Só quando a madrugada já ia alta é que meu cérebro finalmente cedeu ao cansaço, e eu apaguei, temendo o que o amanhã reservaria.